After Separation - Livro 2
52 Capítulo L
O silêncio que se seguiu pesou no ar como chumbo, quebrando a promessa de uma conversa amanhã e transformando o presente em um campo de batalha. A menção do meu nome, a acusação direta e o olhar faiscando de raiva de Grissom transformaram o ambiente, que antes era de expectativa, em um palco de revelações dolorosas.
Me encolhi ligeiramente com o impacto da pergunta, meus olhos desviaram-se por um breve instante para Benny em meus braços, que dormia alheio ao caos que tomava conta da sala. Logo em seguida, fixei o olhar novamente no rosto do homem logo à minha frente. A tensão no ambiente era quase palpável, um zumbido elétrico que ameaçava explodir a qualquer momento.
— Como... Você... Soube? — balbuciei, tentando ordenar as palavras. Será que havia sido Lewis? Mas a resposta de Grissom veio isentando o irmão e me pegando de surpresa.
— Por uma porra de carta anônima — ele elevou a voz e puxou do bolso um papel que atirou amassado e com força sobre a mesa de centro. — Era assim que eu merecia saber, Sara?
— Isso não é jeito de falar com ela — Doug interferiu.
O olhar que Grissom lhe dirigiu só não foi pior do que as palavras que disse em seguida, carregadas de veneno e desprezo:
— Não se meta, seu filho da puta — ordenou, a voz sibilando com fúria. — Saí daqui agora. Não tem nada que estar presente nesta conversa. Se não sair, eu mesmo te tiro daqui a pontapés.
Eu acho que nunca vi Grissom tão fora de si como naquele momento. Cada músculo do seu rosto estava tenso, o maxilar travado; ele parecia prestes a ter um colapso, tamanha era a fúria que o consumia.
Como sabia que ele cumpriria o que disse, e não querendo mais brigas ou um confronto físico na minha sala, me virei para Doug e pedi, com um tom de voz que não admitia recusa:
— Por favor, Doug, nos dê licença — insisti.
— Eu não vou te deixar sozinha com ele — rebateu Doug, inabalável. — Do jeito que esse sujeito está é capaz de te agredir fisicamente.
— Eu nunca bati em uma mulher. E não será agora que isso vai mudar, ainda mais com a Sara. Sai de uma vez daqui agora, idiota — Grissom rosnou, o desprezo evidente na voz.
— Não saio — Doug desafiou, os dois se encarando com puro ódio. — E idiota é você. Idiota e escroto.
— Por favor, parem! Vão acordar o Benny — disse enérgica, mas mantendo a voz baixa. Apontei para o bebê em meus braços. — Doug, por favor, vá lá para cima — pedi. — E leve o Benny com você.
Estendi o bebê para ele. A troca de colo fez Benny resmungar de leve, a boquinha se contorcendo em um breve protesto antes de se acomodar novamente contra o peito de Doug, ainda dormindo.
— Sar, tem certeza que você... — Doug começou, a hesitação estampada no rosto, o olhar alternando entre mim e Grissom.
— Tenho, Doug. Vai — o interrompi, com a certeza de que a conversa, por mais difícil que fosse, seria menos pior sem ele ali, observando cada movimento nosso, cada troca de olhares.
— Tudo bem. Eu vou, mas porque você está pedindo. E se você...
— Se manda, cara! — Grissom o interrompeu, apontando a direção da escada com um gesto brusco, impaciente.
Doug se afastou, mas pude notar seu olhar de puro ódio direcionado para Grissom.
Sozinhos agora na sala, encarei Grissom. A tensão no ar era tão grande que me sentia sufocar, o peso do segredo pairando entre nós como uma nuvem escura.
— Por que não me contou logo que descobriu a gravidez? — a pergunta, em tom frio, sério e com uma mágoa clara, cortou o silêncio opressor..
