Afterglow
1 i. meet me in the afterglow
Notas iniciais
eu sou a culpada, eu preciso dizer
ei, é tudo culpa minha, na minha cabeça
Fui eu quem nos incendiou
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Verão, 2025
Lily Luna Potter estava inquieta.
Sentada à mesa, em sua escrivaninha, ela tentava pintar um desenho com suas canetinhas coloridas, os fones de ouvindo abafando os ruídos do mundo exterior não lhe pareciam mais suficientes, uma vez que a música não estava mais sendo capaz de abafar a voz inquietante e impaciente de seus pensamentos, que insistiam em lembrá-la, que insistiam em aborrecê-la de seus erros constantes e de suas palavras erradas.
A raiva lhe borbulhou no estômago como uma presença constante e barulhenta, um ruído profundo em sua mente e seus ouvidos, fazendo o sangue correr muito quente em suas veias.
A ponta da canetinha afundou para dentro da embalagem, quando ela sem querer aplicou muita força contra o papel e ela respirou fundo, uma vez, duas vezes, três vezes, para ter certeza que não faria o quarto inteiro arder em chamas, agora que era maior de idade e poderia usar magia fora de Hogwarts.
Ela afastou a cadeira para trás, as rodinhas emitindo um ruído alto contra o chão, tirou os fones de ouvido e respirou fundo de novo, um som suave de pop a vez olhar para o canto superior da mesa, indicando que havia uma mensagem nova, Lily pegou o aparelho e rapidamente viu a mensagem de texto, ignorando todas as outras, de seus amigos, irmãos, primos e primas. Exceto por um.
hugo: ei, quer ir tomar sorvete hj?
Ela pensou por um momento.
eu: hj não vai dar, minha mãe está me atazanando para eu arrumar o quarto :/
desculpa
:(
Era mentira, uma vez que ela sempre mantinha o quarto arrumado, para manter Ginny fora de sua cola, mas Hugo não precisava saber sobre isso. Nem ele, nem ninguém. Acontecia apenas que Lily não queria conservar com ninguém, não queria ver ninguém. Parecia que todas as coisas ruins e que tinham que dar errado aconteceram nas últimas semanas de aulas e primeiras semanas de verão.
Ela deixou o aparelho de lado e pegou uma de suas canetinhas coloridas, a rosa e a lilás, aquelas em que as pontas ainda não tinham sido afundadas. Voltou a pintar em sua confusão de sentimentos e raiva. Meia hora depois, ela ouviu uma batida à porta, não se virou, apenas continuou a pintar, ignorando o mundo que se isso fosse, de alguma forma, resolver seus problemas.
— Estou entrando — anunciou a voz suave de Albus, quando a porta rangeu, ao ser aberta.
Ela conteve um revirar de olhos.
Albus se aproximou a passos lentos e cautelosos, atravessando o quarto. Ele parou atrás da cadeira dela, olhando por cima do ombro de Lily, e ela se esforçou para não olhar para trás.
— Está bonito — murmurou ele. Lily estava pintando um céu, em tons de amarelo suave, azul, rosa e lilás, com um pouco de laranja ao fundo, um pôr do sol quase romântico.
— Obrigada — respondeu, pintando com mais força.
Albus ficou em silêncio por um momento, como se estivesse avaliando suas opções e pensando a respeito do que dizer.
— Trouxe um bolinho para você, é de morango, eu e James tentamos fazer nós mesmos mas… quase destruímos a cozinha, então compramos um na padaria da esquina mesmo.
Lily riu pelo nariz, sarcasticamente. James Sirius e Albus era um desastre em tudo o que tentavam cozinhar, mas ela sempre admirou o esforço de ambos para melhorar isso, mesmo que fosse um esforço inútil. Nenhum deles havia herdado os dotes culinários de seu pai, Harry, e nunca aprenderam a cozinhar bem como Teddy.
Albus deixou o prato em cima da mesa e ela se inclinou, pegando o garfo e colocando um pouco de chantilly na boca.
