After Separation - Livro 2
32 Capítulo XXX
Notas iniciais
Munique, Alemanha.
- Meu Deus! Isso não pode ter acontecido!
Ouço tais palavras ao me aproximar da porta do quarto para avisar Maryanne que já íamos embora, pois Luke havia chego com o carro para nos buscar. Iríamos voltar para Berlim naquela tarde mesmo. Já estava mais que saturado da indigesta companhia da minha intragável esposinha.
- Zerada? Não é possível! Como esse dinheiro sumiu?
Sua voz demonstra surpresa e aflição. Acho que alguém acaba de descobrir a limpa em sua conta. Sorrio satisfeito. E sem perder tempo, abro a porta, escondendo o sorriso e, momentaneamente, fingindo seriedade.
- Aconteceu alguma coisa? — me escoro ao batente da porta para, em seguida, dar uma mordida na maçã suculenta que apanhei lá na cozinha antes de vir atrás de Maryanne.
- Não.
Ela tenta disfarçar seu nervoso, mas sem muito sucesso aos meus olhos, já que sei bem o motivo do seu desespero, porque eu sou o responsável por ele, só que ela ainda desconhece isto.
- Tem certeza? Escutei você nervosa, reclamando de um dinheiro que sumiu. — com a cara mais deslavada, insisto mesmo desconfiando que ela não me contará a verdade.
Maryanne lança um olhar rápido para a tela do celular em suas mãos. Eu a observo atentamente, querendo gargalhar de sua desolação. É tão satisfatório ver a sua queda e de camarote, ainda por cima.
A mulher diante de mim volta a me encarar tão aflita quanto antes e isso é uma alegria para mim, que disfarço, por enquanto.
- Não. É só um pequeno investimento que fiz e não deu muito certo. Perdi.
- É mesmo?
- Sim. Talvez, eu devesse ter pedido sua ajuda, já que você conhece mais disso que eu.
Cansado dessa enrolação dela e ciente de que Maryanne não me dirá o que quero ouvir com todas as letras, por motivos óbvios, eu então jogo a merda no ventilador.
- Conta outra. — digo alto. — Eu sei bem o que te aconteceu... — em três passos apenas já estou diante dela, face a face. — Seu dinheirinho do paraíso fiscal, que roubou de mim... — ao ouvir tais palavras, ela arregala os olhos. -... sumiu, não foi?
A face da maldita ladra empalidece na hora tamanho o susto e seus olhos por muito pouco não saem rolando pelo piso de porcelanato. Tal reação foi a pá de cal que tornou evidente sua culpa total no cartório.
- Não sei do quê você está falando!
Ela jura que vai me enganar com essa frase, depois da reação culposa de segundos atrás?
- Não seja dissimulada. — retruco com raiva e a vejo encolher os ombros em susto. — VOCÊ E SEU AMANTE ME ROUBARAM TODO ESSE TEMPO! — grito, lançando longe a maçã e agarrando Maryanne pelos braços logo em seguida. — Chega de teatrinho. — falo chacoalhando a maldita.
- Gil, me solta. Eu não te roubei.
- Nem tenta me convencer disso que não vai conseguir. Eu tenho provas de que você e Bryan me roubaram.
- Provas?? De quê provas está falando? Eu não fiz nada.
- Chega! Acabou a palhaçada! Acabou a chantagem comigo. E acabou qualquer chance sua de crescer em cima de mim e me fazer comer na sua mão daqui por diante. — a solto. — É você quem está nas minhas mãos agora. Qualquer vacilo, eu te boto na cadeia. — aponto com o dedo indicador em riste na direção de seu rosto.
- Cadeia??
Seu susto é maior ainda. Porém, a maldita logo se restabelece e contra-ataca.
- Você não teria coragem! — ela empurra minha mão de perto de seu rosto. — Além do mais, eu abro a boca e conto sobre esse bebê.