— Grissom, eu não sabia como te contar, na época — minha voz soou, mais como um farfalhar de folhas secas do que um sussurro, mas carregava uma firmeza pétrea que quebrava a quietude opressiva da sala. Eu precisava erguer um muro entre nós, não deixar que o peso do olhar dele me esmagasse. Fui errada, sim, mas a culpa dele também pesava na balança, uma verdade incômoda que eu não podia ignorar. — Nós estávamos separados. Não era o momento certo — adicionei rapidamente, cada palavra como uma pedrinha jogada em um poço vazio, um eco fraco da justificação que eu tentava construir, o único escudo que eu tinha.
Notei que as mãos de Grissom se cerraram em punhos, a contenção física refletindo a tempestade interna.
— Momento certo? Que momento certo é esse que você esperava? Quando nosso filho entrasse pra faculdade? — A voz dele subiu, um grito contido que, ainda assim, parecia perfurar o silêncio da sala, cada palavra um projétil carregado de dor e traição disparado contra o meu peito. Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre nós.
— Fala baixo! Você não está na sua casa. — Minha voz saiu afiada, uma ordem inquestionável, não um pedido, um reflexo condicionado de defesa. Eu não recuei, mantendo meu olhar fixo no dele, um duelo silencioso. — O momento certo seria quando eu me sentisse segura — revelei, a frase soando mais como uma rendição do que uma explicação.
— Essa é boa! — ele disse com desdém, a descrença pura torcendo seus lábios em um sorriso amargo e quebrado.
— Eu tinha decidido que falaria depois que o bebê nascesse, para priorizar a minha gestação. Ou então quando você voltasse — expliquei, buscando desesperadamente uma lógica que organizasse o caos instalado, tentando achar um fio de coerência no meio daquela tempestade.
— Eu já voltei há dias — ele pontuou, a acusação pesando no ar como um chumbo derretido.
— E eu ia te contar amanhã — reforcei, dando um passo à frente, uma tentativa instintiva de usar a proximidade física para, de alguma forma, diminuir a fúria que irradiava dele.
— Mentira! — Grissom recuou imediatamente, como se a minha presença fosse subitamente tóxica, um veneno invisível. — Você nunca ia me contar! Por acaso fui tão terrível com você a ponto de merecer um troco assim? Você me roubou a chance de ser pai, de acompanhar o desenvolvimento do meu próprio filho! — A raiva, antes fervente, agora dava lugar a uma dor profunda e cortante, seus olhos marejados de lágrimas que ameaçavam desabar a qualquer segundo.
A dor na voz dele foi um golpe mais forte do que qualquer soco que eu pudesse levar. Ele desabou no sofá, um movimento súbito e quebrado, e cobriu o rosto com as mãos, rendendo-se ao choro. O som dos seus soluços, altos e convulsivos, quebrou o silêncio opressivo que, mais uma vez, pairava na sala.
Pensei em me aproximar, o instinto de consolo lutando contra o de autopreservação, mas depois desisti, paralisada. Permaneci onde estava, a uns bons passos de distância. A raiva dele até era compreensível; mais do que isso, era absolutamente justificada. Eu cometi um erro terrível. Mas assim como ele se sentia ferido agora, eu também me senti lá atrás, abandonada e sozinha, pensando erroneamente que ele tinha me deixado por um motivo, quando, na verdade, era por outros.
— Não quis te dar troco algum, Grissom. Só quis preservar o desenvolvimento da minha gravidez — declarei, a voz carregada de uma verdade crua, que ele podia até não acreditar naquele momento, mas que era a minha realidade inegável.
Grissom levantou o rosto, que agora tinha a palidez e o inchaço de quem chorou copiosamente. Seus olhos vermelhos se fixaram nos meus com uma mistura cortante de dor e desespero.
— Como você pôde fazer isso? — a voz dele era um sussurro quebrado, frágil, mas firme na acusação, um fio de aço. — Como você pôde ser tão egoísta?
As palavras me atingiram como pedras atiradas à queima-roupa. Egoísta. Eram verdadeiras, e o peso delas me esmagou. Eu tinha pensado em mim, nos meus medos mais profundos, e não nele, no direito dele de saber. Assim como, no passado, ele me fez acreditar que também havia pensado em si mesmo em relação a nós.
