Notas iniciais
Olá, meu nome é Igor, e sou o criador do Aftermath. Este é meu projeto que venho desenvolvendo há meses, e pretendo engrandecê-lo e um dia expandí-lo pra outras plataformas (jogos, livros, produções audiovisuais). Agradeço aos que leram, e caso se interessarem pela trama poderão acompanhar também pelo blog, cujo link estará nas notas finais. Obrigado a todos, e boa leitura =)

Desde ontem o Sarkany já não brilhava mais. O poderoso vulcão esteve apenas incomodado com a besta que adormecia ali, mas agora dormia em paz. Ainda não temos certeza de como o colosso foi parar ali, mas Eva deduziu que o portal realmente esteve ali no vulcão por um pequeno tempo, suficiente para o monstro passar.

Ingvarr e eu a acompanhamos até o doutor de Manneuver, levando o inseto bizarro num pequeno pote de plástico.

–Vocês não cansam de me ver – brincou o médico. – O que aconteceu desta vez?

Mostrei-lhe o pote, e disse que estava dentro de Eva. O doutor se aproximou com seus óculos redondos e fez uma careta enojada.

–Que coisa horrível – ele disse. – Bill, o boticário da cidade, deve saber dizer que bicho é esse.

–Então acabaram os vômitos, certo? – Eva perguntou. Ah, como ela adoraria que acabassem.

–Não, pra falar a verdade. Definitivamente não era essa a causa dos vômitos. Terminei os exames que eu disse que faria quando a visitei ontem. Estão neste envelope – o médico entregou para Eva o resultado, e quando ela o pegou ele segurou sua mão e disse: – Que Deus te ajude, Eva. Procurem Bill, e perguntem se esse inseto põe mais do que um ovo por gestação. Se for o caso, teremos mais problemas que imaginam.

–Pior como uma cirurgia? – Ingvarr perguntou.

–Como eu disse – respondeu o médico. – Pior do que imaginam. Agora vão, a estufa fica na entrada da cidade.

–Conhecemos o lugar – Eva disse. – Obrigada, doutor.

...

A tarde era morna e algumas nuvens deslizavam pelo céu, serenas como o mar. Eu não conhecia Bill, mas Eva comentou a respeito de sua gentileza. Devia ter sido amigo do médico em tempos passados, imaginamos. Talvez não fossem, tamanha a diferença de suas personalidades. Não que o doutor não seja bondoso como Bill, mas ele parecia estar escondendo algo.

–Vocês ouviram o que o doutor disse? – perguntei. – “Que Deus te ajude”. Acham que o Deus do cristianismo existe? Mesmo sabendo da existência de deuses gregos?

–E nórdicos – Eva respondeu. – Thanatos mencionou quando o enfrentamos, e Lucy explicou que houve uma guerra entre os deuses nórdicos e gregos. Agora, se me lembro bem... Thanatos disse que a humanidade adorava um deus falso. Podia estar se referindo a esse Deus.

–Sempre acreditei nos meus deuses – disse Ingvarr. – Eu, e todos os vikings com os quais eu cresci. Mas nossa cultura não ignora a existência de outros deuses, sejam gregos ou cristãos. Na minha opinião, as chances desse Deus existir ou não existir são iguais.

Eu não sabia o que pensar. Não só o mundo estava uma bagunça como também nossas crenças. De repente, tudo pareceu uma piada ruim.

Um casebre coberto de trepadeiras e outras plantas apareceu no final da rua que ia na direção dos portões de Manneuver. Na frente do casebre, um velho magricela pouco corcunda descansava sentado numa cadeira de plástico ao lado de sua caixa de ferramentas de poda.

–Olha só, se não é a moça bonita dos cachinhos – disse ele quando nos viu chegar. – Evangeline, como é bom te ver. Quem são seus novos amigos?

–Não são tão novos assim – brincou Eva. – Este é Luke, e este é Ingvarr. Nos conhecemos bem antes de chegarmos aqui.

Conforme a etiqueta manda, mesmo em épocas caóticas/pós-apocalípticas, fui cumprimentar o senhor barbudo com minha mão direita, que agora era de metal.

–Esta é sua mão de verdade? – perguntou Bill. Seu aperto de mão era fraco, apesar de poder ser impressão por causa do braço de metal.