— Gostoso. Admiro o esforço de vocês de atravessar uma rua para comprar um bolo.
Ela não viu, mas sentiu Albus sorrir.
— Era um esforço muito grande.
Ela riu sarcasticamente mais uma vez.
— James e eu estávamos pensando em sair para comer um hambúrguer hoje a noite, queríamos saber se você gostaria de vir junto.
Lily segurou a canetinha com um pouco mais de força na mão.
— É um encontro duplo de casais? — quis ela saber, pois com certeza ela não queria ser a maldita vela para James Sirius e sua namorada e nem a maldita vela para Albus e seu namorado.
Talvez, em outra situação, em outro momento, se não estivesse de coração partido por suas próprias ações e escolhas, Lily teria aceitado de bom grado ser a vela de James Sirius e Albus, mas não seria naquela noite.
Ela afastou a imagem de cabelos loiros e olhos castanhos para longe de sua mente, a imagem dela, de sua mente. A imagem de Amy Bulstrode para longe.
Voltou a pintar rapidamente.
— Não, não é — respondeu Albus, e Lily assentiu uma vez, pensativa — Nós só queríamos sair para comer.
— Vou considerar.
Albus suspirou alto e se afastou, se sentando na cama dela, a olhando como se fosse algum bicho de sete cabeças. Ela não lhe deu atenção.
— Qual é, Lily, você precisa superar esse lance de ter perdido a Taça das Casas e a final do campeonato de Quadribol. Você ainda tem um ano pela frente, não é como se fosse o maldito fim do mundo.
Lily respirou fundo.
— Havia olheiros das Holyhead Harpies no último jogo que a Grifinória perdeu para a Sonserina, eles me viram errar a goles, várias e várias vezes! Como você diz que isso não é o fim do mundo?
Albus suspirou de novo, alto, o ruído ecoando pelo quarto.
— Porque não é.
Lily virou-se, encarando-o com incredulidade. Albus deu de ombros, daquele jeito desleixado que sempre a irritava, daquele jeito que Albus sempre agia como se sua opinião fosse a única que importasse. Sentiu a raiva borbulhando e a conteve. Porque, no final das contas, Lily não queria descontar suas frustrações no irmão, ou em qualquer outra pessoa.
— Simplesmente não é, Lily. Ainda vai ter outros olheiros no último ano, e vai ter outros jogos…
— Não olheiros das Harpies.
— … talvez sim, talvez não — Albus deu de ombros, como se pouco lhe importasse, talvez porque pouco lhe importava mesmo — e, em todo caso, sempre vai haver outros olheiros, outros times de quadribol, outras coisas. Não precisa seguir esse caminho só porque é o que a mamãe fez, ou porque James fez. Sabia?
Ela franziu a sobrancelha, olhando-o, ambos tinham os mesmos olhos verdes do pai e as mesmas sardas da mãe, mas era inegável que Albus era a cópia do pai e Lily a cópia da mãe. Ela afastou os longos cabelos ruivos para longe do rosto e se virou de volta às suas canetinhas coloridas e seus desenhos para pintar, enquanto fingia que nada a abalava. Albus suspirou alto, mais uma vez.
— Vai ter que superar isso em algum momento.
Menos de dois minutos depois, sem lhe dar uma última atenção, Lily ouviu o ranger da porta quando Albus saiu.
Não era apenas o maldito campeonato de quabribol, não era a maldita Taça Das Casas. Era tudo. O sentimento que Lily sentia, que, se não tivesse quadribol não teria mais nada, era o sentimento profundo e intenso que Lily sentia por sua melhor amiga, uma paixão que poderia destruir a amizade delas, era o que Lily sentia sobre ser uma jogadora lésbica de quabridol, se aquilo faria uma diferença significativa na liga quando entrasse, se viria a entrar. Era a sensação que Lily sentia por achar que havia destruído a amizade com Amy, por lhe dizer que beijá-la foi um erro, quando sabia que não foi.