— Eu sei que nada que eu disser vai mudar o que fiz, mas eu fiz para me preservar... Pois estava com medo. Medo de como você reagiria, medo de você me tirar o Benny assim que soubesse que ele é seu também — confessei, a vulnerabilidade pingando em cada sílaba.
Seu olhar se endureceu diante da minha justificação, uma máscara de mármore substituindo a dor. A mágoa, por um instante, pareceu dar lugar a uma incredulidade fria, quase clínica. Ele me analisou de cima a baixo, como se tentasse decifrar um enigma indecifrável, antes de falar.
— Isso não é você falando. Não é ideia sua — A voz dele, rouca pelo choro, era inabalável na acusação, uma certeza absoluta. Seus olhos fixos nos meus procuravam algo que não encontravam, a essência da pessoa que ele conhecera. — Porque a Sara que eu conheço, me conhecia bem o suficiente para saber que eu não sou uma pessoa monstruosa nessa magnitude.
O silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pela respiração pesada e ofegante de Grissom. A verdade contida nas suas últimas palavras doeu tanto quanto as minhas justificativas vazias. Ele tinha razão. A Sara boba e apaixonada que ele conhecia jamais pensaria em algo assim, jamais duvidaria dele dessa forma. Mas a Sara diante dele, aquela que sofreu com suas atitudes no passado, tinha cicatrizes profundas e razões de sobra para duvidar da sua humanidade.
— Eu só posso dizer que sinto muito — murmurei, a voz pausada, pesada de arrependimento.
Grissom fechou os olhos por um instante, a pálpebra tremendo levemente, como se absorvesse, ou talvez rejeitasse, o peso das minhas palavras. Quando os abriu novamente, a determinação havia substituído a dor, como uma máscara de aço. Ele se levantou do sofá com uma brusquidão que me assustou, um movimento quebrado, cheio de energia contida.
— Seu "sinto muito" não vai trazer de volta o tempo que perdi — a resposta foi ríspida e mortal, um golpe final de dor e ressentimento.
— Você está certo — admiti, sustentando o olhar no seu penetrante, sem desviar. — Mas eu estava magoada.
— Mágoa por mágoa, então estamos quites agora — a resposta foi ríspida, proferida com uma frieza calculada que me arrepiou a espinha. O golpe final, definitivo, de dor e ressentimento, ecoou na sala.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor, uma presença física, quase palpável, preenchido apenas pela tensão que não diminuía, mas se solidificava, densa e fria, entre nós. Grissom me analisou com um olhar que misturava desamparo profundo e fúria contida, como se me decretasse, naquele instante, um monstro inumano pelo que fiz.
Mas eu sabia que não era. A culpa pesava, sim, mas minhas atitudes foram um instinto de sobrevivência, um escudo erguido às pressas para me blindar; para blindar, acima de tudo, o desenvolvimento da minha gravidez e a segurança do meu filho. Aquela era a minha verdade, inabalável, ainda que incompreensível para ele naquele momento.
— Eu quero vê-lo. Agora — ele exigiu com uma determinação fria, cada palavra um comando. A dor ainda estava lá, um brilho úmido nos olhos, mas a fúria havia se transformado em um foco gélido e inabalável.
— Acho melhor não. Não no estado que você está — respondi, tentando manter a calma, embora o pânico começasse a subir pela minha garganta.
— Você não vai me impedir — ele retrucou, dando um passo à frente, diminuindo o espaço que nos separava.
— Não esqueça que está na minha casa. Aqui você não manda nada. — A fala saiu firme e segura, como uma muralha que eu erguia. Eu estava disposta a impedir fisicamente que ele subisse sem a minha autorização, se necessário. — Se quer vê-lo, então baixe sua bola e se acalme.
Grissom pareceu vacilar por um instante, o brilho do desafio em seus olhos diminuiu ligeiramente diante da minha firmeza inabalável. A realidade da situação pareceu atingi-lo. No entanto, a determinação logo reassumiu o controle de sua expressão.
