After The Rain

6 05. Violet


05. Violet

Rachel odiava hospitais. O branco daquele lugar era desesperador, e ela não conseguia evitar de ficar tonta toda vez que ia em um, sentia-se claustrofóbica, como se as paredes do prédio fossem fechar em torno de si e destruir seu corpo. O mais estranho era ver como ela e os tios destacavam-se naquele imenso mar branco.

Sua tia vestia um conjunto escuro, algo entre o azul marinho e o roxo, seus lábios estavam pintados com um forte batom vermelho e o resto de sua maquiagem também era muito exagerada para a ocasião. Rachel deveria imaginar que eram assim que a sua família frequentava hospitais, afinal. Seu tio, por outro lado, estava mais simples, com uma camisa social e calças jeans, estava sentando ao lado de Rachel, olhando para ela com cautela.

A própria garota, por sua vez, tinha os chamativos cabelos ruivos e as roupas coloridas, porém, estava tão pálida e com olheiras violetas tão profundas embaixo de seus olhos, que era como se toda a cor de sua vida tivesse se esvaído do seu corpo. Não dormia direito há dias, desde que o estado de seu pai tinha se agravado e ele foi encaminhado para a UTI.

Sua relação com ele estava, finalmente, melhorando, não era como se tivessem recuperado os vinte anos em apenas alguns meses, na realidade, pareciam duas pessoas que se conheciam pela primeira vez, aprendendo a se gostar. Ainda assim, Rachel era preenchida com uma estranha sensação de paz, mesmo agora, quando sentia o sopro da morte tão perto novamente.

Era satisfatório resolver os seus problemas com o pai. Ele não havia mudado, era fato, continuava achando que a garota estava perdendo seu tempo com o curso de Artes, por mais que ficasse feliz toda vez que a filha aparecia com um quadro para pendurar em seu quarto ou quando descrevia para ele o dia lá fora, com os olhos atenciosos de uma artista. No entanto, ainda não acreditava que perderia todo o seu império para o irmão e sua esposa, que o velho homem considerava invejosos e gananciosos, pela falta de interesse da moça nos negócios da família.

Mas Rachel havia mudado. Quando a jovem encarou de frente o fim do mundo, foi impossível não mudar suas ideias sobre certas coisas, percebeu que sua vida não seria sempre feita de sonhos utópicos, que, às vezes, era preciso colocar os pés no chão, afinal, as pessoas não estariam ali para sempre com ela. Considerava-se uma adolescente mais madura do que a maioria, porém, quando viu que algumas pessoas da sua idade eram capazes de enfrentar deuses poderosos e a própria morte, percebeu que era tão ingênua quanto a maioria dos outros; buscando pontos que a tornassem especial quando era apenas uma garotinha que não aceitava as opiniões divergentes de seu pai. Enfim, ela conseguiu perdoá-lo e sentia-se tão livre que poderia flutuar para fora das janelas daquele hospital.

Ao realizar suas construções, o homem doente desabitou diversas famílias e causou danos ambientais irreparáveis, isso Rachel ainda não tinha capacidade ou maturidade o suficiente para perdoá-lo, nem em seu leito de morte. Por mais que, após muitos dias conversando com seu pai, ele havia aceitado que sua filha poderia doar parte do dinheiro da família para reparar os prejuízos dos moradores desabrigados.

Pela primeira vez na vida, eles foram capazes de se entender, com todas as suas diferenças. O grande problema na relação dos dois foi que um sempre queria mudar as características do outro, em vez de tentar aprender a conviver com elas.

— Ei, Rach. – Andrew sentou-se do seu lado, em um dos bancos desconfortáveis da recepção do hospital, após cumprimentar seus tios. – Eu vim assim que soube. Como ele está?

O corpo da garota foi atraído pelo de seu namorado, e ela apenas encostou a cabeça em seu ombro, fechando os olhos. Andrew envolveu um braço sobre Rachel e entendeu que ela não queria falar nada no momento. Ambos sabiam que apenas a presença do garoto ali era suficiente, como antes, o abraço do rapaz era tudo que ela precisava naquele momento, era sua moradia, entretanto, ele não conseguiu transmitir a segurança que sua namorada tanto almejava. Algumas batalhas deveriam ser enfrentadas sozinhas, afinal.

Quando o médico de seu pai apareceu na recepção, com o olhar cansado e coçando a cabeça, ele não precisou falar nada. Rachel percebeu que sua boca abria e fechava, e que seus tios levantaram para conversar com ele, inclusive, seu tio socou uma das paredes brancas, com o rosto vermelho e os olhos marejados, durante a conversa.

