Afterlife
45 Conversa
Elena Treagus irritou-se com toda aquela perseguição. Perdera totalmente a paciência com o anjo e o homem encapuzado, que até agora ela não conhecia a identidade. Era a última vez que eles atrapalhariam seus planos de trazer Leonard de volta para Terra; para ela.
Os dois inimigos e Anúbis se encaravam mortalmente, prontos para atacar no menor movimento do outro. Tudo, então, tomou um tom de lilás e ela disse:
– Dusünì incendia dereva.
Duas gaiolas, que pareciam serem feitas de metal em brasa — como se acabassem de sair de um forno -, brotaram do chão. O encapuzado foi preso de imediato, porém o anjo esquivou-se e avançou em direção a ela com sua espada, que não estava ali no segundo anterior, em punho.
No entanto, antes de atingi-la, quatro mãos de ossos agarram os braços e as pernas dele, que, antes que pudesse reagir, o jogaram dentro da gaiola de ferro e fogo. Ele gritou de dor quando se chocou com o ferro em brasa.
– Vamos, Elena. — Anúbis chamou. — Isso irá segurá-los por um tempo.
– Não. — Retrucou a garota. — Não vamos a lugar algum antes de eles explicarem a razão dessa perseguição idiota.
– Vamos perder tempo...
– Leonard já está morto mesmo. Não vai fazer diferença o tempo que levaremos para ressuscitá-lo. — Ela soou fria sem intenção; Anúbis estranhou. — Agora — Virou-se para os inimigos. -, é a vez de vocês falarem. Por que estão nos perseguindo?
– Estamos sob ordem do Conselho. — O encapuzado falou.
– Já lhe expliquei. — Nathanael, o anjo, interveio. — Estamos tentando mandar o deus de volta ao lugar de onde veio. A Terra não é mais lugar para nenhum deles.
– E por quê?
– É era dos deuses a muito acabou.
– E seu interesse em mim? — Anúbis, se fosse capaz de sentir, poderia até dizer que estava com medo da frieza da garota.
– Não é óbvio? Seu poder repentino. De onde veio? E agora, aparentemente, você aprendeu novas palavras para usar magia. Além disso, suas marcas são parecidas com as do homem que in...
Ele conteve-se.
– Continue.
– Terei que contar a história desde o início.
– Não se preocupe, tempo é o que temos de sobra. Desembucha.
– O Paraíso e os anjos estão em guerra. — Ela não demonstrou reação em seus olhos lilases. — Uma guerra iniciada por um homem chamado Sephiroth e combatida pelos chamados Filhos do Abismo. Sephiroth de alguma forma chegou ao Paraíso sem ser percebido...
– Ele estava vivo? — Elena interrompeu-o.
– Acredito que sim...
– Então é possível viajar ao Paraíso sem morrer. Como?
– Através de um portal criado com a magia celestial. Porém, uma viagem dessa destruiria a alma humana. A energia é pura demais para isso.
– E como ele o fez?
– Não sei, mas sei que ele usou a magia celestial e se sobreviveu, ele deve ser imortal.
Isso a deixou pensativa. Será mesmo que a imortalidade era possível? Se sim, gostaria de tê-la. Não morrer; ser jovem para sem... Expulsou o pensamento. O que ela estava pensando? Esse pensamento não era dela. Nunca pensara, é claro, especificamente nisso, pois nunca acreditara que ser imortal era possível. E, ainda, pensou daquela forma. Querer algo assim não era do perfil dela.
Trocou olhares com o deus. Talvez precisassem encontrar aquele homem.
– E o que o Conselho quer com Leonard Ross?
Isso pareceu captar uma atenção especial do encapuzado, que olhou imediatamente para o anjo.
– Sim, Nathanael, o que o Conselho quer com ele? — Sua voz soou estranhamente familiar.
– Infelizmente, não posso responder essa pergunta. Não tenho tal informação.
– Você está mentindo. — Elena falou bruscamente.
– Eu sou um anjo do Senhor! Eu não minto!
– Sim, ou, no mínimo, está escondendo algo. Diga. — Anúbis apenas observava e ouvia o desenrolar da conversa.
Mesmo conhecendo ela há uma semana, o deus estranhava as ações e palavras dela naquele momento. Como ela era capaz de dizer se o anjo escondia ou não algo? Nem mesmo os feitiços mais poderosos do Egito eram capazes de revelar isso. Porém ela, apenas por olhá-lo, sabia. Alguma coisa estava errada.
– Eu tenho uma leve ideia do que seja.
– Então, por que não falou ainda? — Ela retrucou.
– Acredito que Leonard tenha descoberto alguma forma de matar os Filhos do Abismo de uma vez por todas. Algo que nem mesmo os anjos são capazes de fazer.
– Então me explique, Caído, como meu filho pode fazer algo que nem mesmo os anjos podem?
O encapuzado tirou o capuz, revelando ser alguém que a garota conhecia muito bem; alguém que uma semana atrás a considerava parte de sua família; alguém de quem ela nem desconfiaria. Aquele era Jonathan Ross, pai de Leonard e ex-sogro de Elena.
Os olhos da garota estavam do tamanho de laranjas; estupefata, as palavras fugiram de sua boca e de sua mente. Nunca imaginara que ele seria seu perseguidor e que ele teria poderes fabulosos como os que tinha.
– Eu não sei dizer.
– Elena. — Ele se dirigiu a garota. — Onde você está tentado chegar?
– Eu preciso chegar ao Vale Aosta, onde o dragão Abakur está.
– E para que? — Ele estava curioso; ela imaginou se ele não estava cogitando mudar de lado.
– Eu preciso que ele traduza este livro. — Ela tirou o livro de uma bolsa feita de ossos.
– Onde você conseguiu isso? — Nathanael disse com urgência.
– Não te importa, Caído. — Jonathan repreendeu-o; ele se virou para a garota e disse: — Prossiga.
– Então vou descobrir uma forma de trazer Leonard Ross de volta a vida.
Jonathan ficou pensativo por um momento.
– E então — ela disse friamente -, quer juntar-se a nós?
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