After the pain

16 Discussões misteriosas


Pov Andrew

Fui para a cozinha fazer um chá. Andei à toa à procura das coisas pois não sabia onde elas estavam. Abri praticamente todos os armários mas lá encontrei.

Ela estava mesmo mal, não me respondia, parecia morta. Ela bebeu o chá e depois acabou por adormecer. Instintivamente passei a minha mão nos seus cabelos, agora suados devido a febre, cobri-a com um cobertor que se encontrava dobrado perto de mim no outro sofá.

Ela estava tão serena porém os seus lábios estavam roxos e na sua pela brilhavam gotas de suor. Observei a sua respiração pesada. Ela era linda, não só fisicamente mas havia algo mais que tornava a sua beleza especial. Frágil, delicada e ao mesmo tempo durona, teimosa e má mentirosa. Ri-me com este pensamento. Passado algum tempo a porta de entrada abre-se e chegou a mãe e a tia dela.

– Oh meu Deus! O que e que aconteceu Andrew? — pergunta a mãe de Riley aflita apressando-se até ao sofá onde a sua filha se encontrava deitada.

– O meu irmão disse que a constipação era das feias. Já lhe dei o remédio que ele a mandou tomar mas a febre não passa.

A senhora Mary ajoelhou se ao pé da filha, pôs-lhe a mão na testa e fez uma cara de preocupada .

– É melhor dar-lhe outro remédio e se a febre não passar damos-lhe um banho de imersão e se não melhorar temos de a levar ao hospital.

– Ou então eu ligo ao meu irmão.

– Não Andrew! Não é preciso e não queremos incomodar, já foste muito generoso em cuidares dela.

– É melhor deitá-la na cama se não vai ficar dorida — disse a senhora Glória.

– Eu posso levá-la — ofereci-me.

– Obrigada! Ela realmente ficou pesada e as minhas costas não eram como dantes- diz Mary. Rimo-nos e ambos olhamos para aquele ser adormecido e que dormia profundamente. Eu discordava, Riley era tão leve que mal sentia o seu peso nos meus braços. Peguei nela com cuidado para não a acordar e ela encostou a sua cabeça ao meu peito. A sua pele queimava de tão quente que estava. Subi as escadas e confirmei que ela ainda dormia nos meus braços aninhada no meu peito. Abri a segunda porta à direita como a mãe dela me indicara e quando entrei pousei-a na cama e cobri-a. Observei o seu quarto: era pequeno quando comparado com o meu mas era acolhedor. Tinha vários quadros e postérs nas paredes que eram verdes e azuis. As sua cores favoritas acho. Recordei uma conversa entre ela e Lyla. Olhei uma vez mais para ela e estava dormir agora porém agarrada um urso com letras estranhas. Achei mesmo estranho ela dormir com um urso. Era um trunfo que poderia usar mais tarde. Fechei a porta, desci e despedi-me da sua mãe e da tia e fui-me embora. A chuva não dava tréguas mas soube bem adormecer a ouvi-la.

Pov Riley

Acordei e doía-me o corpo todo. Não conseguia quase falar e acho que continuava a arder de febre, mas eu não queria faltar as aulas por isso tentei fingir que estava melhor. A minha mãe pareceu acreditar. Fui para a escola e sentia que ia desfalecer a qualquer momento, mal conseguia abrir os olhos. Continuava a chover para a minha desgraça.

– Boa educação física e desta vez não tenho justificação. — digo eu olhando para o meu horário. — Vesti-me e cheguei em último. Estava toda a gente a minha espera.

– Senhorita Riley. — diz o professor com um olhar intimidador.

– Desculpe.

– Ok, desta vez vou fingir que não vi nada porque é a primeira vez que acontece. Então vamos ao futebol pessoal. — diz ele pegando no seu apito. Boa agora é que eu estava tramada! Não podia ser nada menos desgastante, tipo alguma coisa em que pudéssemos ficar bem quietinhos.

O professor fez as equipas e Lyla ficou na mesma equipa que Andrew, Josh e as peruas. Coitada dela!
Estava a tentar jogar embora não conseguisse correr, por isso estava a ser péssima. Ia a fingir que ia a bola quando o Valentine passa uma rasteira na Sarah. Mas ele está parvo, ela era da nossa equipa. Sarah era uma rapariga baixa, morena, magra mas muito tímida, bem eu sei que eu também sou, mas ela era mesmo muito. Andava sempre sozinha e era daquele tipo de menina gozada. As Barbies estavam sempre a chateá-la. Às vezes eu e a Lyla intervínhamos, quer dizer a Lyla intervinha, mas eu tenho a certeza que elas continuavam a fazê-lo.