— Baixar minha bola? — ele zombou, embora sua voz tenha perdido um pouco de sua intensidade anterior, soando mais controlada. — Eu tenho o direito de vê-lo. Sou o pai dele.
— E eu a mãe. E mais ainda sou a responsável pelo bem-estar dele no momento — rebati, com a voz firme, dando um passo à frente. Diminuí propositalmente a distância entre nós, forçando-o a recuar instintivamente um passo, quebrando sua postura ofensiva.
O rosto de Grissom contorceu-se em uma mistura feia de raiva e frustração. Ele cerrou os punhos com força e lançou um olhar faminto para a escada. Seu desejo de subir era claro como cristal, uma urgência quase física, mas o obstáculo à sua frente – eu, irredutível – era igualmente intransponível. Ele sabia, no fundo, que eu estava certa; que sua presença naquele estado só agitaria ainda mais a situação já delicada e o ambiente tenso.
Ele soltou um suspiro rude e pesado, desviando o olhar agora para a porta da frente, como se ponderasse a ideia de bater em retirada e voltar em outro dia. Mas então, a urgência em seu semblante retornou com força total. Ele me encarou novamente, e a fúria anterior foi substituída por uma súplica silenciosa e desesperada, um pedido mudo de trégua.
— Por favor — ele finalmente sussurrou, a palavra quase inaudível, um fio de voz que me pegou completamente desprevenida. — Eu preciso vê-lo. Só por um minuto.
Diante daquela súplica, senti meu coração amolecer um pouco, a raiva dando lugar a uma pontada aguda de pena. A máscara de fúria e petulância que ele usava há tanto tempo finalmente havia rachado, revelando a vulnerabilidade crua de um pai desesperado por ver seu filho. Eu o observei por um momento, avaliando a sinceridade em seus olhos agora mareados, buscando qualquer resquício de manipulação, mas encontrando apenas desespero.
O silêncio na sala foi quebrado apenas pela nossa respiração contida. Eu suspirei, o som parecendo alto no ambiente, a tensão escorrendo visivelmente dos meus ombros.
— Está bem — cedi, minha voz mais suave do que antes, um bálsamo. — Mas com uma condição. Você vai se sentar aqui e tomar um copo de água primeiro. Vai respirar fundo e se acalmar de verdade. Só quando eu tiver certeza de que você está sóbrio e tranquilo, você sobe.
A expressão de Grissom iluminou-se com um alívio imediato e infantil. Ele assentiu vigorosamente, como uma criança que acabara de receber permissão para algo proibido, a ansiedade momentaneamente superada. Ele não discutiu, não argumentou, apenas aceitou a trégua oferecida.
Apontei para a poltrona de veludo na sala de estar.
— Sente-se. Eu já volto com a água.
Enquanto caminhava para a cozinha, não pude deixar de sentir uma mistura estranha de sentimentos. A batalha momentânea havia terminado, mas a guerra emocional que Grissom travava comigo estava longe do fim; isso era apenas um armistício temporário.
Enchi um copo com água gelada, o som do líquido preenchendo o vidro ecoando no silêncio relativo da casa. Pela janela da cozinha, observei o crepúsculo tingindo o céu de tons de laranja e roxo, um contraste pacífico com a tempestade que acabara de passar na sala de estar. O alívio de Grissom, embora momentâneo, pesava na minha consciência, um lembrete agridoce do quão frágil era o controle que todos nós tínhamos sobre nossas emoções e as situações que a vida nos impunha.
Retornei para a sala, encontrando Grissom exatamente onde o deixei. Ele estava sentado na poltrona, com as mãos cruzadas sobre os joelhos, o olhar fixo no complexo tapete persa. A expressão de súplica ainda estava lá, mas agora vinha acompanhada de uma resignação melancólica. Entreguei-lhe o copo, o gelo tilintando suavemente, o som quebrando novamente o silêncio.
— Beba — ordenei, minha voz voltando a um tom de autoridade suave, mas firme, sem espaço para discussão.
