After Separation - Livro 2
36 Capítulo XXXIV
- Por que me olha tanto? — indago já meio constrangida e até mesmo desconfortável com as sucessivas vezes que Doug me encara. Estamos os dois almoçando sozinhos em uma mesa no refeitório recém inaugurado da editora. Ele havia me visto ali antes e resolveu se acomodar para me fazer companhia, já que Morgan que estava ali comigo saiu às pressas para socorrer a mãe que ligou não se sentindo bem.
- Desculpa, Sara. Não foi minha intenção te incomodar. Só que... A gravidez tem te dado um brilho a mais do que você já tem... Que fica impossível não te admirar de tão linda que você tem ficado.
- Oh!... Obrigada! — agradeço bem sem jeito por suas palavras.
Já tinha ouvido falar que a gravidez deixa as mulheres "mais radiante" ou com aquele "brilho especial". Dizem que nós ficamos com os cabelos mais bonitos, com a pele viçosa e até mesmo com as unhas mais fortes ou mais fracas durante os nove meses. Antes, eu achava isso um tremendo mito. Porém, lendo livros, conversando com minha médica e principalmente, sentindo em mim mesma essas "mudanças", descobri que isso é muito real, e que existem vários fatores hormonais que explicam essas características.
Ao longo dos nove meses de gestação, nós, mulheres, passamos por um turbilhão de mudanças físicas e, principalmente, hormonais. E, justamente, as variações hormonais são as que conduzem essa 'luz' diferente em nós, futuras mamães, e são a causa do efeito responsável pelo 'como você está radiante' que as pessoas notam em nós. Algo similar acontece com o cabelo. De novo são os hormônios que operam milagres, já que são eles que conseguem que nosso cabelo não apenas cresça mais rápido, como também mais forte, saudável e com brilho, e que as unhas, pelo contrário, se enfraqueçam, meu caso.
Ainda que isso não aconteça com todas as gestantes, muitas experimentam um evidente aumento do tamanho do peito na gravidez, de novo... meu caso. São os hormônios, mais uma vez, os protagonistas desse aumento de tamanho, o que faz com que nós estejamos atrativas. Isso também ajuda a que o nosso corpo tenha mais curvas e provoque essa sensação embelezadora. Eu, particularmente, tenho amado isso.
- Não queria te deixar constrangida, Sara. Desculpa mesmo. — Doug pede após ficarmos em silêncio por um par de segundos.
- Tudo bem.
- Já não basta o constrangimento dos comentários maldosos que você teve que enfrentar recentemente.
- Nem me fale. — suspiro em um muxoxo.
Recentemente, a minha gravidez foi descoberta e espalhada pela editora toda por não sei quem. Doug, Julie, Morgan e Owen juraram para mim, na ocasião, que não abriram a boca de jeito algum. Acredito neles! Vai ver que alguém escutou escondido alguma conversa minha com um deles e assim descobriu, e espalhou aos quatro cantos. Ou vai ver que, muito provavelmente, foram as minhas curvas arredondadas que me denunciaram mesmo.
Pois bem, a revelação da gravidez não foi o problema em si, até porque eu já pretendia revelar mesmo. O problema foi que começou a surgir junto às inverdades a respeito da paternidade do meu bebê. Espalharam que o pai era o Owen e que nós mantínhamos um caso, o que justificava toda a proximidade que tínhamos e as trocas de abraços públicos da gente (sendo que a única vez que nos abraçamos publicamente foi no final do ano, antes de ele viajar para Houston). E teve mais, ainda inventaram que nós estávamos juntos desde muito antes de eu vir para a BoB, mais precisamente, da época que nos conhecemos na feira do livro. E que por estarmos em um relacionamento, foi que ele me trouxe para trabalhar na editora.