Lily sentia que tudo o que tentava fazer ultimamente era errado. Sentia como se fosse um maldito peso no mundo, alguém cujo qual não conseguia fazer absolutamente nada com precisão. Alguém que atrapalhava mais do que ajudava, alguém que vivia à sombra dos irmãos e que não era boa em mais nada que não fosse o maldito quabribol.
Era tudo aquilo.
Ela continuou a pintar, tentando abafar os ruídos de sua mente, os tons coloridos sendo sua única atenção, a luz do sol emoldurando seus cabelos cor de fogo.
Ela ignorou o resto do mundo e continuou a pintar.
E não saiu naquela noite com James Sirius e Albus.
{...}
Amy era uma artista. A menina desenhava muito bem, sabia equilibrar os traços finos e grossos do lápis em seus desenhos de flores, de paisagens e de Lily também.
Havia uma quantidade significativa de desenhos de Lily que Amy desenhava para ela e uma quantidade que Lily possuía. Demorou a perceber o que sentia por Amy, por negação ou por não compreender o sentimento, ela jamais saberia dizer, mas lembrava-se com precisão de quando percebeu. Era uma tarde livre que as meninas tinham no quarto ano, então elas ficaram no jardim de Hogwarts, um canto afastado que tinha uma visão relativamente boa do Lago Negros e das flores que pontilhavam o gramado, Amy gostava de desenha-las e Lily gostava de observá-la.
Lily estava jogada na grama verde, os cabelos espalhados por todos os lados, então ela olhou para Amy, sentada ao seu lado, quando um vento forte lhe açoitou o rosto, fazendo os cabelos loiros voarem para todos os lados, os lábios avermelhados pressionados em uma linha fina, como ela sempre fazia quando estava pensando demais.
E os olhos. Aqueles olhos castanhos claros, que viravam chocolate derretido sob o sol, que assombravam seus sonhos mais loucos e selvagens, que lhe davam vontade de lutar em guerras e escrever sonetos de amor.
“O que foi?” lhe perguntou Amy, curiosa, a olhando.
Lily abafou a sensação de seu estômago revirando e sorriu para ela,
“Nada” disse.
Então ela percebeu. Porque por mais que outras garotas lhe causasse frio na barriga e seus sorrisos doces a fizessem fantasiar com histórias de amor, Lily só tinha olhos para Amy, a olhava que era única, que a olhava com admiração, que a olhava com uma paixão intensa e fogosa.
Que sempre pareceu lhe amar.
Amy sempre foi a única. Mesmo que tenha demorado a perceber.
Era o que Lily repetia para si mesma, enquanto olhava para os diversos desenhos que Amy fez dela, com os olhos verdes, os longos cabelos ruivos e as sardas, várias e várias e várias vezes em aquarela, em giz, em lápis de colorir, com canetinha, em tinta a óleo, em carvão. Passou um por um, sentindo a textura sob seus dedos e as cores brilhantes, em como ela a amava, em como demonstrou em todos aqueles anos de formas tão sutis e discretas.
Lily sempre soube que era lésbica e aquilo quase não a assustava, uma vez que os garotos jamais chamaram sua atenção, claro, era possuía olhos, poderia diferenciar beleza e traços em rostos masculinos, do que achava bonito e do que não achava. Mas sabia que traços masculinos jamais iam despertar algo nela.
Como Scorpius despertava algo em Rose.
Como Luke despertava algo em Roxanne.
Como Rhavi despertava algo em Dominique.
Como Alexander despertava algo em Albus.
Ela, porém, apesar de ser a única de suas primas a ser lésbica, Lily sabia que Molly II era bissexual e isso fez alguma diferença, porque ela entendia em como Alice despertava algo em Molly II.
E fez todo o sentido do mundo, porque Amy despertava algo em Lily. Aquele sentimento de querer lutar em batalhas, destruir mundos e incinerar continentes, romper padrões e quebrar estigmas pela pessoa que gostava, Amy era assim para Lily, alguém cujo qual a fazia querer escrever poemas de amor e escrever músicas belas e sensuais.
Alguém que Lily amava.
