Notas iniciais
Salve, salame, meus amores. Simbora para atualização do mês!

Ontem, Dayse tinha me interpelado pela décima vez se eu não pretendia mesmo convidar Lewis para a comemoração do meu aniversário. Ela achava que eu devia e quando respondi que "não", pois não queria que o irmão do Sr. Cretino soubesse da gravidez, Dayse me indagou se eu pretendia esconder de Lewis também sobre a gravidez até o bebê nascer.

"Vai ser meio difícil com ele residindo na mesma cidade que eu, mas não custa nada sonhar que ele não descobrirá nada até o nascimento do bebê."

"Você está tendo sorte ainda de não ter trombado com ele ou dele não ter te procurado, isso sim."

"Eu sei."

"Tem medo dele descobrir e contar para o cretino, né?"

"Sim. É o irmão dela, Dayse. Acha mesmo que Lewis não vai bater pra ele sobre o bebê?"

"Eu acho que se você pedir... Ele não conta!"

- Você está grávida!

Lewis balbucia em um tom de choque e perplexidade, que me faz respirar bem fundo.

Uma vez, Maquiavel disse em "O Príncipe": "Nunca se deve deixar que aconteça uma desordem para evitar uma guerra, pois ela é inevitável, mas, sendo protelada, resulta em tua desvantagem." Ou seja, em situações de conflito ou instabilidade, é preferível agir rapidamente e resolver a questão, mesmo que isso leve a um confronto, do que adiar a resolução, pois a longo prazo, a postergação só tende a piorar a situação para quem adia, no caso eu.

- E você está de barba! — tento descontrair para ganhar tempo. Mas parece que meu artificio faz a situação piorar, posto que a expressão de Lewis se endurece mais.

- É dele, não é?

A pergunta retórica de Lewis só faz com que uma tensão maior ainda paire no ar.

Eu poderia mentir para evitar que a notícia chegasse em seu irmão bem antes do que eu estaria preparada para enfrentá-lo. Porém, mentir, seria a escolha mais errada e a qual, eu me arrependeria amargamente no futuro. Sem contar, que algo me diz que Lewis não acreditaria em uma negativa minha. Portanto, só me resta ser honesta e verdadeira com o homem diante de mim.

- É sim, Lewis.

O olhar do sujeito diante de mim, que até então vinha se mantendo fixo em minha barriga, sobe para encarar os meus e o choque de segundos atrás se transmuta em um sentimento, que identifico como raiva.

- Por que não contou ainda a ele, Sara?

O tom sério e, claramente, de cobrança com o qual ele se pronuncia, deixa a tensão ainda mais palpável dentro da sala. Lewis tem o semblante fechado como nunca antes tinha vislumbrado em seu rosto quase sempre angelical e sorridente.

- A gente pode sentar para conversar direito? — indico a cadeira diante de minha mesa.

Meu "convite" para que se acomode, nada mais é do que um pretexto para ganhar tempo e assim, organizar melhor o emaranhado de palavras pipocando em minha cabeça, de modo que elas (as palavras) formem frases certas e decentes em minha defesa.

Nada contente, Lewis se aproxima e acomoda-se na cadeira indicada. Parece que estou vendo a versão mais jovem braba do Sr. Cretino, pois Lewis neste momento está parecendo muito o irmão com sua carranca fechada.

- Lewis... — início após me acomodar atrás de minha mesa e juntar as mãos em uma prece.

Hora errada pra rezar, insolente!

Hora errada a sua de se meter, inconveniente!

-... Você sabe bem as circunstâncias em que o seu irmão e eu terminamos e o quão doloroso foi pra mim...

- Pra ele também. — retruca o homem, me interrompendo e cruzando os braços na altura do peito em claro sinal de defesa. — Respeito sua dor, mas você também não foi a única pessoa machucada nessa história toda, Sara. Eu vejo a dor do Gil a cada vez que olho para o meu irmão.

- A dor do seu irmão foi escolha dele. A minha não. Seu irmão impôs a decisão dele a mim sem me dar o poder de escolha. Simplesmente me enfiou pela goela abaixo e eu que me virasse com isso.

- Assim, você o faz parecer um monstro.

- E ele foi um, bem cruel.

- E você também está sendo bem cruel com ele ao priva-lo de saber desta criança. Sei que o Gil errou feio, mas não justifica esconder um filho dele.

Juro que prefiro a versão angelical dele, do que esta versão carrasca e advogado ferrenho do irmão cretino dele.

- Não contar ao seu irmão foi uma decisão que tomei para me resguardar e resguardar a minha gravidez. Eu não posso suportar seu irmão perto de mim e isso poderia prejudicar o bebê. Nós dois... — gesticulo, apontando de mim para ele. -... Conhecemos o seu irmão...