Obviamente, as inverdades desencadearam comentários bem maldosos e inverídicos, ao ponto de muitas pessoas contestarem minha capacidade profissional dentro da editora como, por exemplo, Mckeen. Inclusive, nós dois tivemos uma discussão feia na copa com direito a bofetada trocada, porque ele veio querer ditar lição de moral em mim e falar que "hoje em dia, bastava ter um rostinho bonito e dormir com o chefe para subir de forma vertiginosa na carreira". Isso lhe rendeu uma bofetada que lhe aceitei em cheio. E quando ele fez menção de vir para cima de mim, Owen que tinha ouvido os absurdos que ele disse, se fez presente e evitou o pior. Ele disse poucas e boas ao Mckeen e a corja dele que estavam ali presente, destilando veneno juntamente. Owen ainda deu ao sujeito uma advertência pela calúnia proferida. E ele ainda foi além, mandou fazer uma reunião no auditório onde deixou bem claro que entre ele e eu não há caso algum e que ele não é o pai do meu bebê, e ainda que fosse, ninguém ali tinha a ver com isso. Fez questão de deixar claro que sou uma grande profissional e que me contratou justamente, por isto e nada além disto. Mas ainda assim, o estrago já havia sido feito e sujado minha imagem ali.
A chamada de atenção serviu para evitar que os comentários fossem feitos diretamente, mas obviamente, eles ainda são proferidos por "baixo dos panos", porque eu sei que são. Porém nada mais me foi dito de forma direta desde a reunião. Entretanto, sinto os olhares de julgamento de algumas pessoas quando passo perto delas. Só que faço é ignorar, porque senão ficarei louca debatendo com cada pessoa que me lança um olhar torto.
- Até hoje me pergunto quem fez isso, porque soube até onde Owen e eu nos conhecemos.
- Ah, Sara, para derrubar alguém, as pessoas fazem de tudo, principalmente, no meio literário. Se bobear, a pessoa que fez isso investigou sua vida e continua a investigar.
Parando para pensar, Doug pode ter razão, porque a informação sobre onde Owen e eu nos conhecemos é algo que somente alguém que tenha investigado minha vida, teria conhecimento, posto que nunca comentei com ninguém dali sobre já conhecer o Owen. Ele também me confidenciou que tampouco comentou isso com gente dali, justamente para não dar margem a esse tipo de comentário.
- Isso é loucura, mas não duvido que seja real.
- Pois é. Há louco para tudo. Fica esperta, principalmente com o Mckeen. Quem sabe, não tenha sido ele.
- Se foi, não creio que ele faça algo agora. Jeffrey já está visado depois da advertência do Owen. Se ele é inteligente como julgo ser, não cometerá essa burrada, porque sabe que a demissão vai bater na porta dela.
Doug assente em concordância.
***
Munique, Alemanha...
- Senhora e senhores, boa tarde. — saúdo enquanto me acomodo na cabeceira da mesa. — Agradeço de imediato a presença de todos nessa reunião de diretoria. Estamos aqui para a apresentação do primeiro relatório trimestral do ano. Zimmermann é com você. — passo a bola para o alemão enquanto lanço um olhar para a minha secretaria que começa a distribuir a todos os presentes, as pastas com os dados detalhados que Zimmermann apresentará de forma resumida no quadro.
- Vamos lá então.
Zimmermann mexe em seu notebook e após alguns segundos os dados estão expostos na enorme tela para que todos vejam.
- Estes são os dados resumidos dos resultados da Care no período dos últimos três meses. — inicia o homem se dirigindo até próximo a tela enorme. — Como podem ver... Esse primeiro trimestre de 2018 foi marcado pelo aumento na nossa receita. No entanto, também enfrentamos pressão dos concorrentes como a Merck KGaA e a BioNTech que cresceram vertiginosamente e começam a ameaçar nossa hegemonia no mercado.
- Isso é preocupante, Grissom. — um dos diretores me lança um olhar.
- Eu sei. — retruco não gostando nada do comentário em tom de repreensão. — Mas está tudo perfeitamente controlado.
- Viemos de Nova York para receber de cara isto? — alguém resmunga.
