After the pain
26 Tempestade
Não fomos muito bem sucedidas na nossa missão de procurar emprego. Mas também não ia desistir assim sem dar luta ao azar.
– Bem... podemos não ter conseguido hoje, mas de certeza que amanhã vão chover empregos. — Digo eu virando-me para trás e encarando uma Lyla exausta e desiludida. Tínhamos andado alguns quarteirões e estava escuro. O céu ameaçava deixar a qualquer momento cair uma forte chuvada em cima de nós.
– Nop, parece que vai chover só água mesmo. — responde Lyla.
O meu telemóvel toca.
Ligação On
– Sim mãe?
– Onde estás Riley? Gostava muito de saber o que andas a fazer na rua a estas horas? — pergunta a minha mãe misturando preocupação e um sermão.
– Podemos falar disso quando chegar a casa?
– Sim, mas não penses que te escapas. Na televisão diz que vai chover bastante anda para casa depressa.
– OK! Xau!
Ligação Off
Olhei para o céu e realmente parecia que ela vinha aí. Parece que o inverno em Nova York era bem ... Inverno.
– É melhor corrermos ou vamos apanhar uma molha daquelas... — digo eu começando a correr.
– Vamos! — concorda Lyla vindo logo atrás de mim.
Começamos a nossa corrida e só paramos quando chegamos à paragem do autocarro. Lyla saiu primeiro que eu. Depressa desapareceu no meio da escuridão daquela noite chuvosa e fria. Do nada senti um arrepio... não sei se foi de frio ou outra coisa qualquer. Às vezes sentia que algo estava a faltar como se houvesse um espaço vazio dentro de mim. E o estranho é que toda a vez que eu o sentia preenchido era quando ... não, não posso pensar que e o Andrew que preenche esse espaço. Sacudi a cabeça afastando esse pensamento. Lá fora chovia de uma maneira furiosa. Assim que avistei a paragem comecei a preparar-me. Coloquei o capuz e fechei o casaco. Apertei a minha mala contra mim e assim que o autocarro parou contei até três e desatei a correr. Depressa senti as minhas roupas encharcadas e o cabelo húmido.
Assim que me encontrei no interior do prédio senti-me aliviada. Lá fora estava realmente mau tempo. Assim que entrei em casa uns olhos reprovadores me observavam.
– Que lindo estado Riley! — diz a minha mãe irónica.
– Eu sei... — disse tirando o carapuço e pousando as chaves na tacinha das chaves numa mesa no hall de entrada.
– Vai tomar um banho antes que adoeças. Falamos quando desceres. — falou sem deixar espaço para oposições.
– OK — disse subindo as escadas para o meu quarto. Liguei a Lyla a perguntar se já estava em casa e ao contrário de mim já tinha o seu banho tomado. Desliguei e fui tomar o meu. Não queria arriscar ficar doente outra vez... ainda me lembrava da última vez, a maneira como Andrew me ajudou e... não! Tenho que afastar estes pensamentos da minha cabeça!
Assim que vesti o meu pijama seco e quentinho senti-me muito melhor. Desci para explicar a minha mãe as coisas antes que ela se pusesse a viajar pela sua mente de possibilidades e pensasse que se tratasse de uma coisa mais grave do que realmente era.
– Estou à espera das minhas explicações. — diz ela batendo com o pé impacientemente no chão. Ainda bem que a minha tia não estava com ela porque não conseguiria enfrentar aquela dupla sozinha.
– Eu e a Lyla fomos procurar um partime. — disse de supetão.
– Para quem?- perguntou como se a resposta não fosse óbvia.
– Para nós claro! — respondo pois era a coisa mais óbvia.
– Assim sem me perguntares primeiro? Porque essa decisão agora?
– O pai da Lyla foi despedido e eles estão com alguns problemas e a Lyla quer ajudar e eu pensei que podia fazer o mesmo contigo.
– Eu não sei se é boa ideia.. Quero dizer não somos ricas mas o dinheiro que eu ganho e com a ajuda da tua tia é suficiente para as despesas.
– Mas eu quero ajudar e assim sempre tenho mais algum para extras e para mim. — disse tentando convencê-la.
– Tudo bem mas se baixares nas notas acabou-se. — disse dando este assunto como encerrado por agora.
–OK! Feito!- disse apertando a mão da minha mãe como se fosse um negócio — Depois ligo ao meu advogado para assinar-mos o contrato e fica tudo pronto para a transação comercial — digo seria parecendo mesmo um negócio.
A minha mãe gargalhou.
– Só tu! — diz ela saindo a rir-se.
– A propósito, belo fato para uma mulher de negócios — disse a minha tia saindo da cozinha e piscando para a minha mãe. Olho para a minha roupa e percebo que estou com um pijama laranja com ovelhas e bonequinhos fofos. Caímos as três na risota.
Fomos jantar.
A chuva batia nas janelas com uma raiva admirável parece que um dos santos da em cima esqueceu-se de uma torneira aberta.
Deitei-me a ouvi-la a cair e soube bem porque adormeci quase instantaneamente. Acordei e o temporal não parecia ter abrandado mas sim piorado. Agora a chuva era acompanhada por um vento forte que era capaz de fazer uma pessoa magrinha levantar voo!
Levantei-me e arranjei-me para mais um dia de escola tal como faço nos outros dias, mas hoje diferentemente dos outros dias depois da escola em vez de vir para casa ia novamente procurar um trabalho.