As lágrimas vieram quando a garota não pensou que elas viriam. Fortes, salgadas e puras. No entanto, nem tudo era tristeza ou solidão, o sentimento irreparável da perda, que tinha tornado todo o corpo de Rachel oco e vazio; parte sua estava aliviada, por mais errado que isso pudesse soar, tinha conseguido fazer com que seu pai gostasse dela, como deveria, como pessoa, não apenas por obrigação. Quando abraçou Andrew por inteiro e soluçou até perder as forças e fazer sua cabeça latejar, foi de puro alívio, seu pai estava livre daquela doença que lhe causava tanto sofrimento.

Assim como um machucado, a dor poderia ser forte e insuportável naquele momento, especialmente quando pensava em todas as coisas que não havia sido capaz de fazer com seu pai. Porém, Rachel sabia que, como um hematoma que mudava de cor e ia se tornando pequeno, mas que estava sempre presente, ela iria sentir saudades do pai pelo resto de sua vida, apenas aprenderia a viver sabendo que não poderia voltar a ele quando se arrependesse do tempo perdido.

~

Andrew e Rachel estavam sentados sobre a grama verde, bem cortada e refrescante, belas flores enfeitavam o local, e o dia estava lindo, nenhuma nuvem no céu e o Sol escaldante. Muito parecido com o primeiro encontro do casal, os dois alegres, conversando banalidades e rindo, tudo parecia perfeitamente certo e romântico, se ignorassem o fato de que estavam em um cemitério.

Era o aniversário de morte do pai da moça e, depois de tantos aniversários em vida dos quais Rachel havia fugido, ela sentia-se na obrigação de ir visita-lo.

Nesse um ano que se passou, seu namorado havia sido extremamente compreensível. Andrew quase nunca tocava no assunto, como as demais pessoas, apenas fazia com que ela esquecesse aos poucos, com piadas, filmes, tardes cozinhando juntos e pinturas, que só faziam Rachel rir por causa da falta de habilidade do outro. Diferente de seus pais, que nunca recolhiam os caquinhos do seu coração, o jovem estava lhe ajudando a pegá-los, por mais que alguns tivessem se perdido para sempre.

Andrew abriu uma garrafa de vinho e colocou um pouco para ele e a namorada.

— Era o vinho favorito de seu pai – disse ele, enquanto dava um gole e observava a lápide. Pai e esposo amado, homem de negócios com um bom coração.

Rachel riu contra o copo.

— Como você sabe disso e eu não? Achava que eu fosse a filha dele.

— Elizabeth, achei que você já soubesse o quanto meus professores de faculdade pagavam pau para o seu pai. Um deles me contou isso quando eu ainda estava no meu terceiro ano, ele tinha lido em uma revista ou algo assim, não sei se é verdade, no entanto.

– Esse seu professor parece ter uma vida muito interessante, e eu nem sei se nós podemos beber em um cemitério. – Os dois riram. O amor para Rachel ganhou um novo conceito, alguém que fosse capaz de fazer você gargalhar em um cemitério, sem culpa. – Meus pais teriam te adorado.

Andrew sorriu carinhosamente, pegando a mão da namorada e dando um beijo suave nela.

— Fico lisonjeado, mas já basta saber que você me adora.

– Não seja tão convincente, Matters.

– Bom, vamos ver se você vai gostar mais de mim agora, eu trouxe um presente para sua mãe também, violetas. – Ele indicou as flores com a cabeça, o vaso trazia alguma beleza para a lápide.

O sorriso de Rachel se clareou e o gesto fez seu coração, já tão remendado, se aquecer. Ele lembrara que violetas eram as flores preferidas de sua mãe. Ela havia comentado uma única vez, quando tinham entrado em uma certa briga sobre como deveriam ter mais plantas em seu apartamento, mesmo que nenhum dos dois tivesse muito tempo para cuidar delas.

— Eram suas favoritas, porque, com um pouco de Sol, mesmo sendo tão delicadas e belas, poderiam sobreviver por muito tempo. Ela costumava dizer que eu era uma violeta e só precisava de alguns raiozinhos de felicidade para crescer e me tornar igualmente forte.

– Isso é muito bonito.

– Seria mais belo se ela não dissesse isso apenas quando eu resolvia fazer pirraça em lugares públicos, minha mãe só queria que eu parasse de chorar.

Os dois riram. Talvez não tivesse tanta graça, mas o álcool, o Sol agradável e a leveza que Andrew conseguia trazer para uma situação tão mórbida, tornava tudo mais divertido para Rachel.

— Ei, eu gostaria muito de ter conhecido os seus pais. Eles poderiam não ser as melhores pessoas do mundo, mas o que importa para mim é que eles conceberam a melhor pessoa do mundo. – Todo o garoto parecia brilhar com o Sol à sua volta. – Então, eu estava pensando em você conhecer os meus, depois de tanto tempo, o que acha de pegar uns raiozinhos de felicidade na Austrália?