After Separation - Livro 2
55 Capítulo LIII
Me acostumar com a presença outra vez de Grissom fazendo parte da minha vida e sendo uma visita constante em minha casa e na minha rotina, é algo que tem sido complexo. A complexidade não residia apenas no fantasma do passado que ele trazia consigo, mas na maneira sutil e, por vezes, esmagadora como ele desfazia a bolha de rotina e silêncio que eu havia meticulosamente construído após o nosso término.
Eu havia definido os dias para ele visitar Benny: três dias na semana intercalados. Terças, quintas e sábados eram dele. Nesses dias, o ritmo da casa mudava. O cheiro familiar de café e lençóis limpos que eu tanto apreciava era substituído pelo rastro efêmero e inconfundível do seu perfume amadeirado, que persistia em ondas sutis mesmo depois que ele partia. Cada risada de Benny, cada brinquedo deslocado do lugar exato na prateleira onde eu o havia guardado, tornava-se um pequeno sismo na minha ordem interna. Eu tinha de esperar que ele saísse para, então, como um ritual de auto contenção, guardar os brinquedos fora de hora e realinhar coisas que ele desalinhou. Era a única forma de reconquistar a sensação de controle.
E os fins de semana eram intercalados também. Neles, Grissom vinha buscar Benny e o levava para passear. Reconsiderei a ideia inicial de a babá acompanhar nosso filho nas saídas com Gil e, num voto de confiança, permiti que ele saísse sozinha com Benny.
Assisti ao primeiro encontro dos "irmãos", William e Benny, da porta do quarto do meu filho, com o coração na mão. Grissom estava sentado no chão, um cenário de aconchego improvisado, com William aninhado em um braço e Benny no outro. Gil parecia cativado pela cena, com os olhos a brilhar em um contentamento que raramente lhe vira, absorto na companhia dos dois. Era uma felicidade tranquila, desarmada, sem a tensão habitual que marcava nossos breves encontros. Com uma aura leve e diferente, ele sorria para as crianças, um sorriso que denunciava uma satisfação plena, quase palpável.
Quando ele vinha buscar Benny para levá-lo para passeios, o ritual da entrega era o mais difícil. Eu ficava parada na soleira da porta, observando-o prender nosso filho na cadeirinha do carro — um gesto de intimidade parental que não me incluía — antes de partir. A casa ficava vazia, mas não em paz. A ausência de Benny era um silêncio oco, temporariamente necessário.
Grissom ainda não o levava para dormir em sua casa, porque Benny era pequeno demais. Essa era a minha cláusula de segurança, o meu último bastião de controle, que ele acatou, surpreendentemente, sem réplicas ou contestações. Saber que meu filho voltaria antes do anoitecer era a âncora que me permitia respirar. Mas eu vivia sob a sombra do futuro iminente: cada dia que passava me lembrava de que o tempo de Benny não ser mais "pequeno demais" se esgotaria, e, futuramente, aquela ausência se estenderia pela noite inteira. A solidão que me aguardava não era apenas a falta dele na cama ao lado, mas o vazio de saber que ele estaria criando novas memórias, novas rotinas de dormir, em um lar que não era o meu. E eu ainda não sabia como habitar essa nova e inevitável dimensão do silêncio.
***
Duas batidas leves na porta do meu quarto — um ritmo suave e deliberado — interromperam a leitura de um manuscrito de um autor independente que, há dias, vinha me roubando o sono. Forcei-me a erguer a cabeça do bloco de páginas densas, acomodada contra a cabeceira macia da cama.
Encontrei Grissom com metade do corpo projetado no batente de madeira, um braço esguio apoiado elegantemente acima da cabeça. Ele vestia uma camisa de algodão simples, cinza-claro, e jeans surrados, um visual casual que parecia respirar uma leveza que contrastava com os ternos de grife que ele usava religiosamente para trabalhar.
O perfume amadeirado de sempre o precedia, invadindo a bolha de ar estagnado e silencioso que eu cultivava ali. O ar do quarto, normalmente frio e reservado, aqueceu-se instantaneamente com a sua proximidade, um calor que parecia vir não apenas da sua presença física, mas da energia que ele trazia consigo.
- Desculpe te interromper — ele disse, a voz num tom baixo, polido, aveludado, mas que ainda assim ressoava mais alto no silêncio do que eu gostaria, quebrando a quietude do quarto. Seus olhos, de um azul quase opaco e indecifrável quando me fitavam, desviaram brevemente para o bloco de páginas que repousava aberto no meu colo. — O Benny acabou de pegar no sono. Eu já o coloquei no berço.
