Afterlife

9 Rick – Nostalgia


O homem de roupa social fechou a porta logo após entrarmos, ficando do lado de fora. Michael chamou o nome dela, e correu para a cama de hospital na qual ela estava deitada. Eu fiquei ali, para trás, observando a aflição de Michael e a cara de abatida de Claire.

— O que aconteceu?! — ele perguntou, passando sua mão na cabeça dela.

— Fui atacada — ela respondeu, sua voz enfraquecida.

— Como?!

— Os prisioneiros... Três deles me atacaram, e um dos guardas os ajudou. Eles sabem dos meus poderes.

— Merda! — Michael estava enfurecido — Aquele cara tem alguma coisa a ver com isso, não é?! — Ele se referia ao homem de cabelos grisalhos.

— Não. Foi ele quem me achou — ela disse — Eu pensei que fosse morrer — Começou a chorar.

— Claire...

— E se ele não tivesse me ajudado? Ficaria ali sem poder me regenerar. Será que eu iria...

— Não pense nisso — Ele a interrompeu — Eu sinto muito — Michael disse alguns segundos depois.

— Está tudo bem. Estou viva, e é o que importa — Claire falou, parando de choramingar e de se queixar. — Mas ainda tenho que descansar. Quando acordei, pedi para vê-lo, e aquele homem de cabelos grisalhos me trouxe para esse quarto onde nossos poderes não funcionam — ela disse — Não pude me curar por completo.

— Você devia ter se regenerado primeiro.

— Eu precisava vê-lo.

Foi quando tudo começou a ficar meloso demais entre os dois e eu parei de prestar atenção. Pouco tempo depois, Michael começou a dizer enfaticamente o quanto precisávamos fugir dali.

— Mas como iremos sair daqui? — Claire perguntou.

— Não sei, mas pode ter certeza que irei descobrir — ele disse.

— Não precisa perder seu tempo — falei, cruzando os braços.

Os dois olharam para mim. Claire parecia só ter notado minha presença naquele momento, ou talvez só se importou com isso naquele instante. Quando percebi que Michael começou a demonstrar indignação em sua face, logo retornei a falar:

— Eu sei como iremos sair daqui.

— Do que está falando? — Michael indagou.

— Não se preocupe, vou resolver isso. Explicarei tudo depois, mas sairemos daqui amanhã.

— Não — Claire disse com a voz firme.

— "Não"? — Franzi a testa, olhando-a nos olhos com desdém.

— Nós não podemos confiar nele — ela disse.

— Por quê? — Michael perguntou.

— Ele era o único além de nós que sabia das minhas habilidades.

Revirei os olhos. Ela estava me acusando de ser o responsável pelo que acontecera a ela.

— Só pode estar de brincadeira — eu disse, sorrindo sarcasticamente.

— Não estou — ela retrucou.

Michael ficou me olhando seriamente, sem dizer nada. Ele estava considerando a possibilidade.

— Você vai realmente acreditar nisso? — Mostrava-me ofendido — Eu estou tentando ajudá-los! — falei uns tons mais alto.

— Por que está tentando nos ajudar, de qualquer forma? — Michael perguntou — Por que se importa tanto?

Eu não sabia o que responder. Para ser sincero, sabia, porém tentava segurar aquela resposta o quanto pudesse.

Ele se levantou e começou a vir em minha direção compassadamente enquanto indagava de maneira repetida o porquê de eu me importar tanto. Eu desviava o olhar como se tentasse ingenuamente fazer aquilo acabar. Até que ele chegou em mim e colocou suas mãos em meus ombros, apertando.

— Para, Hawky*! — falei bem alto, empurrando-o.

Sua expressão séria se desmanchou em completa perplexidade ao ouvir aquela palavra. Eu sabia que ele sentiu como se estivesse caindo em um abismo. Eu conhecia a dor que ele devia estar sentindo, porque eu a senti provavelmente inúmeras vezes pior.

***

— Estamos quase lá — disse.

Eu me referia à uma das áreas seguras que existia no jogo que estávamos jogando.

— Cuidado! — ele falou bem alto, e começou a atirar em direção a umas árvores alguns metros à nossa frente.

Só após ele ter feito aquilo que percebi a presença de outro jogador ali, o qual logo foi morto por ele.

— Nossa... Eu não tinha visto ninguém — eu disse, surpreso.

Ele riu.

— Noob* — ele disse, zombando de forma brincalhona.

Eu ri também.

— Não sou noob, aquilo era impossível de enxergar — eu falei — Você é que tem olhos de falcão. Vou te chamar de Hawk agora — disse um tempinho depois — Hawk não... Hawky.

— E eu devia te chamar de Chaveirinho — Olhou para mim, achando graça.

— Por quê?! — Encarei-o, sorrindo. Eu já imaginava o motivo.

— Por que você é pequeno — ele respondeu.

— Ei! — Empurrei-o, sentindo-me um pouco constrangido — Eu não sou pequeno, idiota!

— Mas pelo menos é menor do que eu! Seria o meu Chaveirinho, então.

Ele voltou a prestar atenção na tela. Eu fiquei estático durante alguns segundos, olhando-o com um sorriso estúpido em meu rosto. Até que ele me chamou de volta para o jogo:

— Vamos, Ryan.

— Ok, Michael.

***

Notas finais
*Hawky: diminutivo de "hawk", palavra do inglês que significa "falcão". *Noob: gíria usada para denominar um iniciante em algo, alguém inexperiente, comumente utilizada no mundo dos jogos. Por favor, deixem comentários (críticas são bem vindas, porém por favor as façam direito, não somente "tá ruim" ou algo do tipo)! Ajudarão muito! Obrigado!