Ele pegou o copo, as mãos envolvendo o vidro úmido, e bebeu a água em longos goles ansiosos. O movimento de sua garganta era visível sob a luz fraca da luminária próxima. O líquido gelado pareceu fazer efeito imediato, um leve rubor sumindo de suas bochechas, trazendo de volta um pouco de calma ao seu semblante. Quando terminou, me entregou o copo vazio, um breve e silencioso agradecimento brilhando em seus olhos.
— Melhor? — perguntei, cruzando os braços sobre o peito, ainda avaliando-o com ceticismo.
Grissom assentiu, sua voz ainda um sussurro, mas agora mais estável.
— Sim. Agora, posso vê-lo?
— Claro — concordei, vendo que ele parecia visivelmente mais tranquilo e controlado. — Venha.
Caminhei na frente, sentindo o peso do silêncio entre nós enquanto subíamos as escadas. Cada degrau parecia um passo cauteloso em direção ao desconhecido, uma descida para o que viria a seguir. Grissom me seguia de perto, seus passos agora firmes e decididos, sem a hesitação de antes. A casa, antes palco de uma discussão acalorada e de gritos contidos, agora estava estranhamente quieta, apenas o som abafado dos nossos passos no carpete grosso quebrando a quietude morna do ambiente.
Chegamos ao quarto de Benny, onde Doug estava com o bebê. A porta estava entreaberta, uma fresta de luz amarela convidativa. Empurrei-a suavemente, revelando a cena no interior.
Doug estava sentado em uma poltrona de balanço de madeira, embalando Benny no colo com um ritmo suave. O bebê, alheio a todo o drama que fervilhava no andar de baixo, dormia tranquilamente, os dedinhos minúsculos enrolados no polegar de Doug. A luz suave e quente do abajur criava uma aura de paz quase sagrada, que contrastava brutalmente com a tempestade que ainda rugia dentro de Grissom e de mim.
Grissom parou no batente da porta, a respiração presa na garganta. Seus olhos se fixaram no filho que ele acabara de descobrir que tinha. A determinação fria de minutos atrás deu lugar a uma vulnerabilidade avassaladora e crua. Vi seus lábios tremerem levemente, um esforço visível para conter o choro.
Doug ergueu o olhar do bebê e nos viu. Sua expressão endureceu ao ver Grissom, uma sombra de desconfiança cruzando seu rosto, mas amoleceu quase que imediatamente ao olhar para mim, a preocupação em seus olhos silenciosa. Ele não disse nada, apenas continuou a embalar o bebê, o único som no quarto.
Grissom deu um passo hesitante para dentro do quarto, como se pisasse em solo sagrado. Seus olhos nunca deixaram Benny, fixos em cada detalhe. Era um olhar de fascínio, de perda pelo tempo perdido e de uma sede insaciável de conhecer aquela pequena pessoa. Ele seguiu reto, com passos vacilantes que desmentiram a força de sua presença, até se postar ao lado de Doug na cadeira de balanço.
— Me dá meu filho?! — Sua voz, embora firme na intenção, ecoou o pedido com um tom que era metade ordem desesperada, metade súplica quebrada.
Doug me encarou, os olhos buscando aprovação ou recusa para aquele pedido. Assenti, concordando silenciosamente que ele passasse o bebê para Grissom. Aquele era o direito inquestionável de Grissom, algo que nem eu podia negar.
Com cuidado meticuloso, Doug ajustou Benny em seus braços e entregou para Grissom, depois veio até mim se postando ao meu lado, ainda no batente da porta do quarto. Os movimentos de Grissom foram cuidadosos e hesitantes no início, como se temesse quebrar o bebê, mas logo ele o aninhou contra o peito, em um gesto que parecia inato e natural. A cena era agridoce; o pai e o filho finalmente juntos, mas de uma forma tão estranha, dolorosa e cheia de arrependimento.
Grissom sentou-se na beirada na poltrona e olhou para Benny com um carinho que chegou a emocionar, uma ternura que eu não via nele há tempos.
