Afterlife

33 A Queda de Roma


Notas iniciais
Hey there, Fallen Roman Readers Esse capítulo é o último da saga de Roma, a parte que mais gostei de escrever para o Afterlife. A Queda de Roma, sem dúvida, é muito bom. Saiba o porquê e boa leitura!

Eu vou morrer.

Esse era meu único pensamento apesar de já estar morto. Acho que esse pensamento vem como um instinto para nós, os humanos. Agora eu sei que a morte não é o fim, mas sim o começo de uma eternidade em outro lugar. Mas ainda assim, talvez aquele fosse o fim de tudo. Talvez seja isso o que “morrer” significa. Morrer de verdade deve ser esquecer tudo o que você é. Eu sabia que se aquele Louryak me “matasse” eu “renasceria” no Éden, mas provavelmente me esqueceria de tudo. De minha promessa. Do que me fez lutar até ali. Esquecer-me-ia de Elena, Thais, Týr, Lana, minha família e amigos na terra. Todos eles deixariam de existir em mim. Eu morreria.

Você tem uma promessa a cumprir, Leonard, você não vai desistir, eu disse pra mim mesmo.

Não havia esperança. Aquela mulher, uma Filha do Abismo e uma Louryak, como ela mesma se chamou, tinha minha espada, a única esperança que eu tinha de sobreviver ao Paraíso, em melhores palavras, não me esquecer de quem sou.

– Então, essa é a arma capaz de nos matar. — Ela disse enquanto examinava a espada curta. — Não é muito impressionante. Sinceramente, eu esperava mais.

Aos poucos, ela foi congelando a espada, como se a espada fosse jogada no ártico e os anos, aos poucos, fossem endurecendo o metal.

– Seria uma pena... — Ela levantou a espada congelada sobre a cabeça. — ...se alguém a quebrasse.

E dirigiu a espada com força para o chão. Tudo acabava ali. Toda minha esperança de um dia voltar para a Terra acabara ali. Com a espada congelada, ela seria destruída. Tudo pelo que lutei até aquele momento. Minha promessa.

Era o fim.

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Vizard não conseguia vencer seu inimigo. Ele era bom. Sabia manipular a terra tão bem quanto o Filho, se não, até melhor. Havia pedras voando para todos os lados. Elas batiam umas nas outras e caiam em pedaços sobre as casas e ruas, até mesmo sobre algumas almas.

Atacar não estava resolvendo. E mesmo que Vizard montasse uma estratégia, o inimigo previa e contra atacava de imediato. Aquela luta podia durar horas. Quando chegaram a uma praça imensa com uma fonte no meio, que pelas memórias de Caleb chamava-se Praça de São Pedro, o Filho percebeu que havia sido guiado até ali. Lá estavam os outros três Kayryak lutando com encapuzados, como Aws, que Vizard lutava contra. Vizard não notara o momento que ele recolocara o capuz.

Os oito, vindo cada dois de uma direção, aproximavam-se do centro da praça. Os encapuzados, Heartless, mais uma vez a palavra veio a Vizard como se pela memória coletiva dos Filhos, guiavam os inimigos de olhos negros e laranjas no intuito de encurralá-los um contra os outros. Quando estavam próximos o bastante, os quatro encapuzados levantaram, de forma sincronizada, uma única cela, onde os quatro Filhos ficaram presos. Porém, um dos quatro encapuzados, o mais forte deles, precisou colocar toda sua vontade sobre as pedras que formavam esta cela, assim nenhum dos Filhos seria capaz de manipular a cela para sua liberdade.

– Como tu, uma simples alma, que não é mais forte que um anjo, é capaz de segurar o poder de quatro Kayryaks? — Um dos Filhos disse.

– É por que não sou uma alma comum. — Respondeu.

Vizard notou que o homem que havia ficado era Aws.

– O que é Heartless? — Vizard perguntou.

– Eu sou um Heartless. — Foi sua resposta.

Eu nunca ouvi falar deles, disse uma voz.

Por um momento, Vizard procurou entre os Filhos quem dissera aquilo. Mas nenhum deles parecia ter falado, deduziu então que alguém havia falado na memória coletiva, porém nenhum dos outros três parecia ter recebido o pensamento.

Eles não podem me ouvir, Vizard, apenas você pode, pois eu sou você.

Foi quando ele percebeu que aquela era a voz de Caleb.

