After the pain

37 Ele vive nos meus pensamentos


Michael POV

A mesma rotina repetiu-se. Estava a preparar panquecas quando Bella vem a correr e a saltar toda bem disposta.

– Parece que alguém acordou bem disposta! A que se deve tanta alegria? — digo enquanto ela se aproxima de mim e eu curvo-me para lhe poder dar um beijo na testa.

– Adorei conhecer a Lyla e a Riley! — responde sorridente.

– Ainda bem!

– Estivemos a fazer a árvore de Natal e a enfeita a loja! — continua a falar entusiasmada.

– Ai sim? — questiono arqueando a sobrancelha arrancando gargalhadas da minha irmã.

– Sim e depois a Riley caiu da escada abaixo, mas um príncipe salvou-a!

– Um príncipe? — pergunto entregando um prato com panquecas com nutela a ela. Quem é que terá salvado Riley?

– Sim, chama-se Andrew! — diz metendo uma garfada cheia de panquecas. A Riley disse que ele já tinha uma namorada, mas eu quero que eles fiquem juntos. Aqueles dois têm química, coisa que não se vê na maior parte dos casais atuais.

– Sempre me saíste uma casamenteira! — meto-me com ela sentando-me ao seu lado com o meu pequeno almoço também rico em panquecas mas as minhas tinham mel.

– E depois a Riley leu-me uma história muito bonita, e levou-me a comer fora. — Bella falava as coisas rapidamente e sem respirar.

– E o que comeste?

– Salmão com batatas fritas. Nunca tinha provado salmão, é muito bom! Também é o peixe preferido da Riley. E depois de sobremesa comemos bolo de chocolate. — conclui dando-me um sorriso negro devido ao chocolate das panquecas ter ficado nos dentes. Estava agradecido a Riley por ter tomado conta da minha pequenina. Ela sabe mesmo tomar conta duma criança. Nunca tinha visto a minha irmã tão entusiasmada por ter comido peixe! Sem dúvida Riley era um milagre no que toca a crianças.

Riley POV

Que estranho! A Sarah parece que andou a fugir de alguma coisa durante o dia. Estava estranha mas pior do que isso passou o dia como que a evitar-nos também.

– Sarah, está tudo bem? — pergunto-lhe.

– Sim, porque não haveria de estar?

– Parece que andas a fugir de algo...

– Não... é só impressão tua! — ela mente tão mal como eu!

– Será que é? — lança-me um olhar desconfiado — Olha que não fui a única a reparar. Não é por causa do Michael pois não? — ela cora levemente.

– Não, não tem nada a ver com ele. — não acreditei na sua resposta.

Aquelas peruas são mesmo carne podre. Estávamos na biblioteca a estudar, as três, quando a Jennifer decide entornar o seu capuchino nos trabalhos de Sarah que demoramos um século para acabar. Sarah quase nem se mexeu nem se revoltou, mesmo não aconteceu com Lyla que soltou logo os cães.

– Sua perua de marca branca! — Lyla estava pronta para lhe bater. Já estava de punho serrado preparada para lhe espetar um soco mas eu segurei-lhe o braço. Não ia deixar a minha amiga sujar a pele com os micróbios e bactérias de toda aquela ruindade. — Olha que tu sem os teus tacões de meio metro és mais baixinha que eu para não falar que eu sou mais forte, por isso não queiras lutar comigo que eu não me importo nada de partir esse teu sorriso presunçoso.

– Tu ias-me bater sua... — começa Jennifer a falar.

– Ei, ei... lava a tua boca nojenta antes de falar com a ela. E que fique bem claro que só não deixei que ela te tocasse porque tenho medo que a ruindade se pegue. Mas acredita se voltas a repetir a piada vais-te arrepender porque quem te vai bater sou eu! — respondo-lhe.

– Até estou arrepiada! — diz e recebe um revirar de olhos meu — Mas devo admitir que estás a ficar atrevida. E sabes uma coisa... não lido muito bem com isso. — vira-nos as costas com menção de começar a caminhar — Ah só mais uma coisa! — diz voltando-se para nós — Aconselho-te a ficares longe do Andrew ou as coisas vão ficar piores para o teu lado.

Sarah estava completamente estática. Não tinha mexido um músculo durante a troca de ameaças.

– Sarah não te preocupes. Vamos fazer o trabalho de novo. Vamos para minha casa. Breve a escola fecha. — disse eu tentando passar-lhe confiança e em resposta assentiu a cabeça e deu um pequeno sorriso. Os autocarros já tinham passado por isso fomos andando as três a pé. Naquele dia nem eu nem Lyla tínhamos que ir trabalhar. O patrão de Lyla decidiu dar-lhe uma folga por semana e em troca na sexta ficava até mais tarde já que era o dia mais movimentado. O senhor O'Donnell também me decidiu dar uma folga e eu pedi que fosse no mesmo dia que Lyla. Resumindo hoje não tínhamos de ir trabalhar, o que dava muito jeito por causa da escola.