— Olá, camarada — ele sussurrou, a voz carregada de uma ternura que eu jamais pensei que ouviria de novo. Acariciou suavemente o rosto do bebê com um dedo trêmulo, um toque de seda contra a pele macia de Benny. Uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto, traçando um caminho úmido, mas desta vez não era de raiva ou ressentimento; era de pura e avassaladora emoção.
Observei a interação de longe, uma espectadora forçada, mas agora grata, dando a eles o espaço sagrado que precisavam. Doug permaneceu ao meu lado, uma testemunha silenciosa e protetora daquele momento íntimo. O quarto estava impregnado de uma quietude diferente agora, uma quietude de aceitação mútua e de novas, ainda que incertas, possibilidades.
Grissom ergueu o olhar para mim, a expressão indecifrável, um livro fechado. A fúria de antes havia dado lugar a uma quietude solene, quase reverente.
— Como ele se chama? — ele quis saber, a voz um sussurro rouco, mal quebrando o silêncio.
— Benjamin. Mas eu o chamo carinhosamente de Benny — contei, enxugando discretamente o canto do meu olho, emocionada com a cena da interação dela com nosso filho, sentindo um nó na garganta.
— Benny — ele repetiu o apelido com um sorriso bobo e enternecido, um gesto que derreteu meu coração, como quem saboreia a sobremesa preferida após uma longa refeição amarga. — Ele é lindo — sussurrou, voltando a olhar para ele nos seus braços, a voz visivelmente embargada pela emoção, a ternura transbordando. — Se parece... se parece conosco — disse, um traço de sorriso ainda nos lábios, uma aceitação agridoce da realidade.
— Sim. Mas os olhos são azuis como os seus — revelei, atraindo sua atenção de volta para mim.
Havia um sorriso mais largo e brilhante em seus lábios e uma emoção e um orgulho genuíno, quase palpável, em seus olhos pela minha informação. A conexão entre pai e filho, antes roubada pelo tempo e distorcida pelo meu medo, começava a se tecer ali, naquele quarto iluminado apenas pelo brilho quente e suave do abajur.
Grissom inclinou a cabeça para a luz, como se quisesse confirmar a cor dos olhos do filho. Benny resmungou de leve, um som de passarinho, abrindo brevemente os olhos e revelando duas turquesas líquidas que me lembravam tanto Grissom que meu coração apertou de uma dor boa. Ele os fechou novamente, voltando a dormir profundamente.
— Azuis — ela confirmou, a voz quase um suspiro, uma revelação. — Tão azuis.
Um silêncio confortável e repleto de significado se instalou entre nós, quebrado apenas pela respiração tranquila e ritmada de Benny. A tensão de minutos atrás havia se dissipado, substituída por um entendimento tácito e agridoce. Olhei para Doug, que tinha um semblante sério, ainda processando a intensidade da cena que acabara de presenciar, uma testemunha silenciosa.
Grissom levantou o olhar para mim novamente, a expressão agora suavizada por uma ternura inquestionável.
— Posso... posso segurá-lo um pouco mais? — perguntou, uma pontada de incerteza em sua voz, como se temesse que eu o tirasse dele a qualquer momento, que aquele sonho fosse quebrado.
— O tempo que você quiser, Grissom — respondi agora com um sorriso de canto, incapaz de negar isso a ele. Era o mínimo que eu podia fazer. — Vou te deixar a sós um pouco com ele.
Eu sabia que aquele era um momento deles, um momento de redescoberta e aceitação silenciosa, e queria lhe dar a privacidade necessária para isso. Recuei silenciosamente, fazendo um gesto discreto para Doug me seguir.
Grissom apenas assentiu, os olhos imediatamente de volta em Benny, perdido em uma bolha de encantamento e emoção, alheio a qualquer outra coisa no mundo. Deixei os dois a sós e fui com Doug para a sala, deixando Grissom aproveitar este momento especial e merecido com Benny.
— Como foi a conversa? — Doug quis saber, assim que nos acomodamos no sofá de veludo da sala. A tensão anterior ainda era visível em sua postura rígida, o corpo inclinado para frente, pronto para a defesa. — Do quarto deu para ouvir vozes alteradas, mais precisamente daquele desequilibrado.
