Afterlife
4 Claire – Aflição
Quase não consegui abrir meus olhos. Estava extremamente cansada. Minha visão ainda embaçada e aquela luz fluorescente bem em cima de mim não me ajudava a descobrir que lugar era aquele.
— Oh, está acordada! — um homem disse alegremente.
Reconheci sua voz. Era um dos “médicos” que estavam fazendo experimentos comigo. Então era isso, eu ainda estava no mesmo local. Exatamente quanto tempo fazia que eu estava ali? Não sabia. Mas que já se passara horas e mais horas eu tinha certeza.
— Ainda não acabou? — indaguei, minha voz falha e rouca.
— Estamos quase terminando — ele respondeu.
— Daqui a pouco você ficará livre — Um dos assistentes disse. Ele passou sua mão em meu cabelo. Virei minha cabeça para o lado, tentando livrar-me de seu toque asqueroso.
— Há quanto tempo... — Engoli em seco. Tentei mais uma vez finalizar a frase — Há quanto tempo estou aqui? — perguntei finalmente.
— Em torno de 12 horas, querida — ele respondeu.
— 12 horas?! — Eu estava surpresa e espantada. — O que vocês estão fazendo...
Tentei erguer minha cabeça, mas não consegui. Minha visão começou a melhorar, e eu tentei erguer minha cabeça novamente. Foi quando eu vi minha cavidade torácica. Sim, meu tórax estava aberto.
Assustei-me imediatamente. Logo encostei minha cabeça de volta, enjoada e sem querer acreditar no que tinha visto. As mãos do “médico” estavam literalmente dentro de mim.
— O que está fazendo comigo?! — perguntei inteiramente abismada. Comecei a chorar. Aquilo só podia ser um pesadelo.
— Calma, querida — ele dizia pacificamente — Tudo ficará bem. Carlos, faça-a dormir novamente, por favor. E, desta vez, não a deixe muito tempo sem. Sua habilidade de cura a fará acordar rapidamente.
Eu chorava e gritava para que parassem. Até que colocaram a máscara anestésica em meu rosto, e eu apaguei dentro de pouquíssimos segundos.
Acordei-me de novo. Dessa vez, quase pulei de onde estava deitada ao ter uma visão de minha cavidade torácica passando em minha mente. Percebi que já estava curada, e suspirei forte. Provavelmente havia me curado ainda na outra sala, já que lá eles não restringem nossos poderes para que possam fazer seus experimentos.
Esfreguei meus olhos com força como se tentasse parar de me lembrar daquela cena horrível. Olhei ao meu redor, examinando o novo cômodo em que me encontrava. O local era completamente branco, do mais ofuscante possível. Minha cama, diferente da outra, era bem acolchoada, e o travesseiro bem estufado. Havia ar condicionado e uma televisão em cima de uma escrivaninha de metal. Franzi minha testa. Estava surpresa. Eu estava muito cansada, mas tudo fazia com que eu ficasse confortável.
“Meu deus” — pensei. Acabara de notar que havia um telefone ao lado da televisão. Antes que pudesse pensar na razão de aquilo estar ali, levantei-me da cama velozmente para ir até ele. Precisava ligar para casa.
A porta se abriu, e eu senti um calafrio. Virei de uma vez em direção à porta. Um homem entrou, e pude ver dois guardas do lado de fora. Ele era bem alto, parecia ter seus 50 anos, tinha cabelos grisalhos e vestia roupa social com terno. Veio até mim, e eu comecei a me afastar, obviamente temerosa.
— Oh, você não precisa ter medo — ele disse, parando de se mover — Não queremos machucá-la — Sorriu — Ninguém a machucou, não é? — perguntou, parecendo mostrar real interesse.
Eu realmente não fazia a mínima ideia de como reagir naquele momento. “Ele é o inimigo? O que ele quer? Ele verdadeiramente não quer me machucar?” foram todas as perguntas que fiz a mim mentalmente. Resolvi respondê-lo:
— Estão fazendo experimentos em mim.
— Não foi isso que perguntei. O que perguntei foi se te machucaram. Alguém a machucou?
— Não — respondi após alguns segundos.
— Ótimo — Ele sorriu, e não pareceu nada ter sido forçado.
— Na verdade... — retomei a falar — Um dos guardas me agredira — Eu não sabia no que aquilo iria dar, mas, de qualquer forma, não estava mentindo.
A feição do homem em minha frente ficou séria.
— Qual o nome dele? — perguntou.
— Havia “Mendez” na roupa — respondi.
Ele chamou um dos guardas, e eu já fiquei em alerta. O que ele iria fazer comigo? Adquiri a resposta logo em seguida: nada. Ele simplesmente disse “Mendez” para o guarda e este se foi, não mais ficando em seu posto do lado de fora do cômodo.
— O que ele foi fazer? — indaguei, curiosa e assustada.
— Não se preocupe — ele disse — Bom, meu nome é Jerry.
O homem estendeu a mão. Apenas olhei para ela e voltei para seus olhos. Não estava nem um pouco a fim de apertar a mão de ninguém ali.
— Por que estão fazendo isso comigo?! — perguntei, começando a ficar enraivada.
Ele sorriu, desviou seu olhar e recolheu sua mão. Poucos segundos depois, voltou a mim:
— Se precisar de qualquer coisa, é só discar 802 — Apontou para o telefone.
Franzi minha testa.
— O que foi? Você não pensou que pudesse ligar para fora daqui por aquele telefone, não é? — Ele riu.
Meu coração apertou. Comecei a sentir falta de ar. Obviamente não deixariam uma forma de eu me comunicar com o lado de fora, mas eu queria tanto acreditar que fosse possível... Eu não queria ficar ali por mais nenhum segundo.
— Bom, já percebi que você não gosta muito de falar. Vou deixá-la ficar sozinha — ele disse. — Foi bom conhecê-la.
A porta se fechou. Desabei-me em lágrimas. Minha cabeça doía muito. Fui até a cama, enfiei meu rosto no travesseiro e gritei com todas as forças que tinha.
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