Um minúsculo sorriso de orgulho paternal formou-se no canto de sua boca, tão rápido que quase passou despercebido. Era um sorriso que me atingia como uma flecha, pois Benjamim sempre tinha sido meu trabalho, minha responsabilidade exclusiva. Agora, eu compartilhava esse território sagrado com Grissom. Não era mais só comigo ou no meu colo que Benny dormia; havia o colo do pai, uma nova realidade desde que Gil soube da existência do nosso filho.
- Ok! — respondi, minha voz soando mais brusca do que o pretendido.
- Preciso ir. Surgiu um imprevisto de trabalho e tenho que resolver. E achei melhor vir te avisar que já estava de saída e que o Benny dormiu.
- Certo.
Seu olhar se fixou em mim, e eu podia jurar que ele queria me dizer mais alguma coisa, algo que lhe pesava na língua, só que lhe faltava coragem. Havia uma hesitação ali, um tremor quase imperceptível nos cantos dos lábios, uma rachadura na máscara de controle que ele sempre usava. Grissom brincou com a barra da camisa, um gesto de nervosismo, de vulnerabilidade, que eu não esperava de alguém tão controlado e composto.
Ultimamente eu vinha percebendo que a sua raiva direcionada a mim parecia perder a força a cada nova visita que fazia ao Benny. Seu olhar das primeiras visitas, gélido e endurecido como gelo seco, estava se tornando maleável e, ouso dizer, até um pouco mais morno, como vidro que começa a amolecer no fogo. A hostilidade silenciosa que antes preenchia o espaço entre nós, dando a impressão de um campo minado onde qualquer palavra errada explodiria em conflito imediato, estava cedendo lugar a uma espécie de trégua forçada, talvez até um respeito relutante, uma aceitação tácita da nossa nova e complexa realidade.
O silêncio esticou-se entre nós, uma membrana fina e transparente, denso com tudo que não havíamos dito nos últimos tempos, desde que o pequeno Benjamim, e a realidade crua da nossa nova dinâmica, haviam se imposto. Eu baixei os olhos para o manuscrito, mergulhando de volta na segurança das páginas, um gesto defensivo, um convite mudo para que Grissom se retirasse.
Mas ele permaneceu ali, ancorada no batente, a ponta de um sapato casual batendo levemente no assoalho de madeira, um tique nervoso que traía seu controle habitual.
- Amanhã... — ele começou, a voz quebrando a tensão como um galho seco partido sob um pé, e eu ergui os olhos dos manuscritos para encará-lo. — É meu aniversário.
A fala me pegou completamente desprevenida. Foi um soco no estômago da minha ignorância. Só então me dei conta de que não sabia quando era seu aniversário. Nem mesmo quando estávamos juntos, nos breves meses de nosso relacionamento turbulento, eu soube. Nunca havíamos chegado a trocar essa informação trivial, esse pequeno detalhe de intimidade.
- E é um dia que não é a minha visita... — ele continuou, um rubor sutil colorindo suas maçãs do rosto perfeitamente esculpidas, uma mancha de vulnerabilidade rara. — Gostaria de pedir que abrisse uma exceção e deixasse que eu viesse buscá-lo para...
- Sim, Grissom. — respondi sem esperar que ele terminasse a pergunta. Minha voz saiu estranhamente suave, rasgando o silêncio pesado que sempre nos envolvia como fumaça.
A imagem de Benny, com seus olhos curiosos e seu sorriso banguela, sendo privado do pai em uma data especial, pesou mais do que qualquer rancor que nossas decisões erradas haviam plantado entre nós. O ressentimento acumulado dos últimos tempos pareceu, naquele instante, insignificante.
- Você pode buscá-lo para passar o dia do seu aniversário com ele.
O alívio em seu rosto foi imediato e palpável. Foi como se uma corda invisível que o sustentava, amarrada à tensão constante, tivesse sido subitamente cortada. As linhas de preocupação ao redor de seus olhos, que eu já estava acostumada a ver esculpidas ali, suavizaram-se, e Grissom me ofereceu um sorriso genuíno, o primeiro que eu o via dar que não estava relacionado ao nosso filho e que não parecia uma máscara social cuidadosamente colocada. Era um sorriso que me lembrou, por um segundo fugaz, por que, em um passado recente, eu me apaixonara por ele.
