03. Blue

Rachel jogou-se na cama de Andrew, observando os pôsteres de Harry Potter e Star Wars no teto de seu dormitório, além de algumas fotos que ele tinha colado com sua família, seu pai careca de óculos escuros e sua mãe risonha com as bochechas gorduchas, e com seus amigos, ganhando medalhas e fantasiados de Liga da Justiça para o Halloween, pela parede um tanto desbotada.

— Você precisa arranjar um novo fotógrafo – comentou ela, sentando-se, pegando as fotos em suas mãos e observando como sempre alguém ficava desfocado ou cabeças eram cortadas. – Ainda bem que, todas as vezes que você pede, eu nego em lhe emprestar minha câmera.

Saindo de uma outra divisão do dormitório, Andrew apareceu à sua frente, com os cabelos bagunçados e o olhar cansado, a cara emburrada, com os lábios em uma linha.

— Rachel, você precisa aprender isso, não vai conseguir fugir para sempre. – Andrew sentou-se ao seu lado na cama, com um suspiro. – Você teve alguma matéria de Matemática antes da faculdade? Onde as fórmulas básicas estão em sua cabeça? Sem elas, é realmente difícil fazer os exercícios mais complexos. E você precisa de oito créditos para passar em Ciências, por que escolheu Matemática, quando tinha aulas mais fáceis?

Rachel gemeu, tapando a boca do garoto com sua mão.

— Vamos dar um tempo, por favor, eu não aguento mais ver números na minha frente, vou acabar enlouquecendo. – A garota o encarou com seus gigantescos olhos verdes, e Andrew acabou por ceder. – Eu não sei como essa vai ser a sua profissão.

— Eu também não, às vezes, você me faz querer desistir de me tornar professor – murmurou o garoto, mal-humorado. – Espero que nem todos os adolescentes sejam como você.

Andrew bufou, retirou seus óculos, colocando-os de qualquer jeito em cima de um criado-mudo que tinha ao lado da cama, e deitou-se na mesma. Não demorou muito para que a garota se juntasse a ele, com um sorriso satisfeito no rosto e os olhos fechados, como se finalmente pudesse descansar. O garoto sempre ouvia a amiga reclamando sobre como o seu pai conseguia ser manipulador e astuto ao usar as palavras, no entanto, quando era da vontade de Rachel, ela também sempre conseguia o que queria.

A garota confessara para ele que já tinha usado o poderoso nome da família algumas vezes, porque precisava ajudar seus amigos, e Andrew não conseguia parar de se perguntar o que esses amigos haviam feito de tão errado para Rachel agir como seu pai, que tanto evitava.

Rachel Elizabeth Dare era uma pessoa de muitas palavras, mas quase nenhum amigo. Ao longo dos meses na faculdade, tornou-se próxima de suas duas colegas de quarto, por mais que ela fosse bem diferente das outras duas garotas, era perceptível o fato de que tinham se apegado e ajudavam uma a outra sempre que possível. Rachel gostava de levar suas amigas para conhecer galerias ao redor de Nova Iorque e seus lugares escondidos favoritos na cidade, porém, uma de suas novas amigas era da Índia, o que fez com que a garota participasse de vários programas de turistas que ela dizia tanto odiar, desde espetáculos da Broadway a fotos na frente do apartamento dos personagens de Friends.

A alegria da amiga era contagiante e efervescente, conseguia se tornar facilmente o centro das atenções, mas não de uma forma negativa. Ela era engraçada e tinha ótimas histórias para contar, era agradável ficar ao seu redor, e a própria garota achava que, finalmente, as pessoas gostassem dela por quem realmente era, não pela máscara que tinha que usar nos chiques eventos da família. Sabia o nome de mais pessoas naquela universidade do que Andrew e memorizava o que tinha acontecido na vida de cada uma. “Como está sua irmã, Kelly?” “Gostou da viagem para o Canadá, Peter?” “Eu soube do seu cachorro, sinto muito, Tina”.

Além disso, a garota estava começando a realizar o projeto de grafite que tanto almejava desde sua primeira semana na escola, e seu sorriso nunca esteve tão fácil, e sua pele e cabelos nunca estiveram tão brilhantes. Era uma pena que Andrew tivesse que ajudá-la para terminar sua general education e se transferir de instituição. De todos os seus alunos monitorados, ele havia se apegado mais à Rachel, ela acrescentou mais cor à sua vida com suas roupas chamativas, cabelos ruivos, péssimas piadas e inúmeras pinturas, muitas das quais, inclusive, ela havia dado ao amigo. Ainda que faltasse um ano, o garoto já pensava quando teria que vê-la partir

– Você vai passar essas férias com a sua família? – perguntou Rachel, virando-se para conseguir olhar para Andrew e ficando deitada de lado.

