Afterlife
14 Michael – Fuga
Notas iniciais
Já fazia um bom tempo que não chorava daquela forma. Eu refletia e chorava. Ryan me amava, e eu via aquilo com certo receio, pois era um homem, e éramos sempre muito próximos. Mas ali, naquele momento, eu não me importava com nada disso. Eu só queria ele vivo. Eu só queria meu melhor amigo de volta.
— Onde...? — indaguei, quase que sem conseguir direito.
— No quarto em que eu estava ficando — ela respondeu.
Vários barulhos de explosão ocorreram não muito longe dali. O recinto já começava a se desmoronar.
Comecei a me dirigir ao quarto de Claire. Eu precisava ver com meus próprios olhos. Tinha que ter certeza. Precisava vê-lo uma última vez.
Claire segurou-me pelo braço. Ela falou alguma coisa que não escutei. Na verdade eu já não escutava mais nada além de meus próprios pensamentos obscuros invadidos por vivências do passado.
Desvencilhei-me e continuei andando. Até que avistei aquilo em uma das entradas do local que estávamos. Não... Dessa vez era outro monstro, porém igualmente assustador. Claire o viu também, e pude perceber seu semblante temeroso.
A garota de cabelos loiros ergueu suas mãos e novamente luz foi expelida, criando uma espécie de escudo na entrada.
— Temos que correr! — Karen gritou — Isso não vai segurá-lo!
— Michael... — Claire chorava também — Eu sinto muito... Mas nós não temos tempo.
Infelizmente, nós realmente não tínhamos mais tempo. Eu não tinha mais tempo. Essa era minha tragédia. Eu nunca podia dar adeus.
***
— Que mórbido — ele disse.
Virei, avistando Ryan com um sorriso triste.
— Você vem muito aqui? — ele perguntou.
— Sim — respondi, minha voz serena.
—Você nunca me disse nada...
— Eu não pensei que fosse algo interessante de se falar.
— Michael... Nós não somos feitos apenas por momentos felizes. Temos os momentos tristes também. E se alguém não pode aceitar o outro como um todo, então esse alguém não pode ser considerado um amigo de verdade.
Eu sorri levemente. Por dentro, sentia um enorme prazer em saber que Ryan estava ali por mim. Voltei a olhar para a lápide. Havia nela engravado: "Esposa e mãe perfeita".
— Você sente muitas saudades dela? — ele perguntou.
— Todo dia.
Ryan se aproximou, ficando do meu lado. Tornei a falar, momentos depois:
— Foi tudo muito súbito. Não pude nem dizer adeus.
Em poucos segundos, ele colocou sua mão em meu ombro. Depois, abraçou-me em um gesto que me fez sentir um pouco desconfortável. Um desconfortável tenro do qual não quis me desprender.
***
Pelo bem de Claire e da garota que salvara minha vida, eu tinha que ir. Pelo meu próprio bem também. E foi o que fiz. Eu não podia mais pensar naquilo se quisesse que elas saíssem vivas dali. Não poderia nem iria ser um fardo.
***
Eles faziam de tudo para fugir. Michael os acompanhava de forma automática. Seus olhos estavam apagados, suas pálpebras caídas. Seu rosto úmido pelas inúmeras lágrimas derramadas por um adeus não proferido. Por uma perda não desejada.
A cada determinado número de passos, os quatro avistavam os destroços de uma pequena porém terrível guerra. O lugar estava em ruínas, mas eles também, pois já não eram mais os mesmos. O que tiveram de presenciar durante aquele tempo em que passaram presos e enquanto fugiam era mais do que qualquer um imagina poder passar. Era perturbador.
Corpos jogados ao chão. Prisioneiros. Guardas. Pernas, braços separados de seus troncos. Cabeças soltas. Sangue. Karen, a qual tentava ao máximo se segurar, acabou regurgitando, mas continuaram com o caminho.
Dois inimigos apareceram e atiraram em direção ao grupo. Se não fosse por Karen tê-los protegido, a mulher de cabelos escuros teria sido acertada. Michael, mesmo que parcialmente, voltou a si ao presenciar o perigo em que a mulher que amava passou, e logo soltou uma rajada de fogo em um dos inimigos, enquanto Karen desferiu sua luz impactante no outro. A loira demonstrava uma evidente preocupação em relação à Michael.
Finalmente o grupo chegou ao fim do corredor em que corriam e encontraram uma porta dupla de aço, a qual só poderia ser aberta se acionada com uma chave na extremidade direita e outra na esquerda. Foi o que Karen e a outra fizeram. O grupo, então, continuou, chegando a uma sala um pouco mais ampla, na qual havia um elevador. Porém havia também vários guardas os esperando, e prontos para atirar.
Um rugido pôde ser ouvido ao longe. Em seguida, uma fera enorme pulou por cima do grupo, que já se preparava para atacar, e alcançou os guardas, deslacerando-os com suas garras extremamente mortais. Era como se fosse um lobisomem, grande, completamente coberto por pelos escuros, olhos vermelhos e dentes enormemente afiados.
