After the End

1 As The World Turns


Há algum tempo, já não conto os dias. É inútil tentar cronometrar, medir, contar. Depois de muito tempo de ignorância, finalmente entendi que, tais métodos só servem para nos prender. Para nos pressionar e nos situar dentro de um mundo, que se move, não para. Mas hoje, depois de tanto tempo, o mundo parou. Não temos mais obrigações. Quer dizer, temos, mas não somos mais pressionados a cumprí-las. Não precisamos contar o tempo, medí-lo, demarcá-lo. Temos todo o tempo do mundo para fazermos o que bem quisermos. E é isso... Isso que me frustra profundamente. Eu posso fazer o que quiser, dentro do aceitável. As pessoas com quem convivo agora, não me impedem de nada. Eu posso gritar, correr, arrancar meus cabelos, cortá-los, soltá-los ao vento...

As pessoas ao meu redor são apenas sombras. Todos nós somos apenas corpos agora. A nossa alma se fora há muito, muito tempo. Em ritmos diferentes, lentamente pra uns, rapidamente pra outros. Mas, hoje, todos sem exceção, somos apenas corpos sem alma... Quer dizer... Há sim, uma exceção. E é por essa exceção que eu ainda vivo. É essa bendita exceção que me da motivos pra continuar lutando. A esperança. A bondade, a candura. A pureza, representada na figura de uma doce garota. Minha boneca, minha intocável princesa. É até curioso notar o modo como desenvolvi tais sentimentos por essa menina. Curioso, estranho, indecifrável...

Aos poucos ela está se desgarrando de mim. A cada dia está mais forte, mais independente. E isso... Me assusta. Temo que a esperança dela desapareça. Que a ultima chama de humanidade que ainda existe na Terra, se apague. Será o fim do mundo. Do meu mundo, do de qualquer pessoa ao redor da Terra. Ela é nosso anjo, nossa salvadora. Eu sei do potencial dela, sei de tudo que ela ainda pode fazer. Se ela se for, se ela se tornar um de nós, tudo isso terá sido em vão. Toda minha luta terá sido jogada ao vento, a ultima folha verde irá cair do topo da árvore...

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