- Apesar dos pesares, as coisas estão perfeitamente controladas, senhoras e senhores. — tranquilizo. Esses bando de abutres se fixaram apenas na informação final. Impressionante!
Zimmermann continua dando detalhes sobre a nossa área de vendas onde conseguimos crescimentos de 10% em relação ao último trimestre de 2017. Esse dado me acalenta e demonstra o bom trabalho da nossa esquipe, que tem se dedicado bastante no foco de conquistarmos novos mercados, ainda mais depois da nossa entrada no setor de cosméticos com o lançamento de uma linha de maquiagem e cuidados para a pele há um mês.
- Por outro lado, o aumento de custos de matéria-prima no nosso setor de cosméticos, impactou nossas margens, como mostra esse outro gráfico. — Zimmermann aponta o lado esquerdo da tela.
- Isso não deveria acontecer. — alguém opina.
- É que nossa preocupação com o meio ambiente e a saúde, nos levaram a optar pelo uso de materiais naturais e orgânicos. — explico. — E com isso os custos inicias foram maiores.
- Exato. — Zimmermann diz. — Mas estamos trabalhando em negociação com os fornecedores para conseguir baixar os custos e também estamos revisando os processos.
- Isso deveria ter sido pensado antes da execução. Me parece que esse lançamento foi muito precoce e sem planejamento algum.
- Muito pelo contrário. Foi bem planejado, só que nem sempre as coisas saem do jeito que queremos. — rebato em uma falsa calma. — No próximo trimestre, nosso foco será a implementação de uma nova campanha de marketing pesada para nossos clientes e ao público em geral, além é claro de negociações com fornecedores como já foi dito. — comento. — Estamos confiantes de que, com o trabalho conjunto e a implementação de nossas estratégias, alcançaremos resultados ainda mais positivos e expressivos.
- É o que esperamos, Grissom. Você bancou essa entrada no mercado de cosméticos e esperamos que saiba o que está fazendo.
- Até porque seu pai não achava uma boa isso. — uma das diretoras se pronuncia, a única mulher além de mim ali presente. — Na gestão dele, Joseph sempre preferiu visar em medicamentos e produtos de saúde que pudessem ser usados para diagnosticar, tratar e prevenir doenças, deficiências e outras disfunções.
- Senhores, meu pai não está mais aqui. Vamos deixá-lo descansar. — retruco cada vez mais azedo. Eles teimam em comparar minha gestão com a de Joseph e isso me deixa tão puto. — Quem está a frente desta companhia sou eu. — me ergo da cadeira e apoio as duas mãos espalmadas na mesa. — Joseph fez um ótimo trabalho. Agora deixem comigo. Sei bem o que estou fazendo. O mercado de cosméticos é inovador e muito rentável.
- Então vamos deixar de lado os fármacos e os demais produtos que nos fizeram ser quem somos?
- Ninguém falou isso. — rebato.
- Mas você quer dar foco aos cosméticos.
- Porque está sendo um mercado o qual acabamos de entrar. Precisamos focar nossa atenção nele, mas sem abandonar o setor farmacêutico que nos fez ser quem somos. — bato a ponta do dedo indicador na mesa. — Somos a Care.Inc, a maior indústria farmacêutica do planeta e isso não irá mudar, senhores. Apenas estou ampliando nossos horizontes, trazendo um novo ramo de atuação para esta companhia.
- Mas há indústrias que estão há anos nesse mercador de cosméticos, Grissom. Como vamos bater de frente com uma L'Oréal SA, Unilever PLC, J&J e outras tantas gigantes?
- Vamos acreditar na nossa marca. Ela é muito forte. — digo em réplica.
- No mercado farmacêutico, Grissom, onde concorremos com uma Bayer, Merck KGaA, BioNTech e outras mais, que assim como nós estão há anos atuando nele.
Suspiro enquanto deslizo a ponta dos dedos sobre a testa. Esse pessoal parece que quer ver a minha derrocada. Eles rebatem, discutem e desacreditam de tudo que faço e digo.