- Por que não fala o nome dele? É tão difícil isso?

- É indigesto, na verdade! — respondo com franqueza. — Não tocar no nome do seu irmão evita que eu reviva a dor e o sofrimento causados pela mágoa que ele me provocou. Eu preciso disso como uma forma de esquecer de tudo... Inclusive dele.

- E tem funcionado isso?

- Estando grávida dele? Nem um pouco. Mas tenho tentado todo dia.

Ele assente, não muito satisfeito.

- Como eu ia dizendo anteriormente... — retomo de onde havia sido interrompida por ele. — Nós dois conhecemos bem o seu irmão... E assim que ele souber do bebê, virá aqui e ficará no meu pé a gravidez toda.

- Um direito dele acompanhar o desenvolvimento do filho.

- Seria um suplício isso, Lewis. Me entenda! Não quero prejudicar minha gravidez. Sei que não é a decisão mais acertada e que estou privando seu irmão de momentos importantes do desenvolvimento do bebê, mas eu tenho que pensar em mim agora e, principalmente, nesse bebê.

Noto que seu semblante endurecido dá uma leve amenizada diante de minhas palavras finais.

- Não pense que irei privar seu irmão para sempre do bebê. Jamais faria isso. Ele pode ter errado comigo, mas um erro não justificaria o outro. Eu irei, sim, contar a ele, mas só depois do nascimento. E espero de coração que me entenda e respeite a minha decisão, não contando para ele antes de mim.

- Não me peça isso. Eu não posso esconder algo assim do meu irmão. Gil vai ficar muito magoado se souber que esconde. Infelizmente, eu terei que contar pra ele.

- Por favor, Lewis, não conte nada até que o bebê nasça. É minha obrigação contar, mas só o farei depois do nascimento dele.

- Dele?... É menino.

- Sim. — confirmo com um pequeno sorriso e o vejo sorrir pela primeira vez desde que entrou naquela sala.

- Ele vai pirar tanto quando souber.

Deus do céu! Ele vai contar! Preciso fazê-lo mudar de ideia. Não quero aquele cretino aqui.

- Lewis...

- Sara ... — ele me interrompe. — Se lembra quando te liguei um dia após você e o Grissom terem terminado e te disse: "algumas coisas, por mais impossíveis que pareçam, a gente sabe que foram feitas para dar certo."? — assinto sem entender direito a brusca mudança de assunto. — Pois bem... Eu ainda acredito nisso, Sara... Eu ainda acredito em vocês dois juntos... de verdade! Ainda mais agora com a vinda desse bebê.

Acho que ele fez questão de ignorar o fato de que eu disse que não quero seu irmão por perto de mim.

- Pois você está acreditando em uma ilusão, Lewis. Seu irmão e eu ficamos para trás, e não tem a menor chance de acontecer outra vez. Arrisco dizer até que: nunca mais!

O que aquele cretino me aprontou, só fez o lindo sentimento de amor que sentia por ele, mudar para mágoa e ressentimento.

- Se é uma coisa que aprendi na vida, Sara, é que não devemos dizer: nunca! — ele pisca um olho e se levanta da cadeira. — Preciso ir. O pobre Edgar está me esperando no carro em frente ao prédio.

- Lewis, por favor, não conte pra ele. — me colocando de pé, peço uma última vez, na verdade, imploro mesmo. Preciso remover essa ideia da cabeça dele. — Pelo carinho e respeito que temos um pelo outro, não conte. Deixe que eu faça isso, mas no meu tempo.

Ele suspira e por fim concorda, movendo a cabeça em sinal positivo.

- Ok, Sara. Respeitarei sua decisão e não contarei nada. Até porque jamais prejudicaria sua gravidez, colocando a vida do meu sobrinho em risco.

Foi nítido o orgulho com o qual ele mencionou a palavra: sobrinho. Lewis estava feliz pelo bebê. E sua clara felicidade, por isso, emoldurada com um sorriso lindo, me deixa feliz também por tabela. De algum modo estranho, eu sentia que Lewis seria um tio maravilhoso. Aqueles tios que os sobrinhos adoram estar perto e visitar sempre.

- Além do mais, esta é uma coisa a qual você tem que contar pra ele. Uma obrigação, como bem disse. Apesar de momentos atrás, eu ter esquecido disso quando descobri a sua gravidez. Mas foi porque fiquei um pouco revoltado com sua omissão, que perdi o senso. Peço desculpas até pelo meu destempero.

- Imagina. Eu, de verdade, te entendo e entendo sua reação.

- Conte pra ele quando o bebê nascer, Sara. Ou quando se sentir confortável o suficiente para isso, mas conte. Não o prive para sempre dessa alegria, por favor.

- Farei isso, com certeza.

