Afterlife
56 Abakur
Elena fitava a recém-chegada desconfiadamente. O que ela estava fazendo dentro do sonho dela? Melanie encarava-a como se tivesse visto um fantasma, ou algo pior. E assim ficaram trocando olhares em silêncio por alguns segundos.
– Como você chegou aqui? – Finalmente perguntou.
– Essa é uma pergunta complicada, por que eu não sei. Há alguns minutos eu estava no deserto e depois estava nessa floresta; então vi você e os outros e percebi que estava exatamente onde queria estar.
– Ai você dormiu?
– Sim.
Ela ponderou, e decidiu que ela falava a verdade.
– Por que está aqui? – Melanie olhou nos olhos roxos de Elena, como se decidindo se dizia a verdade ou não.
– Eu preciso de sangue de dragão para viajar para o Paraíso.
– Você pode ir ao Paraíso sem morrer?
– Eu não sei, mas preciso tentar.
– Por quê?
– Tenho que encontrar algo.
– Quero ir com você. Preciso trazer Leonard de volta.
– Não é possível. Você não pode trazer alguém que já passou do Reino dos Vivos para o Reino dos Mortos. – Elena mais nada disse, por isso Melanie acrescentou: – Svjetlo alegro.
Um ponto de luz brilhante surgiu sobre a cabeça delas, iluminando boa parte da gruta, que não era lá essas coisas de grande. Se ela esticasse os braços para os lados, tocarias as duas paredes. Por estar entre duas florestas, a caverna tinha um cheiro de mato, que agradava bem o olfato das duas garotas.
Melanie apagou seu Svjetlo quando uma luz no fim da gruta iluminou seus caminhos. A floresta do outro lado era tão densa e fechada quanto a que deixaram para trás, contudo era mais iluminada, como se o sol ali fosse mais forte.
– Chegamos. – Elena disse. – Estamos na parte da Floresta Infinita Escuridão dentro do Reino dos Sonhos.
Um rugido estremeceu o coração da garota. Um imenso dragão voava sobre a floresta. Suas escamas eram verdes e brilhantes, como esmeraldas, e seus olhos tão amarelos quando ouro. Elena hesitou por um momento, com medo.
Melanie não podia deixar de comprar aquele dragão com Geirendur, o dragão de escamas negras que ela e Aaron tiveram que enfrentar para salvar uma amiga, Angel anos atrás. Pensar nele trouxe lembranças que ela lutou para esquecer; memórias de um passado feliz ao qual ela não mais pertencia.
Elas olhavam a floresta de sobre um morro. Devagar, meio escorregando devido à umidade, desceram em direção à morada do dragão.
Usando magia de Melanie, as duas seguiram pelo matagal, cortando qualquer galho que entrassem em seus caminhos. Apesar de ouvirem o dragão voando e rugindo, ele não descia para atacá-las ou tentar qualquer coisa. Era como se elas fossem invisíveis ou ele, no mínimo, não se importava com elas.
– Quem vem lá? – Uma voz masculina veio com o vento.
– Sou Elena Treagus.
– Melanie Craymer.
– A profeta?
– Mesmo não gostando dessa alcunha, sim sou eu. – A ruiva disse, para surpresa da outra. – E você, quem é?
Uma figura fantasmagórica surgiu flutuando por entre as árvores. Era um homem que vestia roupas que pareciam de muitos milênios antes. Ele era esbranquiçado, como os fantasmas costumam ser, e elas eram capazes de ver através dele. Seu semblante era triste, como se não gostasse de estar ali.
– Eu sou Virgílio.
– Você guiou Dante pelo Inferno, não?
– Sim. E desde então estou preso aqui.
– E por que está triste? Estar fora do Inferno é algo bom, né?
– Sim, mas ficar aqui se fazer algo ou poder falar com alguém é ainda pior.
Melanie entendia aquela pobre alma. A solidão era uma prisão pior do que qualquer dos Nove Círculos do Inferno. De repente, ela sentiu uma queimação no braço. Como se alguém a marcasse a ferro e fogo no lugar exato onde a estranha palavra estava.
Elena não tentou ajudar a ruiva, que agonizava de dor no chão. Simplesmente não estava com vontade. Apenas olhava-a com desdém.
– Que diabos? Ajude-a, menina! – Vergílio repreendeu.
– Por que eu deveria?
– Quando foi que os vivos ficaram tão sem coração? Eu nunca vi uma alma tão fria quanto você!
Aquilo a despertou. Sentiu uma dor no peito. Culpa.
Tudo perdeu o tom lilás que sua visão adquirira com o pacto com a Voz. Sentiu pena da garota caída aos seus pés em dor. Queria ajudá-la, e sabia como.
– Virgílio, está vendo aquela palavra no braço dela?
– Aquela que está queimando? – Retrucou sarcasticamente.
– Sim. Ela é também um tipo de prisão, porém diferente. É uma magia Húngara. São bem raras. – Elena se surpreendeu com o que acabara de falar; desde quando ela sabia tanto sobre magia? – Ela é uma prisão que está ligada a alma. Posso retirá-la, mas é preciso jogar em outra alma. Seja viva, ou morta.
– Faça em mim então! Não hesite.
– Porém, como você não tem corpo, sua alma provavelmente será destruída.
Isso fez Virgílio pensar. Ponderou algo e respondeu:
– Eu já vivi minha vida. E até mesmo a morte. E ela é importante para o Plano. Então, faça.
– Certo. Cuide dela. Eu preciso de água.
A magia Húngara, hoje em dia praticamente extinta, era uma feitiçaria. Eles sempre precisavam de algum elemento físico da natureza para fazer os feitiços. Água, madeira, alguma erva, pele de algum animal, qualquer coisa era preciso para praticá-la. No caso do feitiço no braço dela, era uma prisão de alma feita com algum veneno ácido de algum animal, em outras palavras, ela estava queimando como se veneno corresse junto ao sangue. Consequentemente, água era o melhor elemento para combater.
Ela não notou que, de uma hora para outra, ela era capaz de fazer magia.
Ela se surpreendeu com a quantidade de conhecimento que tinha. Era realmente incrível. Ter feito aquele pacto valera a pena. Assim que encontrou uma poça, ela conjurou uma vasilha usando uma magia diferente da Húngara e encheu de água. Colocou um dedo indicador e disse:
– Tiszta. – Para purificar a água.
Voltou para onde estavam o fantasma e Melanie. Ela estava acordada, mas em visível dor.
– Fique sobre o braço dela e deixe que a fumaça passe por você. Kalitka szabad szellem a hatalom rajta, és zárd magadnak ezt más szellem. – Entoou enquanto jogava a água aos poucos na marca na mão dela; assim que o líquido tocava a pele, ele evaporava e um pouco da marca subia com o vapor, passando por Virgílio, que aos poucos foi desaparecendo.
Ofegando, Melanie sentou e recostou em uma árvore, recuperando o fôlego e a vitalidade.
– Como eu pensei você será destruído. – Elena falou ao espírito.
– Não se preocupe. Eu já existi demais.
Eles trocaram um sorriso, e Virgílio desfez-se em vapor. Melanie se levantou e, ainda com dor, falou com veemência:
– Vamos. Temos um dragão para encontrar.
Elas não precisaram andar muito, pois diante delas, camuflado na mata estava o dragão Abakur.
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