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Miguel não acreditava em sorte, afinal ele era um anjo de Senhor. Mas ele não conseguia encontrar uma palavra melhor para definir seu lado do combate. Miguel estava habilmente defendendo os ataques de Kifo, porém apenas por pura sorte. Ele lutava totalmente na defensiva, nem por um momento ele conseguiu atacar o Filho da Morte.

Porém o querubim estava cansando. O Fogo Celestial consumia muita energia e aparentemente a de Kifo era muito maior que a de Miguel, pois ele não estava cansado e usava o mesmo Fogo Celestial.

A esperança desapareceu de Miguel.

Os anjos não deviam ter entrado naquele combate. Eles não tinham chance desde o inicio. Os Filhos eram quarenta mil, enquanto eles eram não mais que quinhentos. Miguel sabia que pelo menos cinquenta dos anjos estavam mortos, pois os querubins, e apenas os querubins, podiam sentir quando algum anjo ou arcanjo deixava de existir.

Recuar era a única escolha deles.

Pois se todos aqueles anjos morressem ali, não haveria um poderio bélico forte o suficiente para um possível contra ataque as forças do inimigo. Roma seria a primeira cidade-refúgio a ser dominada. E a primeira das sete Passagens nas mãos dos Filhos.

Havia outra coisa que Miguel não entendia. Se o plano de Kifo era conquistar as Sete Passagens, ele precisaria dos irmãos para, pelo menos, tentar algo. Por que não estava atrás de libertá-los? Ou será que estava? Miguel não sabia como funcionava o selo dos outros dois, ou onde estava, apesar de ter alguns lugares em mente. Será que alguém sabia?

– Por que você não morre logo?! — Vociferou Kifo em meio aos ataques.

– Porque ainda não está na hora de eu morrer.

Miguel desvencilhou-se de Kifo, permitindo que o querubim recuasse alguns metros.

– Regredien. — Ele disse na Língua de Prata ao mesmo tempo em que estendeu sua espada para o céu, que disparou uma rajada de fogo, como fogos de artifício, formando o símbolo para Regredien, que significa “recuar”.

– Achei que você não desistia de lutar. — Zombou.

– E não desisto. — Retrucou. — Mas às vezes é preciso um recuo estratégico.

Ele disse outra palavra na Língua de Prata, o que o fez ser sugado por uma espécie de buraco negro cujo centro era no olho direito dele. Quatrocentos e quarenta e sete anjos sobreviventes na cidade fizeram o mesmo.

Exceto por Lael, pois ele tinha algo importante para fazer.

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Como você consegue falar comigo?, Vizard perguntou em pensamento, incrédulo. Nenhum outro Filho do Abismo foi capaz de ouvir esse pensamento através da memória coletiva.

Eu estou ficando mais forte dentro de você, Caleb respondeu. Não subestime os seres humanos, nós temos uma força de vontade fora do comum.

Mas você ainda não é capaz de ter o controle do seu corpo de volta.

Exato. Ainda.

Vizard urrou, e sua voz soou como era antes de possuir a alma humana. Ele sentiu a pele queimando, o que era novo, pois nem mesmo o Fogo Celestial causava aquela sensação. Viu o chão ficar mais distante, ou melhor, ele estava ficando mais alto. Os cabelos cresceram e ficaram num tom mesclado de laranja escuro e preto. O nariz se alongou, assim como a mandíbula. Era a cabeça de um leão. No corpo todo nasceram pelos, os braços ficaram fortes e o busto largo, assim como as costas.

A-alma-uma-vez-chamada-Caleb agora estava na forma original de Vizard, um Kayryak.

Com um movimento dos braços, a jaula que prendia os quatro se desfez em areia. O homem encapuzado saltou alguns metros para trás. Agora eram quatro contra um. Vizard fez um movimento circular com os braços, fazendo com que a areia que ele havia acabado de criar flutuasse. Antes, durante a Primeira Guerra Celestial, ele não era capaz de manipular areia, nem mesmo quando estava na “forma de Caleb” ele era capaz disso. Porém naquele momento, na sua forma original e com o poder da alma de Caleb dentro dele, ele estava mais poderoso do que nunca.

– Agora você morre, Heartless. — A voz do Filho do Abismo soou como um rugido de leão.

O encapuzado ficou em posição inicial de combate de algum estilo de luta, ao mesmo tempo em que afundou alguns centímetros no chão, quebrando-o e rachando. Algumas pedras flutuaram em volta dele. Não tinha escolha, tinha que liberar todo seu poder.

