Afterlife

26 Aquele que Sabe de Todas as Coisas


Notas iniciais
Capítulo dessa semana postado originalmente na quarta-feita no blog Um Dia Frio (congelante.blogspot.com.br) Boa leitura

Elena cavalgava o chacal de pelo cinzento com mais de três metros da ponta do focinho a ponta da calda. Ela agarrava com força seus pelos, pois ia tão rápido que a cidade passou-lhe pelos olhos como um borrão. O vento, que batia forte em seu rosto e bagunçava lhe os cabelos, deixava o calor do deserto quase imperceptível. Estava tão distraída pela corrida e por seus pensamentos que não viu o homem que, voando, cruzou com eles no Saara.

Pensava na conversa que tivera com Anúbis, o deus egípcio da morte, algumas horas antes:

– Você está dizendo que é possível trazer Leonard de volta? — Ela não podia acreditar.

– É claro! Existem dezenas de meios para isso. — Ele falou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

– Como?

– Isso depende. O que você está disposta a pagar?

– Tudo. — Ela realmente estava disposta a fazer qualquer coisa para tê-lo de volta.

– Isso é bom. — Afirmou Anúbis. — Até mesmo sacrificar algumas almas?

Elena não respondeu. Não sabia se conseguiria matar alguém para trazer Leonard de volta. Ele nunca aprovaria tal método.

– Foi o que pensei. Eu só posso realizar um ritual de ressurreição em alguém cujo corpo tenha sido mumificado, o que não é o caso.

– Então, o que faremos?

– Será que ele ainda está por ai? — Ele disse mais baixo, estava falando com ele mesmo.

Ele quem?, ela pensou;

– Quando eu conheci os outros deuses da morte, — ele começou a contar; outros deuses da morte?, Elena pensou — a Morte nos introduziu a um homem chamado Novaselik. Ele era uma espécie de mediador entre nós e a Morte. Novaselik possuí um vasto conhecimento de todos os tipos de magia e rituais; seu conhecimento é tão vasto que a Morte o batizou de “Aquele que Sabe de Todas as Coisas”. Ele com certeza possui um ritual para ressuscitá-lo.

Era para onde estavam indo: encontrar o homem que sabe de todas as coisas.

O que estou fazendo?, pensou.

Ela estava cavalgando um chacal, que por sinal era um deus egípcio, pela África para encontrar um velho imortal que sabia de tudo; tal velho foi apresentado a vários deuses da morte pela Morte em pessoa há mais de cinco mil anos. Aquilo era loucura; quando foi que perdera a sanidade? Será que estava sonhando? Será que acordaria em alguma cama de hospital com Leonard ao lado dela observando-a? É, isso seria ótimo. Esperava que o pesadelo acabasse logo.

Eles estão vindo. A voz de Anúbis soou dentro de sua mente.

O que diabos você está fazendo na minha cabeça? Retrucou.

É muito mais fácil usar telepatia nessa forma do que falar. Explicou.

Ela ignorou a intrusão e perguntou: Quem está vindo?

Os anjos.

Elena olhou para o céu azul sem nuvens do deserto. Três bolas de fogo vinham na direção deles em alta velocidade.

Isso é bom, não é? Tipo, os anjos são do bem. Ela pensou.

Bem, como eu posso dizer de forma simples, eu não sou parte da criação do Deus dos Judeus e eu deveria estar preso no Duat. Em outras palavras, eles são meus inimigos.

Merda. E agora?

Podemos tentar fugir, mas não será fácil. Lutar não é uma opção, eu não tenho chance contra três deles. Se fosse apenas um, era outra história. E você também não sabe usar magia.

Quando as bolas de fogo estavam mais próximas, elas apagaram, deixando em seu lugar três seres alados. Elena reconheceu um deles, o do meio e provavelmente líder, mas não se lembrava exatamente de onde podia conhecê-lo. Da sua antiga escola? Ou será que era uns dos amigos do pai da ordem? Não... Todos eram humanos, nenhum deles era um anjo. Ou será que eram?

Deixou esses pensamentos de lado, tinha algo mais importante no que pensar.