- Qual o medo de vocês? — passo meus olhos em cada integrante daquela diretoria ali presente.
- Você nos levar a esse mercado e naufragarmos, arruinando nossa imagem.
A sala cai em silêncio sepulcral após a resposta dada pelo membro da diretoria, que de todos é quem, claramente não nutre apreço por mim.
- Isso não irá acontecer. — retruco após alguns segundos. — Eu garanto.
- Senhores, vamos continuar com a atualização dos dados, por favor?- Zimmermann chama atenção. — Ainda há coisas a serem mostradas e são boas.
- Continue. — digo voltando a me acomodar na cadeira.
Então, eles temem que eu leve a empresa a ruina? Pois eles verão o contrário ou eu não me chamo Gilbert Arthur Grissom.
O restante da reunião fiz apenas comentários pontuais. Deixei para Zimmermann o andamento da reunião, porque já estava puta demais com aquela corja toda. Só voltei a me pronunciar ao fim da reunião.
- Aqui terminamos, senhores. Agradecemos a todos os nossos acionistas pela confiança e apoio, e estamos ansiosos por partilhar consigo os resultados futuros do nosso trabalho. — digo em meu já ensaiado e repetido discurso de encerramento.
Todos se levantam de suas cadeiras e começam a sair da sala, até que restam no recinto apenas Zimmermann e eu.
- Que reunião tensa, hein?
- Esses filhos da puta estão doidos para me ver cair. Viu só como me atacaram?
- Gil relaxa. Você e eu sabemos que estamos no caminho certo. Essa abrangência de mercado foi uma ótima sacada.
- Mas eles não acham, mesmo com os dados que você mostrou.
- Mas logo reconhecerão. O fato de nossos custos terem sido grande e nossa margem de lucro nada alta como estão acostumados, fez com que eles ficassem na defensiva. Na visão deles gastamos mais e o retorno foi pouco.
- E foi mesmo, sabemos. — resmungo em desagrado.
- Sim, mas vamos recalcular a rota e tudo sairá melhor. Anime-se, meu amigo. — ele diz afagando meus ombros. — Vai dar tudo certo. Você é o melhor gestor, sabe disso. E eles também.
- Danke, mann! (valeu, cara!)
***
Nova York...
Alguns dias depois...
- Chefinha!
- Oi! — respondo com a atenção voltada ao computador enquanto analiso o material promocional do nosso próximo lançamento, que o pessoal do marketing me enviou.
Embora o marketing não seja tradicionalmente uma função central minha como editora de livro, eu, particularmente, adoro colaborar com o pessoal do departamento de marketing para promover cada lançamento em que estou envolvida. Gosto de estar a par do planejamento do evento de lançamento e o desenvolvimento de estratégias de mídia social. Assim era na minha época de assistente da Brooke, e assim tem sido aqui na BoB como editora. De início, notei que o pessoal não gostava muito, mas hoje em dia, eles já me mandam as coisas sem eu pedir, e ainda pedem sugestão para mim. Consegui em pouco tempo ganhar a confiança deles e me sinto feliz por isso.
- Eu estava vendo uns papéis e acabei descobrindo sem querer, que fique claro... Que o seu aniversário é em duas semanas.
- Sem querer, Morgan?? — por cima dos óculos, lanço um olhar interrogativo a minha assistente.
- Sim, juro, solenemente. — ela sorri, erguendo a mão direita em juramento.
- Vou fingir que acredito nisso. — retruco, voltando minha atenção ao computador. — E, sim, será meu aniversário. Mas não pretendo fazer nada.
- Ah, não chefinha. Pode parar. Aniversário é uma vez por ano, tem que ser celebrado, mulher.
- Não estou com disposição e nem tempo pra organizar festa, Morg.
Eu tinha trabalho e mais trabalho a fazer. Parecia que quanto mais eu trabalhava, mais serviço aparecia. Meu ritmo era frenético e sabia que em breve teria de baixá-lo devido a gravidez que avança cada vez mais.
- Eu posso me encarregar disso. Adoro organizar comemorações de aniversário.