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Quando a lâmina atingiu o chão, a luz quase me cegou. Eu mal consegui olhar para Selena, que gritava desesperadamente de dor. Eu pude ouvir o barulho de fogo e sentir o cheiro de carne queimando. Ela estava pegando fogo, mas não era fogo comum, pois não podia apagar facilmente com água.

Fogo Celestial, é claro. Mas de onde estava vindo o Fogo? Será que havia um anjo próximo? Mas o Fogo Celestial selava os Filhos, e não os queimava.

O que diabos está acontecendo?

Quando eu pude vê-la, ela estava a poucos metros de mim. Seus olhos negros e laranjas, chorando sangue — um sangue não vermelho como dos humanos na terra, mas algo alaranjado parecido com molho de pimenta, porém com a mesma espessura.

– Eu vou te matar! — Ela ofegou com ódio em meio à dor.

Seu rosto não estava mais bonito como antes, era apenas uma massa horrível feita de pele queimada, até meio derretida, e em carne viva. Um pedaço do rosto dela não tinha pele, deixando os dentes do fundo à mostra. Ambos os olhos não tinham mais as pálpebras, deixando o negro-laranja ainda mais assustador.

Ela agarrou meu pescoço com uma das mãos e me levantou a alguns centímetros do chão. Seu braço estava pior que o rosto; em alguns pontos pude ver os ossos. Aquele era o mesmo braço em que ela segurava minha espada. Essas queimaduras, apesar de doerem como se tivesse um corpo, era apenas um reflexo da Terra.

Eu não podia respirar. Minha visão ficou turva. Quando me dei conta, minha espada estava de volta na minha mão. Antes mesmo de raciocinar, cravei minha espada no peito dela. A alma se desfez. Eu pude jurar que antes de desaparecer completamente, a alma não possuída daquela mulher sussurrou:

– Obrigada.

De nada. Týr disse em minha mente.

Você colocou a espada na minha mão.

É obvio.

Mas, por que ela não quebrou quando estava congelada?

Eu não sei. Também não consegui ver o que aconteceu.

Então eu ouvi barulho de explosões, como aquelas quando o muro estava rachando. Os barulhos pareciam como pedras quebrando umas as outras. Então me lembrei de que aquele Filho e o homem de sobretudo lutavam usando a terra. Eles deviam estar lutando em algum lugar próximo.

Corri seguindo o som. Mas sem conhecer as ruas ficava difícil saber onde virar, pra onde ir. Levei pelo menos uns dez minutos, mas finalmente encontrei o combate. Reconheci a praça onde lutavam: era a Praça de São Pedro, do Vaticano. Ela estava parcialmente destruída e com diversos buracos no chão, a fonte que deveria estar ali não era mais do que um cano jorrando água do chão. Reflexos da batalha.

O combate era claramente injusto. Quatro Filhos contra apenas uma alma, mas ele estava segurando bem o combate. Ele parecia estar determinado a não perder, mas na minha visão ele não tinha como vencer, a não ser que eu interferisse a seu favor. Um dos Filhos tinha uma aparência entranha, ele estava na forma de um homem bem peludo com cabeça de leão — com juba e tudo. Porém os olhos ainda eram na mesma cor, preto e laranja, mas eram maiores e mais arredondados.

Com minha espada em punho, corri em direção aos Filhos. Eu não pensei em plano nenhum, apenas pensava: desvie e ataque. Porém, até aquele momento, nenhum deles havia notado minha presença.

Cravei minha espada no peito de um dos Filhos, que desapareceu instantaneamente. Os outros três imediatamente viraram os olhos para mim, pois, como compartilhavam a memória, notaram que um deles havia desaparecido. Esse momento de distração permitiu que o encapuzado nocauteasse dois Filhos, jogando-os a vários metros de distância em lados opostos, restando assim em combate apenas o homem-leão.

– Vou matar aqueles dois. — Eu disse. — Cuide desse ai!

Ele não pareceu gostar muito da ideia de receber ordens de mim, mas não tinha outra opção a não ser lutar com aquele Filho. Cravei minha espada no peito do primeiro Filho caído sem hesitar, ele desapareceu. Saber que a alma reapareceria no Éden e que nenhuma daquelas criaturas do Abismo era humana, facilitava muito matá-los.