Buscou no fundo de sua mente os poucos feitiços que o pai lhe ensinara anos atrás, mas que ela nunca teve interesse em estudar em profundidade. Bah nikin... Bah kinin... Como era mesmo o feitiço de trovão? Merda...pensou.

Anúbis acelerou a corrida, mas os anjos estavam se aproximando com velocidade.

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– Nós vamos mandá-lo de volta a Terra. — Disse Salazar do Conselho de Prata horas antes.

– E por que isso? — Nathanael perguntou surpreso, mas um pouco feliz, sentia falta da Terra. Mais especificamente, de Aaron Van Helsing e dos outros amigos. Talvez conseguisse vê-los.

– Recebemos informações de que um dos deuses egípcios escapou do Duat e está indo rumo ao sul da África. Não sabemos qual é seu objetivo ainda, mas independente disso você deve capturá-lo e prendê-lo novamente.

– Como ele escapou?

– Com a ajuda da Morte e de uma humana chamada Elena Treagus.

O nome não lhe era estranho. Treagus era um ex-membro da Ordem da Rosa Cruz, que foi morto em 2008, quando a Ordem do Brasil foi extinta. Elena era sua filha mais velha e também ex-aluna do Colégio Católico Padre Andersen. Nathanael foi funcionário do Colégio por alguns meses a fim de ajudar a guardar a Chave de Lúcifer junto com Aaron, o Guardião.

– Senhor, não seria melhor que eu ficasse no Paraíso e lutasse na guerra contra os Filhos do Abismo?

– A Segunda Guerra Celestial que enfrentamos pode estar conectada a esse evento na Terra. Os dois envolvem a Morte.

– Como?

– Infelizmente não temos informações suficientes para afirmar com certeza, pois envolve alguns fatos sobre a Primeira Guerra Celestial e até mesmo sobre a nossa criação e do resto do Universo. Nossos melhores homens estão investigando os documentos históricos.

– O que o Senhor falou sobre isso?

– Nada.

– Como assim nada? — Nathanael subiu o tom de voz, costumava se irritar com o aparente desdém do Criador, e foi isso que o fez unir-se a Lúcifer na Rebelião.

– Atente-se ao tom de voz, meu rapaz! Estamos falando de nosso Criador, o Senhor todo poderoso e onisciente! Ele sabe o que está acontecendo e o que vai acontecer, se Ele não interferiu até agora é porque sabe que nós, os anjos e suas Legiões, podemos resolver. Quando for necessário Ele irá dizer algo. E sim, você irá para a Terra junto com mais dois anjos guerreiros. Eu também estou enviando um anjo mensageiro para o último Heartless vivo.

– Por quê? Acha que nós três não somos o suficiente para selar um único deus?

– Cuidado com as palavras, moleque insolente! Apenas porque o Senhor lhe deu permissão para usar a Magia Infernal no Paraíso e a Magia Celestial quando lhe foi proibido não significa que não me deve respeito. Vocês são o plano A até que o Heartless assuma a missão, depois vocês devem voltar diretamente para esse Conselho, está me entendendo?

– Sim, senhor.

– Ótimo. Você pode ir agora.

Nathanael saiu com raiva. Como que alguém onisciente, onipresente e onipotente simplesmente abandona seus servos no meio de uma guerra como aquela, a qual era muito mais para proteger as próprias almas criadas e amadas por Ele? Era algo que Nathanael não conseguia entender. De certa forma, fora isso que mudou Lúcifer e muitos outros.

O que eu estou pensando!?, censurou a si mesmo. Ele usou a Arte, a magia demoníaca apenas uma vez, e ela já estava afetando seus pensamentos. Ou será que não? Será que aqueles não eram seus pórpios pensamentos? O Criador era misericordioso. Ele era amor. Talvez por isso não gostasse de guerrear, de lutar, de machucar outros. Esse era serviço para criaturas imperfeitas, como os anjos ou homens. Um ser perfeito como Ele não sujava as mãos com sangue.

Os outros dois anjos se juntaram a ele na praça central de Nova Jerusalém, onde era a entrada para o Salão de Prata. Um deles pertencia as Legiões de Rafael, o outro, as de Miguel. O Conselho foi esperto o suficiente para não mandar ex-Caídos junto de Nathanael na missão. Isso poderia ser prejudicial. Um deles informou que o arcanjo Gabriel fora informar o Heartless.