“Isso foi um erro”
Foi o que Lily disse a Amy, na noite em que elas se beijaram, uma noite que ela ficou perambulando pelos corredores pensando no erro que cometeu e como era uma tola, quando foi pega e perdeu cinquenta pontos da Grifinória, uma noite antes do jogo, no qual errou todos os pontos, no qual perdeu Amy.
E, agora, mergulhada no vazio que sentia no peito, quando parou para de fato pensar, perder Amy foi a única coisa que realmente lhe doeu.
Guardou os desenhos de volta na caixa e sentiu algo estilhaçar no lugar em que ficava seu coração.
{...}
Lily Luna queria conversar mas não sabia como pedir. Não é que ela não conversasse com James Sirius e Albus, conversava e sempre gostou da relação próxima que eles mantinham, a questão, porém, era admitir que estivesse errada. A vergonha inundava seu estômago como um mar revolto e descontrolado, tudo de remexia de forma desequilibrada e maluca. Para Lily admitir erros sempre foi considerado vergonha, não apenas por admitir que estava suscetível a falhar mas também ter que ser obrigada a ouvir um sermão, um conjunto de argumentos que queriam provar o quanto terrivelmente tola fora e, principalmente, de ver o olhar de julgamento direcionado a si. Sempre lhe causou uma péssima sensação.
Isso, porém, não eram motivos o bastante para Lily desistir de conversar.
Ela puxou o aparelho do bolso que estava e digitou rapidamente o nome da prima, Lily pensou muito sobre aquilo e queria conversar com alguém que entendesse, que tivesse empatia e que se importasse. James Sirius e Albus certamente se importavam, mas com certeza não entendiam.
ei, você está em casa hoje?
A resposta veio em menos de cinco minutos.
molly: estou vendo filme, mas estou sim, pq?
Ela hesitou, pensando se era aquilo mesmo que queria fazer, expressar o que sentia e como se sentia sempre havia sido excepcionalmente difícil para Lily Luna, não é como se ela e Molly fossem de fato muito próximas. A verdade era que ela queria falar com Amy, mas com certeza não queria ter que conversar com Amy sobre Amy. Então mudou de ideia.
queria saber se posso passar aí, queria conversar
com luca?
não, com você
Os três pontinhos surgiram na tela por um instante antes de desaparecerem e depois voltarem a reaparecer.
tudo bem
Lily colocou os tênis nos pés e pegou sua jaqueta jeans antes de deixar o quarto.
{...}
Ginny estava na cozinha colocando alguns utensílios na gaveta, Lily aproximou-se devagar da mãe, observando-a. Ginny tinha longos cabelos ruivos, muito parecidos com os seus, sardas e olhos castanhos, Lily porém, tinha os olhos verdes do pai.
— Posso ir a casa de Molly? Ela está vendo filme.
Ginny ergueu a vista para a filha, havia uma mecha de cabelo branco caindo sobre seus olhos que afastou rapidamente.
— Seus tios estão lá?
Lily deu de ombros.
— Devem estar.
Ela a olhou por um momento antes de assentir.
— Juízo, volte cedo se for de bicicleta.
Lily sorriu saindo da cozinha.
— Valeu, mãe.
Ela caminhou rapidamente pelo corredor em direção à porta dos fundos. Os Potter moravam em um pitoresco vilarejo no interior da Inglaterra, Bibury, com muitas planícies, bosques, rios e lagos, padarias e pequenos restaurantes, longe da vida movimentada e agitada das cidades grandes e, por coincidência, ou talvez não, também era onde seu tio Percy e tio Ron moravam com a família, o que facilitava a comunicação.
E também era onde Amy morava. Foi assim que Lily e ela se conheceram. Ambas eram crianças e gostavam de andar de bicicleta nos caminhos de terra e areia durante as tardes, gostavam de rolar nas planícies verdes e com flores, tomavam sorvete durante as noites quentes de verão e davam voltas e mais voltas em lojas de tintas e livrarias. Amy, a quem Lily sobre podia recorrer, sua melhor amiga e anos mais tarde algo a mais.