Chegamos a casa e logo a minha tia preparou um daqueles lanches deliciosos. Com certeza que os nossos cérebros tinham bastantes nutrientes para trabalhar. Ajudamos Sarah com o seu trabalho e assim que acabamos deitei-me na minha cama sendo seguida de Lyla que se atira para cima de mim esmagando-me. Sarah limitou-se a sentar-se ao fundo da cama.

–Ufa! — diz Lyla.

– Isto foi exaustante. E ter-te em cima de mim não ajuda em nada! — digo para Lyla e empurro-a para o lado.

–Pois foi! E estava tão confortável em cima de ti!

– Quando é que lhe dás uma chance? — perguntou Sarah que até então estava calada.

–Hum... o quê? — mas de que é que ela estava a falar?

– Quero dizer o Andrew. Quando é que lhe dás uma oportunidade? — suspirei.

– Uau! Pela primeira vez na história de toda a humanidade não disseste um largo e redondo "não" ou barafustaste- respondeu Lyla

– Não é assim tão fácil. — finalmente respondo.

– O quê? Admitires ou dares-lhe uma chance?- perguntou Sarah.

– Não há nada para admitir! E mesmo que houvesse ele namora. A Jennifer pode ser a maior parva desta galáxia e arredores mas é a rapariga que está ao lado dele e de certa forma ele escolheu-a. Além disso a vida não é um mar de rosas e quanto mais depressa eu aceitar isso melhor será para mim.

– E tu Sarah? sabias que o Michael anda lá na escola? — Lyla muda de assunto.

– Sim, eu já o vi uma vez.

– Tu também podias dar-lhe uma chance. — insiste Lyla.

– Nem sequer o conheço direito!

– Mas tens de admitir que ele é muito bonito. — continua Lyla com as provocações. Sarah deu um ligeiro sorriso, mas logo se esmoreceu.

– O problema é esse! Ele é bonito e inteligente e trabalhador e... — ela fica corada — nunca irá se interessar por mim! — levantei-me num salto.

– Como podes dizer isso? Eu sei que usas óculos mas acho que não deves ver assim tão mal! Sarah tu és das raparias mais interessantes que eu já conheci. Apenas o escondes um pouco mas a tua personalidade é espetacular. Tu és super inteligente e boa pessoa.

– Já para não falar que és uma brasa! — Lyla interrompe o meu discurso inspirador com um comentário à Lyla seguido de uma piscadinha de olho e Sarah começa a rir-se.

– Ela tem razão no que diz! Tens um corpo de fazer inveja a muitas. Lá por gostares de esconder o teu corpo não quer dizer que ele seja feio. Tens os olhos azuis intensos. Tens uns cachos loiros de meter inveja às morenas. Tens a pele clara e limpa de espinhas. Tu és bonita! — fomos interrompidas pela minha que que nos chamou para jantar. — Então Lyla... tu muito gostas de fazer de casamenteira. Mas quando é que tu dás uma oportunidade ao Josh? — pergunto e Lyla imediatamente fica vermelha.

– Ambas temos o mesmo problema... estão comprometidos! — responde. Saímos do meu quarto e fomos então jantar.Sarah adorou a comida da tia Gloria que ficou toda contente e não parou de lhe encher o prato. Mais uma fã da sua comida.

– A comida está muito boa senhora Gloria! — dizem Sarah e Lyla.

– Obrigada queridas. É muito simpático da vossa parte! E já vos disse... podem tratar-me por tia Gloria ou simplesmente Gloria. Senhora Gloria faz-me sentir muito mais velha! — disse arrancando risadas de todas à mesa.

Depois do jantar o pai da Sarah veio buscá-la e deu boleia à Lyla também. Disse à minha mãe e à minha tia que me ia deitar e a minha mãe deu-me um beijo na testa.

– Fico contente por estares rodeada de boas amigas!

– Eu sei mãe. Boa noite mãe! — recebo mais um beijo mas agora na bochecha — Boa noite tia! — tive que berrar pois ela estava a arrumar a cozinha.

– Boa noite querida! — ela aparece na sala de avental, com um tacho na mão e coberta de espuma. Dá-me também um beijo na bochecha e enche-me também de espuma. Subi para o meu quarto.

Tinha uma mensagem.

«A Kelly adorou o livro e obrigou-me a admitir que tinha tido ajuda. Admiti que foste tu. Ela também te agradece!»