- Obrigado — ele sussurrou, a gratidão inquestionável e crua. — Amanhã às nove e meia eu passo para apanhá-lo. Pode avisar a babá pra deixar as coisas dele arrumadas?
- Claro! Que horas pretende trazê-lo de volta?
- Antes das sete da noite. Tenho um compromisso às oito.
- Ok — confirmei, e o som da minha voz selou o acordo.
Ele assentiu e se virou, a rigidez retornando aos ombros com a mesma velocidade que havia desaparecido. A porta do quarto se fechou com um click suave, mas que soou como um tiro no silêncio que se instalava novamente. Escutei o som dos seus passos, firmes e apressados, afastando-se pelo corredor. O ritmo diminuía à medida que ele se distanciava, até que o silêncio pesado e acolhedor da casa os engoliu por completo, deixando apenas o eco persistente da sua presença.
Fiquei ali, imóvel, o olhar fixo na madeira fechada. A maçaneta de latão parecia carregar o peso da nossa interação recente, um campo de batalha onde as palavras eram as únicas armas. Um sabor agridoce preencheu minha boca, uma mistura de alívio pela trégua momentânea e a persistente tensão da nossa guerra não declarada. A paz conquistada era frágil, um pequeno milagre diário que encontrávamos na porta do coração de Benny, o único território neutro onde, por um breve momento, a trégua era respeitada. A verdade era que, apesar de tudo, o amor por ele era a única ponte que nos conectava, um farol de esperança em meio à escuridão da nossa relação rompida.
***
No dia seguinte, a dúvida me corroía por dentro, não apenas como ácido, mas como uma engrenagem enferrujada que emperrou todos os meus pensamentos, rangendo a cada movimento da minha mente. A manhã chegou com um peso cinzento, tão opressiva quanto a névoa fria que se instalava lá fora, e a lembrança da data do aniversário de Grissom pairava sobre mim como uma nuvem de fumaça.
O dilema era brutal: deveria eu mandar uma mensagem o felicitando? A simples ideia de digitar um "Parabéns" soava estranha dada à nossa atual e cuidadosamente construída relação de tensão. Não era apenas distanciamento; era um armistício frágil, um silêncio cortante erguido sobre as ruínas de uma intimidade perdida. Uma formalidade gentil parecia não caber ali, como um objeto delicado que, ao ser inserido à força, quebraria todo o equilíbrio.
O meu celular vibrava periodicamente com notificações irrelevantes, zumbindo contra a madeira, mas eu o olhava como se ele fosse a porta de um cofre que eu não sabia se queria ou podia abrir. Eu o peguei, a tela fria sob a palma da mão, o polegar pairando, hesitante, sobre o ícone do aplicativo de mensagens, onde a foto de perfil dele — congelada num sorriso que eu sempre reconhecia, mas que já não me pertencia — me encarava, quase desafiadora.
Eu digitei as primeiras letras: "Oi, Gil..." E apaguei. O que viria depois? Um desejo sincero de felicidade ou um lembrete sutil do abismo entre nós? O conflito pesou como chumbo no meu peito. Num ato brusco, apaguei as cinco letras e a vírgula com uma pressão longa e libertadora na tecla delete. A tela voltou ao vazio inicial, um espelho da minha própria indecisão. Larguei o aparelho sobre a mesa, ocioso e irrelevante, e ele deslizou alguns centímetros antes de parar, silenciando-se.
A data passaria sem o meu reconhecimento. Com um suspiro que soou mais como uma rendição do que como um alívio, forcei os olhos de volta para o monitor à minha frente, para os relatórios e planilhas de Gestão de Projetos e Cronogramas, permitindo que a urgência forçada do trabalho preenchesse o buraco deixado por aquela interação não consumada.
O relógio ditava a pausa sagrada do meio-dia. Encontrei-me com Morgan no burburinho acolhedor do almoço, o ar denso com o aroma de temperos e a cacofonia metálica de talheres. Doug estava de folga hoje, então seria um almoço apenas na companhia da minha assistente, sem a presença calmante do meu namorado.
Enquanto Morgan tagarelava, animada, sobre a iminente visita da mãe de seu namorado, Memo, e a complexa logística da recepção, minha mente vagava para um território de culpa. A consciência, uma sombra persistente, impôs-se com a nitidez de um lembrete cruel: eu deveria, no mínimo, enviar uma mensagem. Afinal, no meu último aniversário, Grissom havia se lembrado de me parabenizar, mesmo na época em que nossa relação flutuava no pior dos mares, um gesto de civilidade que eu agora falhava em retribuir.