Ela pegou a bicicleta que estava encostada no canto da casa e seguiu em direção à cerca branca, abriu a portinha e passou fechando-a atrás de si, rapidamente subiu e pedalando depressa pela rua. Seu tio Ron morava perto de uma floricultura na rua de baixo, onde havia várias casas enfileiradas, seu tio Percy, porém, morava perto de uma padaria que tinha excelentes cookies e pães doces, e ali havia uma livraria onde Lily e Amy gostavam comprar livros.
Os cabelos longos e ruivos de Lily flutuavam em várias direções enquanto o vento açoitava seu rosto, o cheiro de pão recém assado preenchia o ar, avisando-a que estava se aproximando, o sol esquentava sua pele e fazia Lily refletir quanto amava aquele vilarejo trouxa no meio do nada.
Apesar de James Sirius e Albus almejarem vidas grandiosas em cidades grandes, Lily Luna sempre esteve satisfeita em morar em Bibury, gostava do silêncio e das planícies.
Ela desacelerou a bicicleta e a deixou encostada no pequeno muro de pedra coberto por hera, abriu o portão de madeira escura e entrou na propriedade dos tios, a casa era grande e antiga, havia um jardim de flores e outras plantas as quais Lily não conhecia, ela se aproximou da porta e bateu três vezes, momentos depois Molly surgiu, os longos cabelos lisos e ruivos caindo pelos ombros, a franja rente às sobrancelhas. Os olhos azuis cinzentos de bordas prateadas da prima a observaram com atenção.
Molly tinha a mesma idade de Roxanne e Dominique, cresceram juntas e estudaram juntas e sempre tinham planos juntas e sempre pareceu estranho para Lily ver o quanto a prima era diferente de si, talvez por ser mais velha ou por possuir outros interesses, quando crianças Lily gostava de correr pelos jardins da avó com os meninos e Molly gostava de cuidar das flores com a irmã caçula.
Naquele momento, porém, Lily Luna Potter sentia que ela e Molly Weasley eram iguais.
— Oi, você veio mesmo — Molly disse, surpresa, dando espaço para Lily entrar na casa.
— Duvidou de mim?
Molly deu de ombros, fechando a porta.
— Fiquei surpresa, só isso, sei lá, você geralmente só quer saber de Rose e Luca — ela riu.
Lily sorriu de um jeito enviesado e nada disse, era de fato mais próxima das outras duas primas, já que possuíam apenas dois anos de diferença de idade. Os três anos que a separam de Molly sempre lhe pareceram maiores.
—Então, e aí? — perguntou ela seguindo em direção a sala de estar.
Lily a seguiu, admirando a casa, possui várias pinturas e outros quadros, fotografias do tio Percy com seus irmãos, uma em que estava apenas ele e Ginny, e outra, que estava apenas ele e a esposa, então eles e os filhos. Havia mais e mais fotografias as quais Lily Luna não conseguia contar. Molly se sentou no sofá e esperou, Lily sentou na frente dela.
Ficou olhando para os sapatos por um momento antes de falar algo.
— O que você fez quando percebeu que gostava da Alice?
Molly a olhou surpresa, erguendo as sobrancelhas e afastando o cabelo do rosto.
— Eu… bem, eu disse isso a ela.
— E foi… fácil?
— Bem, não.
Lily olhou para Molly, que também ficou a olhando com atenção. Lily remexeu as pernas e umedeceu os lábios, pensando em como aquilo era constrangedor e, apesar disso, ainda era algo que queria falar sobre.
— Não sei se estou entendendo muito bem o que exatamente estamos conversando — confessou Molly, olhando com a cabeça inclinada.
Lily olhou para os muitos anéis que usava nos dedos.
— Eu sou lésbica.
— Ah, bem, e eu sou a primeira pessoa a quem você diz isso?
— Não. Não é disso que eu quero falar.
— Tudo bem.
Molly abraçou os joelhos e esperou.
