After Separation - Livro 2
6 Capítulo IV
Notas iniciais
"A verdadeira Amizade nos ajuda
a superar momentos difíceis.
Ela é o refresco para uma alma cansada
e o farol que iluminará
os momentos escuros de nossa vida..."
(Vinicius Carniel)
***
Quando dei as costas para a porta após ouvir o "aviso" de Maryane, vi Dayse começar a bater palmas para mim enquanto me olhava com ar de aprovação e um sorriso satisfeito, que ser pelo meio feito de segundos. E isso se confirmou quando ela se pronunciou.
— Juro que se você não tomasse a atitude de expulsar logo sua prima daqui, eu o faria. Inclusive estava me preparando para isso já.
Admito que demorei para agir. Bem mais do que o meu habitual. Devia ter tomado aquela atitude de tirar Maryane dali muito antes. E o custo de tal ação foi que acabei aturando demais minha prima e suas provocações. Mas paciência tem limites e a minha esgotou tarde, porem esgotou.
— Às vezes queria entender por que ela me odeia?
Eu acho que não é normal isso. Nunca fiz nada a ela para Maryane desenvolver tal sentimento por mim.
— Sinceramente, amiga, acredito que ela não te odeia e sim, te inveja.
— Está mais para as duas coisas do que só para uma, Dayse.
— Também. E o porteiro que nem interfonou para avisar da subida dela né? É a segunda vez que ele faz isso.
— Bem lembrando. — apontei com o indicador para Dayse. — E quer saber? Ele vai ouvir uma bela chamada de mim e será agora.
Segui rumo a cozinha com Dayse em meu encalço pedindo para eu pegar leve com o nosso porteiro. Pegar leve? Da primeira vez eu relevei, mas agora não. Ele estava ali na portaria do prédio para proteger a entrada indevida de estranhos. Tudo bem que minha prima não era uma estranha, mas sua entrada no prédio era indevida para mim. Eu não a queria ali. Mas ele permitiu sua entrada sem me consultar. E o pior, era a segunda vez que fazia isso.
Quando ele atendeu a minha chamada pelo interfone e reconheceu a minha voz, eu nem lhe dei a chance de vir de conversinha fiada comigo. Fui logo lhe chamando a atenção por não ter interfonado antes de autorizar a subida de Maryane. Em sua defesa, ele alegou que ela disse que era minha irmã e que eu estava a sua espera. Na mesma hora o interrompi porque estava fula da vida com ele. E não lhe deixei dizer mais um piu se quer. Sei que era errado, mas descontei toda minha raiva no pobre do seu Joel. Também quem manda o sujeito não fazer o trabalho dele direito.
— Me desculpe, senhorita Sara. — ele pediu quando terminei meu monólogo de minutos lhe esculachando e chamando a atenção. — Isso não irá mais se repetir.
— Acho muito bom mesmo, seu Joel. Porque se tornar a se repetir um terceira vez, eu vou falar com o síndico e pedir a sua cabeça pra ele. Passar bem. — encerrei a chamada sem deixar brecha ao pobre porteiro de falar. E eu espero que ele leve bem a sério o que eu disse, porque não estava brincando.
— Caramba, amiga, você pegou pesado com ele.
— Cansei de ser boazinha e pegar leve, porque as pessoas retribuem cagando na minha cabeça, Dayse.
Passei por ela avisando que queria ficar sozinha no quarto e saí da cozinha sem esperar sua resposta.
Ao chegar em meu quarto me joguei na cama. Ali parecia o melhor lugar no momento para eu ficar. Ainda que as lembranças que aquele cômodo e principalmente, a cama me tragam de Grissom sejam grandes, fortes e intensas, mesmo assim era ali o meu refúgio.
Me virando para encarar o teto foi inevitável não trazer à tona a mente a visita cheia de provocação de Maryane ainda a pouco.
"Eu te disse que não ia casar com ele, Sara."
Pois é, de fato ela disse isso. E não foi uma vez só, foram algumas vezes. Mas eu duvidei da veracidade de suas palavras, porque tinha certeza que Grissom não me deixaria para ficar com ela, já que ele dizia que me amava. Só que me enganei redondamente e talvez até duplamente.
Ainda que ele não tenha me deixado por vontade própria, mas ele me deixou e foi perverso. Doeu e doía. E tenho para mim que ainda vá doer por um longo período. E quanto ao seu amor, não sei mais se acredito que foi verdadeiro.
"O casamento vai ser em quinze dias..."
Pelo visto eles, ou melhor, ele tinha pressa no casamento. Mas também isso não me importa. ELE, assim como sua futura esposa, não me importam ou interessam.
"Depois vamos morar na Alemanha..."
