After Separation - Livro 2
8 Capítulo VI
Notas iniciais
"[...]Se você se virar e começar a caminhar, sua amiga pra sempre te segue. Se você perder seu caminho, ela te guia e te põe no caminho certo. Sua amiga pra sempre segura sua mão e diz que vai ficar tudo bem. Sua amiga é pra sempre, e pra sempre não tem fim."
Marilyn Monroe
***
Retornei ao apê e encontrei a Dayse pensativa no sofá. Tanto que ela sequer notou minha chegada, só foi perceber quando me acomodei ao seu lado.
— Ei! O que foi?
Eu meio que já fazia uma vaga ideia da razão dela estar daquele jeito, só questionei mesmo para saber se minha amiga me confirmaria aquilo que eu desconfiava.
Dayse fitou-me em silêncio por uns cinco à sete segundos. Até que por fim respondeu minha pergunta com outra.
— Você pretende aceitar a sugestão dos seus pais de se mudar para Nova York?
Bem como eu desconfiava! A razão daquele seu jeito era a minha possível mudança. Contudo, tratei logo de tranquilizar minha amiga.
— Não. — respondi sem demora.
Por mais que meus pais tenham dito que seria uma ótima forma de eu deixar para trás toda essa história com Grissom que não terminou bem, e assim iniciar uma nova etapa em minha vida ao me mudar para Nova York, eu não me vejo saindo do Brooklyn agora. Gosto de onde moro! Além do mais, eu não quero ficar longe da Dayse.
— Não?
— Não!
— Mas porquê não? Você ficaria mais perto do seu novo emprego morando lá.
Este era um fator relevante, porém não determinante para fazer-me cogitar a mudança de endereço.
— Isso é verdade. — concordei com Dayse. — Mas gosto daqui e de dividir o apê com você. — segurei em sua mão e sorri para minha melhor amiga.
Ela sorriu de maneira fraca e desviou o rosto de mim.
— Também gosto de dividir o apê com você, Sara. — Dayse resmungou sem olhar para mim. — Nós duas já estamos nessa parceria de morar juntas há anos.
— Sete para oito anos, se não me engano! — sorri e ela também.
A sensação que eu tinha era de que conhecia a Dayse desde sei lá quando, e não só aqueles sete quase oito anos em que já compartilhávamos o mesmo teto.
— E acho que agora chegou a hora dessa parceria se dissolver, ao menos, no que diz respeito a morarmos juntas.
Dayse por fim me olhou e eu franzi a testa diante daquelas suas palavras.
— O que você quer dizer exatamente com isso?
— Você deve ir para Nova York, Sara.
— Espera aí!... Está me expulsando daqui?
— Jamais! — Dayse se pôs de frente para mim. E sem largar minha mão continuou a falar: — Amiga, eu quero o melhor pra você. E tenho que concordar com seus pais, quando eles disseram que ir para Nova York pode ser a melhor coisa para você.
— Não, Dayse!
— Sim, Sara. Portanto, eu te libero para ir embora pra lá.
— Me libera? — resmunguei ainda tentando assimilar o que ela havia dito.
— Sim. — Dayse esboçou um sorriso que eu não fui capaz de retribuir. — É bem verdade que esse apê vai ficar grande demais só pra mim. Mas uma hora nós teríamos que ter essa separação. Não íamos passar a vida toda morando juntos.
— Dayse, eu não quero ir.
— Mas vai! — ela decretou com uma autoridade e firmeza que eu cheguei a arregalar os olhos surpresa. — É o melhor para você e essa nova etapa que se iniciará na sua vida, amiga. — concluiu já de maneira mais branda.
De novo isso de que era o melhor para mim. Será que era mesmo? Tinha minhas sérias dúvidas, sabia.
— Gil tem casa em Nova York. — contei ao me recordar agora daquele fator bem significante e determinante para a minha recusa em ir morar para lá. — Morando em Nova York, eu posso topar mais facilmente com ele e eu não quero isso, Dayse.
— Você não havia dito a ele para ir morar na Alemanha, porque não queria encontrá-lo e ele acabou por aceitar isso?
Pelo menos foi o que ele deu a entender. Só que Grissom não me deu certeza.
— E se ele não aceitou e resolver morar lá com Maryane?
Eu não ia ter estômago suficiente, para cruzar com aqueles dois com eles casados.
— Aí, você vai ter que mostrar superioridade, meu bem. E engolir esse casal sapo na finesse por mais indigesto que eles sejam.
— Não acho que sou capaz disso.
Acho que se olhasse para aqueles dois ia partir para cima deles afim de quebrar a cara de ambos.