Ele cruzou os braços sobre o peito com força, o maxilar cerrado em uma linha dura, demonstrando que a irritação e o ressentimento com Grissom ainda estavam longe de passar.
— Doug, dá para parar de se referir a ele assim? — pedi, com um suspiro cansado que vinha da alma, esfregando as têmporas em movimentos circulares. A discussão anterior havia me exaurido por completo.
— Não dá, Sara. Você viu o jeito que ele falou comigo? — Ele descruzou os braços bruscamente e gesticulou, exasperado, a frustração transbordando. — E o pior, o que ele disse sobre você... sobre ser um "troco". Eu ouvi isso lá de cima.
— Ele estava magoado. E, para ser sincera, ele tinha razão em parte nas coisas que disse — admiti, a voz baixa, o peso da culpa voltando a me visitar.
Doug me olhou com incredulidade absoluta, como se eu tivesse perdido o juízo naquele instante.
— Razão? Ele te ofendeu, Sar. Te chamou de egoísta, te diminuiu...
— E eu fui de certa forma — o interrompi, o olhar fixo no chão de madeira polida da sala, incapaz de encarar Lucas. — Fui tão egoísta com Grissom por esconder sobre Benny quanto ele foi ao me deixar no passado. Decidi por ele, como ele decidiu por mim quando determinou o fim do nosso relacionamento sem me dar a chance de argumentar, de lutar por nós. Então, no final das contas, nós dois fomos egoístas.
— Ele não foi egoísta com você... Ele foi uma canalha — acusou Doug, a voz carregada de um ressentimento e uma mágoa que pareciam antigos, não apenas do dia de hoje.
— Tanto faz o termo. A verdade nua e crua é que, querendo ou não... eu roubei dele a chance de ser pai desde o início, de acompanhar a gestação, os primeiros movimentos.
O silêncio voltou a reinar entre nós, mas era um silêncio diferente do de minutos atrás, no confronto com Grissom. Não era tenso nem furioso; era pensativo, pesado com as verdades não ditas, com os arrependimentos mútuos e as complexidades labirínticas de nossos relacionamentos.
— E agora? — ele perguntou, a voz mais suave agora, a raiva cedendo lugar à preocupação genuína com o futuro incerto daquela situação.
Antes que eu tivesse tempo de pensar em uma resposta sensata àquela questão que ele me lançou, escutamos passos no andar de cima. Nossas cabeças viraram em uníssono em direção às escadas e, em segundos, vimos Grissom surgir, descendo os degraus com uma calma inesperada e quase sobrenatural, que contrastava brutalmente com a tempestade emocional de minutos atrás.
Seu rosto estava mais sereno, a fisionomia relaxada, embora os olhos ainda estivessem visivelmente vermelhos e inchados pelo choro recente. Ele não tinha mais a expressão de fúria cega, mas sim um semblante pensativo, quase solene, como se tivesse chegado a uma conclusão importante.
À medida que se aproximava, o silêncio na sala se intensificou, tornando-se quase opressivo. Doug e eu trocamos um olhar rápido, ansiosos e apreensivos pelo que viria a seguir. Grissom parou em frente ao sofá, nos encarando, um ar de decisão inabalável em sua postura ereta.
— Estou indo. Mas volto muito em breve pra conversarmos melhor — declarou, a seriedade voltando a cada palavra, como se colocasse pedras no lugar de emoções, solidificando sua resolução. — Mas não sobre o passado. Sobre o futuro.
Então, sem mais uma palavra, ele girou elegantemente em seus calcanhares e seguiu até a saída, cruzando pela porta da frente e fechando-a atrás de si com um estrondo seco que ecoou pela casa agora silenciosa, deixando-me apreensiva e incerta sobre o que viria a seguir.
