- Como você tem se sentido nesse segundo trimestre, Sara?

- Tirando o redemoinho emotivo? — minha médica abre um sorriso e balança a cabeça positivamente. — Estou bem. Só algumas vezes sinto dores nas costas, um pouco de inchaço nas mãos e pés, e muita vontade de comer doce. Estou virando uma formiga, doutora. Socorro!

A médica sorri enquanto escreve em minha ficha tudo que relato.

- Você anda se hidratando regulamente?

- Não. — respondo após um suspiro. — Ando tão atarefada que não tenho tido tempo nem para beber água direito, doutora.

- Mas precisa se hidratar, Sara, é importante.

- Ok.

- E os enjoos?

- Diminuíram, como bem você disse na última consulta.

- Isso é bom. Quanto ao redemoinho emotivo que você mencionou... Isso se dá pelo fato de que à medida que o bebê cresce, as taxas hormonais se elevam em seu organismo, influenciando em suas emoções e sentimentos, Sara. — explica a médica. — Mas vai passar como os enjoos, acredite.

- Assim espero.

Em seguida, relato sobre como anda minha alimentação, que por sinal, anda péssima, o que me fez levar um pequeno puxão de orelha da minha médica. Depois de conversarmos, a doutora fez a medição da minha pressão arterial, peso e altura. Segundo, minha médica, ando um pouco abaixo do peso, devido a irregularidade com a qual me alimento, mas prometi mudar isso e mudarei. Não quero pôr a vida do meu bebê em risco.

- Vamos lá para a ultrassom? — convida a médica após realizar todos os procedimentos de praxe.

- Sim.

Nem bem nos levantamos e duas batidas na porta são ouvidas.

- Deve ser minha amiga atrasada.

Dayse viria junto comigo na consulta, mas surgiu um imprevisto de última hora que lhe atrasou. Só que felizmente, ela chegou a tempo. Queria muito a sua presença, porque hoje é o dia em que descobrirei o sexo do meu bebê. Confesso que estou extremamente ansiosa para descobrir isso e não, não tenho qualquer preferência. O que vier vai ser bem vindo. Só quero que venha com saúde.

- Pode entrar. — minha médica autoriza.

Em frações de segundos, Dayse entra na sala, já pedindo mil desculpas à médica pelo atraso.

- Você chegou bem na hora. Estávamos indo para a sala de ultra. — conto a minha amiga.

- Ai, que bom.

Seguimos as três para a sala anexa onde é feita a ultrassom. Em questão de minutos, já estou ouvindo as batidas do coração do meu bebê enquanto a doutora me passa informações sobre o feto e avalia as estruturas dele com bastante detalhamento, de modo a identificar eventuais malformações (nas mãos, pés, face e em estruturas internas).

- Seu bebê está perfeito.

- Que bom! — comemoro aliviada e emocionada. Sempre fico emocionada quando escuto as batidas fortes do coração do meu bebê. E a emoção de saber que ele é perfeito só engrandece meu sentimento.

- Pronta para saber o que vem?

- Sim.

- Pois bem... Seu bebê é um menino. Parabéns, Sara!

Ao ouvir aquilo, não contive a emoção e lágrimas começaram a se acumular nos olhos, deixando a visão turva.

- Certeza? — indago ainda extasiada.

- Absoluta! Ele está com as pernas abertas e se mostrando bem, para não restar dúvidas.

As lágrimas então rolam de vez por meu rosto, pois eu terei um menino... Meu pequeno príncipe está a caminho! Essa notícia é o meu presente de aniversário antecipado. O melhor presente da minha vida.

***

- Queria que viesse uma menina. — Dayse choraminga enquanto seguimos em seu carro. — Mas tudo bem, porque de, qualquer forma, a dinda já ama esse pirocudinho dela!

- Dayse! — digo a encarando e vejo minha amiga cair na risada. — Quer parar de chamar assim o seu afilhado!

- Olha, quanto mais você disser pra não chamar, mais eu chamo e o apelido pega. — ela retruca ainda rindo.

- Ai, desisto. Seu afilhado vai crescer e te detestar por isso.

- Vai nada, né piro... — ela pára diante do meu olhar sério. -... Lindo da dinda. — completa mudando a forma de se referir ao meu filho.

"Meu filho"! Duas palavras que tenho o prazer de encher a boca para pronunciá-las

"Tá se sentindo, né insolente?!"

"Chegou quem não devia!"

"Tu reclama, mas no fundo me ama!"

"Bem no fundo, quase achando petróleo!"

"Credo, insolente!"

- Amiga, agora que já sabemos que é menino, precisa ver o enxoval.

- Pois é. E, você como madrinha, tem que me ajudar nessa.

- Óbvio, que estarei nessa. Meu primeiro afilhado. Ai, que emoção!

Sorrio, balançando a cabeça em negativa.

- E o nome, Sar?

- Não sei. Tenho tempo pra pensar até o nascimento dele. Mas aceito sugestões, amiga.

- Ok. Vou começar a pesquisar alguns.

Assinto e logo na sequência, deixo escapar um suspiro enquanto apoio a cabeça no encosto do banco do carona.

- Que foi, amiga?

- Nada não.

- Qual é? Logo essa pra cima de mim, Sara Sidle?!

Lanço um olhar para Dayse ao volante.

- Desembucha! — exige.

- Sei que eu não devia, mas... assim que soube que é menino, só consegui pensar em como seria a reação daquele cretino se estivesse lá comigo depois de sabermos sobre o sexo do bebê.