O dia de escola hoje, por mais incrível que pareça, passou rapidamente. Devia ser pelo facto de estar ansiosa de ir à busca de emprego.
Lyla e eu decidimos ir a um café lanchar e aproveitávamos para procurar se havia algum anúncio de emprego num jornal. Ainda estava a chover a potes e sorte a nossa que tínhamos guarda-chuvas para nos abrigar deste maldito temporal.
Ao chegarmos ao café, a cara de Lyla iluminou-se de maneira que encandeava mais luz que o sol hoje, isto devido a encontrar um cartaz na janela desse mesmo café a dizer que se precisava de empregado para servir às mesas ou ao balcão. Entramos e Lyla pegou no cartaz e foi falar com o empregado que estava ao balcão.
– Boa tarde! — ela dirigiu-se a ele — onde posso saber mais sobre esta oferta de trabalho?
– Olá! Eu vou chamar o meu chefe e podes falar com ele. — diz ele de forma simpática e saiu do balcão e começou a andar em direção a umas escadas que provavelmente o levariam até ao chefe — Moça, olha pelo balcão enquanto eu vou chamar o chefe. Serve já de treino — diz ele virando para Lyla e pisca-lhe o olho antes de sair. Olho para Lyla e reparo que ela estava corada.
Sentamo-nos nos bancos do balcão e conversamos sobre temas aleatórios até que eu a provoquei:
– Então... parece que o empregado jeitoso achou-te piada — digo enquanto a cutuco no ombro e ela cora novamente. Ela não estava habituada a que os rapazes lhe dessem muita atenção, não que ela não fosse uma rapariga bonita que até o era, mas porque Jenny já a tinha humilhado diversas vezes.
–Coitado, estava só a ser simpático comigo! — responde ela tentando defender o rapaz.
– Hum... não me parece. Quando quero ser simpático não costumo piscar o olho à outra pessoa!
– Mas isso és tu... ele provavelmente só fez isso porque acha que eu não vou conseguir a vaga.
– Oh! Não penses assim. Se eles recusarem só ficam a perder! Só com a tua boa disposição eras capaz de atrair as pessoas até este café ficando cheio e... — a nossa conversa é interrompida quando o jovem empregado volta.
– Ele está à tua espera lá em cima — diz ele dirigindo-se a Lyla. Ela levanta-se e eu ponho a minha mão em seu braço e aperto-o levemente para lhe demonstrar que estava com ela — Boa sorte moça! — diz ele repetindo o mesmo gesto que eu só que agarrando-a no ombro. Lyla sobe as escadas e agora o empregado dirige-se a mim — Ela vai safar-se lindamente. O chefe é um homem simpático e estamos mesmo a precisar de ajuda por aqui que isto tem andado muito cheio.
– Eu também acredito que ela consiga o emprego! — olho pela janela e reparo que há uma livraria em frente ao café. Quando olho em frente o rapaz já não se encontrava lá mas sim no balcão a limpar copos — olha, eu vou até à livraria que está do outro lado da rua. Quando a Lyla acabar avisa-a que estou lá.
– Ok, eu aviso. — neste momento reparo que tinha revelado o nome dela, espero que ela não se importe principalmente porque se ela ganhar o trabalho ele terá de saber o seu nome visto que serão colegas de trabalho.
Saio do café, pego no guarda-chuva e atravesso a estrada em direção à livraria.
– Bolas! Maldita chuva! Vai arruinar isto tudo! — ouço alguém berrar ao lado de um camião e vou até ele. Ao chegar lá deparo-me com um senhor,já não muito novo, dentro da parte traseira do camião no meio de muitas caixas.
– Precisa de ajuda? — pergunto eu.
– Abençoado sejas tu e o Senhor! Finalmente alguém que me vem ajudar — diz o senhor olhando para o céu mas desconfio que estava a falar sozinho. Ele olha agora para mim e continua — Menina, agradecia imenso que me ajudasse com estas caixas. Ninguém se digna a ajudar-me! — berra esta última parte para as pessoas que passavam de guarda-chuva pelo camião fazendo-me rir — Bem, como estava a dizer, não quero que o que está dentro destas caixas se estrague. Preciso de levá-las para a livraria mais ali à frente. Hoje recebemos material novo e quero levá-lo para a loja o quanto antes.
– Muito bem! Entregue-me as caixas que eu levo-as.
– A menina não tem que fazer isso! Eu posso bem com as caixas, só preciso de abrigo. — diz o senhor.
– Não se preocupe. Eu não me importo de as carregar até a livraria! — disse sorrindo para ele que me começa a entregar as caixas. Terminamos o serviço em cerca de 15 minutos.
– Qual é o seu nome menina? — pergunta ele quando entramos na loja.
–Riley! — respondo prontamente.
– Riley, muito prazer — diz estendendo a mão e eu aceito o seu cumprimento — eu sou o Charles O'Donnell.
– Igualmente.
– Queria fazer-te uma proposta. Eu estou a ficar velho e a única ajuda que eu tenho é a do meu filho mas ele às vezes não pode ajudar o seu velhote... então gostaria de saber se gostarias de vir para aqui trabalhar?
– Senhor, eu gostaria muito mas tenho escola.
– Isso não é um problema. Vens trabalhar depois das aulas — diz ele sorrindo — então... que me dizes?
Ao sair da livraria encontro Lyla lá à minha espera. Corro até ela:
– Tenho notícias! — dizemos em coro.
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