Estou mais aliviada por ele ter me compreendido.

- Ótimo! — ele toma a iniciativa de vir até mim, dando a volta na mesa. — Parabéns pelo bebê. — seus braços me cercam em um abraço gentil e carinhoso.

- Obrigada.

- Tô mega feliz pelo sobrinho. — afirma após se separar um pouco e desfazer nosso abraço. — Posso? — aponta para a minha barriga.

- Claro! — dou meu consentimento no ato.

Sua mão desliza com delicadeza pelo volume arredondado, escondido sobre o tecido macio do meu vestido.

- Ei, camaradinha. Como vai? Sou o tio Lewis, irmão do seu pai.

Um movimento em minha barriga e Lewis me encara de olhos arregalados.

- Meu Deus, Sara! Ele mexeu?

Fico surpresa também, porque ele não costuma se mover muito quando alguém fala com ele. A única que conseguiu isso além de mim foi: Dayse. E na ocasião, ela quase teve uma síncope de alegria, ainda mais por ele ter reagido pela primeira vez ao apelido ridículo pelo qual ela o chama.

"Viu só, ele se mexeu, curtindo o apelido que a dinda deu de: pirocudinho."

"Ou então ele odiou profundamente e por isso se mexeu!"

- Sim. Acho que gostou de saber que é o tio dele que está falando.

- Ô Deus!... Sara, isso deve ser tão incrível.

- E, doloroso às vezes, principalmente quando acerta as minhas costelas, como agora. — faço uma leve careta.

A cada movimento que o meu principezinho faz, eu fico imensamente feliz, pois me tranquiliza ao sentir que o meu bebê está bem.

- De quanto tempo está?

- Estou na vigésima segunda semana.

- Isso em meses é quanto?

Sua expressão de confusão, me esboçar um sorriso.

- Cinco meses e meio aproximadamente.

- Uau!... Então não falta muito para o tio te conhecer, camaradinha.

Sorrio, observando seu olhar de admiração repousando sobre minha barriga, ao mesmo tempo, em que Lewis volta a alisa-la.

O som de um celular ecoa na sala e não é o meu.

Vejo Lewis pescar o aparelho de dentro do bolso interno do blazer de grife.

- É o Edgar. — informa antes de atender a chamada diante de mim. — Oi, querido. Já estou descendo. Estava terminando de me despedir da Sara. — ele diz e fica em silêncio ouvindo o que Edgar provavelmente lhe diz. — Tá bom, Ed. — Lewis faz uma careta engraçada. — Dois minutos estou aí. — dito isso, ele encerra a ligação.

- Por que ele não subiu com você?

- Queria nos dar privacidade para pôr o papo em dia. — explica. — Bom, Sara. Preciso ir. O chefe do Edgar ligou pra ele e precisa estar no serviço em quinze minutos. E o pobre ainda tem me deixar antes no meu trabalho, porque estou sem carro, que está na oficina em revisão. — ele fala tão rápido e quase sem respirar direito, que fico até meio aturdida. — Vamos manter mais contato, tá bom? Quero estar a par do desenvolvimento desse camarada.

- Ok. — trocamos um abraço de despedida.

Resolvo chamá-lo para o meu aniversário, já que agora Lewis sabe sobre a gravidez mesmo, então não faz sentido deixá-lo de fora dessa comemoração.

- Ah, Lewis! Sábado agora terá uma pequena social no apartamento de Dayse em comemoração ao meu aniversário.

Inicialmente a comemoração seria lá em casa, mas minha amiga achou melhor ser em sua casa para não bagunçar a minha, e também porque quer manter surpresa juntamente com Morgan sobre o que estão organizando.

- Gostaria que você e Edgar fossem. Posso contar com a presença de vocês lá?

- Com certeza, Sara. Só que vou precisar contar para ele sobre o bebê, já que assim que ele te ver... Né... Vai sacar.

Eu já imaginava isso.

- Só peça para ele manter o sigilo por enquanto.

- Pode deixar. E me passa o endereço da Dayse que esqueci qual é.

- Tá bom. Te mando por mensagem.

Trocamos mais um breve abraço e faço questão de acompanhar Lewis até aporta, onde nos despedimos de vez com a promessa de nos revermos na social de sábado.

- É o irmão do pai do meu bebê. — informo Morgan ao notar seu olhar inquisidor.

- Babado! Seu ex-cunhado descobriu da gravidez. E agora, chefe? Ele vai bater para o irmão.

- Eu pedi pra ele não contar e tenho certeza, que Lewis não contará.

- Será que não, chefe?

- Sim, Morg. Confio nele.

Ele me pareceu sincera quando afirmou que não contaria.

***

- Café e donuts para a mamãe do ano!