Deixo uma sonora gargalhada tomar conta do quarto e noto a face de Maryanne se contorcer em confusão.
Aquela maldita acha mesmo que vai me colocar contra a parede e pôr medo com tal ameaça? Ela já foi um pouquinho melhor que isso.
- Quem não tem coragem de contar nada é você. E sabe, por quê? — digo já sem sorrir e apontando outra vez com o dedo indicador em sua direção. — Porque você perde mais do que eu nessa história. Não sou eu quem sairá desse casamento sem nada. Se não fosse isso, já teria aberto a boca faz tempo, ao invés, de ficar só na chantagem. Você perdeu, Maryanne!
Eu posso ficar sem o comando da Care e todas as regalias que o cargo como CEO da empresa me proporciona, caso essa maldita mulher abra o bico, mas e Maryanne, como vai se ater sem a grande bolada que o casamento lhe proporciona? Fora o emprego que consegui para ela? Porque eu acabo com a carreira dela. Os melhores escritórios de arquitetura não vão querer contratá-la, pois eu me encarregarei disto, nem que seja algo que precise fazer pelo resto da minha vida.
- Gil, eu não roubei nada. Você está sendo injusto! — ela diz, agora, com uma falsa voz branda e querendo forçar um choro, que sei, ser só teatro dia sua parte.
- Ah, estou sendo injusto, é?! — uso de um tom bem irônico ao me pronunciar.
- Sim!
Resolvo pegar as provas que Joshua me mandou e esfregar na cara dessa mentirosa.
- Pois não é bem isso que está escrito aqui. — puxo o celular e exponho para ela as contas da offshore em seu nome e todos os depósitos recebidos da conta de Dominique.
Maryanne foi tão amadora que colocou o próprio nome na offshore, não teve capacidade mental de colocar no nome de um laranja, como Bryan que colocou em nome da ex. Outro idiota também, que teve a ideia brilhante de colocar no nome de alguém conhecido. Dois ladrões de meia tigela.
- Isso são provas forjadas. Eu não roubei nada, Gil. Eu juro.
- Quer saber? — puxo o celular de volta de suas mãos e guardo no bolso da calça. — Foda-se! Não ficarei perdendo meu precioso tempo, discutindo mais isso com você. O que importa é que tomei de volta o dinheiro que vocês me roubaram. Pode avisar ao seu amante isso também. — Maryanne faz menção de dizer algo, mas sou mais rápido que ela. — E antes que venha com ameaças e ligue para o Bryan para bolar uma forma de provar que fiz o que fiz, já aviso de antemão que fui esperto o suficiente para não deixar rastros. Portanto, não terão como provar que fui eu o responsável por PEGAR de volta, o que é MEU!
- Ele não é meu amante!
- Que se foda se continua sendo ou se não é mais!... Eu dou as cartas agora. Você vai dançar conforme a minha música.
Em seus olhos posso ver lágrimas do que julgo ser puro ódio de mim, se acumulando.
- E, mais uma coisa, fique ciente de que não toco mais em nenhum fio de cabelo seu. Quer sexo? Arranje um amante. Mas, por favor, seja discreta e inteligente o suficiente para não deixar sua infidelidade vir à tona. Não quero ser exposto ao ridículo. Entendido, benzinho?
- Eu não quero um amante.
- Problema seu!
- Eu quero você.
- Que pena! Mas eu não te quero. E se um dia te quis, esse dia ficou lá para trás, e até me arrependo dele. — sorrio sem mostrar os dentes.
- Você consegue ser bem cruel.
- E, eu consigo ser mais, quer pagar pra vê?
Se lá atrás disse a ela que faria da sua vida um inferno, agora mesmo que esse inferno vai ser pior.
- É assim que vai ser agora a nossa relação?
- Sim. — respondo sem titubear. — Divirta-se com quem quiser, mas em sigilo.
- Já falei que não quero outra pessoa.