Abriram as asas e alçaram voo. Enquanto voavam Nathanael falou algo na Língua de Prata, o que abriu um portal no céu do Paraíso para a Terra.

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Týr, Thais, Sara e eu estávamos no único vagão de trem que a maquinaria, pilotada por Abraão, puxava. Decidimos dessa forma, pois seriamos os únicos a viajar até Roma, uma das poucas capitais livre de Filhos do Abismo e guardada por anjos. A viagem estava tranquila, e não havia sinal de nenhum inimigo. Era até difícil dizer que estávamos em guerra... Ou melhor, que os anjos estavam em guerra.

Eu já não sabia o que eu representava nessa guerra. Sabia que não estava do lado dos Filhos, nem do lado dos anjos. Será que é uma guerra de três lados, e eu era o único neste terceiro lado? Pelo menos somando Týr e Thais, eu não estava sozinho.

Ele sabe que você se lembra de sua vida terrena. As palavras de Abraão voltavam com frequência a minha mente. Ele sabe. Por que não fez algo a respeito? Será que Ele sabe de Týr também? O que estava acontecendo. Um jogo de poder; foi o que veio a minha mente. O Criador e o Destruidor, a Morte, estavam competindo; um era a vida e o outro, o fim. Ou não? Talvez isso fosse apenas mais uma paranoia da minha mente muito criativa. Mas o que eu estou fazendo no Paraíso?

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Um dos anjos passou voando por eles como um borrão e parou a alguns metros a frente. Nas mãos dele havia algum tipo de marreta gigante feita de um fogo alaranjado belíssimo, porém mortal. Antes que Anúbis pudesse desviar, o anjo acertou-o com a marreta na lateral do corpo. Anúbis soltou um “caim” de dor, como um cão faz. Os dois voaram alguns metros e caíram na areia, Elena caiu alguns metros a frente de Anúbis.

Bán kính, a palavra veio do nada na mente de Elena.

Quando Elena olhou, Anúbis já estava lutando contra os anjos. Ele estava na forma humana, porém sua cabeça ainda era um chacal. Ele tinha duas espadas com a ponta em forma da meia-lua nas mãos chamada khopesh; tais espadas tipicamente usadas no antigo Egito. Ele defendia com habilidade os ataques das espadas de fogo dos anjos, mas estava em clara desvantagem.

Ele defendeu mais alguns golpes, e deu um salto comprido para trás, ficando a menos de dois metros de distância deles. Ele esticou um dos braços na direção deles e disse algo que Elena não entendeu; do seu antebraço nasceram braços e mãos feitos apenas de ossos que atacaram os anjos. Isso foi nojento, foi o que ela pensou.

Com facilidade, os anjos destruíram os braços extras e aumentaram a velocidade dos ataques. Se Elena não fizesse algo, com certeza ele seria jogado de volta no Duat. Aí tudo estaria acabado. Perderia sua esperança de ter Leonard de volta.

O que seu pai lhe dissera anos atrás? Pense em raios, a voz da lembrança veio a sua mente, pense em raios em suas mãos.

E ela pensou, e a queimação surgiu subitamente.

Estava pelo corpo todo, dentro e fora sua pele. O que estava acontecendo? Não foi assim na última vez. Ela gritou de dor. Os quatro pararam a luta, estupefatos com a visão da garota. Sua íris estava lilás, e por todo seu corpo havia tatuagens de palavras em todas as línguas, que serviam para fazer magia, menos a Língua de Prata.

Isso é impossível!, Nathanael pensou ao mesmo tempo que Elena disse:

– Bán kính.

Os três anjos levaram uma descarga elétrica tão forte que os levou a inconsciência. Então, Elena desmaiou e caiu na areia.

Anúbis passou a sua forma cem por cento humana, suas espadas sumiram numa nuvem de fumaça cinzenta, e pegou ela no colo. Andou por várias horas até sair do deserto e chegar a uma área menos quente. Usando alguns de seus feitiços característicos, montou um acampamento improvisado.

De onde a garota tiraria tanto poder como aquele? De alguma forma ele sabia que aquilo havia sido um golpe de sorte do destino, e que a Morte não tinha nada a ver com aquilo.