Como eram muitos inimigos, a fera foi acertada por um dos tiros, e teve seu corpo impelido para trás, porém não da mesma forma que ocorrera com um dos prisioneiros que Michael presenciara. A fera, que sangrava, rugiu desesperadamente, pois a dor que sentira fora muito grande. Após isso, outro enorme estouro ecoou, e o guarda que acertara a fera foi impelido para longe, não mais recobrando sua consciência. Outro homem aparecera para ajudar o grupo também. Karen e Michael, em seguida, desferiram suas habilidades nos guardas restantes, podendo, então, finalmente relaxar um pouco.
— Obrigada — Karen disse, com um sorriso que não conseguia esconder o terror de seu semblante, não só por estar frente àquela fera, mas por tudo que vira no caminho.
— De nada — o homem que segurava uma arma dos guardas disse. Ele tinha um ar de convencido.
Naquele mesmo instante, a fera começou a retornar a seu corpo original, o que não demorou muito. Era, na verdade, um homem não muito alto, magrinho, de pele clara, olhos azuis, cabelos pretos e curtos, e bem bonito. Ele usava óculos — o qual fora devolvido para ele pelo outro rapaz —, o que, somado às outras características, fazia-o entrar no estereótipo de um "nerd". Karen, que antes o observara de forma atemorizante, acabou-se por se encantar. Ao ouvi-lo gemer, vendo-o colocar sua mão sobre a ferida, ela logo foi até ele para curá-lo.
— Obrigado — ele disse, completamente suado e trêmulo.
Ele estava constrangido de ter diante de si uma garota tão linda. Os dois sorriram.
— Chegou! — O outro homem alertou ao ver o elevador se abrir.
Todos entraram, e Michael, com a ajuda de outra chave, pressionou o botão que acreditavam dar no andar mais elevado, para que saíssem dali.
Embora não estivessem ali por muito tempo, aqueles dois homens facilmente perceberam que algo horrível acontecera, pois Michael estava bem indiferente.
— Eu sou Leon — o de óculos disse.
— Meu nome é Karen — a loira disse, ainda com suas mãos brilhantes sobre a ferida de Leon.
— Garry — o outro disse.
— Claire — a mulher de cabelos escuros falou também. Ela segurava a mão de Michael, o qual logo se apresentara igualmente.
O único a não falar nada era o homem mais alto e mais forte, de pele escura.
— E você? — Garry perguntou para ele, não obtendo nenhuma resposta. — Você é mudo?
A mulher de olhos castanhos se mostrou incomodada com a posição de Garry. Parecia não ter gostado nem um pouco dele.
Quando as portas do elevador se abriram, o grupo se deparou com vários degraus à sua frente. Subiram todos, mas Michael parou no último. Em cima deles havia uma pequena porta de aço, que também necessitava de uma chave para abrir, mas não seria problema.
Ao saírem dali, defrontaram-se com um galpão completamente vazio, chegando à conclusão de que aquela prisão era subterrânea.
— Para onde iremos? — A mulher de cabelos escuros perguntou.
Eles já se encontravam do lado de fora do galpão, e não faziam ideia de onde estavam, pois o lugar era bem remoto.
— Para um lugar seguro — o "nerd" disse.
— Existe tal lugar? — o homem com aquela grande arma em suas mãos perguntou.
— Sim. Eu consegui roubar um celular, então temos o GPS para nos guiar. Nós devemos ir agora — afirmou.
— Não... — Karen balbuciou.
A loira olhava para os lados. Havia outros galpões, não muitos, mas havia. E, deles, saíam outros presos, que provavelmente desfrutavam de alguma habilidade capaz de destruir aquelas portas enormes de aço sem precisar das chaves.
Cada vez saíam mais alguns. Eles corriam para longe dali. Ninguém queria ficar mais um segundo naquele inferno. Mas Karen não podia simplesmente ir. Ela não podia ir embora, pois o seu melhor amigo não estava lá. Ela não o via. Naquele momento, Max só aparecia nos tenebrosos pensamentos de Karen, a qual já não suportava mais ficar sem ele.
O peito da loira apertou. Havia guardas ao longe, os quais podiam ser avistados derrotando alguns dos que tentavam fugir. Aquela batalha se estendera para o lado de fora, e eles não poderiam mais ficar muito tempo ali.
— Karen... — Michael repousou sua mão sobre o ombro dela.
A loira com seu olhar de desespero virou para ele.
— Nós precisamos ir — ele disse.
Ela lembrou que Michael perdera alguém também, e que, embora fosse extremamente doloroso, eles teriam de ir embora.
— Max iria querer que você vivesse. Viva por ele — Michael disse.
Karen se desabou em lágrimas, sendo consolada pelo abraço do homem de olhos verdes à sua frente. Leon, mesmo sendo novo ali, claramente simpatizava com a situação. Garry, por outro lado, mostrava-se incomodado. O grupo, em seguida, decidiu ir embora. Karen, porém, só seguira por conta do pensamento embutido em sua mente de que veria Max mais uma vez.
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