- Então fique na seca ou divirta-se sozinha. — dou de ombros. — Tem dez dedos para isso. Vamos embora!
- Seu escroto!
- Sua ladra! — devolvo antes de me virar e seguir caminho em direção a porta, dando a conversa por encerrada, posto que o meu recado já tinha sido dado.
- Por que não se divorcia de mim e vai atrás da minha prima então?
Sua pergunta me faz parar quando já estou prestes a cruzar a porta de saída do quarto.
Foi a primeira coisa que me passou pela cabeça em fazer. Passei minha manhã inteira cogitando essa possibilidade: jogar tudo para o alto e ir atrás da Sara, com o intuito de me acertar com ela. Não nego que se fosse pelo coração, eu seguiria isso sem hesitar. Provavelmente, nem estaria mais aqui na Alemanha nesse momento, e sim, nos EUA. Batendo na porta da casa dela a essa hora. Porém, a razão pesou absoluta na minha decisão, me fazendo fincar os pés no chão para a realidade e permanecer onde estou.
Não posso colocar a vida pessoal e profissional da Sara e seus familiares em risco enquanto não descobrir quem é o bastardo filho(a) da puta que ficou encarregado de cumprir as ameaças que o coroa me fez pouco antes de morrer.
Joseph foi bem taxativo comigo ao dizer que deixaria alguém de olho em mim. Caso eu não cumpra o prazo estipulado de um ano de casamento com Maryanne, seu encarregado faz o serviço sujo que ele determinou.
Belo pai que eu tinha!
- Eu adoraria. — me viro para encará-la. — Mas por hora não posso. Então, terá que me aguentar, infernizando a sua vida medíocre pelos próximos trezentos e tantos dias que ainda teremos pela frente juntos.
***
A rajada de vento frio daquele início de noite vem de encontro ao meu rosto ao entrar na varanda do hotel. Minha pele se arrepia enquanto me dirijo para próximo da mulher em minha companhia.
Ela sorri para mim e noto entre os dedos dela algo que me faz balançar a cabeça em negação.
- Sabia que isso, mata? — aponto para o cigarro na mão direita de Hajna enquanto que com a outra mão estendo o copo de uísque a ela, que está fumando encostada ao guarda corpo de vidro.
- Obrigada. — ela agradece antes de dar um gole na bebida âmbar. — E o que não mata, Grissom? — me lança a questão após engolir a bebida.
Penso por um ou dois segundos mais ou menos antes de disparar:
- Sexo! — tombo a cabeça para o lado em um tom óbvio.
Hajna explode em gargalhada, jogando a cabeça para trás enquanto equilibra o copo de uísque para não derramar uma gota daquele legítimo escocês de sei lá quantos anos, o qual peguei no bar do quarto.
Me reservo o direito de esboçar apenas um sorriso me encostando ao seu lado.
- Ou é mentira?
- Pior que é. — retruca enquanto se recupera do riso.
- Sexo mata? — a encaro erguendo uma das sobrancelhas em descrença.
- Mata, sim, olhos azuis. É possível morrer durante o sexo, mas é um evento raro e, geralmente, causado por problemas de saúde pré-existentes.
- Sei!
- É sério. — ela reforça e dá outro gole em sua bebida, para depois retomar a fala: — Sabia que... cerca de 0,6% das mortes repentinas ocorrem durante o sexo consensual?... E que o estresse causado pela atividade sexual ou por outras situações exaustivas, pode levar à morte?
- Você está me zoando?
- Juro que não. E te digo mais, o abuso de substâncias químicas, como drogas, estimulantes e álcool, podem sobrecarregar o coração e levar à morte. Sem contar também, nas doenças cardíacas não diagnosticadas que podem levar à morte durante o sexo.
- Mas esse último aí, é mais comum em gente velha.
- Aí, que você se engana, olhos azuis Li um tempo atrás um estudo que sugere que em pessoas com menos de 50 anos isso pode acontecer. A idade média das vítimas era de 38 anos e 35% dos casos ocorreram em mulheres, o que é maior do que em estudos anteriores.