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Nathanael acordou e sentou ofegante. O que foi aquilo? Como aquela garota usou aquele poder? Um Bán Kinh forte o suficiente para apagar três anjos! Nem mesmo Stephan Van Helsing, o Artista mais forte que já existiu, tinha um poder como esse! E todas aquelas marcas? Palavras de todas as línguas que podem ser usadas para fazer magia. Era como os braços de Sephiroth, mas em um nível muito além do dele. Mas não havia a Língua de Prata. Por quê? Aquele não era o poder dela, era de outro. Alguém muito mais antigo, e muito, muito mais poderoso.

Olhou em volta, os outros dois ainda estavam inconscientes. Levantou-se e tentou acordá-los, em vão. Usou magia para criar um abrigo para os três. Tinha que esperar que eles acordassem. Conjurou água e comida, e consumiu-os. Normalmente não precisaria comer, mas o ataque dela deixou-o com o corpo detonado, comida e água ajudava-o a melhorar consideravelmente.

Poucas horas mais tarde, quando um dos anjos estava acordado, Gabriel, o arcanjo mensageiro, pousou perto deles. O Heartless pousou ao lado dele. O humano sem coração usava um sobretudo preto com o capuz escondendo-lhe o rosto, Nathanael não via, mas sabia que nas costas o coração com desenhos tribais estava desenhado em branco. Lutara com muitos deles para conhecer o símbolo de cor.

– Eu vou assumir a missão daqui. — Ele disse. — Vocês devem voltar ao Paraíso.

– Gabriel e os dois vão voltar, eu vou ficar. — Nathanael disse.

– Essa é minha missão agora, Caído.

– Eu não sou mais um Caído, Heartless, e agora pertenço as Legiões do Senhor. Sua missão é prender o deus no Duat. A minha é descobrir de onde o poder da garota veio.

– Do que falas? — Gabriel perguntou.

O ex-Caído contou o que houve. Nathanael não deixou espaço para discussão; aquela seria sua decisão final.

– Certo. Nós iremos avisar o Conselho. — Gabriel falou. Em seguida disse umas palavras na Língua de Prata e um portal de volta ao Paraíso se abriu.

O outro anjo pegou o anjo inconsciente e eles entraram andando pelo portal.

– Eu trabalho sozinho. — O Heartless disse.

– Claro que sim, afinal, sem sua filha, você é o último da sua raça. — Nathanael retrucou.

Um terremoto que durou alguns segundos chacoalhou os dois.

– Acalme-se, Heartless, eu não sou mais seu inimigo.

– Não fale sobre minha filha.

O Heartless saltou a mais de dez metros do chão, e, como se o ar fosse sólido, saltou mais uns cem metros, e então voou para o sul, mas seu voo era diferente do voo de um anjo ou de um pássaro. Ele dava impulsos no ar, como diversas propulsões o empurrassem para frente.

Nathanael voou atrás dele com suas imensas asas de águia.

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Elena abriu os olhos e viu que estava sob uma cabana improvisada feita de ossos e algo que ela deduziu ser pele. Contudo, não se assustou; depois do que viu Anúbis fazer contra os anjos sabia que aquela cabana tinha sido feita por ele.

– Onde estamos? — Perguntou enquanto sentava, fazendo uma careta de dor.

– Em algum lugar entre o Sudão e o Congo. Aqui, coma alguma coisa. — Ele entregou um espeto de madeira improvisado com algum animal assado, ela preferiu não perguntar o que era e simplesmente comeu. Estava faminta. Ele também lhe entregou uma vasilha com água.

– Ainda estamos muito longe? — Perguntou de boca cheia.

– Não, na verdade estamos bem perto. O difícil agora é encontrar a porta.

Elena terminou de comer, e quando se pôs de pé, sentiu uma pontada de dor fortíssima no coração, para onde levou a mão imediatamente. Ficou parada por alguns instantes até a dor passar, e então saiu da tenda.

Já estava de noite, e milhares de milhares de estrelas brilhavam no céu. Ela nunca tinha visto tantas estrelas juntas. Era incrível. Morara na cidade grande sua vida toda, e, mesmo quando estava no colégio, não via as estrelas por causa das luzes artificiais.