Que morem até no inferno se quiserem. Para mim quanto mais longe eles viverem de mim é melhor. Assim não terei o desprazer de topar com o casalzinho falso.
Que eles vivam sua vida por lá, que por aqui darei seguimento na minha, ou melhor ainda, começarei uma nova.
Em duas semanas um emprego novo me espera e nele me jogarei de cabeça. E esse novo trabalho será o meu ponto de recomeço.
***
"Lamento muito por Maryane ter ido te importunar. Já me encarreguei de que isto não torne a suceder."
Reli intrigada o SMS de uma hora atrás de Grissom, que descobri na caixa de entrada do celular, logo que despertei do sono que acabei caindo há duas horas.
Me questionei sobre como foi que aquele cretino do Gilbert soube da vinda de Maryane aqui??
Eu até tinha cogitado em ligar para ele, quando vim para meu quarto logo depois de falar com seu Joel. Incluise cheguei até a pegar o celular e digitar os quatro primeiros números de celular daquele cretino. Ia exigir que ele desse um jeito em sua noivinha de ela não ficar me importunando, porque senão ia acontecer uma besteira com ela caso me procurasse outra vez para ficar de provocação. Mas aí desisti de fazer isso.
E, agora, eu vejo esse seu SMS enviado há uma hora? Como ele soube da vinda dela?
Não precisei de muito tempo e tampouco esforço para chegar à uma resposta.
— Dayse! — sussurrei, tapando os olhos com uma das mãos.
Só podia ter sido ela, porque duvido muito Maryane tenha se atrevido a contar a Grissom aquilo.
Num pulo saí da cama e com o celular numa mão deixei o quarto logo em seguida. Já ia me dirigir ao cômodo onde Dayse dorme, mas do corredor escutei a TV da sala ligada e as risadas da minha amiga e fui até lá.
— Ei, resolveu sair da toca, foi? — ela riu ao me ver e levou um punhado de pipoca à boca.
— Por que contou ao Grissom que Maryane veio aqui?
As pipocas em sua boca foram cuspidas assim que lhe fiz tal pergunta.
— Como é, Sara?
— Acordei há poucos minutos e descobri um SMS que Grissom me mandou há uma hora, no qual dizia que ele soube da vinda dela aqui e que já havia se encarregado dela não tornar a vir me perturbar. Você não tinha esse direito de contar isso para ele, Dayse!
— Eu não contei nada, Sara! Juro pela nossa amizade, que é a coisa mais importante para mim.
Ela pareceu bem sincera. Além do mais, conheço Dayse e sei que ela não juraria em vão pela nossa amizade. Nossa amizade era sagrada para nós duas.
— Então como ele soube?
— Sei lá!... Uma vez você me disse que ele pôs alguém atrás da sua prima. Talvez essa pessoa ainda venha acompanhando os passos dela.
Era uma boa teoria com grande possibilidade de ser verdade.
— É, pode ser.
— E você achando logo que fui eu.
— Desculpa.
— Só desculpo se me deixar ver a mensagem que o Sr.Gostoso te mandou.
Seus olhos curiosos eram suplicantes que acabei por deixar um discreto sorriso escapar no canto dos lábios enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro. Dayse e sua curiosidade eram impossíveis juntas.
Cedendo ao seu pedido, eu estendi o celular à ela e com rapidez minha amiga puxou o aparelho para si. Em silêncio ela leu o SMS. Após a leitura, Dayse me olhou e estendeu o aparelho de volta à mim.
— Vai mandar alguma reposta pra ele?
Seu questionamento me fez hesitar e pensar na resposta. Eu devia ou não mandar um SMS em resposta?
Levou um minuto inteiro até eu por fim me decidir sobre aquela questão.
— Eu não ia, mas quer saber? Agora vou.
— Opa! — Dayse bateu palmas em empolgação. — Pois eu quero ver essa resposta. Senta aqui.
Fui me acomodar ao seu lado no sofá e em segundos já começava a digitar com agilidade e certa raiva a seguinte mensagem:
"Pois acho muito bom que você se encarregue mesmo disto, Gilbert Grissom, porque da próxima vez que sua futura esposa vier aqui me importunar, não terei tanta consideração por ela está grávida. E farei uma besteira com Maryane e o filhinho de VOCÊS.
PS: Esqueça o meu número. Não quero mais receber quaisquer mensagens suas daqui para frente. Você morreu para mim, Gilbert Grissom! "
Apertei o enviar e mandei sem qualquer remorso o SMS. Desejando não receber réplica dele.
— Nossa! Mandou bem. Mas esse PS aí, principalmente, a última frase dele, foi só a raiva falando por você, né?
Na verdade era uma mistura de vários sentimentos que no momento me corriam, dentre eles a raiva também.