— Eu disse a coisa errada a uma menina que eu gosto, e agora eu não sei como consertar — confessou Lily, erguendo o olhos, Molly assentiu, os dedos entrelaçados nos joelhos — Nos beijamos e eu disse que havia sido um erro, mas não foi, descontei minha raiva nela depois do jogo da Grifinória.
Ela assentiu uma vez.
— Você deveria tentar esclarecer as coisas com ela, dizer que errou e não quis dizer o que realmente disse, falar a verdade sobre seus sentimentos.
Lily hesitou, pressionando os lábios um contra o outro.
— E se ela não me perdoar?
Molly umedeceu os lábios e tirou as mãos dos joelhos.
— Se ela gostar mesmo de você ela vai, se não, bem, podemos falar sobre isso depois, mas tente primeiro conversar com ela pessoalmente sobre.
— Mas isso não é fácil, Molly.
— Eu sei, comigo e com a Alice também não foi, fiquei pensando em como eu tinha medo da rejeição, mas percebi que o não eu já tinha e o máximo que podia acontecer era um sim — disse Molly, os olhos suaves e as palavras tranquilas — Eu… tinha muito medo do julgamento também, tinha medo do que os meus pais iam achar, apesar de eu saber no fundo que eles não iam se importar muito. Era só… todo resto.
Lily encolheu os ombros e remexeu os dedos.
— Acho que meus pais não se importam…
— Com certeza eles não se importam…
— … mas eu… bem, eu gostaria de jogar profissionalmente nas Holyhead Harpies e eu sei que ser uma jogadora lésbica dificulta as coisas — ela riu sem humor.
— Ser uma jogadora já é diferente e difícil.
Lily piscou e nada disse, continuou a olhar para seus anéis em silêncio. Lily Luna gostava de jogar Quadribol porque era fácil, gostava de andar de bicicleta porque era fácil e gostar de mulheres não era exatamente fácil. Para Lily o extraordinário sempre lhe pareceu muito pesado e difícil, pertencia a coisas que não lhe faziam sentido e exigia sacrifícios que não gostava de fazer. O simples e comum sempre lhe agradaram, e ela nunca gostou de falhar no comum e no simples pois até mesmo isso exigia esforço. Ela não era como James Sirius e Albus, sempre buscando o extraordinário, sempre querendo o que não podiam ter. E ela gostava de Amy porque era fácil amá-la, Amy que sempre a viu como era sem facetas ou máscaras, que nunca precisou ser quem não era, não precisou fingir ou mentir.
— Eu acho que independente de dar certo ou de dar errado, Lily, as coisas vão ser mais difíceis, mas isso não quer dizer que são impossíveis, ou erradas, ou menos importantes — Molly inclinou a cabeça para o lado.
— E se o Quadribol não der certo? — perguntou em tom baixo, sem olhá-la, mas imaginou que ela tivesse dado de ombros.
— E se não der? E se der certo? Você não deveria se limitar aos “e se 's”, mas, se der errado, existem outras coisas na vida, outras coisas e profissões. Não seria o fim do mundo.
Lily riu, em tom baixo.
— Foi o que Albus me disse.
— Ele está certo.
Lily Luna ergueu os olhos para a prima, a vendo olhar com curiosidade, as expressões suaves e os ombros relaxados, os olhos azuis cinzentos de bordas prateadas brilhantes.
— Obrigada, Molly. Por me entender, por se importar.
— Nós mulheres sáficas devemos nos unir.
Molly sorriu e Lily Luna sorriu de volta.
{...}
Lily Luna nunca sentiu vergonha de quem era, de quem era e de como agia, mas ela sempre sentiu vergonha de cometer erros, de falhar e dizer as coisas erradas em momentos inconvenientes. Para Lily Luna, uma pessoa que o extraordinário sempre lhe pareceu muito pesado e difícil de ser executado, cometer erros e falhas no simples sempre pareceu que não era capaz de realizar algo com precisão.