–É sim – respondi, sem jeito. – Perdi meu braço lá fora, mas graças ao doutor eu sobrevivi. Aliás, foi Ingvarr quem fez o braço.

Bill se virou para Ingvarr e deu-lhe uma boa estudada.

–Ingvarr? É um nome um tanto incomum... Você é russo, rapaz?

–Sou um nórdico – ele respondeu. – Nascido na Suécia.

–Ele é um viking – eu disse.

–Isso sim é bastante incomum – Bill concluiu. – Mas enfim, a que devo a visita?

–O doutor pediu que viéssemos perguntar sobre esse inseto – disse Eva, pegando o pote de plástico de mim. – Quantos ovos ele costuma pôr em cada ninhada?

–Deixe-me ver... – Bill tomou o pote nas mãos, e olhou, e resmungou, e coçou a cabeça. – Não sei – ele disse. – Nunca vi esse inseto na minha vida.

–Mas o senhor é um boticário – eu protestei. – Nunca estudou sobre esse bicho?

–Já li algumas centenas de livros e apostilas, garoto. Nenhuma delas citava uma criatura como essa. Parece um híbrido de vários outros bichinhos, mas não uma coisa só. Ah, não mesmo. E, tecnicamente sou um apotecário, e não um boticário.

–E qual a diferença? – Ingvarr perguntou.

–Quem liga? – eu reclamei. – Eva vomitou um novo tipo de inseto que provavelmente surgiu depois do apocalipse, pode ser radioativo ou qualquer outra coisa!

Bill, a essa altura, já havia me ignorado e voltou-se para Eva.

–Onde está aquele seu amigo com cara de bravo? Aquele, da cicatriz?

–Isaac? Oh, é complicado... Ele está longe. Estamos resolvendo as coisas aqui antes de irmos atrás dele.

–Ah, parece que não vai ser preciso – disse Bill, entre pequenos risos de velho. – Vejam, ele acabou de chegar.

Isaac caminhava por entre os portões de Manneuver em um tipo de armadura negra. Sabia que era ele, mas parte de mim imaginou que era um espírito de vingança que voltou pra nos matar. Loucura total.

–Olá, Isaac – disse Bill. – Fez uma boa viagem?

–Acho que sim – ele respondeu. Eva estava pasma. – Me desculpe, Eva. Foi um mal-entendido, eu só queria convencer meu irmão...

Eva pulou em Isaac, interrompendo-lhe a fala com um abraço apertado.

–Me perdoa – ela disse, com o rosto afundado em seu ombro. – Eu não te escutei, deixei a raiva falar mais alto! Me perdoa, Isaac, por ter te matado!

–Você não me matou – ele disse, segurando-a pelos ombros. – E nem teve a intenção. Se tivesse, você sabia como me matar. Mas não o fez.

–Acho que esses dois precisam de um momento – disse Bill. – Porque vocês não voltam pra casa e comemoram a volta dele com um grande banquete? Minha família costumava fazer isso.

–Parece uma boa ideia – eu disse. – Vamos para casa.

...

–Então – Isaac disse, agora com roupas comuns. No caminho pra casa, havia explicado que Erick havia se tornado muito poderoso graças às almas, e estava caçando Azalee e minha irmã Lucy no Limbo, até que eles o mataram. Isaac absorveu as almas que estavam com Erick e aprimorou a foice sobrenatural dele. Agora, os ceifadores estão tentando organizar o Limbo pra evitar que as almas errantes se tornem monstros, mas pra isso precisam de mais pessoas pra recolher as almas. Por não saberem transformar pessoas comuns em ceifadores, precisam do livro que estava com Lucy, “O Legado de Runak”. Aparentemente, esse livro veio de outro planeta, onde feitiços mágicos fazem parte do cotidiano das espécies de lá. – O que aconteceu depois que eu morri?

–Depois que morreu pela primeira ou pela segunda vez? – brinquei.

–A segunda, por favor – respondeu Isaac, com um pequeno riso de canto de boca.

–Bom, Eva vomitou feito bêbada, Ingvarr me deu um braço de metal e nós matamos um colosso no topo do Sarkany. Curioso, o vulcão tem um tipo de tampa.

–Não se esqueça da parte em que você foi o culpado por perder o braço – Eva provocou. – Esse idiota roubou mesmo um frasco de anthrax do Sayid.