— Sim, um pouco!... Mas de verdade, Grissom pode ainda não estar morto pra mim, porém eu me encarregarrei de matá-lo dentro de mim, Dayse. Ou fingirei que ele nunca existiu.
— Certo. Mas aí, isso vai durar até ele voltar? Porque pra mim o Grissom deu garantias de que voltaria para você, amiga.
Suspirei, recostando a cabeça no sofá.
— Pra mim, ele disse o mesmo. Mas quer saber, Dayse?... Em um ano muita coisa pode acontecer e mudar na minha vida e em mim.
— Isso é verdade. Inclusive você pode conhecer outra pessoa e se apaixonar. Aí, o Sr.Gostoso vai ficar chupando o dedo pra deixar de ser burro e ter aberto mão de vocês para cumprir um pedido do pai.
Me apaixonar de novo? E por outra pessoa? Não sei se me vejo fazendo isso tão cedo.
— Não quero saber de amor, nem de me apaixonar ou nada disso por um bom tempo. Eu fecharei meu coração para balanço, Dayse.
Foram duas decepções em sequência, minha gente. Vou dar um sossego ao meu calejado coração, que depois dessa última decepção ficou esmigalhado e todo amassado feito uma banana amassada.
— Eu super te entendo amiga. Quando Damien aprontou comigo, eu fiquei mal assim. E olha que ele era só um ficante. Só que me recuperei da desilusão e com você vai ser o mesmo. O trabalho é uma ótima ferramenta para a gente focar, sabia?
Assenti.
Trabalho!
Dayse tinha razão. E no meu caso, eu teria muito trabalho pela frente, já que em breve iniciaria um novo ciclo na minha vida profissional. E por falar nisso, eu lembrei que ainda não partilhei essa novidade do novo emprego com minha melhor amiga.
— Sobre trabalho, eu tenho que te contar uma coisa a esse respeito, Dayse.
— Espera aí... Deixa eu desligar essa TV. — ela apanhou o controle remoto e então desligou o aparelho. — Agora assim, conta o que tem pra contar. Não é nenhum problema, né?
— Não. Trata-se de uma boa notícia.
— Boa notícia é sempre bem vinda. Conta.
Tentei formular rapidamente na cabeça a melhor maneira de contar aquilo sem que a Dayse entre em surto, mas como não consegui isso, mandei a notícia de uma vez logo.
— Recebi do Owen sexta-feira durante o jantar que tivemos, uma proposta sua de emprego na BoB e... eu aceitei. Portanto, você está falando com a nova editora de ficção da Bang of book.
Eu me preparei pelo surto dela, mas quando ele não veio, fiquei preocupada. Ainda mais pelo fato de que Dayse fez uma cara estranha demais para o meu gosto depois do que revelei.
— O que foi, Dayse? Que cara é essa?
Parecia até que ela tinha chupado um limão. Ou pior, não gostado da notícia.
— É que me pegou de surpresa essa novidade. — ela sorriu, mas deu para perceber que esse gesto foi meio forçado. — Então era esse o assunto que ele queria tratar com você?
— Sim. Ele disse que confia no meu potencial para substituir o Collins Fox que saiu da BoB por motivos pessoais.
— Collins Fox? Uau! Que responsa, Sidle. — ela desviou o olhar de mim para a vasilha de pipoca descansando em suas pernas.
Por quase trinta segundos mais ou menos ficamos caladas. Dayse encarando as pipocas e eu observando minha amiga. Confesso que estava me intrigando aquela reação dela. Não houve surtos malucos de alegria da parte dela. E nem nada que denotasse que havia ficado feliz pela notícia.
— Você não gostou de saber que vou trabalhar na BoB? — arrisquei e podia apostar que a resposta era: sim.
Dayse me olhou e dando um suspiro passou um dos braços por meus ombros e me puxou para perto de si. Aproveitei para apoiar a cabeça em seu ombro.
— Não pense que não gostei ou não estou feliz por isso ou por você, porque eu estou mega feliz, amiga, do fundo do coração. — ela beijou meus cabelos enquanto sua mão deslizava para cima e para baixo em meu braço.
— Mas?
Podia jurar que havia um "mas" logo depois daquele seu discurso.
— É que... já são anos que estamos numa parceria de sempre juntas. Desde a faculdade até o trabalho, que...
Quando ela se calou e ficou assim pelos cinco segundos seguintes, eu levantei a cabeça e lhe olhei.
— Vai ser estranho não te ver mais na NP durante o almoço, além de ter que ir e voltar pra casa sozinha. Sei lá, acho que vou me sentir meio órfã da sua companhia nessas horas. — ela completou, dando de ombros.
— Ai, Dayse. Sua boba. — foi a minha vez de passar o braço por seus ombros e trazê-la para junto de mim. — E quer saber? Também vou me sentir órfã de você quando eu começar nesse novo emprego.
