After the pain

31 Corações acelarados


"- Lembras-te o que disseste anteriormente sobre seres tu mais facilmente a magoar-me do que alguém que cá entrasse... bem, este não é o momento correto para te dizer isto mas... estavas enganada — e bem que estava enganada! Esperavam-nos sarilhos... e bem sérios!"

– Sério que tinhas que dizer isso agora? Não perdes uma oportunidade para me provocar... nem mesmo quando as nossas vidas estão provavelmente em perigo! — sussurro zangada com ele.

–Estava só a tentar aliviar o ambiente! — responde também sussurrando mostrando-me um pequeno sorriso — Estou a ver que não resultou muito bem...

– Guarda as tuas piadas para quando estivermos numa situação de menor perigo! — encaro-o diretamente nos seus olhos e ele faz o mesmo. Ele busca a minha mãe escondida por trás do balcão e agarra-a apertando-a em sinal de que tudo iria ficar bem.

–Não te preocupes que nada de mal vai te acontecer... eu protejo-te! — diz ele. Não sei porquê mas a ideia de ele sacrificar-se de alguma maneira só para me salvar era em si uma maneira de algo de mal me acontecer. Não estava disposta a perdê-lo por causa de um delinquente que decidiu invadir a minha livraria. Olho para as nossas mãos unidas e aquele simples gesto fez o meu coração acelerar, parecia que nem o conseguia conter no meu peito de tão fortes que eram os seus batimentos. Aperto a sua mão com igual intensidade tentando passar a mesma mensagem.

–Não sei se já repararam... mas eu estou ainda aqui! — interrompeu-nos o invasor — E este não é o momento adequado para cenas de declarações.

– Não estávamos a fazer isso! Somos apenas amigos! — disparo eu.

– Larga a mascara Valentine. Toda a gente nesta sala sabe que és tu... reconheço a tua voz em qualquer lado. — intervém Andrew. Claro que só podia ser aquele escumalha do Valentine! Já era de prever que mais cedo ou mais tarde ele iria atacar... mas nunca pensei que o fosse fazer na livraria do avô do Caleb, principalmente depois de dizer que não é faria. É bem como dizem... não existe honra entre bandidos. — Como vou dizer isto de maneira não muito arrogante... a tua voz é como cicatriz. Impossível de tirar e de esquecer! Para não falar que está sempre lá para te incomodar!

– Estamos atiradiços hoje. A presença da Riley finalmente deu-te coragem... ou simplesmente estás a fazer isto só para a impressionares? — ele levanta a mascara até à testa mostrando a cara doentia.

– AHAH! Eu não preciso de te enfrentar para a impressionar! — responde Andrew e eu coro perante aquele comentário. O que ele disse em parte é verdade pois ele já fez tanto e impressionou-me com cada pequeno gesto, como quando me ajudou quando torci o pé... ou quando fiquei doente... ajudou-me tantas vezes que até já lhes perdi a conta.

–Muito bem então... — diz Valentine começando a andar em direção às estantes com livros.

– Valentine... vai direto ao assunto que te trouxe aqui! — digo eu. Estava com medo que ele causasse algum dano à livraria.

– Essa tua cabecinha espertinha ainda não chegou lá? Parece que ele te está a pegar a idiotice! — diz ele atirando um livro ao chão — A minha vinda aqui é a paga pelo nosso encontro.

– Tu prometeste ao Caleb que não farias nada ao seu avô! — berro já fora de mim.

– Pois, eu prometi que não magoaria o velhote... e é verdade que eu não lhe causei qualquer dano. Mas não prometi nada acerca da sua livraria, ou os seus empregados! — diz ele soltando uma gargalhada que me causou arrepios por toda a minha coluna. Ele começou a deitar livros ao chão, a empurrar estantes, basicamente a desarrumar tudo o que via. Eu já nem temia pela minha vida, mas sim pelos danos que ele estava a causar a um homem que trabalhou a sua vida toda para ter uma livraria destas.

Andrew POV

Aquele momento com a Riley foi algo de extraordinário... quase perfeito. Teria sido perfeito se o estúpido do Valentine não o tivesse interrompido. Ter Riley tão descontraída comigo era tão bom. Poder falar e brincar sem que ela me respondesse na defensiva ou torto sem pinga de simpatia. Ela quando relaxada era uma pessoa completamente diferente, divertida, alegre, simpática, amorosa... ela era assim para todos menos para mim e eu ainda não compreendi porquê, mas um dia eu vou conseguir fazer com que ela fale para mim e que me veja como eu amigo.