E, no entanto, era isso que havia feito com Amy, havia errado e teria que consertar. Por isso ela remexia os pés de forma inquieta no chão de madeira, na varanda da casa de Amy. O sol aquecendo suas costas e o vento açoitando seus cabelos.
Ela hesitou, quem sempre amou o simples ser capaz de executá-lo sempre lhe pareceu uma questão profunda de incompetência. E Lily não gostava de se sentir incompetente.
Por fim, bateu à porta e esperou. Um grupo de crianças passou correndo pela rua, gritando e agitando pipas e bambolês. Momentos depois quem abriu a porta foi a sra. Bulstrode, os cabelos claros presos em um coque e um pano de prato nas mãos, um sorriso caloroso rapidamente emoldurou seu rosto.
— Lily, como é bom te ver! Boas férias? Não te vi por aqui antes.
Lily colocou seu melhor sorriso educado no rosto e aprumou as costas.
— Muito boas! Por isso não aparece antes, a Amy está? — ela ficou na ponta dos pés para tentar olhar para dentro da casa, procurando por mais alguém.
— Amélia! Lily está aqui! — gritou a sra. Bulstrode. Uma sombra se agitou lá atrás, se levantando do sofá e se aproximando.
Lily perdeu o fôlego. Amy estava com os cabelos loiros presos em um coque frouxo, usava um short com bordados de margaridas e uma blusa de alcinha, simples e leve. Em seu rosto, porém, as expressões eram indiferentes, como se sequer conhecesse a garota à sua frente. Lily suponha que merecia, afinal.
— Vou voltar à cozinha, coloquei uma torta de maçã no forno — dito isso a senhora Bulstrode voltou para dentro da casa, deixando as duas sozinhas na varanda.
Elas ficaram em silêncio por alguns minutos, Lily que não sabia exatamente o que dizer e tinha medo de piorar tudo, e Amy, que não se deu ao trabalho de dizer nada. Lily chutou uma pedrinha que estava na varanda com a ponta do tênis e remexeu nos anéis em seus dedos, pensado em como dizer tudo o que queria dizer, por fim, decidiu apenas ser honesta.
— Hm… oi.
Amy a olhou atentamente para Lily, tirando mechas do cabelo claro para longe dos olhos.
— Oi — respondeu Amy suavemente.
Lily suspirou e coçou a testa.
— Amy… eu, bem, eu gostaria de conversar com você, sobre o que aconteceu depois do jogo de Quadribol. Eu… Eu vim me desculpar.
Amy reprimiu os lábios e coçou o nariz, as expressões indecifráveis.
— Aqui, não. Podemos andar de bicicleta, talvez e conversar em uma das planícies como fazíamos? — murmurou ela, soando muito mais como uma pergunta do que uma afirmação, mas Lily confirmou mesmo assim, balançando a cabeça.
— Claro!
— Vou colocar meus sapatos.
Amy entrou na casa mais uma vez, a porta ficou entreaberta e Lily aguardou do lado de fora, achando que seria má educação de sua parte entrar na casa de Amy sem convite, então ela esperou. Amy reapareceu cinco minutos depois, com tênis nos pés enquanto se despedia da mãe. Ambas levaram as bicicletas até a rua e subiram rapidamente, pedalando pelas ruas calmas e vazias de Bibury.
Vento balançava seus cabelos e o sol da tarde aquecia seu rosto, era como nos velhos tempos, ela e Amy pedalando pela cidade durante as tardes de verão depois de comprar pães doces e cookies na padaria.
— Quer apostar corrida? — gritou Lily Luna contra o vento.
Amy a olhou séria, revirou os olhos e se pôs a pedalar mais rápido, deixando Lily para trás.
— Me diga qual o sabor da poeira, Potter! — gritou ela por sobre o ombro, se distanciando.
Lily sorriu e pedalou mais rápido, o coração martelando no peito. Quando alcançou Amy ela sorriu, vendo os fios loiros esvoaçarem quando o coque se desfez, Amy sorria e Lily gargalhou contra o vento. Pedalaram rápido e por mais dez minutos, quando saíram do vilarejo diminuíram a velocidade desacelerando conforme se aproximavam das ruas de terra com árvores. Pararam em uma planície perto do rio, o som da água ecoando no vento.