- Uau! — me surpreendo verdadeiramente. — E como você sabe tudo isso? — a encaro com desconfiança.
- Eu gosto de ler muito e sobre vários assuntos. Não sou uma prostituta ignorante como algumas colegas.
Assinto enquanto observo a outra mulher entornar o copo de uísque, com uma elegância, que poucas vezes vi em prostitutas.
Hajna me parece não combinar com esse mundo de prostituição, agora que a conheço um pouco melhor posso dizer. Ela é culta (não que prostitutas sejam burras e ignorantes! Mas a maioria que já peguei não tinha tanta cultura — ou quase nada mesmo, — quanto a húngara diante de mim mostra ter); tem elegância; porte;
Sei de seus motivos para ter entrado nessa vida, pois ela me revelou certa vez, mas ainda assim acho que é um desperdício alguém como ela nessa vida. Hajna poderia estar trabalhando em outra coisa, não ali. Ainda que seus serviços na cama sejam excepcionais.
- Por que não sai dessa vida e volta a estudar? — questiono após uns segundos de silêncio permear entre nós enquanto me pegou observando-a e racionalizando sobre ela nesse mundo da prostituição. — Você é bastante inteligente. Tenho certeza que com uma formação acadêmica, conseguiria um ótimo emprego. — argumento.
Ela me encara e noto os cantos de seus lábios caídos em um sorriso que me dá a impressão de cansaço ou tristeza.
- Quem vai querer dar emprego a uma prostituta, Grissom? Acorda! Nós somos estigmatizadas pela grande maioria das pessoas por conta da vida que levamos.
Uma verdade bem amarga. Conhecida como ''a profissão mais antiga do mundo'', a prostituição é moralmente reprovada em quase todas as sociedades, devido à degradação que representa para as pessoas que a praticam. A sociedade recrimina e marginaliza todo e qualquer profissional do sexo, o que não concordo.
Mas na cabeça de muita gente, a mulher enquanto prostituta, ao utilizar seu corpo como instrumento de trabalho e viver livremente a sua sexualidade, era e continua sendo vista até hoje como deformadora do papel feminino, embora a prostituição, na minha opinião, não seja considerada um desvio de comportamento.
- Gosta do emprego de prostituta?
- Eu preciso dele.
- Não foi o que perguntei.
- Não gosto. Mas infelizmente, preciso dele, como disse anteriormente.
- Se te aparecessem com uma oferta pra sair dessa vida, você aceitaria?
Ela me olha com uma das sobrancelhas erguidas.
- Você não...
- Não, eu não. Outra pessoa. — esclareço antes que ela conclua sua fala.
- Ah! Bom... Já tive propostas de duas pessoas que me ofereceram uma vida 'estável': apartamento, carro, comida, faculdade. Porém, eu teria que ser fiel a eles e, mesmo eles sendo casados, queriam que eu fosse somente deles. Caso eu os 'traísse', o acordo acabava. Resumindo, eu seria uma escrava a troco de pão.
- Que filhos da puta!
- Pois é. No geral, Grissom, as oportunidades de sair são, na verdade, trocas: eu dou minha juventude para um cara, às vezes bem mais velho e casado, e em troca ele me dá o que no momento eu preciso — no caso, dinheiro.
- Nem sempre é assim.
- É sim. Agora, chega desse assunto. — ela se mostra visivelmente incomodada como nunca tinha visto antes. — Vamos falar sobre outra coisa.
- Sobre o quê?
- Não sei. Qualquer coisa! Ou então podemos deixar o papo para lá e partir para o que me compete fazer.
Ela apaga o cigarro no cinzeiro sobre a mesinha atrás de si e em seguida, sua mão se pousa sobre meu abdômen e prendo a respiração. Por incrível que pareça, não estou a fim de sexo com ela hoje. Acho que a companhia e a conversa estão tão boas que prefiro ficar só nelas mesmo.