Agora, com Valentine a ameaçar-nos, sentia uma vontade enorme de proteger Riley. Não queria que aquele monstro encostasse alguma parte do seu corpo repugnante na linda pele dela. Não queria e nem o iria permitir! Iria protegê-la com tudo de mim!

Não sei bem o que se passa comigo... estou a namorar com a Jennifer porém cada vez mais sinto-me menos atraído por aquela rapariga, se ainda sentir algum tipo de atração! Já nem me lembro porque é que comecei a namorar com ela. Lembro-me de passar pelos corredores e ouvir "Aqueles dois fazem um belo par" e mais tarde ela fez-me o pedido e como não via razões para não o aceitar, começamos a namorar.

Começo a perceber que a nossa relação era física e não haviam sentimentos envolvidos. Começamos a namorar porque ficávamos bem na fotografia, porque nos fazia ainda mais populares e ninguém assim se metia connosco. Fazíamos parte da elite da escola e nem o Valentine em estabelecimento de aulas se atrevia a meter-se comigo. Posso estar fisicamente com a Jennifer mas a minha mente está com outra pessoa, com a Riley. Esta rapariga é intrigante, misteriosa e mexe comigo como mais ninguém é capaz. Ela desafia-me e não se importa do quão popular eu sou.

A Riley trata-me como uma pessoa e não como uma vedeta como todos na escola que me vêem como alguém inatingível. Nos corredores sempre que passo por raparigas elas parecem que vão desmaiar e os rapazes fazem-me sempre perguntas sobre a minha tática de jogo e de como aquela jogada do último jogo foi épica, mas Riley não... não me fazia perguntas ou desmaiava, simplesmente revirava os olhos ou então ignorava-me.

Voltando à realidade! Olho para as nossas mãos unidas e encaixam perfeitamente uma na outra. E deixo um sorriso escapar com este pensamento. A mão dela é pequena e delicada com a pele macia enquanto que a minha é grande e musculada e com a pele um pouco áspera mas mesmo assim o encaixe era perfeito. A sala era preenchida pelo barulho de Valentine a destruir tudo o que via.

Independentemente de tudo o que ele pudesse fazer, eu vou proteger Riley até ao fim!

POV Riley

Andrew parecia que estava perdido nos seus pensamentos. Era estranho que como numa situação destas ele podia estar perdido na sua própria mente.

– Terra chama Andrew! Estamos a ser atacados pelo brutamontes do Valentine! — digo chamando a atenção dele.

– Oh... é isso que pensas de mim?! — pergunta Valentine — Até me sinto lisonjeado!

– Também te vais sentir assim quando espetar um murro na tua cara? — pergunta Andrew.

– Andas com a Jenny e estás a traí-la com esta rapariga?

– Eu não estou a trair ninguém! E tu também não tens nada a ver com isso! — Andrew estava enervado e em resultado apertava a minha mão com força.

Nem sabia que horas eram ou quanto tempo já tinha passado desde que Valentine entrou. Só sabia que estava desesperada para sair dali de dentro antes que ele fizesse alguma asneira. Valentine estava de costas para nós agora.

– Ele está de costas. Agora é o momento para atacar! — sussurro ao ouvido de Andrew que assente com a cabeça e larga a minha mão caminhando na direção dele. Ao largá-la de repente senti frio na minha mão e meti-a no bolso das calças. Andrew avançava calmamente e sem fazer barulho. Quando chega perto de Valentine crava-lhe uma cotovelada forte nas costas dele que o fazem cair ao chão. Valentine nem responde e nem dá tempo a Andrew, faz-lhe uma rasteira e ambos estão no chão. Valentine desliza para longe e levanta-se sendo imitado por Andrew. Valentine corre em direção a Andrew só que este baixa-se e dá um murro no estômago do adversário que se arqueia com a dor mas não desiste e avança e começa a deferir murros em todas as direções. Andrew conseguia defender-se de alguns mas os outros acertavam-lhe ora na barriga ora no peito.