— É, eu sei. Mas também vamos ser positivas e mentalizar, que até você se mudar para Nova York o Sr.Gostoso já tenha voado para a Alemanha.
— Primeiro que eu não disse que ia me mudar. E, segundo, não chama mais aquele cretino de Sr.Gostoso.
— Você não disse que ia se mudar, na verdade, fui eu. E você vai.
— Dayse...
— Sem desculpa nenhuma, Sara. Já tá decidido que você vai pra Nova York porra. — que ótimo! Ela decide por mim e eu não posso fazer qualquer objeção? Eu hein! Que engraçado! — E concordo em não chamar mais o Grissom de Sr.Gostoso. Não combina mais com ele. Agora é: Sr.Canalha.
Até que esse novo apelido caiu bem e super combinou que foi uma beleza com aquele sujeito.
— Mas para você se mudar têm duas condições.
— Ah, tem é? — falei com certa irônia e enrrugando a testa. — E quais seriam?
— A primeira é que eu tenho que ter um quarto pra mim na sua casa ou apê. — eu não queria, mas acabei por rir, e na mesma hora Dayse me deu uma tapa de leve na mão. — Não ri que é sério isso.
— Ok.
— E a segunda condição, é que eu faço questão de te ajudar a escolher um local para morar em Nova York. Meu pai conhece ótimos corretores e posso pedir um nome de sugestão a ele. E aí?
Eu ainda não estava 100% certa e convicta de que me mudar dali seria, de fato, o melhor para mim como meus pais e agora Dayse achavam. Contudo, resolvi ceder e aceitar aquela mudança para Nova York, porque não perdia nada. Ou pelo menos, eu acreditava assim.
— Tudo bem. Eu me mudo e aceito suas condições.
Dayse sorriu e piscou para mim.
— Vou morrer de saudades de você.
— Eu também sua safada.
— Promete que vai me visitar com frequência?
— É claro. Até porque como você vai viver sem as minhas loucuras, Sidle?
Nós caímos na risada.
— E você também pode vir aqui me visitar, esperta. Seu quarto vai estar aí sempre pra você.
— Bom... Então amanhã você já vê esse lance do corretor com seu pai.
Se era para se mudar, então que começasse a providenciar logo o local para onde eu me mudaria e dentro do prazo de quinze dias, que eu tinha antes de iniciar na BoB.
— Amanhã mesmo já falo com o meu pai.
Poucas horas mais tarde, sozinha e deitada em minha cama, eu viajava em pensamentos a cerca dos novos rumos que a minha vida já estava tomando.
Em duas semanas começaria em um novo emprego e provavelmente, teria um novo endereço de residência.
Nova casa, novos companheiros de trabalho, nova cidade (ou melhor, não tão nova assim para mim). Um novo ciclo que se iniciaria em minha vida.
— Era pra você está aqui compartilhando destas novidades comigo Grissom.
Mas ele me deixou para acatar ao pedido do pai dele. Pois que se dane! Eu vou tocar minha vida sem ele mesmo. Já consegui dá a volta numa decepção amorosa por conta de um canalha, e darei a volta esta segunda vez por conta de outro canalha.
— Você vai ser logo logo página virada pra mim, Gilbert.
***
Na escuridão da noite
Começo da madrugada
Incerto e ansioso
Preciso ligar para você
(By my side — INXS)
Nova Jersey, 00:47 am
Eu encarava o celular na mão esquerda enquanto era tomado por uma necessidade louca de ligar para ela. Como eu precisava ouvir sua doce voz, nem que fosse por um mísero segundo enquanto Sara me dizia com raiva que eu não torne mais a lhe ligar. Mas eu sabia que não devia ligar para ela. Se duvidar, certamente, ela veria meu número e nem atenderia tamanho devia ser seu ódio de mim. Não a culpo. Fiz por merecer tal sentimento e teria que engolir isso a seco, sem reclamar.
Devolvi o celular ao bolso lateral da calça e do bar ao meu lado apanhei o copo cheio de whisky, que eu tinha preparado momentos atrás antes de puxar o celular. Aquele era o quinto copo que eu tomava já desde que cheguei de um jantar com meu primo e alguns sócios da Care há uma hora.
De uma só vez entornei o copo. O líquido âmbar do whisky desceu queimando a garganta. Assim que acabei de beber meus olhos repousaram na paisagem vista pela janela da sala enquanto que minha mente só pensava nela de novo.
Há dois dias, quando pus um fim no nosso relacionamento, que eu não tirava da cabeça a imagem triste de Sara enquanto eu lhe dizia que estava terminando com ela.