–Espera, aqueles aprimorados que você disse naquela noite no acampamento? Porque não me disse?

–Foi mal, não pensei na hora – realmente não sabia o que dizer. O que eu estava pensando? – Não imaginei que nada tão ruim aconteceria.

–Nós ficamos muito mal, Luke. E você ficou ainda pior – Isaac disse, bastante sério.

–O que importa é que ele está vivo, pessoal – finalmente, Ingvarr veio me proteger. E pensar que apenas a uns dias atrás eu não confiava nesse cara.

–Bom, vocês estavam dizendo – Isaac lembrou. – que Eva estava vomitando?

–É verdade – Eva disse, sacando o envelope do bolso. – O doutor me deu o resultado do exame.

Ela abriu, deu uma lida fazendo caretas típicas de alguém que lê equações algébricas. Seus olhos percorreram todas as letras, números e símbolos escritos, enquanto nós três aguardávamos sua pronunciação.

Finalmente, a face de Eva tornou-se surpresa; depois apavorada; depois sorriu; depois ficou apavorada de novo.

–Eu estou grávida – ela disse.

Silêncio.

...

Longas horas se passaram até que todos processaram a informação. Quanto a mim, fiquei relativamente calmo, apesar de tremendamente surpreso. Ingvarr disse ser uma notícia ótima e que era normal ficar nervoso, e voltou a trabalhar no ritual que estava desenvolvendo para ficar tão forte quanto o resto de nós.

Eva não dizia muita coisa, além de “sim” e “não” e “o quê?”. Estava no mundo da lua. Isaac andava de um lado pro outro do hospital, olhava para Eva, se preparava pra dizer algo, mas sempre desistia na última hora.

Até que conseguiu dizer.

–Como vou criar um filho nesse mundo? Mal consigo cuidar de mim mesmo! Já morri duas vezes, pelo amor de deus! E se aparecerem mais perigos? E se o vulcão destruir a cidade?

–Uau, relaxa aí, Isaac – eu disse, sentado no sofá. A sala era meio escura, construída com tábuas de madeira de carvalho enfileiradas. As lâmpadas foram adaptadas pra suportes de vela, já que toda a energia elétrica dos geradores da cidade era usada no hospital. – Todos os perigos se foram. Não tem mais deuses, ceifadores malignos ou exércitos de fanáticos. E se surgir mais alguma coisa, a gente lida com isso. Eu vou esmagar a cara de cada um que ameaçar nossa família. Sim, nossa família, pois agora quero ser tio.

–Valeu, Luke. Aliás, esqueceu de mencionar os vampiros.

–Mortos também. É verdade que seu irmão era um deles?

–Sim, era meu irmão mais velho. Andrew. Pode me ajudar a enterrá-lo mais tarde?

–Claro, irmão.

–Só mais uma coisa, o que aconteceu com o frasco de anthrax que você roubou? Ficamos com suas coisas e não me lembro de nenhum frasco.

–Estava escondido nas minhas roupas. Quando Eva bebeu, vomitou aquele inseto que você viu – quando viemos para o hospital, trouxemos o inseto para que o doutor o examinasse à procura de vírus.

–Você deu anthrax pra Eva sendo que ela estava grávida?! – Isaac explodiu em raiva e indignação.

–Eu não sabia da gravidez – disse, me levantando. – Além do mais, ela é imune a vários venenos, se não todos. Aposto que foi graças ao anthrax que ela vomitou aquele bicho.

–Ela vomitou por causa da gravidez, seu estúpido. Enjoo é um sinal de gravidez.

–É mesmo? Bom, que seja. Ela vai ficar bem. Ela, e o bebê. Sabe cara, Luke é um lindo nome. Não é por nada não, é só uma sugestão.

–Cala boca – disse Isaac, tentando disfarçar o riso.

Poucos minutos depois, Eva voltou para a sala de espera onde estávamos acompanhada do médico.

–Sentem-se todos, por favor. Tenho duas coisas importantíssimas pra comunicar.

Todos sentamos nos três assentos do sofá, que fazia um barulho esquisito quando se mexia.

–Primeiro, sobre a gravidez – prosseguiu o doutor. – Eu diria que você já tem dois meses de gestação, mas dada a data de concepção... – fez uma pequena pausa. – Parece que será uma gravidez bem diferente do normal. O embrião já está muito desenvolvido, algo que só se vê depois de várias semanas.