- Hoje é aniversário do Grissom.
A frase, que deveria ter permanecido na esfera do pensamento, escapuliu como um suspiro inevitável e cortou a torrente de palavras de Morg como uma faca. Ela silenciou na hora, o garfo pairando, suspenso, sobre o prato de comida fumegante.
- Ah, lembrou do niver dele? — Havia uma malícia cintilante em seu sorriso e um sarcasmo calculado em suas palavras, o que me fez revirar os olhos, sentindo o calor da suspeita alheia queimar em minhas bochechas.
- Na verdade, eu nem sabia que era hoje. — Apressei-me em me defender, buscando acalmar a tensão que se instalara na mesa. — Grissom me contou ontem, lá em casa, durante sua visita a Benny. Inclusive, ele me pediu para deixar que buscasse o nosso filho hoje para passar o dia com ele.
- Hum... — Morgan murmurou, retomando o movimento do garfo, mas mantendo o olhar fixo em mim, analítico. — Eu já sabia. Memo o segue nas redes sociais e contou logo cedo, mas não comentei nada, porque você não tinha mencionado, então achei melhor ficar na minha.
Encerramos o almoço um tempo depois e retornamos aos nossos postos, onde a luz fria e uniforme da minha sala parecia sugar toda a energia restante do dia, deixando-nos drenados. O trabalho nos chamava, uma montanha de pendências a serem dadas continuidade. E assim, a tarde se arrastou, veloz e ao mesmo tempo incrivelmente lenta. As horas desfiavam-se em uma cadência monótona de cliques secos do mouse e o zumbido constante, quase hipnótico, do ar-condicionado, que preenchia o vazio deixado pela minha falta de atitude.
O fim do turno se anunciava com o declínio da luz externa pela janela, que agora pintava o vidro em tons de laranja e roxo. Sem mais tarefas urgentes, meus olhos se fixaram na tela do celular, que repousava sobre a mesa. O dilema, que agira como um parasita emocional durante todo o dia, estava ali, pulsando na palma da minha mão.
A situação entre Grissom e eu era um campo minado de escolhas passadas que repercutem no presente, tornando nossa convivência em algo tenso e cortante, como caminhar sobre cacos de vidro. Mas, no silêncio daquele fim de expediente, a voz da maturidade gritou mais alto: eu deveria ter a decência de parabenizá-lo, independente de qualquer ressentimento, como elo mesma havia feito comigo meses atrás.
Apanhei o aparelho, a decisão, finalmente, cimentada. Abri o aplicativo de mensagens, determinada a enviar um simples "parabéns", aceitando o risco do vácuo ou da resposta fria. Quando entrei em seu perfil e iria digitar a mensagem, o rosto de Grissom preencheu a tela: era uma ligação de voz recebida. E por uma razão que não pude nomear, um arrepio gélido e inesperado percorreu todo o meu corpo, congelando meu dedo pairando sobre o botão de atender.
O ring insistente de Gil vibrou uma segunda vez antes que eu conseguisse mover o dedo paralisado. Atendi no limite do segundo toque, a ansiedade misturando-se à surpresa.
- Oi, Grissom! — Minha voz saiu mais aguda do que pretendia, o som preenchendo o silêncio quase sepulcral da minha sala.
- Oi, Sara. — A resposta dele, sussurrada e tranquila, aliviou minha tensão.
- Aconteceu alguma coisa com o Benny? — Minha preocupação como mãe foi a primeira barreira a cair. Meu filho era sempre a causa mais provável para uma comunicação direta e inesperada.
- Não. Ele está bem. É que... — A hesitação dele era palpável, um espaço de ar que se esticava na linha, carregado de palavras não ditas.
- É que o quê, Grissom? — A impaciência gritou na minha voz, um reflexo do meu próprio nervosismo.
- Você ainda está na editora?
Franzi a testa, confusa com a mudança repentina de foco.
- Sim, por quê?
O suspiro dele atravessou o telefone, misturando-se a um ruído de fundo que parecia vento, talvez o som distante de água.
- Olha... Independente das coisas entre nós estarem estremecidas e da nossa atual dinâmica de relação ser mais de desentendimentos do que de entendimento, por culpa de nós mesmos... — A franqueza, vinda dele, me atingiu com força, um golpe inesperado de honestidade. — Quero te fazer um pedido. Sei que não tenho esse direito. Mas... Vou arriscar assim mesmo.