Ergo a cabeça dos documentos que leio e encontro Doug parado na soleira da porta entreaberta, segurando uma caixa enfeitada com um laço rosa e um copo de papel de uma cafeteira da quinta avenida.

Não sei o que me deixou mais feliz em sua fala, se foram as palavras: "café e donut" ou a expressão "mamãe do ano". Vai ver que foi a frase inteira mesmo.

- Homem do céu! Você leu o meu pensamento?

Ele sorri.

- Posso entrar?

- Deve!

Deixo os papéis de lado para observar Doug se aproximar de minha mesa e parar diante dela, estendendo-me o copo e a caixa de papel.

- Estava à toa quando Morgan me mandou mensagem...

- Não acredito que ela foi te incomodar. — retruco, apanhando da mão de Doug as coisas que ele trouxe.

- Não foi incômodo algum, Sara.

Mais cedo, eu havia mencionada de boa a minha assistente que um cafezinho quentinho com donuts cairia bem nessa tarde fria. Mas não falei com o intuito de Morgan ir atrás disso para mim, e muito menos, dela importunar alguém com isso.

- Vou ralhar com a Morgan. Não tinha nada que pedir isso a você ou qualquer outra pessoa.

- Não faça isso. Ela só quis agradar a chefe grávida, a quem ela tanto gosta. Morgan até me disse que queria ir ela mesmo, mas precisava resolver uns negócios.

Escuto, revezando meu olhar entre Doug e a caixa que vou abrindo.

- Ainda assim, não tinha cabimento isso. Você certamente deve ter interrompido seu trabalho.

- Relaxa, que não interrompi nada. Quando a Morgan me ligou, perguntando se eu podia socorre-lo nisso, eu já tinha terminado a arte que o Mckeen me pediu e estava de boa sem nada pra fazer.

- Céus! — exclamo ao me deparar com seis donuts glaceados, com sua cobertura brilhante de açúcar.

- Trouxe o clássico: donut glaceado, com café quentinho. Espero ter acertado.

- Em cheio, Doug. — retruco antes de dar uma mordida generosa na rosquinha de sabor adocicado. — Deus! Esses donuts são os melhores. — falo de boca cheia, mandando para longe a boa educação que recebi da mamãe. Dona Laura ia querer morrer se visse isso.

- Que bom que gostou.

Doug tem um sorriso divertido nos lábios.

- Gostar é pouco... Eu amei. Doug... — me interrompo para dar um gole no café com leite delicioso e quentinho. — Isso está divido. Obrigada. — completo após engolir.

- De nada. É sempre um prazer realizar as coisas para você, Sara, por menores que elas sejam. — ele pisca um olho e sorri, deixando uma fileira de dentes brancos e perfeitamente alinhados à mostra. — E os preparativos para o sábado, a quantas anda? — muda de assunto quando o silêncio entre nós já se alonga o bastante para tornar constrangedor.

Resolvo usar da boa educação agora, sinalizando com uma das mãos para que ele aguarde, eu engolir para respondê-lo.

Céus! Como aqueles donuts estão deliciosos, e combinados com café é uma perfeição pura.

- Hum... Não faço ideia a quantas anda. — respondo após engolir o doce, seguido de um gole de café. — Estou às cegas nisso, já que Morgan e Dayse estão mantendo sigilo de estado sobre qualquer coisa referente a comemoração. Até mudaram a festa lá para a casa da minha amiga. Tudo para eu não saber nada do que está sendo feito.

- Você deve estar se corroendo de curiosidade, não é?

- Total. Nem perguntei se você queria um donut. Que mal educada que eu sou. — me dou conta da minha indelicadeza com ele.

Doug sorri e agradecendo minha oferta tardia, sinaliza com uma das mãos não quer, alega que trouxe os doces somente para mim.

- Não te vi no refeitório hoje. — estranhei sua ausência, por isso do comentário.

- Você deu pela minha falta?

Confirmo com um movimento de cabeça, já que a boca está ocupada, mastigando o restante do segundo donuts que como.

Foi impossível não dar por sua falta, posto que sempre ele está por lá. E na maioria das vezes, vem se juntar a Julie, Morgan e eu quando estamos almoçando.

- Fico contente com isso. E você não me viu lá, porque fui atrás de um presente especial para você.

Sorrio, apreciando sua fala e o sorriso singelo que ele exibe ao final do que diz.

Parece louco, mas de uns tempos para cá, tenho me sentido sempre bem ao lado do Doug. Ele é um fofo mesmo, que fica difícil não criar apreço por sua pessoa agradável e solícita. Sem contar nos seus gestos atenciosos, como o de agora ao me trazer esses donuts com café. Ou o de dias atrás quando deixou em minha mesa aqueles presentes para o bebê.

Ele só tem subido no meu conceito.