A quietude que se instalou na sala foi instantânea e pesada. O ar ainda parecia vibrar com a energia da saída abrupta de Grissom. Doug soltou um suspiro audível, carregado de frustração e alívio contido, levantou-se do sofá e caminhou alguns passos até a janela, os ombros ainda tensos. Depois, virando-se, com os olhos fixos na porta fechada como se Grissom ainda estivesse lá, ele disse:
— Esse cara não vai deixar isso barato, Sar — ele comentou, a voz grave, um presságio sombrio.
Encarei-o, com a testa franzida em preocupação. A apreensão em meu peito, que já latejava, intensificou-se com a confirmação de suas palavras.
— O que você quer dizer? — perguntei, embora a resposta já estivesse clara e gelada na minha mente.
— Você escondeu o filho dele. Não espere que ele simplesmente aceite isso e viva feliz para sempre.
— Eu sei — sussurrei, sentindo um calafrio percorrer minha espinha. Mas eu precisava confiar que o homem que amei um dia, e que agora é o pai do meu filho, encontraria a compaixão necessária para navegar por essa situação complexa. Precisava acreditar que ele conseguiria deixar de lado a intolerância e a mágoa que o consumiam, impedindo-o de tomar decisões racionais e pensando no bem-estar de Benny acima de tudo.
Precisava, desesperadamente, confiar na promessa de uma conversa amistosa em breve, sobre um futuro compreensível e sem batalhas judiciais ou disputas amargas. Um futuro que não fosse apenas sobre direitos e deveres, mas sobre o bem-estar de Benny, o centro de toda aquela confusão. Eu torcia, com todas as minhas forças, para que ele não se apegasse a um passado doloroso, que só traria mais desgastes e sofrimentos para nós dois, além de uma enxurrada interminável de acusações.
Doug veio de volta para perto de mim, quebrando a distância física, mas mantendo a emocional. Postou-se atrás do sofá e apertou meu ombro em um gesto silencioso de apoio e presença. Olhei para cima e o encontrei com um semblante sério, mas reconfortante, um pilar de força momentânea que eu precisava. Em seguida, lancei um olhar para o relógio na parede, os segundos arrastando-se em um ritmo que parecia zombar da minha ansiedade e do meu cansaço.
— Acho melhor você ir, Doug — disse, a voz exaurida, sentindo o peso do dia nos meus ossos.
— Eu podia ficar — ele ofereceu, a sugestão pendendo no ar entre nós, carregada de subentendidos.
— Não é uma boa ideia.
— Nunca é, né, Sara? — Sua argumentação soou como uma cobrança velada, um leve tom de mágoa na voz. Talvez pelo fato de eu nunca pedir ou convidá-lo para ficar, de nunca ceder totalmente. A verdade era que nem intimidades ainda tínhamos tido desde que começamos a nos envolver; eu o mantinha em uma zona de segurança.
Desviei o olhar, incapaz de responder àquela acusação silenciosa e justa. Ele tinha razão, em parte. Eu o estava mantendo à distância, com medo de me entregar novamente.
— Eu só... preciso de um tempo sozinha para processar tudo — murmurei, tentando amenizar a situação, suavizar a rejeição.
Doug suspirou, o som de resignação encheu a sala vazia. Ele tirou a mão do meu ombro, e a perda súbita daquele calor me fez sentir instantaneamente mais sozinha.
— Tudo bem, Sar. Eu entendo.
Ele se afastou, pegou a chave do carro na mesa de centro com um movimento rápido e caminhou em direção à porta da frente.
— Nos vemos amanhã — ele disse, sem se virar para me olhar, a voz distante.
Assenti silenciosamente, observando-o sair. A porta se fechou com um clique suave, abafado, diferente do estrondo dramático de Grissom, mas que deixou um vazio semelhante, um vácuo de presença, na sala agora silenciosa. Estava sozinha, entregue ao silêncio e aos meus pensamentos turbulentos que não me dariam trégua.
Levantei-me do sofá, sentindo a necessidade urgente de ir para o quarto, de ficar perto de Benny, o único ponto de luz e sanidade naquela escuridão emocional. Subi as escadas, cada passo me levando para mais perto da minha nova realidade: uma realidade compartilhada, complexa e incerta, quer eu estivesse pronta para isso ou não.
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