Uma mensagem de Andrew. Eu sei que não lhe devia responder, que Jennifer me ameaçou e tudo mas eu não era capaz de ignorar aqueles olhos verdes hipnotizantes. Já era mais forte que eu.

«Fico contente.»

Respondo-lhe e deito-me com um sorriso no rosto.

Levantei me de manha e incrivelmente sentia-me bem disposta.

Coloquei música no meu telemóvel enquanto me preparava. Andava de um lado para o outro a cantarolar e a dançar. A minha mãe entra no meu quarto com toalhas nos braços e depara-se com a sua filha com uma camisola meia vestida e a lutar com um parte de jeans que não queriam entrar quase deixando as toalhas caírem ao chão.

– Vejo que a minha foi raptada durante a noite e foi substituída por um clone alegre!

– Bom dia para ti também mãe! E eu não fui raptada... apenas dormi bem! — disse finalmente conseguindo vestir as calças e compor a camisola. Dirigi-me até a minha mãe e dei-lhe um beijo de bom dia na bochecha e ela respondeu-me acertando-me com uma das toalhas nas costas — Au!

– Afinal tens razão filha... és mesmo tu! A mesma resmungona de sempre! — diz a minha mãe arrancando gargalhadas minhas.

Quando cheguei escola logo perdi a boa disposição. Andrew estava sentado no seu capô do carro com Jennifer encostada a ele enquanto a abraçava pela cintura. Ambos conversavam com outras duas pessoas. Andrew parecia feliz. Tive mais uma vez certeza, que ambos se gostavam. Não consegui controlar a angústia que agarrou o meu coração e o esmagou tornando-o cada vez mais pequenino. Sou tão estúpida! Se não gosto dele porque é que me importo? Porque é que dói tanto?

O seu olhar encontrou o meu e o seu sorriso desapareceu ao encontrar-me. Os seus olhos estavam indecifráveis, mas pouco mais consegui perceber porque virei logo a cara para o lado, apertei mais a alça da mochila e continuei o meu caminho até Lyla.

–Que carinha é essa? — pergunta Lyla ao ver-me.

–Infelizmente a que me deram.

–Estou solidária contigo pela falta de bom humor de quem ta deu. Devia estar num dia mau.

–Muito engraçada.

–Vamos. — disse enlaçando o seu braço no meu forçando-me a andar. As aulas foram normais tirando a barafunda da aula de inglês em que quase o professor mandou o Fred para a rua.

Ia a sair da escola quando ouço o meu nome a ser chamado no meio daquela balburdia. Ignorei ao reconhecer a voz, e continuo a andar e a torcer para que ele desistisse. Até que ele me obriga a virar para ele para encará-lo. O seu olhar fixa-me mas eu desvio para o lado.

–O que queres agora?- pergunto sem o encarar o seu olhar profundo.

–Muita coisa! Podia até enumerar mas ainda ia demorar um pouco... mas neste momento quero que olhes para mim.

–Sinceramente não me apetece. -disse eu continuando a olhar o horizonte evitando mesmo olha-lo. Mas ele agarrou firmemente o meu queixo obrigando-me a encara-lo. Talvez tenha sido uma atitude infantil, mas não queria facilitar-lhe a vida, por isso fechei os olhos.

–Riley, por favor deixa de ser infantil! — pede desesperado.

–Quando tu deixares de ser mimado. — Ele continuava a segurar o meu queixo e eu continuava de olhos fechados. A distância que nos separava era quase nula. Sentia a sua respiração quente e alterada contra o meu rosto e o seu hálito fresco contra a minha pele mas só de o imaginar a beijar aquela víbora arrepios percorriam a minha espinha.

–Riley estou a pedir-te.

–E eu estou a dizer-te que não. Será que uma vez na vida vais perceber que nem tudo pode ser como tu queres!

–Eu só te estou a pedir que olhes para mim!

–E eu só te estou a pedir que me deixes em paz! — ele largou o meu queixo subitamente. Então decidi abrir os olhos. E quando os abro vi-o já de costas a caminhar para o seu carro.

Fiquei ali parada a segui-lo com o olhar até ao seu carro. Assim que ele entrou, fechou a porta com brusquidão. Ia jurar que ele olhou para mim, mas como os vidros eram um bocado escuros não tinha a certeza. O seu carro depressa saiu do meu alcance de visão. Fiquei estática sem reacção, não sabia o que haveria de fazer.

Estava completamente à nora com o que tinha acontecido.

"Tan tan tan!" Toca o meu telemóvel.

"Como estavas ocupada fui andando até ao café. Espero que tenha valido a pena ;))"

Era de Lyla. Nem sequer lhe respondi. Nem para teclar tinha energia.

