Notas iniciais
Um dos capítulos mais fofinhos que já escrevi! Mais ou menos Sei lá. Vocês que decidem isso kkkk Boa leitura

Acordei sorrindo mais ou menos pelas quatro da tarde. Acho que não me sentia feliz assim desde que, bem, morri. Por pelo menos um dia desde que toda essa confusão começou eu podia sentir que tudo estava “normal”, na medida do possível. Eu estava morto, é claro, mas já tinha me acostumado com a ideia. Até mesmo podia dizer que estava vivo. Eu sentia, sim, a falta de Elena, mas do mesmo jeito que ela estava seguindo em frente, eu também deveria; pelo menos tentar. Uma nova chance de ser feliz. Eu devia ser a alma mais triste do Paraíso, que deveria ser apenas sobre ser feliz.

Lana. Pensar nela fazia sentir-me... qual a palavra para isso? Completo? Não, não era exatamente isso, era outra coisa. Era como o calor de uma fogueira em dias frios de inverno, era algo necessário, algo que deveria estar ali. E a falta daquilo estava errado. Por que estou pensando tudo isso de uma garota que eu nem conheço? Mas ainda assim, eu sentia como se deveríamos nos conhecer, e não saber quem ela é estava incorreto. Por quê?

Levantei um pouco relutante e tomei um banho. Vesti um par de calças jeans novas que pegara numa loja de frente ao hotel, uma camiseta azul. Eu não sabia se levava minha espada e casaco, mas decidi que era melhor não. Estávamos em uma cidade imensa cercada e protegida por centenas de anjos, estávamos seguros.

Enquanto descia, passei por Thais, que não cruzou olhares comigo de raiva. O que tem de errado com essa garota? Dei de ombros e saí em direção à estação rodoviária, onde o trem em que viemos estava estacionado. Eu queria pegar minha moto para impressionar a garota. Týr estava comigo, pois mesmo que eu não quisesse, ela tinha que ficar perto de mim devido a magia que nos ligava.

Subimos no único vagão sem dificuldade, a moto estava entre as fileiras de bancos. Nós preferimos não pegar nenhum vagão de carga para diminuir o peso, e como não utilizaríamos mais de três bancos, colocamos o que levaríamos no próprio vagão.

Usando a magia de Týr, a moto foi colocada na plataforma. Dali, guiei-a desligada até a rua. O tanque estava um pouco mais pela metade, então resolvi não abastecer. Acelerei em direção ao restaurante, onde cheguei quase meia hora adiantado.

Eu não notei as quatro almas de olhos negros e laranja me observando fora do meu campo de visão.

O sino de uma igreja próxima — naquela cidade havia milhares delas — soou indicando seis horas, meu coração foi até a lua, e resolveu ficar por lá mesmo. Então os minutos começaram a passar devagar. O relógio bateu seis e dez, depois seis e quinze. Ela não saia. Ela havia mentido para mim; não saía as seis. Contudo, as pessoas não mentem no Paraíso. Então porque ela não saía? Seis e vinte. Seis e meia. Ela me deu o bolo, eu sabia. Nunca que alguém como ela se interessaria por alguém como eu. Subi na moto e dei partida no motor.

– Aonde você vai sem mim? — Ouvi sua voz de mel vindo da porta.

Virei imediatamente em sua direção, quase que desengonçadamente. Meu coração voltou tão rápido pro meu peito, que quase fui jogado para trás. Ela estava muito mais linda, e eu achando que isso era impossível. Ela estava com os cabelos soltos, que caiam ondulado até o meio das costas. Ela usava uma maquiagem que destacava absurdamente seus olhos e lábios. Lana não estava usando uma roupa fora do comum, usava uma calça jeans e uma camiseta baby-look preta com a capa do último CD do Oficina G3, Depois da Guerra. Banda essa que eu conhecia apenas por que um dos meus amigos na Terra adorava e sempre estava ouvindo suas músicas.

– Achei que você tinha se esquecido de mim. — Respondi meio constrangido.

– Não esqueci não, gatinho, só estava me arrumando aqui. Afinal, não se pode ir de qualquer jeito para um encontro, né? — Ela sorriu — Espere um pouquinho, já estou quase acabando.

Ela levou mais meia hora para sair de novo.

– Moto maneira. — Ela afirmou.

– Valeu. — Sorri.

Lana sentou na garupa e me abraçou pela cintura. Meu coração ia e voltava da lua dezenas de vezes por segundo.

– Aonde você quer ir? — Perguntou.

– Eu não sei. Você que mora aqui, me mostre o melhor lugar.

Ela deu uma risadinha.

– Você não vai ser arrepender dessa frase!

Nós saímos.

– Uau! — Eu não contive o entusiasmo.

– É incrível, não é? — Ela disse — Está é minha visão favorita daqui. Desde que cheguei não tem um dia que não vejo o pôr do sol aqui, mesmo não sendo um sol redondo, como dizem ser o da Terra; aqui o “sol” é uma forma de luz indistinta no céu. Você sabe: “que haja luz” e tal. Felizmente, o muro não estragou essa paisagem.