– HEY! ELA É DA TUA EQUIPA — gritei eu ao Valentine, mas a voz não saiu assim tão forte. Depois ajudei Sarah a levantar-se .

– Eu sei! Mas é um peso morto para a equipa. — responde Valentine.

O quê? Eu não estava a ouvir isto! Ele achava que era o senhor todo poderoso do futebol. Ele nunca me inspirou confiança mas agora eu tinha a certeza que ele era um completo idiota .

– Quem é que tu pensas que és para dizer que ela é um peso morto? o único mau desportista que vejo aqui, és tu idiota. — berro eu com todas as minhas forças.

– Idiota eu? — diz ele incrédulo — ela é que não passa de uma nerd que só serve para empatar. — continua, agora a apontar para Sarah.

Não sei onde é que eu fui buscar tanta coragem, se calhar estava em saldo e eu acabei por comprar e ameaço um rapaz com o dobro da minha altura e força:

– Se voltas a fazer vais te arrepender!

– Uuuu tu fazes o que? Escuta Riley- disse ele se aproximando-se de mim e tocando-me no rosto. Eu bati na sua mão afastando-a do meu rosto e ele riu-se — Tu és uma rapariga inteligente e bonita. Eu até te acho piada por isso vou ser bonzinho contigo desde que não te metas comigo.

– Tu contínuas o mesmo parvalhão de sempre Valentine. — diz Andrew aproximando-se de nós.

– Cala-te Andrew, ou devo dizer moço de recados — responde Valentine a Andrew. Mas o que será que era aquela conversa entre o Valentine e o Andrew. Andrew ia enfrentá-lo mas eu tapei-lhe a passagem metendo-me a sua frente.

– Não vale a pena! Este aqui é um caso perdido mesmo. — digo a Andrew tentando acalmá-lo.

– Meninos o que é que se passa? — pergunta o professor que se aproxima ao ver aquela confusão concentrada num lado do campo — voltem ao jogo!

– Estás bem? — perguntei a Sarah.

– Sim obrigada! Não te metas em problemas por minha causa.

–Não te preocupes, eu sei me cuidar.

Aquela gritaria toda fez com que eu sentisse a minha garganta seca e muito dorida. Pedi ao professor para ir ao balneário pois tinha chá de limão com mel numa garrafa termo. De repente sinto alguém a agarrar-me na cintura e sussurrar ao meu ouvido.

– Cuidado Riley! Não entres num jogo que não podes ganhar, pode ser perigoso...

– Larga-me estúpido! — disse eu soltando-me do Valentine. Ele era mesmo raça rasca! Entrei no balneário e bebi o meu chá. Eu realmente estava assustada mas não ia demonstra-lhe isso. Mas quem é que ele pensa que é!? Quando saí, ele agarrou-me no braço fazendo-me encará-lo.

– Riley, Riley, Riley, eu não sou a pessoa certa para irritar. Como é que se diz... tenho mau temperamento.

– E eu não sou a pessoa certa para ver covardes humilhando outras pessoas. Se voltas a chatear a Sarah, vamos ter problemas.

Soltei-me e ele continuou encostado à parede. Voltei ao jogo e ele veio logo atrás de mim. Lyla vem ter comigo:

– Tu enlouqueces-te miúda!? Então a febre queimou-te o cérebro? O Valentine é perigoso.

O quê!? Lyla também me avisou sobre ele!? Porque é que toda a gente dizia isso!? — perguntei-me interiormente. Eu pressentia que havia gato naquela história toda.

Continuamos o jogo. Aquele idiota era mesmo um bruto e aleijou uns poucos. Eu nem corria, vagueava pelo campo até que sinto um empurrão mas não consigo ver quem me empurrou. Eu já estava mal e uma queda veio mesmo a calhar. Estava a tentar levantar-me quando vejo aquele Valentine a rir-se. Fiquei mesmo mal, a minha cabeça rodopiava e a minha visão estava desfocada. Lyla ajudou-me a levantar. Olhei para ele com um sorriso ameaçador e ele simplesmente riu-se.

Durante o almoço.