Os corações de Isaac e Eva dispararam, tão fortes como dois instrumentos de percussão.

–A segunda coisa que tenho pra falar, é sobre o tal inseto. Dei uma olhada nele e percebi que todo seu corpo é coberto por uma película feita de uma substância venenosa, que aliás eu nunca vi. Agora, vem a parte estranha: quando fui testar se Eva era imune a este veneno, notei que eram feitos da mesma substância.

–Então... – eu disse, esperando a tradução.

–O inseto é parte de Eva – o doutor finalmente explicou. – Bem como seus dedos são parte de você.

...

O anthrax aprimorou ainda mais os poderes de Eva. O doutor nos ajudou a entender com sua explicação científica. Acontece que a peculiaridade de Eva é criar formas de vida baseadas, de certa forma, na tal bactéria que corre em seu corpo. A pequena quantidade que tinha desde que a conhecemos era suficiente pra ela gerar fungos, vírus, bactérias e outros micro-organismos. Agora, com um nível maior de anthrax assimilado ao seu código genético, ela pode criar estruturas maiores, como insetos, aracnídeos e similares.

Os enjoos da gravidez foram os únicos responsáveis pelo inseto que ela pôs para fora, já que se não tivesse vomitado, ele continuaria dentro dela e provavelmente só descobriríamos se ela mesma percebesse.

–Por favor, não tente nos assustar com aranhas enquanto dormimos – eu pedi a ela. Não era brincadeira, aranhas são malignas.

–Acha que eu faria algo assim? – ela se defendeu, rindo irônica.

–Acho que não esqueceu daquela brincadeira que eu fiz em Atlanta.

–Aquela no videogame? Imagina, já superei – ela riu, e riu como estivesse tramando algo muito cruel e perverso. Será que um dia vou acordar com minhocas na boca enquanto Eva diz “é só uma brincadeirinha”? Tenho calafrios só de imaginar.

Isaac continuava andando sem parar por toda a casa.

–Pare com isso, Isaac – eu disse. – Você está me deixando nervoso também!

–Onde está o livro? – ele perguntou. – Aquele que estava com Lucy?

–O Legado de não-sei-quem? Sei lá, estava junto com o restante das nossas coisas. Não está com Ingvarr?

–Não, ele só está com as runas. Me expulsou do quarto, disse que queria concentração total naquilo que ele está fazendo.

Ajudei-o a procurar o livro, enquanto ele falava sem parar sobre como ele era importante. Blá blá blá, ceifadores, restaurar o Limbo, tanto faz. Mas seria bom ver minha irmã de novo. Uma pena que está praticamente liderando esse projeto do mundo dos mortos, mas pelo menos está viva.

–Não está em lugar nenhum – Isaac disse. – Será que alguém o roubou?

–E quem roubaria um livro velho? – respondi.

–É um livro de feitiços. Ele é poderoso, Luke.

–Mas ninguém sabia desse maldito livro. Olha, Isaac. Vamos esfriar a cabeça, depois nós encontramos ele. Venha, vamos enterrar seu irmão. O cadáver dele já deve estar sendo comido por animais.

...

A caverna cheirava a inferno. Sangue, ferro, morte. Vários corpos confinados numa câmara durante dias, atraindo vermes e moscas. Isaac e eu sentíamos ânsia de vômito mesmo com o nariz e boca tampados, mas convenhamos que já houveram pessoas vomitando o suficiente essa semana.

Isaac revirava os corpos, olhava seus rostos e saltava por cima das moscas. Dava pra contar cerca de cinquenta, ou talvez mais.

–Ele não está aqui – Isaac disse. – Só pode ter fugido!

–Que pena. Rápido, vamos sair desse buraco!

Lá fora, o ar parecia ser o mais puro que já senti na vida.

–Olha – Isaac apontou para o lado da entrada da caverna, onde havia sangue seco. – ele com certeza passou por aqui.

Seguimos a trilha vermelha mata adentro durante uma hora, ou quase isso, até que a floresta acabou e uma pequena cidade apareceu diante de nós. Nada de prédios, vulcões e muralhas, apenas casebres baixos e algum barulho parecido com música.

Nos aproximamos da placa na estrada que levava para dentro da cidade, onde estava escrito “Bem-vindos à Dashville”.

Notas finais
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