Nunca uma decisão doeu tanto quanto aquela. E não há um instante sequer desde à última sexta-feira, que eu não me odeio por ter feito o que fiz.
Fui um tremendo filho da puta com a única mulher por quem fui capaz de nutrir algo sincero e verdadeiro chamado amor, e não somente algo carnal. Sara não merecia ser vítima da minha covardia em ceder aos caprichos do meu pai.
— Joseph, você fodeu com a minha felicidade.
Eu só torcia agora para que ele não tenha fodido com ela para sempre. Nunca ia perdoa-lo por isso. E agora só me restava, agarrar-me a esperança de que Sara me esperasse ao longo desse um ano que passaremos separados.
— Não jogue só a culpa nele.
Suspirei e por segundos fechei os olhos ao escutar a voz do meu irmão reverberar tais palavras.
— Vai defender seu papaizinho, Lewis? — abri os olhos e virando o rosto, avistei por cima dos ombros a figura do meu irmão de braços cruzados, parado há seis passos de mim.
— Não! — ele veio em passos lentos até mim e eu me virei de frente para ele. — O que ele fez com você e Sara não foi nada digno.
— Foi uma puta sacanagem isso sim, Lewis.
Quanto ódio eu nutria pelo meu pai. Ele foi o meu carrasco a vida toda e nos seus últimos instantes de vida, conseguiu ser um carrasco pior ainda.
— Eu sei. Mas, mano... você aceitou fazer o que ele te pediu. Portanto, não está exímio de culpa neste término com Sara.
Suas palavras me soaram como um insulto e acabei me exaltando.
— Escuta aqui, Lewis. — com a ponta do dedo indicador toquei seu peito. — Eu só aceitei porque Joseph foi baixo o suficiente pra envolver o nome da nossa mãe. Ele sabia bem que a mãe sempre foi o meu ponto fraco. E se valeu dela pra me separar da Sara.
— Você já me disse tudo isso ontem, Gil. Mas ainda assim, isto não te exime de culpa, mano.
No fundo, eu sabia que meu irmão estava certo, pois eu aceitei acatar o Joseph. Portanto, sou tão culpado quanto ele neste término de relação com Sara, o qual havia arrasado comigo de um jeito que eu não estava sabendo lidar ainda.
— É... Eu fui tão escroto quanto ele mesmo. — admiti com raiva de mim agora. — Será que Sara vai me perdoar quando tudo isso passar, Lewis?
Eu tinha tanto medo disso e de algo bem pior, de ter perdido Sara para sempre.
— Olha, Gil... Você me conhece e sabe que sempre tento ver o lado bom de tudo. E acredito que ela vá te perdoar. Mas...
A interrupção dele e seu silêncio em seguida me deram até calafrios.
— Mas o quê, Lewis?
— Em um ano muita coisa pode acontecer na vida dela, mano. Inclusive, Sara conhecer outra pessoa.
Imaginar aquilo me embrulhou o estômago.
— Não!... Ela me ama, Lewis.
— Mas você a magoou, cara. Você a trocou pela Maryane e todo o nosso patrimônio.
— E você acha que eu não sei disso, merda.
Atirei o copo contra a parede atrás do meu irmão.
— Você não precisa me repetir o que sei.
— Você quebrar copo na parede ou ficar com essa ira toda por ouvir a verdade, não vai mudar as coisas, Gil. Têm que aceitar que sua decisão pode te trazer consequências que você não previu.
— Me deixa só.
— Gil...
— Se manda daqui, porra. — ordenei alto e lhe dei as costas.
Para mim a conversa tinha encerrado. Não tinha mais estômago para ouvir coisas mais desagradáveis. Bastava aquela coisa horrível de Sara conhecer outro alguém.
— Você reclamava que o pai não gostava de ouvir verdades, mas é igualzinho a ele.
— Não me compare com o seu pai.
— E não esqueça que ele era seu pai também.
Me virei para lhe mandar a merda, mas Lewis já subia as escadas rumo aos quartos e acabei por desistir de lhe dizer qualquer coisa. Fiquei observando meu irmão até que ele sumiu das minhas vistas. Depois que isso aconteceu, virei-me para a janela pela qual eu observava o jardim de casa. A pedido de Lewis, eu tinha vindo (a contragosto) ficar com ele na casa onde meu irmão vivia com nosso pai, a mesma casa em que cresci e saí dela há mais de vinte anos.
Encarando o mesmo jardim ao qual minha mãe tanto adorava admirar, eu me vi fazendo um pedido silencioso:
"Por favor, não esqueça de mim, meine liebe... Porque eu vou voltar pra você em um ano."
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