– Um dos anjos e um homem voador passaram por aqui várias vezes, mas não puderam nos ver graças a feitiços que fiz para nos esconder. — Anúbis contou enquanto admiravam as estrelas. — Porém precisamos partir imediatamente, Novaselik não é alguém que se encontra com facilidade.

Ele mal havia terminado de falar e já estava na forma de chacal. Ela montou e eles cavalgaram, porém não para o sul e sim para leste.

Algumas horas se passaram quando Anúbis parou de repete. farejando o ar.

Estamos perto. Disse dentro da mente dela.

O quão perto? Ela respondeu.

– Mais perto do que imagina criança. — A voz não estava em sua mente, nem pertencia a Anúbis ou a ela. Olhou em volta, mas não havia ninguém por perto.

– Quem está ai? — Ela gritou.

De repente, eles começaram a cair sem parar. Ela fechou os olhos, ia morrer com certeza.

Rápida como veio, a queda parou. Ela sentia que alguém a segurava nos braços. Abriu os olhos para encontrar os olhos de Anúbis, que eram negros como a noite e que pareciam ler sua alma. Sentiu seu coração acelerar, como quando estava sozinha com Leonard. Pela primeira vez ela notara como Anúbis era atraente, apesar de sua pele cinzenta. Pode sentir como seus braços eram fortes e definidos, assim como o peito. Resistiu à tentação de tocá-los. Sentiu o rosto esquentar, sabia que estava vermelha.

Ele colocou-a no chão, eles estavam em uma caverna de paredes arredondadas, mas que pareciam naturais. De frente a eles havia uma abertura coberta por um pano velho. Uma porta. Entraram.

– Meu velho amigo, Anúbis, e a aquela que busca a felicidade.

O velho estava sentado em uma poltrona alta virada para a porta. Ele estava olhando para eles, mas não os enxergava. Os olhos do velho eram de um tom cinza esbranquiçado, ele era cego. Muito devagar ele se levantou; se não estivesse com as costas curvadas pela velhice, ele teria mais de dois metros. Ela notou que seu rosto era meio pontiagudo, apesar das rugas, e as orelhas não eram arredondas, e sim num formato de “v” de ponta cabeça.

O homem andou até uma prateleira e pegou um livro, depois o levou direto para as mãos de Elena. A garota estranhou o gesto. Olhou o livro, ele não tinha nada escrito em sua capa de couro preta. Pela lateral viu que o livro tinha páginas velhas e amarelas.

– O que é isso? — Perguntou.

– É o que procuras.

– Como o senhor sabe o que procuro? O senhor realmente sabe de todas as coisas?

Ele soltou uma risada velha e gostosa, como o avô de Elena costumava fazer.

– Não, não, criança. Eu não sei de tudo, não sei por que a Morte me deu essa alcunha.

– Mas como sabe o que procuro?

O velho sentou novamente e olhou para ela, apesar de ser cego. De alguma forma ele olhava para dentro dela, para o coração. Ela não sabia explicar como sabia disso, mas sabia que era isso que ele estava fazendo. Ele era cego para o mundo, mas não era cego para os corações das pessoas.

– Vamos. — Anúbis chamou. — Esse velho louco não vai dizer mais nada.

- Quando entrei aqui o senhor me chamou de "aquela que busca a felicidade", por quê? — Perguntou a garota pouco antes de sair.

– Porque é exatamente isso o que buscas. — Disse o velho sábio.

– Mas como posso buscar algo que não sei o que é?

– A felicidade não é apenas um. Para cada ser a felicidade é diferente. Para alguns, é a sua ocupação, o conhecimento, o nascimento, é ajudar ao próximo, é o sorriso de uma criança, um agradecimento, o reconhecimento, a admiração. Para outros é mais de uma coisa. Mas para você, sua felicidade é ele, e para ele, é você. E é isso que vai uni-los de novo.

Apesar de seu encontro com Aquele que Sabe de Todas as Coisas ter sido muito curto e poucas palavras terem sido trocadas, o que ele disse ecoou em seu coração enquanto cavalgava em Anúbis na direção norte. O livro estava guardado em uma mochila feita bizarramente com a magia de Anúbis, mas que servia.