Fui para o segundo. Ele estava semiacordado no momento que eu o atingi. Ele tentou revidar por um momento jogando algumas pedras em mim, porém a magia de Týr desviou-as. Ele não esperava por isso, e eu aproveitei o momento para cortar o pescoço dele.

Agora restava a parte mais difícil, o homem-leão.

Eu não sabia dizer, no mundo real, qual era o nível de combate entre manipuladores de terra, mas se fosse num jogo de RPG que eu costumava jogar na escola quando vivo, aquele seria uma luta de jogadores de nível oitenta pra cima. Os dois haviam criado animais de pedra, o Filho havia criado um leão — obviamente — com uns dois metros do focinho à ponta da calda; já a alma havia criado uma esfinge, como aquela do Egito — corpo de leão e cabeça de homem. As criaturas tinham movimentos tão suaves que pareciam ser de verdade, exceto pela cor marrom claro que era o chão. O som de pedras batendo e quebrando era constante.

Eu olhei para o homem, que na escuridão sob seu capuz olhou para mim. O plano era óbvio, eu o atacaria diretamente enquanto o encapuzado se encarregaria das pedras. Então eu ataquei.

Ele era mais habilidoso do que eu pensei. Eu fiz ataques diretos e rápidos, sequências de giros e improviso, porém ele sabia onde me bloquear e quando se esquivar, tornando difícil fazer qualquer arranhão nele. Felizmente o desconhecido usava pedras para parar as pedras que o Filho lançava em mim ao mesmo tempo em que atacava também com pedras. Era uma luta confusa e rápida, porém, por sermos menores, éramos mais rápidos, mas a diferença não era tanta, pois estávamos mais cansados que o grandão.

Nós dois conseguimos nos desvencilhar dele, porém nem tivemos tempo de trocar palavras de uma possível estratégia, pois dois leões de pedra estavam próximos demais. O estranho fez alguns movimentos de braço, fazendo que duas pilastras saíssem do chão e quebrassem os leões no tórax. Corri entre as pilastras, diversas pedras vieram em minha direção e outras pedras defenderam.

– Um ataque frontal nunca funcionaria contra mim! — O homem leão urrou.

Para a surpresa dele, eu não ataquei e escorreguei entre as pernas dele. Antes que ele pudesse fazer algo, minha espada estava cravada em suas costas. Ele rugiu de dor, mas não desapareceu. Em seguida caiu no chão, inconsciente por causa da dor.

Olhei para o encapuzado, que olhou de volta.

– Quem é você? — Perguntei. — Por que carrega esse símbolo nas costas?

– Meu nome é Aws. Esse é o símbo... — Antes que terminasse de falar, houve uma explosão de calor. Quando consegui ver a praça estava cercada de Filhos.

Milhares e milhares deles.

– Os anjos desistiram. — Aws disse. — A cidade foi tomada.

– Como vamos sair daqui?

Eu não havia notado que ele tinha uma pedra na mão.

Então tudo ficou escuro.

O rosto de Thais bem próximo ao meu foi a primeira visão que tive assim que acordei. Logo em seguida eu senti a dor de cabeça. O céu a estava escurecendo.

– O que aconteceu? — Perguntei.

– Um anjo te deixou aqui.

– Anjo? Por quê? Achei que eles queriam me capturar.

– Como assim?

Ela devia ter esquecido sobre minha conversa com Miguel antes da guerra estourar. Contei o que aconteceu antes e durante a batalha. Como eu sobrevivera.

– Então estamos no meio de uma caça a você?

– Acho que sim.

– Temos que ir embora e encontrar a Morte. Roma foi tomada, aqui não é mais seguro.

Montamos na moto. Resolvi olhar mais uma vez para a bela Roma. Um dos lugares que sempre sonhei visitar, agora não era mais do que um lugar de dor e tortura. E naquela cidade eu reencontrei alguém que pensei que nunca mais veria. Lana. Meu coração palpitou ao nome. Será que ela ainda estava viva, ou melhor, será que se lembrava do nosso “encontro”? Do nosso beijo? Esperava um dia, antes de voltar a Terra vê-la de novo. Ao mesmo tempo em que pensei nela, pensei em Elena. O que ela estaria fazendo na Terra? Será que estava feliz? Seguir em frente, pensei, preciso seguir em frente como ela deve estar fazendo. Uma coisa me passou pela cabeça que nunca havia passado: se ela está mesmo seguindo em frente, por que eu continuo lutando para voltar para ela?