- Te agradeço, mas não. Não estou muito afim de festejar que estou ficando um ano mais velha.
- Ai, mulher. Credo! Não se trata de festejar que está ficando velha, mas sim, comemorar o seu nascimento, a sua vida.
Encaro Morgan e percebo que ela não vai me deixar em paz, bem como Dayse fazia. Então era melhor ceder do que ela continuar ali me interrompendo o serviço.
- Ok!
- Isso, por acaso, foi um sim?
- Foi!
- Então posso me encarregar disso? Por favor? Diz que sim? Sim? Sim?
Ela parecia uma criança empolgada com aquilo. Resolvi lhe conceder o que ela queria, mas com duas ressalvas.
- Tá. Mas se isso interferir no seu trabalho, eu corto.
- Não vai. Fica tranquila.
- E não quero festança, Morgan. Nada de chamar muita gente, por favor. Quero uma coisa pequena lá em casa.
- Deixa comigo, chefinha. E quanto às pessoas é só você me dar os nomes que quer presente.
- Te digo.
- Vou fazer uma social bacana.
Escutamos o telefone lá na mesa dela tocar, já que a porta da minha sala estava encostada.
- Deixa, eu ir lá atender o telefone. — ele diz apressado e já se encaminhando para a saída da sala.
- Morg... Eu não quero festança. — reforço.
- Você já disse. Tchau!
Ela saí que nem me dá tempo de dizer mais nada.
- Só espero não me arrepender por isso.
Resolvo voltar para o meu serviço, mas nem bem retomo o que fazia, ouço o celular apitar sobre a pilha de manuscritos. Ao apanhar o aparelho noto na tela uma notificação do aplicativo de mensagem instantânea. O número é desconhecido e nem está salvo em minha lista de contato, porém o prefixo não me é estranho. Fico reticente em abrir, mas ainda assim, resolvo ver do que se trata, pois pode ser trabalho.
Ao abrir a mensagem, uma surpresa bem desagradável. Há uma imagem de Grissom acomodado em uma poltrona de uma sala de estar, com um sorriso enorme enquanto encara um bebê em uma roupinha verde, em seus braços. Na legenda da imagem está escrito: "Meus dois amores!" e logo abaixo um curto texto:
"Irmãzinha, conheça seu sobrinho Will. Ele já se tornou o xodó do papai. Gil não se desgruda do NOSSO pequeno."
Assim que termino de ler, encaro a foto outra vez por segundos e, em seguida, bloqueio a tela do celular rapidamente. Largo o aparelho sobre a mesa, quase que instantaneamente, como se ele tivesse quente feito brasa.
- Que ódio! — resmungo, apoiando os cotovelos à mesa e enterrando o rosto nas mãos.
Por que Maryanne não me deixa em paz?
Ela já não se casou com o Grissom como tanto queria?
Vai ficar infernizando a minha vida até quando?
Eu já bloqueei dois números dela. Esse será mais um a ser bloqueado e bloquearei quantos mais forem precisos, porque não quero contato com ela. Mas ela insiste em me esfregar as coisas referente a vida dela com Grissom, impressionante!
E antes que ela me mandasse esta foto, já era do meu conhecimento o nascimento de seu bebê, porque mamãe acabou comentando comigo sem querer dias atrás enquanto trocamos mensagem. Inclusive, dona Laura me pediu mil perdões, pelo deslize de comentar tal fato. Sinceramente, eu acreditei que foi um deslize seu, até porque ela parecia tão feliz com a notícia quando a deixou escapar de forma tão natural e espontânea.
Confesso que estava achando muito Anitta ainda não ter "aparecido" para esfregar na minha cara isso. Mas achei que ela fosse ligar e contar toda cheia de si, como só ela consegue ser, que o bebê tinha nascido. Só que ela fez pior, apesar da demora. Me mandou essa foto.