- Hoje não. — tiro sua mão com delicadeza de mim. — Quer outra dose? — aponto para o copo vazio em sua outra mão.
Hajna me encara com uma das sobrancelhas erguidas, não entendendo nada.
- Tá tudo bem com você?
- Sim. Não poderia estar melhor. — sorrio e pego o copo da mão dela, para em seguida me dirigir para dentro do quarto, com o intuito de "abastecer" o copo para a húngara.
De fato, estava tudo ótimo comigo, apenas não queria sexo hoje com ela.
- Tem certeza? — a ouço e me viro para encontrar Hajna dentro do quarto de braços cruzados e cara confusa.
- Absoluta. Por quê? — me dirijo de volta para perto dela com o copo de bebida abastecido do líquido âmbar.
- Porque já estamos aqui há uma hora de conversa e você, geralmente, só conversa dez minutos e depois já parte para o sexo.
Sorrio de leve e estendo a Hajna o copo de uísque com gelo.
- Está estranhando?
- Com certeza! O que houve?
- Nada demais. Só não estou afim de sexo hoje.
- Ah! Então pode me explicar porquê estou aqui, senão para fazer meu serviço?
- Conversar??
Ela sorri e dá um gole em sua bebida.
- Já entendi. Está carente e quer uma psicóloga.
- Engraçadinha. — lhe dou as costas e sigo para a varanda de novo.
- Grissom, espera!
Ouço Hajna gritar atrás de mim.
- Ficou chateado com a brincadeira? — ela indaga ao se postar ao meu lado.
- Não. Estou contente demais para me chatear com qualquer coisa hoje. — sorrio para ela.
- Pelo jeito está feliz mesmo. Seu semblante não está tenso como de costume. Não vai mesmo me contar o que houve? O Natal com sua esposa foi bom, é isso?
- Que chute mais horrível foi esse?! — começo a rir e ela me acompanha.
- Então conta aí, o motivo dessa alegria. — ela bate com seu ombro no meu.
- Tive uma boa vitória hoje, que me permitiu deixar um inimigo por hora bloqueado e impossibilitado de me fazer mal.
- Hum... Você é cheio de inimigos?
- Vamos dizer que coleciono alguns sim. Mas agora é minha vez de pedir pra falarmos de outra coisa.
Não quero ficar falando dessas coisas com ela. Apesar de ter um bom apreço pela mulher diante de mim, ainda não confio o suficiente em Hajna para abrir com ela coisas sobre meu casamento de fachada e Maryanne.
- O quê? — ela me encara.
- Sei lá. Qualquer coisa.
- Que tal então... — Hajna leva o dedo indicador ao queixo e parece pensar por um segundo no assunto, e quando se pronuncia novamente é para sair com uma proposta horrorosa de conversa. — Falarmos sobre a sua noite de Natal com a esposa que você tanto ama?
- Nem morto! E se for pra falar sobre isso, então prefiro que a gente parta para o sexo.
Ambos caímos no riso.
***
Nova York, Estados Unidos...
Assim que abro a porta dou de cara com Dayse e atrás dela meus antigos companheiros de trabalho da NP, carregados com algumas sacolas, contendo cervejas em algumas e em outras sabe-se lá o quê são.
- Surpresa! — o grupo diz tudo fora de sintonia e começo a rir.
- Da próxima vez ensaiem mais para dizerem em sincronia. — digo ainda rindo.
- Culpa do Bolton! — Erick reclama em tom brincalhão e desferindo um tapa leve no braço do nosso amigo.
- Ah, claro! A culpa sempre é do Bolton aqui.
Risadas tomam conta do ambiente. Logo em seguida, um a um dos meus visitantes vai passando por mim e entrando em casa após me cumprimentarem com beijos no rosto e felicitações, enquanto outros vão de beijos e abraços, seguido das felicitações natalinas.