Eu ouvia tudo imóvel, o peso do celular na mão agora não era físico, mas emocional. Eu o apertava com uma força inconsciente, filtrando cada palavra, tentando decifrar o enigma. O que poderia ser tão importante, tão arriscado, para ele quebrar o protocolo tácito do nosso distanciamento?
- Estou aqui na Marina... — A voz de Grissom voltou, mais firme, sobrepondo-se ao que agora reconheci como o tilintar suave, metálico e rítmico, de cabos de veleiros. — ...Em meia hora meu veleiro vai sair em um passeio pelo Hudson. Quero pedir, como um presente de aniversário, que me dê o prazer da sua companhia nesse passeio.
Juro que não esperava por aquilo. Nossa dinâmica era um campo de batalha constante, uma guerra fria onde a paz era apenas a ausência momentânea de hostilidade. Cada palavra que tocávamos era uma mina terrestre em potencial; um passo em falso, um detonador acionado, uma explosão de mágoas. Minha garganta apertou, e a única coisa que consegui balbuciar foi o nome dele:
- Gilbert...
- Por hoje, Sara... — A interrupção veio, não como um corte, mas como um apelo, uma súplica quase desesperada. — Vamos deixar as nossas mágoas e ressentimentos por conta de escolhas erradas do passado, trancadas por uma hora, em uma gaveta.
Naquele instante, a imagem que me veio à mente foi a de uma velha caixa de madeira, empoeirada e cheia de segredos dolorosos, sendo trancada a sete chaves e jogada no fundo do Hudson, desaparecendo sob a água escura e fria. A ideia de tamanha paz, mesmo que efêmera, era quase insuportável de tão tentadora.
- Só quero aproveitar uma hora do dia do meu aniversário, comemorando com um passeio de veleiro, na companhia das três pessoas que eu mais amo nessa vida... Meus filhos: Benny e Will. E... Você.
O "E... Você" foi dito em um sussurro, mas ressoou em mim como um trovão, abalando as estruturas da minha resistência. O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo som ambiente da Marina — o bater suave e rítmico das ondas contra o casco dos barcos, o grito distante e melancólico de uma gaivota. Fechei os olhos, absorvendo o cheiro de café já frio que pairava, estagnado, em minha sala. Um suspiro profundo, não de alívio, mas de exaustão diante de uma batalha interna que eu não sabia mais se queria travar.
- Sara? — seu chamado, agora firme e um pouco mais alto, rompeu o casulo de mutismo em que eu havia me fechado.
Abri os olhos, encontrando meu reflexo pálido na tela do computador já desligado, encarando a mim mesma e a decisão que precisava tomar.
- Achei que estivesse com raiva de mim, Grissom. Ou até que me odiasse, dado o peso da omissão de Benny e o desastre que ela causou. Agora, acaba de dizer que me ama. Como é possível?
Ouvi seu sorriso do outro lado da linha, aquele sorriso que eu sabia, de memória, que alcançava seus olhos e os tornava brilhantes feito duas turquesas polidas.
- O meu amor não é volúvel, Sara. Ele é constante. — ele proferiu, cada sílaba carregada com a certeza de quem recita sua única e inabalável verdade, uma rocha em meio à tempestade das nossas vidas. — Uma vez, eu te disse que não conseguia ficar muito tempo com raiva de você. E isso não mudou. Por mais grave que tenha sido seu erro e por mais fundo que tenhamos cavado o buraco entre nós — ele confessou, em um tom de voz macio e gentil, uma raridade na nossa atual e áspera configuração de convivência.
- Acho melhor não, Grissom. Não podemos simplesmente fingir que as coisas estão tudo bem entre nós. — retruquei após alguns segundos de silêncio, a resistência ainda pesando em minha língua.
- Uma trégua, Sara, por favor. Apenas por hoje. É meu aniversário.
Uma trégua? Deixar as nossas escolhas erradas em uma gaveta trancada? Que ingenuidade perigosa. O que havia entre Grissom e eu não era um desentendimento casual, mas uma tapeçaria complexa de mágoas e lealdades inquebráveis, uma guerra fria onde o tempo e a distância eram as únicas fronteiras, e cada fio daquela trama era feito de ressentimento. Eu não podia, não devia, dar-lhe o luxo da simplicidade de um presente de aniversário como esse.
Apertando o celular contra a orelha, senti o calor do plástico aquecido e a palma da mão suando fria, um sinal físico da minha própria traição emocional. A voz então saiu, em vez de firmeza, um sussurro tenso, quase uma súplica, mais para mim do que para ela:
- Sinto muito, Grissom... Mas não dá. É complicado demais.