No fundo, eu sei a intenção por trás do envio dessa fotografia. E queria poder afirmar com todas as letras que Maryanne não foi bem sucedida em seu objetivo, só que seria uma baita mentira, porque ela conseguiu acertar, ou melhor, ME ACERTAR. Receber essa foto foi como um soco no estômago. Ainda mais por ter percebido (ainda que de modo rápido), o quão genuína é a alegria de Grissom enquanto encara o bebê. Seu sorriso é espontâneo e feliz.
- Chefe tá tudo bem?
- Ave Maria, criatura! — retruco quase saltando da cadeira ao sentir a mão de Morgan em meu ombro.
- Calma, mulher! O que houve?
- Há quanto tempo está aí? — encaro Morgan com a mão no peito. Nem ouvi quando ela entrou na sala.
- Há uns dez segundos. Te chamei da porta, mas não respondeu. Então fiquei preocupada pela forma como você estava. — explica. — Aconteceu alguma coisa?
Suspiro.
- Maryanne que não me deixa em paz. — revelo a minha assistente ao me recostar melhor a cadeira e encarar por segundos o teto da sala.
- E o que foi que ela fez agora?
Aponto o celular sobre a mesa. Morgan pega o aparelho e eu o destravo para que minha assistente veja a foto.
- Quem é o bebê no colo dele?
- Filho da Maryanne com o nojento do Bryan, que nasceu há dias e o Grissom assumiu como dele. — conto desgostosa.
- Nossa!... O Grissom parece feliz olhando para o bebê. — completa Morgan encarando a tela do celular.
- Percebi também isso.
- Não pretende mesmo contar ainda para ele do bebê de vocês?
Balanço a cabeça em negativa. Meus planos de contar só após o nascimento dele ou dela, seguem os mesmo. Não posso correr o risco de ter a minha paz e a minha gravidez postas em risco pela presença de Grissom, porque eu sei que assim que ele souber não vai largar do meu pé. E eu estou melhor sem ele por perto, atormentando meu juízo.
- Sei que ele merece isso mesmo, mas se o Grissom olha assim toda abalado para esse bebê que nem dele é, imagina como não ficará quando for este que está na sua barriga e que é de vocês dois, chefe. Com certeza, ele vai babar na criança.
- Não quero nem pensar nisso agora. Por enquanto esse bebezinho é só meu.
- Mas logo terá de dividi-lo com o pai.
- E isso me deixa tão inquieta, Morgan. Não quero o Grissom perto de mim ou do meu bebê.
- Só que é dele também.
- Infelizmente. — retruco com raiva.
- Quanto a ele ficar perto de você... Basta impor limite a ele, chefe.
- Gilbert não sabe o significado dessa palavra, Morgan. — retruco em um muxoxo.
- Bom... Faça com que ele aprenda então.
***
- Amiga, você sabe qual foi a intenção da vaca da Maryanne em te mandar isso né?
- Sim, Dayse. — respondo enquanto me sirvo do ravioli vegano que minha amiga comprou no meu restaurante preferido pra eu jantar.
Eu havia ligado para Dayse antes de sair da editora e perguntado se ela não queria vir dormir aqui em casa, porque queria companhia e conversar com ela. Prontamente, minha amiga concordou e disse que o jantar era por conta dela.
- Eu queria dizer que ela não conseguiu me atingir com a foto, mas...
- Ela foi certeira, né?
Apenas confirmei com um balançar de cabeça.
Depois de receber aquela foto, eu não consegui mais me concentrar. Meu dia virou uma completa porcaria. Quisera eu me livrar de vez do que ainda sentia, mas a cada vez que penso que estou dando passos para isto enfim acontecer, descubro que estou bem longe de conseguir.
- E ainda tem o fato da sonoridade dos nomes. Gil e Will. A Maryanne queria o quê quando pensou nesse nome? Homenagear o pai que nem pai é de fato do filho dela. Parece até de propósito pra me atingir. — gesticulo com as mãos.
É bem a cara de Maryanne aquilo só para me afrontar mais ainda.