Como ela bem disse são anos juntas de parceria somando faculdade e trabalho. E apesar de não trabalharmos diretamente juntas e estamos separadas apenas por alguns corredores de distância, ainda assim estávamos juntas na mesma empresa; vivíamos nos esbarrando na copa ou pelos corredores da editora; almoçando juntas no refeitório; usando o ramal do telefone para se falar quando nossos chefes não estavam por perto ou quando estávamos livre e sem serviço.
Mas comigo em breve indo trabalhar em outro lugar e à milhas de distância da minha amiga, ficaria difícil essa interação toda. Passaríamos a nos ver só a noite e nos fins de semana.
— Vou sentir sua falta por lá.
— E eu a sua no meu novo emprego.
— Quando você vai começar na BoB?
— Eu tenho quinze dias para resolver minha situação na NP e depois desse prazo, eu começo na BoB.
— Quinze dias só?
— Sim! Segunda já vou comunicar minha decisão ao Brooke, porque sobre a proposta ele já sabe. Owen me contou que falou antes com meu chefe sobre isso. Inclusive Brooke falou maravilhas de mim ao Owen quando este lhe consultou a meu respeito.
— E ele tinha mais que falar maravilhas de você mesmo.
Meu celular começou a tocar naquele instante roubando nossa atenção. Olhei para a tela do aparelho que descansava ao lado da minha coxa e visualizei a palavra mãe piscando incessantemente. Não foi difícil concluir o porquê daquela ligação. Certamente, aquela altura, quase já anoitecendo Maryane já deve ter contado toda empolgada sobre seu casamento com Grissom.
— Você não vai atender a ligação??
Não estava com cabeça e nem vontade de tocar nesse assunto com minha família. Sem contar nas explicações que eles (porque posso apostar que meu pai deve estar junto dela enquanto mamãe me liga), vão me pedir e que nem mesmo eu ainda tinha digerido direito.
— Melhor não! — silenciei a chamada e depois desliguei o celular para não receber outra ligação. Ainda bem que eles não tinham o número novo daqui que trocamos meses atrás.
— E posso saber quem está te ligando?
— Minha mãe!
— E você acha que...
— Sim. Maryane deve ter ligado já pra eles para contar a novidade.
— Você não vai poder ficar evitando seus pais por muito tempo.
— Eu sei. Só que hoje não quero remoer esse assunto outra vez. Já basta ter feito isso com Maryane mais cedo e daquele jeito dela.
— Sabe que tenho pena da sua prima?
— Eu não.
— Mas eu tenho. E sabe porquê? — neguei com a cabeça. — Ela vai casar com um homem que não a ama. Alguém que está se unindo a ela em matrimônio contra a própria vontade. Imagina só você ser casada com um cara que não te quer e que ama outra. Deve ser horrível. Digno de pena.
— Eu não acho. Pra mim ela pediu e merece isso. Na verdade, eles se merecem.
E enquanto eles estarão lá vivendo uma vida de mentira, um casamento de fachada, eu vou estar aqui dando um novo começo a mim mesma e a minha vida.
***
O domingo veio frio e melancólico como o meu estado de espírito. Dayse e eu ficamos em casa a meu decreto, já que a louca da minha amiga insistia para sairmos para dá uma volta para espairecer e de quebra também almoçar fora. Só ela para querer sair de casa em pleno domingo frio e nublado que fazia lá fora. Eu recusei essa proposta na hora.
Ficamos em casa!
Na hora do almoço ligamos para o nosso restaurante favorito e pedimos comida. Em uma hora o almoço chegou. Comemos na sala assistindo TV. Já que eu não quis sair Dayse decretou que passaríamos o dia que Deus deu, maratonando séries, coisa que eu e ela já não fazíamos há tempos, porque nas minhas horas vagas eu estava com Grissom seja aqui no meu apê ou no dele.
Não ousei contestar esse seu 'decreto', porque tinha adorado a ideia.
Na segunda série que assistíamos, que por sinal era de terror, escutamos o interfone tocar.
— Ah, vai lá atender, Sara.
— Nem pensar que eu quero saber de falar com o nosso porteiro tão cedo depois de ontem. Vai lá você saber o que ele quer.
— Ai, saco!
Ela pulou por cima do encosto do sofá e saiu as carreiras para atender o mais rápido possível o interfone e voltar para não perder o ponto alto da série.
Coisa de dez segundos depois Dayse já voltava da cozinha com uma cara nada boa.
— Que foi? O que o porteiro queria?
— Você devia ter atendido a ligação da sua mãe ontem.
— Por que? — franzi a testa.
— Teria evitado de agora ela está subindo com seu pai para te verem.
Meu queixo foi ao chão com aquelas palavras.
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