Andrew virou a cabeça para o lado para também conseguir enxergar melhor a garota. Rachel era uma pessoa bastante expressiva, então, o garoto conseguia dizer com facilidade quando a caloura estava mentindo ou estava se sentindo triste.

A cama não era grande o suficiente para os dois, logo, pernas e braços longos se tocaram suavemente, fazendo com que uma onda quente passeasse por todo o corpo do garoto. Seus rostos estavam próximos, ele conseguia sentir a respiração de Rachel contra a sua boca, e os cachos da garota faziam cócegas por toda a sua face, mas Andrew não se incomodou em tirá-los.

Observou o rosto da garota com atenção, como ela muitas vezes fazia com ele, para desenhá-lo, e sentiu vontade de contar suas sardas espalhadas pelo nariz e bochechas, que só eram perceptíveis quando a distância era pequena, e de passar a mão pela sua boca pintada com um batom laranja. Rachel estava o torturando por meses, com flertes de brincadeira e abraços demorados, e a quantidade de roupas que o separavam naquele momento, mesmo com o verão, era uma sentença de morte.

Andrew segurou as próprias mãos contra o peito, no impulso de fazer o contorno do rosto em forma de coração da garota, e sentiu seu coração protestando pela adrenalina perdida naquele momento.

— Andy?

Respirou fundo antes de responder, para não soar descompassado.

— Sim, eu vou, até já comprei as passagens. Eu não os vejo muito durante o ano, mesmo que eu tenha ido visita-los na pausa do Natal, já faz bastante tempo. Você vai aproveitar essas férias para ficar com seu pai?

Ele sentiu Rachel se mexer inquieta ao seu lado.

— Acho que sim. – Alguns minutos em silêncio, enquanto Andrew observava o céu azul lá fora e o Sol forte. Era possível ouvir, ao mesmo tempo, passarinhos entoando uma bela melodia e jovens bêbados gritando. Os estudantes aproveitam o início do verão e o fim do semestre para dar as festas mais lendárias, que ele, Rachel e o resto do seu grupo de amigos só iam para apostar quem iria ser o primeiro a desmaiar e atrapalhar a transa de alguns casais. Era um sadismo à parte. – Eu não sei se te contei, mas ele está em casa, o médico disse que o câncer está estável agora, não está avançando para outros órgãos, portanto, ele achou que seria bom se ele passasse um tempo com a família, antes que a situação possa piorar.

— Tenho certeza que vai dar tudo certo. – Andrew sentiu-se confortável o suficiente para passar as mãos levemente pelos cabelos de Rachel, brincando com seus cachos. – Diga a ele que eu admiro muito os prêmios que ele ganhou para a minha área.

Rachel riu fraco.

— Só se você me trazer alguma lembrancinha da Austrália dessa vez, não vou cair na desculpa da alfândega de novo.

O garoto deitou-se da mesma forma que ela, de lado, podendo visualizar agora todo o seu corpo. Suas testas estavam quase coladas, o nariz de Andrew quase encostando nas bochechas de Rachel, quando ele se levantou de forma abrupta.

— Não vou trazer lembrancinha nenhuma se você não for bem nessa prova.

Rachel bufou e espreguiçou-se na cama, ocupando-a por inteiro e virando o rosto para não ter que olhar para Andrew.

— Às vezes, eu esqueço que você tem oito anos. – Ele olhou para a amiga deitada, com os braços cruzados, por mais que ela não pudesse ver seus movimentos. – Vamos, Elizabeth, os números estão ansiosos para tomar chá com você.

Ela não respondeu, apenas cruzou os braços sobre a cabeça, para fingir que não tinha mais como escutar Andrew, mas isso só fez com que seu amigo ficasse mais irritado, por isso, pegou a garota pela cintura e a colocou em seu ombro. O garoto estava desconfortável, suas costas provavelmente iriam ficar doloridas e Rachel tentou chutar algumas vezes suas partes íntimas, todavia, tudo valeu a pena quando Andrew escutou a gargalhada escandalosa da amiga.

~

— Andrew, sua namora está aqui! – gritou o colega de quarto do moço, Oliver, fazendo Rachel rir.

Oliver voltou para dentro do dormitório, logo após atender a porta, deixando-a aberta. O lugar, como todos os outros no campus, era dividido em, basicamente, um espaço como se fosse uma sala e uma pequena cozinha, e o quarto, e tudo estava de pernas para o ar naquele dia. Eram os últimos dias de aula antes das férias de verão, o que justificava as roupas jogadas pela sala, os cadernos espalhados pelos móveis da cozinha e as malas abertas no chão, afinal, o próprio dormitório de Rachel não estava muito diferente.

Andrew apareceu na porta com um sorriso, mesmo que aparentasse estar cansado com toda a arrumação, ele trazia na mão uma blusa amassada que tentava dobrar, Rachel imaginou que estava fazendo os mesmos movimentos a manhã inteira.