- Pode até ser isso, amiga. — Dayse comenta enquanto corta o filé em seu prato. — Mas também pode ter sido ideia do Grissom esse nome. Egocêntrico como aquele lá é, quis se homenagear. Vai saber! O cretino tem um ego maior que o mundo.
- Também. Já não duvido de mais nada. Só queria que eles me deixassem em paz, Dayse. — resmungo antes de deixar um suspiro cansado.
Essa situação é tão cansativa e desgastante. Eu não devia deixar isso me abalar, mas ainda não sei como virar essa chave. Às vezes acho que estou conseguindo, mas aí acontece algo como isto para me mostrar o contrário.
- Olha, o dia que eu topar com essa sua prima, pode ter certeza que vou descontar nela toda a minha ira por ela te afrontar e causar tristeza e estresse, essa vaca. Ela não perde por esperar.
- Nem vale a pena. — retruco, mexendo na comida em meu prato.
- Você que pensa. E come vai. Não deixe aqueles dois tirarem sua fome também. Já basta a sua paz que eles estão sugando. O meu pirocudinho ou a minha pererequinha devem estar com fome aí dentro.
- Já falei para parar de chamar meu bebê assim. — retruco, lançando um olhar a Dayse.
- Ah, você tira toda a graça. É um apelido carinhoso.
Esboço um sorriso, balançando a cabeça de modo negativo. Dayse não bate bem da cabeça.
- Que madrinha você é?! Fazendo bullying com seu afilhado ou afilhada.
Dayse deixa escapar uma sonora gargalhada e eu acabo não aguentando e sorrindo junto.
- Assim você fica melhor amiga. — ela diz alguns segundos depois. — Não deixe, de jeito algum, aqueles dois tirarem de novo a sua alegria e sua paz. Promete?
- Tá. E obrigada por tá aqui, por ser minha amiga que me anima nas horas em que mais preciso.
- De nada, Sidle. — ela pisca um olho para mim e sorri antes de abocanhar seu filé mal passado.
Dayse e eu, por incrível que pareça, estamos tão unidas quanto éramos quando morávamos juntas. Admito que logo que passei a morar só, achei que nossa amizade fosse esfriar devido a distância e nossas rotinas de trabalho corridas. Mas, felizmente, isso não ocorreu!
- Agora, mudando de assunto... — Dayse se pronuncia novamente após mastigar e engolir a carne. — Em duas semanas é seu aniversário. Já tem ideia do que fazer? Nem responde. Se bem te conheço, não pretende fazer nada.
- Hoje mesmo estava falando a este respeito com minha assistente. Ela descobriu quando é meu aniversário e perguntou se eu faria algo.
- Te conhecendo como conheço, você disse que não faria nada.
- Acertou.
- Bem, sua cara mesmo.
- Ela chiou que nem você. Resumindo, ela me convenceu a comemorar o aniversário. E ela ficou responsável por organizar isso, porque ando atolada de serviço devido ao novo lançamento que já está próximo.
- Então me passa o número da sua assistente depois.
- Pra quê?
- Para junto com ela organizar sua comemoração. Sou sua amiga, melhor amiga, e sei mais dos seus gostos que ela. Anda, Sara.
- Tá, depois mando.
- Não me enrola não hein.
O restante do nosso jantar foi carregado de conversas sobre coisas leves e divertidas, mais precisamente sobre o bebê. Semana que vem seria uma consulta especial, seria nela que saberia o sexo do meu bebê e tanto Dayse quanto eu estamos ansiosas para saber disso.
- O que você acha que vem?
- Não sei.
E realmente não tinha qualquer palpite.
- Eu acho que virá uma menina e será uma boneca linda, para o desespero e ciúmes do Grissom.
- Coitada da minha filha. Aquele doente do Gilbert é capaz de querer que a menina ande de burca quando crescer.
- Não duvido. Até hoje não esqueço do acesso de ciúmes que você me contou que ele teve quando viu a roupa que você saiu com o Brooke.
- Aquele cretino é louco de pedra!
Caímos na risada.
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