– Riley tens de comer alguma coisa. — insiste Lyla pela milésima vez e levando um garfo cheio de comida à minha boca como se eu fosse um bebé.

– Não consigo. — digo eu, recusando pela milésima vez.

– Porque é que vieste à escola? Estás mal! Não sei como é que a tua mãe te deixou vir!

– Eu fingi estar bem.

– Só mesmo tu — Lyla estava agora a rir-se — as pessoas normais enganam as mães fingindo que estão doentes para faltarem as aulas, mas Riley Collins não! Em vez disso finge estar bem para vir! Gostas assim tanto disto. — diz Lyla referindo-se à escola.

– Não, mas não perder a matéria é importante.

– Tu és rara minha cara amiga.

– E única! — Disse eu apoiando a minha cabeça na mão.

De repente apareceu o Andrew e Jennifer aos beijos e Josh e Sasha logo atrás. Pensei que veria Tracy sozinha, já que não tinha namorado, mas desta vez vinha acompanhada. Eu sabia que elas tinham um parafuso a menos, mas quando vejo que era Valentine ao seu lado tive a certeza que elas tinham era umas centenas de parafusos a menos. Andrew e Josh pareciam incomodados com a sua presença. Senti Lyla tremer na cadeira.

– O que é que se passa? — pergunto eu preocupada.

– Nada. — responde ela curta.

– E depois eu e que não sei mentir. — digo eu tentando dar-lhe um sorriso encorajador.

Eu não tinha certeza se era só por causa do Josh. parecia haver mais alguma coisa.

As aulas terminaram e eu agradeci por isso. Estava a saída quando o Andrew me agarra no ombro.

– Podemos falar? — eu assenti. — então não me vais agradecer por ontem? — pergunta ele arqueando uma sobrancelha.

– Obrigada.

– Só isso!? Nem um: foste um querido ou então o que posso fazer para te compensar! Que tal!? — diz ele aproximando-se de mim.

– Vai sonhado! — respondo afastando-o com a mina mão.

– Ainda é grátis! — Eu continuei a andar mas ele pára-me e põe a mão na minha testa — Estás a ferver.

– Eu sei.

– Porque é que não ficas-te em casa como o meu irmão disse?

– Porque...

– Fogo Riley — interrompe-me ele antes que eu me pudesse explicar — será que não podes obedecer uma vez na vida? É para teu próprio bem.

– Não te preocupes.

– Como e que não me preocupo? Sempre que dizes isso eu tenho motivos para me preocupar.

– Eu não preciso da tua preocupação. A Jennifer é que é a tua namorada Andrew! — digo eu exaltando-me.

– Eu sei que é, mas eu preocupo-me contigo.

– Pára então com isso. Desligo o preocupacómetro.

– Não! — diz ele agora exaltando-se — Pára tu! Porque é que não deixas os outros te ajudarem?

– Porque eu não quero! Porra Andrew! — neste momento já estávamos os dois aos berros à porta da escola, atraindo alguns olhares alheios.

– Tudo bem. Se queres arruinar-te, tudo bem — disse, virando-se para ir embora.

A minha cabeça parecia que ia explodir. E a minha garganta gritava de dores.

– A propósito, tem cuidado com o Valentine. Ele é realmente perigoso. — avisa Andrew virando-se para trás com um olhar preocupado.

Mas porque é que hoje toda a gente me diz isso!? Ele não pode ser assim tão mau, senão já o teriam expulsado da escola, certo!?

Fui para casa e não estava lá ninguém. Elas ainda deviam estar a trabalhar.

Lanchei e fui "estudar" para o meu quarto. Deitei-me para descansar enquanto a minha mãe e a minha tia não vinham. Acordei com a minha mãe a chamar-me para jantar. Tinha um cobertor a cobrir-em, devia ter sido a minha mãe e lá fui eu.

Na manhã seguinte acordei muito melhor. O dia correu mais calmo que o anterior felizmente.
Tinha muito para estudar e acabei estafada. Sinto o meu telemóvel vibrar.

– Sim?

– Riley queres ir hoje aquele café que abriu na semana passada. — pergunta Lyla na outra linha.

– Não sei Lyla! Acabei de estudar biologia até a exaustão e a minha gripe ainda não está totalmente curada.

– Vá lá! — diz ela suplicando — vai lá estar a malta da escola.

– Agora é que não me apetece mesmo!

– Por favor Riley...