- Gente, que surpresa! Dayse nem pra avisar. — digo após fechar a porta e me virar para o grupo em minha sala.
- Não avisei, justamente, porque se tratava de uma surpresa, Sara. — minha amiga explica. — Quando eu disse que vinha para cá no dia 25, esses malucos tudo disseram que vinham também.
- E como não podia deixar de ser, trouxeram bebidas, né seus cachaceiros? — brinco.
- Nossos encontros sem umas cervejas não são encontros, Sarinha.
A fala de Bolton rende uma nova onda de risadas. Ô, povinho, para gostar de beber!
"Olha quem fala! Tu também és assim. Só não tá podendo, por tá buchuda, te orienta que é insolente?!"
"Nem vou te dar confiança, porque é isso que tu quer!"
Resolvo focar em minhas visitas que ganhou mais do que ficar debatendo com uma voz endiabrada, que só aparece em horas impróprias, para me fazer pagar de esquizofrênica.
"Ah, coitada!"
Conduzo o pessoal para guardar as bebidas na geladeira. As demais coisas das outras sacolas que alguns trouxeram se tratava de aperitivos e comidas.
- Não precisavam trazer isso, gente.
Tinha sobrado coisas demais da ceia, o suficiente para todos ali. E com o que trouxeram ficou muito mais coisas.
- A gente não ia vir de mãos abanando, né Sara?!
As comidas e aperitivos ajeito com a ajuda de Cris e Nina na mesa da sala de estar, juntamente com algumas coisas da ceia de ontem.
- E seus pais? — Dayse indaga após todos nos acomodarmos espalhados pela sala.
- Foram cedinho. O voo deles saía às dez. — conto.
Gostaria que eles ficassem mais, porém tinham que ir para Berlim. Mas antes de partirem, fui surpreendida por eles com o anúncio de um baita presente de natal.
"- Filha, antes de irmos queremos te dizer que temos mais um presente para você.
- Gente não precisa de mais presentes.
Ontem a noite, eles já haviam me presenteado com um generoso valor debitado em minha conta pessoal e um mimo para o neto.
- Precisa sim. E não aceitaremos recusa, mocinha. — já alerta papai.
- Ok! Cadê o presente que não vejo com vocês.
Eles não estavam carregando qualquer embrulho ou sacola que fosse.
- Na verdade, você que vai escolhê-lo.
- Como assim?
Meus pais trocam um olhar e cabe a mamãe se aproximar mais de mim. Ela segura minhas mãos e começa a falar.
- Quando houve aquele atentado ficamos desesperados. Essa história de você ir trabalhar de trem nunca nos agradou ainda mais agora que está grávida. Então, seu pai e eu decidimos presentear você com um carro.
- Ah, não gente! — chio.
- Nem ouse dizer que não quer. Você disse que não recusaria, querida.
- Mas, mãe...
- Sem "mas". — papai se pronuncia. — Por mim teria comprado o carro e agora estaríamos entregando as chaves a você. Mas sua mãe me convenceu de que deixasse essa escolha de modelo e marca nas suas mãos, já que você quem usaria o carro.
- O que eu faço com vocês dois?
- Agradeça e nos dê um abraço apertado pelo presente.
Sorrio e faço exatamente isto. Não adiantava nada eu tentar recusar, que eles não iam aceitar.
- É pela sua segurança e a do nosso neto, filha.
- Eu sei, pai.
Antes do atentado, eu já vinha cogitando a ideia de comprar um carro mesmo, até por conta da gravidez. Com o avançar dela seria cansativo pegar trem e caminhar do ponto até a editora. Aí, teve o atentado e mais ainda a ideia do carro se tornou necessário. Meu intuito era comprar um veículo seminovo depois que passasse as festas de fim de ano. Só que os planos agora são um modelo zero.
- Veja o veículo que quiser e nos mande o valor para te enviarmos.