— Foi divertido — disse Lily se jogando na grama, seus cabelos úmidos de suor, as bochechas coradas e um sorriso largo pintava seus lábios.
— Foi mesmo — sentou-se na grama Amy, prendendo novamente seus cabelos em um coque, igualmente sorrindo.
Por um momento Lily Luna se esqueceu de tudo o que queria se desculpar e pensou apenas em como amava Amy, como amiga e como mulher. Ela se apoiou nos cotovelos, mordendo a parte interna da bochecha e se sentou na grama, olhando para ela.
— Amy… eu… quero me desculpar, por todas as merdas que eu te falei na noite que a Grifinória perdeu o campeonato de Quadribol, fui uma estúpida e uma idiota — disse Lily, olhando-a atentamente, Amy estava com uma sobrancelha levantada, de um jeito muito discreto e sutil, do jeito que ela fazia quando estava concentrada, pressionava os lábios um no outro, prosseguiu — E eu… me arrependo, descontei minha raiva em você enquanto você só queria me apoiar, fui uma tonta e não pensei em seus sentimentos, me perdoe Amy, te beijar não foi um erro, na verdade parece ser a única coisa certa em minha vida. Não queria que você se sentisse indesejada.
Amy a olhou atentamente por mais alguns segundos, antes de desviar o olhar para os próprios tênis e suspirar.
— Por muito tempo eu me sentia indesejada por todos. Pelo meu pai que foi embora, pelos meus avós que não se importam como nada além do sobrenome, e às vezes pelos alunos de Hogwarts também, meu sobrenome não é… bem visto e eu gosto do jeito que você é a única que parece não se importar — Amy suspirou, umedecendo os lábios, uma mecha de cabelo loiro saindo para fora do coque — Achei que eu tivesse forçado muito a barra naquela noite, que eu tivesse destruído nossa amizade, que você não se sentia da mesma forma, Lily, reconheço que foi um momento inadequado.
Lily se inclinou para mais perto dela, os braços se tocando suavemente, Lily inclinou seus dedos da mão esquerda, tocando suavemente nos dedos da mão dela. Seu coração deu um salto, o som das batidas retumbante em seus ouvidos.
— Tudo bem, me desculpe também por descontar minha raiva em você, foi infantil da minha parte.
Amy viu, umedecendo os lábios, chegando mais perto do rosto de Lily.
— E quando você não é infantil, Potter? — sussurrou.
Lily assentiu.
— De fato.
Ergueu a mão e afastou os fios loiros para longe do rosto dela e depois desfez o coque, deixando os fios esvoaçarem pelo vento.
— Sempre gostei de seu cabelo solto.
— Que bom, Potter — Amy se inclinou para mais perto até que seus lábios estivessem se roçando, dessa vez, porém, quem a beijou foi Lily. Sentiu o sabor do gloss de morango dela, do jeito floral e levemente cítrico de bergamota, segurou as bochechas dela com as mãos, acariciando a pele macia.
Lily estava no paraíso, em seus sonhos mais loucos e selvagens com sua melhor amiga que era muito mais que sua melhor amiga. O resto do mundo não existiu, nem o Holyhead Harpies, nem as coisas difíceis, nem como perdeu o jogo de Quadribol, a taça das casas ou qualquer outra coisa assim, porque Lily Luna estava beijando Amy Bulstrode e foi só o que importou.
— Gosto de você, Amy, mais do que amiga, você me faz sentir vista e amada, quero ficar com você — confessou Lily em um só fôlego, segurando as mãos dela, que sorria, as bochechas coradas.
— Eu também gosto de você, Lily, quero ficar com você — Amy se inclinou e beijou ela mais uma vez, enquanto acariciava suas mãos e Lily seu rosto.
Lily Luna Potter sempre gostou de coisas fáceis e simples e amar Amy Bulstrode sempre foi fácil.
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