– OK, venceste-me pelo cansaço. Encontramos-nos às 21:30h . E vimos cedo menina Lyla!

– Yey! És a maior! Até logo!

– Sim, sim. Pára de dar graxa que é feio.

Pedi à minha mãe e ela deixou-me, mas não sem antes prometer que ia ter cuidado e que voltava cedo. Chamei um táxi e cheguei em frente ao café mesmo na hora marcada. Sabia onde era mas nunca tinha entrado. Lyla estava do lado de fora à minha espera e vestida a rigor enquanto que eu estava com as minhas habituais calças de ganga, uma camisola e um casaco para me proteger das baixas temperaturas.

– Quanta elegância. — digo eu para Lyla e esta dá uma voltinha mostrando o seu vestido.

– Tu também não estas nada mal. — diz ela. Sorri-lhe.

Entramos e adivinhem quem é que estava sentado a conversar. O Valentine, bingo! E com a Tracy.

– Pelos vistos isto não é assim tão bem frequentado.

Nisto chega o Andrew e a Jenny sentando-se na mesma mesa que Tracy. Eu e Lyla sentamos-nos numa mesa sozinhas num canto.

O empregado chega ao pé de nós.

– Boa noite! O que vai ser? — pergunta ele educadamente. Os empregados de lá usavam uma pequena boina, calças pretas e uma camisa de cor à escolha.

– Boa noite! — responde-mos em coro.

– Para mim pode ser um café- disse Lyla.

– E para mim pode ser um chá de cidreira. — Lyla olhou para mim com um olhar reprovador.

– Que foi? Não gosto de café e sabes disso.

Não pude deixar de olhar para Valentine desde que ele me ameaçou. Tenho medo que ele faça alguma coisa e que me apanhe desprevenida. Quando olho ele estava com um cigarro na mão.
Olhei à volta a ver se via um símbolo de proibido fumar mas nada de aviso. Bebi o meu chá e quando fui a ver já não havia sinais de Andrew nem de Valentine. Disse a Lyla que precisava de ir a casa de banho e paro quando ouço duas pessoas a conversarem, quer dizer mais a discutirem.

– Então betinho? — ouço Valentine.

– O que é que tu queres? — responde Andrew brusco.

Encostei-me para ouvir a conversa. Eu queria saber o motivo da tensão deles. Eu sei que não era moralmente correto mas que se lixe.

– Então, já não se pode cumprimentar um amigo? — pergunta Valentine inocentemente pondo o seu braço nos ombros de Andrew.

– Nós não somos amigos. — diz Andrew de supetão e tirando o braço de Valentine de seus ombros.

– Então, não digas isso que me partes o coração.

– Que é que queres? Vai direto ao assunto antes que eu vá direto à tua cara! — Valentine não pareceu ficar abalado com esta ameaça por parte de Andrew, ao contrário de mim que não estava nada à espera.

– Oh, nada de especial. Só quero que facas um recado.

– Não me parece. — Eu vi Valentine a caminhar mais para Andrew e apontar-lhe um cano preto. Uma pistola! Soltei um gemido e eles ouviram.

– FOGO! — repreendi-me mentalmente.

– Quem está aí? — Perguntou Valentine irritado e eu escondi-me. Saio dali o mais silenciosamente possível. Vou praticamente a correr para o meu lugar e sento me na cadeira apressadamente.

– Credo, que susto! Que se passa? — pergunta Lyla.

–Nada. Olha vou andando estou cansada. Ainda não recuperei da gripe e não quero piorar. — digo eu levantando-me tirando dinheiro da minha carteira para pagar a conta e vou em direção à porta.

– Ok, eu fico mais um pouco. Até amanhã e avisa-me quando chegares a casa!

– Eu aviso! Até amanhã — berro da porta para que Lyla me ouvisse atraindo alguns olhares.

Ligo ao taxista conhecido da minha mãe mas ele diz que está longe. Boa e agora!? Decido andar até encontrar algum táxi.

Até que sinto uns passos atrás de mim.

– Calma Riley tu não sabes se estão atrás de ti! Pode ser simplesmente alguém a passear o seu cão ou a dar um passeio noturno- sussurro para mim própria tentando acalmar-me mas sem sucesso.

Apressei o meu passo e os passos atrás de mim também se apressaram acompanhando o meu ritmo. Estava a ficar arrepiada e a entrar em pânico.