As palavras saíram da minha boca como pedras, pesadas e irreversíveis, caindo no abismo do silêncio que se instalou do outro lado da linha. Prendi a respiração na minha pequena sala, um espaço confinado que de repente pareceu tão opressor quanto o nosso relacionamento, as paredes parecendo estreitar-se. Esperei que a minha negativa fosse suficiente, que Grissom — pela primeira vez na vida — aceitasse a derrota sem mais insistir.
Mas não seria Grissom se não insistisse. A teimosia era a sua marca registrada, sua armadura impenetrável. Ele nunca aceitava um "não" como resposta final.
A voz dele retornou, estranhamente calma e polida. Não havia acidez ou ressentimento como eu esperava, mas uma nota que vibrava com doçura e carinho, calculada para desarmar.
- Do quê tem medo, Sara? — A pergunta foi suave como uma brisa, mas a leveza da frase escondeu a malícia de um anzol afiado. — Do seu namorado?
- Doug não tem nada a ver com isso, Gilbert! — respondi, um vibrato de irritação subindo à minha garganta, traindo a calma que eu tentava manter. Senti o rubor subir à minha face, entregando meu nervosismo.
- Então??... É só um passeio.
Ao fundo, a voz de alguém chamou o nome dele, um ruído abafado que me lembrou que a vida lá fora continuava, alheia ao nosso drama particular. Aquele som de normalidade me desorientou ainda mais, ancorando-me de volta à minha realidade de escritório.
- Preciso desligar. Estarei te esperando em meia hora, Sara.
Sem me dar o direito de réplica, sem permitir que eu expressasse minha raiva ou minha hesitação, ele encerrou a chamada. A audácia dele era impressionante, exasperante.
O "clic" final do telefone foi alto no silêncio da minha sala, um veredicto. Fiquei parada, com o aparelho ainda na mão, o coração batendo um ritmo irregular e acelerado contra as costelas, como um pássaro enjaulado tentando escapar. Minhas costas estavam tensas, os músculos do pescoço rígidos. Olhei para o relógio na parede, os segundos avançando inexoravelmente, cada tique uma pequena tortura.
Trinta minutos. Era tempo suficiente para uma guerra civil inteira dentro da minha cabeça, entre a razão que gritava para eu ir para casa e a emoção que, traiçoeiramente, desejava aquela trégua impossível no Hudson. A gaveta trancada das nossas mágoas parecia estar se abrindo sozinha, o trinco cedendo à pressão da sua voz doce, e o caos, antes contido, ameaçava transbordar.
Eu sabia que não deveria ir.
A razão listava os motivos com uma clareza fria e impiedosa: Doug, meu namorado, que merecia minha lealdade e transparência; a promessa de uma noite de trabalho tranquila que fiz a mim mesma; e, acima de tudo, a autodestruição que era estar perto de Grissom, o homem que me fez sofrer tanto. A culpa de trair a confiança de Doug, mesmo que emocionalmente, pesava como uma âncora de navio no meu estômago. Eu devia a ele a verdade, a estabilidade que eu tanto buscava.
Mas a emoção... Ah, a emoção! Era uma correnteza traiçoeira, que puxava meu coração para as águas escuras e convidativas do Hudson. A ideia de ver Benjamim no colo do pai, de ver Gilbert sorrir para ele de novo, e de sentir, mesmo que por uma hora, aquela paz frágil que a presença do meu filho nos impunha, era uma miragem tentadora no deserto da minha solidão. A voz dele, agora um sussurro insistente no meu ouvido, prometia um alívio momentâneo do conflito constante.
Meu corpo se moveu antes que a guerra civil chegasse a um veredito. Em um movimento brusco, quase violento, guardei meu notebook na bolsa. Minhas mãos tremiam levemente enquanto fechava o zíper, o som metálico reverberando no vazio da sala. Levantei-me da cadeira, as pernas um pouco dormentes, e apanhei meu casaco no encosto da cadeira. O tecido de lã pesava nos meus ombros, mas não mais do que o peso da decisão.
Olhei para o relógio mais uma vez. Vinte e cinco minutos. A adrenalina começou a bombear nas minhas veias, um calor súbito que contrastava com o ar frio do escritório. Eu estava indo contra a minha própria vontade, contra a lógica, contra a lealdade, mas havia uma força inegável me impulsionando para fora daquela sala, em direção à marina, em direção a Grissom, em direção ao desastre ou à trégua, eu já não sabia mais. Eu estava indo.
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