Eu nunca, em toda minha vida, imaginei que um dia veria o pôr-do-sol sentado à beira do Coliseu — exatamente; é onde estava naquele momento -; é a sensação mais maravilhosa do mundo! Nós conseguimos chegar aqui graças ao anjo Lael, guarda da porta do Coliseu e amigo de Lana. Eu não podia imaginar como ela fizera amizade com o anjo, mas também não importava. Eu simplesmente estava sem palavras com aquela visão. Aposto que, quando o muro não existia, deveria ser muito mais bonito de se ver. O “sol” baixando no final dos morros sem fim de Roma, ao invés da linha reta do muro. Desejei que, um dia, quando tudo aquilo acabasse eu pudesse ter essa mesma visão na Terra com Elen...

A mão de Lana sobrepondo a minha expulsou os pensamentos. Expulsou Elena da minha mente, algo que não acontecia há muito tempo. Meu coração saiu pela boca e saltou do muro, não literalmente, mas senti como se fosse. Lana fitou meus olhos, pareceu que ela lia minha alma, como se ela soubesse todos meus segredos naquele olhar.

– Há quanto tempo você está aqui? — Ela perguntou de repente.

– Há alguns dias.

– Só? — Estranhou.

– Sim, por quê?

– Você não parece confuso. Parece que está aqui há muito tempo, mas de alguma forma sabia que não estava. Você tem algo diferente.

Ok, pensei, são afirmações bem estranhas. Eu realmente tinha muitas coisas diferentes, a começar pela fada que estava no bolso, o fato de eu me lembrar da minha vida, ter uma espada — aparentemente a única arma capaz de matar um Filho do Abismo em todo o Paraíso — e estar trabalhado para Morte, mesmo não sabendo o que eu faria depois de chegar a Stonehenge, a porta para o Castelo da Morte.

– De onde você veio?

Engoli seco. — O que você quer dizer?

– Você chegou a Roma naquele trem, veio de algum lugar, certo?

– Ah, sim. Vim de Sibari... Mas como você sabe do trem?

– Um trem com um pequeno grupo de não-possuídos chegando aqui sem serem escoltados por anjos no meio de uma guerra não é algo que se passa despercebido.

Perguntei-me se ela não sabia que Abraão estava conosco. Afinal, sem ele, nunca sairíamos de Sibari.

– Qual era sua função lá? — Acrescentou.

Touché. Era a primeira vez que me perguntavam isso. Eu nunca tinha pensado no que responder.

– Eu... Hã... Bem... — Gaguejei — Limpava trens. — Dei um riso constrangido.

Para minha surpresa, ela riu.

– Não há nada com o que se envergonhar, todo trabalho é necessário para fazer o Paraíso andar.

– E você? Quando morreu? — Minha pergunta de certa forma a abalou, como se há muito tempo não ouvia a palavra “morrer”.

– Eu cheguei aqui há pouco mais de dois anos.

Foi então que eu soube por que eu deveria conhecê-la: era por que eu a conhecia.

– Por acaso seu sobrenome é Ruggiere? — Perguntei.

– Sim, mas como você sabe meu sobrenome? Eu nunca te falei.

Esse foi meu primeiro erro, como eu poderia saber o sobrenome dela?

– Leonard Ross. — Ouvi alguém gritando.

Salvo pelo gongo, pensei.

Vi um anjo vindo em minha direção, porém, quando ele chegou mais perto, notei que ele voava com seis asas. Ele tinha cabelos e barba castanho, lembrava-me Chuck Norris. Miguel.

Lael voou até nós e trouxe-nos de volta pro chão, onde Miguel já nos esperava. Assim que o querubim me olhou, levei a mão a cintura, procurando minha espada. Lembrei que ela estava no hotel.

– Preciso levá-lo imediatamente para Nova Jerusalém. O Conselho... — Ele não pôde terminar a frase.

O terremoto atingiu a cidade inesperadamente. O querubim e o anjo trocaram olhares, eu pude ler o que estavam dizendo: não há terremotos no Paraíso. Um ataque.

– Senhor? — Lael disse.

– Leonard vai ter que esperar. Temos uma batalha para travar. — Miguel respondeu. — Você não pode sair da cidade. — Acrescentou para mim com olhar autoritário.

Você que pensa.

Os dois alçaram voo.

– Eu preciso ir. — Lana e eu dissemos ao mesmo tempo.

Trocamos olhares hesitantes, como se não quiséssemos nos separar, mas tínhamos. De repente, ela me abraçou e me beijou, pude sentir o gosto doce dos lábios dela misturado com gloss de cereja, do mesmo jeito que ela fez quatro anos atrás.

O beijo foi rápido, um beijo de despedida.

Lana correu pela rua. Não desviei os olhos até que ela virou a esquina.

Montei na moto e liguei o motor. Tinha que encontrar Thais, pegar a espada e meu casaco e fugir dali.