Porque é que era mais fácil discutir com Andrew do que com outra pessoa. Porque é que eu agi assim? Mas porque é que eu sou tão estúpida?

Fui para a livraria. Ainda tinha que trabalhar e não ia abandonar o meu patrão por causa de um erro estúpido.

– Boa tarde senhor Charles. — cumprimento sem entusiasmo ao entrar na livraria.

– Boa tarde alegria! Mas que cara é essa? — questiona preocupado.

– Não se preocupe que não vai ser a mesma que algum cliente vai ver.

– Sabes que por vezes mas vale uma cara triste que um sorriso falso.

– Talvez...

– Bem, vou aproveitar que já chegas-te para ir comer alguma coisa porque estes meus ossinhos não se mantêm apenas a oxigénio.

– Sim, vá lá que a partir de agora eu tomo conta disto. — tento dar-lhe um sorriso que transmitisse que estava bem mas falhei miseravelmente. Tive bastante clientes o que de certa forma me fez esquecer os meus problemas até que entra uma rapariga que eu logo reconheci como sendo a Kelly, a namorada de Logan que me sorriu.

– Olá! — disse aproximando-se do balcão onde eu me encontrava.

– Olá! -respondi eu.

– Andava por estes lados e o Andrew comentou que trabalhavas aqui então vim agradecer-te pela escolha do livro. Como é que sabias o tipo de livros que gosto?

– Digamos que já ouvi uma história a teu respeito e com ela consegui perceber um bocadinho dos teus gostos. — disse sorrindo.

– Mesmo assim queria agradecer-te. E também já que estou aqui vou procurar outro livro interessante. Vai ser um presente de mim para mim.

– Fazes bem! Tens mesmo uma clínica veterinária?

– Sim, tenho. É uma loucura não é?!

– Hum...sim, quero dizer deve ser difícil.

– Um bocadinho mas tenho ajuda a geri-la senão dava em maluca. Eu nunca gostei muito de gerir, prefiro estar mesmo a trabalhar com os animais do que preencher papelada e assim. — eu assinto com a cabeça e começo a procurar um livro para ela. Um silêncio perturbador enche a sala mas ele dura pouco — O Andrew gosta muito de ti.- tenta iniciar conversa.

– Duvido — disse negando com a cabeça relembrando a nossa discussão de momentos atrás — Estamos sempre a discutir. Todo o santo dia discutimos. Arranjamos sempre algo de novo e se não houver, repete-se a discussão do dia anterior.

– Sabes eu e o Logan também estamos constantemente a discutir. Mas acabamos sempre a rirmo-nos do quão estúpida era a nossa discussão.

– Pois mas eu e o Andrew acabamos sempre de costas voltadas com um dos dois a chorar.

– Se dói é porque gostas dele. Porque quando discutimos com alguém que não nos é nada ficamos chateados mas não dói. Se for com outra pessoa a dor é passageira mas se gostamos dela, a dor não vai embora e não paras de senti-la até fazerem as pazes. — talvez Kelly tivesse razão.Sempre que Andrew vinha ter comigo, mesmo após uma discussão, e fazia um dos seus comentários estúpidos que me faziam rir eu já não sentia dor. Apenas sentia felicidade, leveza por ele estar comigo e por nos estarmos a dar bem. — Posso confessar-te uma coisa?

– Sim. — respondo enquanto continuava a mexer nos livros das prateleiras à procura do perfeito.

– Isto fica só entre nós. Metade da família do Andrew está a torcer para que tu sejas namorada dele. O Logan está super empolgado em ter-te como cunhada! — piscou-me o olho e saiu deixando-me com o livro que tinha encontrado para ela nas mãos e de queixo caído. Eu fiquei a pensar no que ela me disse. Será que tinha razão? Involuntariamente um sorriso surgiu nos meus lábios.

Sacudi a cabeça tentando a todo o custo tirar todo os pensamentos que o envolvessem da minha cabeça mas por mais que a abanasse a única coisa que resultava era uma dor de pescoço e os cabelos a entrarem-me na boca. Ele já não saia da minha cabeça. Parecia que ele habitava na minha mente, que tinha virado a sua nova casa. O camião da mudança já tinha chegado e instalado toda uma mobília desde sofá, cama, frigorífico e televisão. As portas estavam todas seladas impedindo-o de sair e obrigando-me a mim a ter que viver com a sua presença lá. Mas também quem é que eu quero enganar?! Ele já se mudou para dentro dos meus pensamentos logo no primeiro momento em que o castanho turbulento dos meus olhos encontraram as esmeraldas que eram os dele.