— Ela não é minha namorada, babaca, mas pelo menos eu ainda tenho chances de arranjar uma – gritou Andrew para dentro do dormitório, antes de fechar a porta.

O corredor também estava uma bagunça. Pessoas corriam de um lado para o outro, com últimos trabalhos para entregar nas mãos, alguns, os que deixariam a universidade naquele ano, corriam com seus documentos para a secretaria. Muitas portas estavam abertas, mostrando o caos de cada dormitório, e alguns pais já andavam pela faculdade afim de ajudar na bagagem dos filhos.

O espaço entre os quartos não era muito grande, mas Andrew e Rachel encostaram-se na parede oposta, não querendo atrapalhar a passagem de ninguém.

— Eu vim me despedir e te contar que o Sr. Hilton disse que eu consegui os créditos suficientes para passar na sua matéria. – Ela sorri de orelha a orelha. – Logo, vim agradecer a ajuda.

— Isso é ótimo, Rachel!

Andrew não conseguiu evitar e colocou os braços ao redor da amiga, pressionando o seu corpo com força contra o dela. Rachel correspondeu ao abraço, passando as mãos pelo tronco do amigo e andando carinhosamente com as mãos pelas suas costas. Os dois ficaram assim por um tempo, com o garoto sentindo o perfume de pêssego na amiga, que ainda tinha os cabelos molhados e um pouco bagunçados por causa do banho.

Afastaram-se, ambos sentindo um certo vazio após o abraço. Rachel foi quem quebrou o silêncio.

— É melhor eu ir andando, ainda não acabei de arrumar minhas coisas. – Ela acenou para o amigo com a cabeça, já começando a andar para trás, tomando o cuidado de não esbarrar em ninguém. – Espero que tenha uma boa viagem e não se esqueça da minha lembrancinha.

– Boas férias!

Finalmente, Rachel virou os calcanhares com seu All Star vermelho e começou a andar em direção à saída do edifício. Seus dedos tamborilavam impacientes contra a calça que usava, e ainda podia sentir o corpo de Andrew contra o seu e o vazio inevitável que havia enfrentado quando se separaram.

Ela sempre buscava conforto nos braços do amigo, desde o dia em que haviam se abraçado depois do pesadelo. Todas as vezes que era atormentada pelo Espírito de Delfos, todas as vezes que recebia más notícias sobre a saúde de seu pai, todas as vezes que ainda se sentia insegura consigo mesma e com suas escolhas, sabia que podia afogar-se na curva do pescoço de Andrew. Palavras nunca eram necessárias, ela podia morar naquele abraço até que se sentisse forte de novo.

Não pareciam seus pés que a trouxeram de volta para a porta de Andrew, eram como se o Espírito de Delfos estivesse a dominando e comando suas ações, ou, quem sabe, a deusa do amor. Essa explicação parecia mais sensata aos olhos de Rachel do que acreditar que ela própria havia voltado ao dormitório do garoto para beijá-lo contra a parede de seu quarto.

Em um primeiro instante, apenas seus lábios se encontraram, em um gesto seco e mecânico. Quando Andrew colocou as mãos em sua cintura, deixando a blusa amassada cair, e Rachel subiu com suas mãos pelos braços do garoto, até coloca-las em volta de seu pescoço, o beijo foi aprofundado com calma, enquanto uma das mãos do amigo subiu delicadamente até a cabeça da garota e afagou os seus cabelos. Tudo pareceu fazer sentido.

Mesmo com os olhos fechados, Rachel conseguiu ver uma explosão de cores na sua mente, como se várias latas de tintas estivessem arrebentado, espalhando pingos para todos os lados, como se todas as fotos que ela tinha com o garoto até aquele momento fossem monocromáticas, e só a partir dali, adquiriram cor. Era calmo e acolhedor como um céu azul, ardente e convidativo como o fogo alaranjado que crepita em uma lareira, quente e gostoso como o Sol que brilhava no dia em que foram ao parque.

Depois de dentes batendo e risadas envergonhadas, o beijo tornou-se um pouco mais ardente e necessitado, com Andrew apertando com força a cintura da garota e Rachel arranhando um pouco o seu pescoço. Acabaram se separando quando o ar faltou, mesmo que a contragosto.

A caloura puxou o lábio inferior do garoto, provocando um leve suspiro nele, antes de se afastar com cuidado, passando as suas mãos do pescoço de Andrew para seus braços, preguiçosamente, até estarem de mãos dadas. Ele tinha os olhos grudados nela e a respiração ofegante, todo o seu corpo buscando por apoio no batente da porta.

Soltando as suas mãos, Rachel conseguiu articular:

— Elizabeth te deseja boas férias.