- De preferência blindado. — sentencia papai.
- Ok!
Uma buzina é ouvida por nós.
- Nosso Uber chegou.
- Eu poderia acompanhar vocês até o aeroporto, sabia?
- E voltar sozinha nesse frio? Nem pensar!
- Gente estou grávida, não doente. Mãe, a senhora sabe que gravidez não é sinônimo...
- Sei, meu bem, mas você não está esperando a Dayse? Vai que ela chega enquanto está conosco no aeroporto? Melhor que fique aqui. Nós vamos para o aeroporto só os dois. Fique despreocupada.
- Tá bom. — me dou por convencida. — Se cuidem e me mandem mensagem quando chegarem lá em Berlim.
- Pode deixar.
Trocamos abraços e eu os acompanhei até embarcarem no Uber."
- Poxa, achei que ia rever meus sogrinhos.
- Bolton desce daí dessas nuvens ou vai se quebrar inteiro.
- Muito engraçado, Dayse!
- Pensei que sua paixonite por mim tivesse passado, Bolton.
- De vez em quando dá umas recaídas, Sar. Confesso!
A sala é tomada por risadas e gargalhadas.
Bolton é uma figura mesmo!
Sei lá quantas horas eles permaneceram na minha casa. Só sei que foram as melhores horas. Jogamos conversa fora, rimos, bebemos (eu suco e eles cervejas), comemos e até dançamos. Me diverti horrores com aqueles malucos como há tempos não me divertia.
Esses malucos me fazem bem e não vou negar, me fazem uma falta danada. Saudades de vê-los todos os dias como acontecia na NP. Nossos almoços, fofocas e as conversas pelos ramais da empresa. Bons tempos!
- Gente, de verdade, obrigada pela companhia. Amei, vocês aqui. — digo, parando diante da porta já aberta.
Há segundos atrás o pessoal anunciou que já ia, ou como Bolton disse "bateria retirada".
- A gente também amou passar esse tempo com você.
Assenti para Cris estampando um sorriso genuinamente feliz pelas horas agradáveis que desfrutei na companhia dos meus amigos.
- Aí... Vamos fazer desses encontros frequentes pelo menos uma vez por mês?
- Boa, Erick. — Trent agarra o braço do nosso amigo.
- Quem concorda, levanta a mão e diz: cerveja!
- Olha o cachaceiro metendo bebida no meio.
- Sai, fora, Dayse, que você também mete bebida no meio das conversas.
A malcriada, mostra a língua e o dedo médio para Bolton em resposta a sua fala.
- Nem vou te dizer onde enfiar esse dedo, porque tem crianças aqui.
- Que criança, Bolton? — olho confusa para ele.
- O seu bebê, ora.
Foi uma explosão de gargalhadas.
- Não, mas falando sério, podíamos fazer essa reunião uma vez por mês aqui na Sara.
- Por que aqui?
- Porque ninguém mandou você nos abandonar.
Sorrio da resposta malcriada de Bolton. Ele já tá claramente alto.
- Tá bom. Pode ser aqui... Desde que tragam os comes e bebes, porque já estou cedendo a minha casa.
- Fechou!
Me despeço do grupo com abraços e beijos, e quando penso que a Dayse vai junto com eles, ela anuncia que ficará mais um pouco. Então nossos amigos se vão e ficamos só nós duas.
- Posso dormir aqui?
- Claro! Mas achei que você fosse ficar só mais um pouco.
- Ah, só disse porque se eu falasse que ia dormir aqui, aqueles malucos iam inventar a mesma coisa. E eu quero, minha amiga só pra mim. — Dayse me puxa para um abraço e sorrio.
- Te empresto uma roupa então.
- Não precisa. Fiz uma malinha. Está no porta malas. Vou buscar depois.
- Tá bom.
- Saudades de você, safada futuramente motorizada.
Caio na risada. Essa Dayse não vale nada.
- Também estava com saudades, amiga.
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