Estava farta de observá-los a lutar e penso numa maneira em que podia ajudar. Valentine tinha um taco com ele... se o encontrasse podia acertar-lhe e assim ele parava. Saio de trás do balcão e nenhum dos dois reparam o que me dá uma enorme vantagem e sigo para a minha busca pelo taco. Procuro entre livros caídos, por trás das estantes ainda de pé e nada... não o consigo encontrar. Espreito por entre os livros e vejo que eles estão frente a frente de punhos levantados prontos para mais uma ronda. O que eu não esperava era ver o objeto que andava à procura a levitar por trás da cabeça de Valentine. Mas quem seria?! Devido à luta a mascara de Valentine já tinha caído novamente sobre a sua face tapando-a e ficando assim irreconhecível.

O taco movimenta-se para trás para dar balanço e acerta nas costas de Valentine porque provavelmente quem segurava a arma era pequeno e não conseguia chegar à cabeça dele. E com o impacto Valentine cai de joelhos revelando um velhote, Charles, por trás dele segurando no taco.

– Na minha loja nenhum ladrão sai impune! Principalmente se ameaçar os meus empregados! — diz Charles. Valentine olha para trás e reconhece a pessoa e desata a correr pela porta de entrada sem nos dar hipóteses de o seguir. — Meninos, estão bem?

– Sim, estamos! — respondo saindo de trás do meu esconderijo — É o nosso salvador Charles! — digo abraçando o senhor — Muito obrigado!

– Sim, Sr. O'Donnel! Muito obrigado por nos salvar — diz Andrew também abraçando o senhor. Das suas mãos escorriam pequenas gotas de sangue, provavelmente provocadas por acertar no corpo de Valentine.

–Foi como eu disse... ninguém se mete com os meus empregados! — Charles olha em volta e vê que está tudo desarrumado — Bem Riley... ainda falta meia hora para o teu horário terminar mas se quiseres ir para casa mais cedo hoje eu compreendo...

– Não é preciso, obrigada! Vou ficar aqui e ajudo-o a arrumar esta bagunça. — digo começando a levantar estantes.

– Por acaso sabem quem era aquele bandido? — pergunta Charles. Andrew e eu olhamos um para o outro e eu assinto com a cabeça transmitindo a Andrew que deveria ser ele a falar. O ideal seria não revelar quem o bandido seria, ainda porque se ele descobrisse podia voltar e fazer pior.

– Não Sr. O'Donnel! — responde Andrew calmamente.

– Ok... não tem mal meninos. Eu vou até à polícia e falo com eles. — diz Charles começando também a arrumar sendo seguido por Andrew — E já agora Andrew, também me podes tratar por Charles!

– Ok Sr. ... Charles! — responde Andrew sorridente. O nosso sistema de arrumação consistia em Andrew levantar as estantes e eu e Charles colocar os livros no seu devido lugar. Terminamos mesmo em cima da hora de eu sair. Despedimo-nos de Charles que ainda tinha que tratar de uns papeis e saímos da livraria. Tinha sido um dia de trabalho em cheio! Mas antes de Valentine entrar tinha-me divertido imenso com Andrew. Com ele sentia-me novamente completa... como se o meu coração partido tivesse sido novamente colado.

Do outro lado da estrada Lyla já esperava por mim toda sorridente e vou em direção a ela mas Andrew agarra-me pelo braço fazendo-me virar de frente para ele que me encarava.

– Riley... estava a pensar e... — ele falava nervosamente e esfregava a parte de trás do pescoço e sorria — será que, sei lá... podemos sair um dia para ir tomar um café... ou lanchar juntos... ou algo assim do género. Como amigos... já que eu agora praticamente salvei a tua vida, e não é para me gabar mas também já te ajudei em algumas situações... — ele já estava a divagar. Seria isso produto do nervosismo. E porque é que me apetece berrar um "sim" como resposta?! A mão dele que até agora me agarrava o braço abandona o seu posto e novamente sinto falta do calor que ele me transmitia. Mas o que é que se passa comigo?!

– Hum... quem sabe... um dia — digo começando a andar em direção à Lyla em marcha atrás — Talvez...

– Aguardo ansioso por esse talvez! — berra Andrew pois eu já estava quase do outro lado da estrada. Estas palavras fizeram-me corar e ficar ansiosa. Uma simples palavra vinda da boca dele fazia-me estremecer de cima a baixo.

Talvez...