Talvez, eu seja alguma masoquista, por pensar em quem não devo.

- Você precisa dar um jeito de não pensar nela, Sara.

Falar é fácil!

- Difícil, carregando um filho dela.

- Que tal conhecer alguém? Um novo amor seria uma boa.

- Dayse não inventa!

- Não tô falando pra casar. Mas sair com alguém. Dar uns pegas, sei lá, amiga. Botar pra jogo o B de cima e o de baixo... Se é que você me entendeu.

- Entendi, mas queria não ter entendido, louca. E eu tô grávida!

- E daí? Não tá morta, não amiga. Os dois B's continuam funcionando do mesmo jeito. Só estão quietos, porque você quer, principalmente o debaixo onde você parece ter colocado um cinto de castidade nela, pobrezinha.

- Sério! Tem horas que não sei como a nossa amizade ainda se mantém firme diante das besteiras que você fala.

Dayse explode em gargalhada, chegando a dar batidinhas leves no volante do carro enquanto estamos paradas no semáforo.

- Agora, falando sério... Sei que eu disse uns absurdos.

- Ainda bem que sabe.

- Mas o lance de conhecer alguém é verdade. Até sugiro o editor de artes lá do seu trabalho pra dar uns pegas.

- Doug? — franzo a testa.

- É. Ele até que dá um caldinho. E pelo que pude perceber quando o conheci, ele arrasta um trem bala por você.

- Ele é só um colega de trabalho.

- Gato! Você e ele fariam um belo par.

- Não!

- Sim!

- Pára!

- Não foi você que disse que ele é um amor de pessoa, educado, um gentleman, te dá mimos, e parece muito a fim de você...

- Isso aí foi o Greg quem disse.

- E eu também concordo com ele. O Doug é muito a fim de você. Percebi assim que o conheci. Ele olha para você como aqueles cachorrinhos babões olham para o dono.

- Que analogia horrorosa. — faço uma careta.

- Amiga, não feche as portas do seu coração e nem das suas pernas. Nem todo mundo é escroto como aquela egocêntrica lá.

- Ainda bem que chegamos à concessionária, porque já chega de ouvir tanta besteira junta. — comento aliviada ao enxergar a faixada do local onde eu pretendia comprar meu carro, já que meus pais andavam me cobrando muito isso.

- Depois continuamos esse papo.

Ela que não ouse voltar a este tema.

Descemos do veículo e seguimos até a concessionária. Já lá dentro fomos encaminhadas pela atendente até um dos vendedores.

Antes de estar ali, eu fiz uma pesquisa online para identificar as marcas que mais me interessavam. Compararei preços, li avaliações e características de alguns veículos das referidas marcas. Fui reduzindo minha lista até chegar a uma única marca. Agora bastava escolher o modelo do veículo.

O vendedor que nos atende é bem solícito e educado. Ele esclarece todas as minhas dúvidas referentes aos veículos. Depois me leva para conhecer pessoalmente cada modelo e vai me dando mais informações detalhadas sobre eles. Curto cada um, mas ao final da "vistoria", eu já tenho um preferido: um SUV compacto de luxo, com blindagem de fábrica. Porém para ter certeza de que é este mesmo, peço agendamento para fazer um test drive. O vendedor me avisa que há somente dali dois dias, o que concordo. Saio da concessionária com um test drive agendado e a possibilidade de dali dois dias estar saindo com meu carrinho comprado.

Da concessionária seguimos para a BoB. Como o trajeto é curto não permite muita conversa, apenas eventuais trocas de palavras sobre o modelo de carro que eu gostei.

- Chegamos, amiga.

- Dayse, muito obrigada.

- De nada. Amei ser sua motorista.

- Vou te recompensar por isso. Prometo.

- Pode recompensar, deixando eu contar ao pessoal da NP sobre o bebê ser menino.

Seu olhar pedinte do gato de botas do filme do Shrek é cômica e irresistível.

- Tá, Dayse! Agora, deixa eu ir. Beijos... beijos... amiga.

Me despeço dela com um abraço apertado e saio do carro.

Nem bem apareço na frente de Morgan e ela já vem me seguindo até minha sala, e me crivando de perguntas sobre a consulta e o sexo do bebê. Inclusive, enquanto eu estava na concessionária, ela já havia mandado mensagem doida para saber se viria uma menina ou um menino.

- É um menino, Morg. — conto enquanto largo a bolsa sobre a mesa.

Minha assistente dá pulos de alegria e bate palmas. Em seguida, já me abraça toda esfuziante.

- Parabéns, chefe. Tô feliz de verdade e emocionada. — diz desfazendo nosso abraço e posso vê-la enxugar o canto dos olhos com os dedos indicadores.

- Ô querida, obrigada.

- Que esse príncipe venha cheio de saúde, porque lindo sei que será tendo as mães que tem.

E lá está outra vez a menção ao Grissom. Como vou esquecê-lo assim? Se sempre há alguém que faz referência a ele?

- Eu espero que ele herde os meus traços. — resmungo. Se ele herdar aquele par de olhos azuis, estarei ferrada.

- Será lindo, chefe. Agora, deixe-me ligar para o Guillermo para contar.

- Guillermo?? Brigaram para você estar chamando-o pelo nome e não pelo apelido de Memo.

- Ele me tira do sério, Sara. Quando tô brava com ele, chamo pelo nome mesmo. E só vou ligar, porque senão ele ficará me perturbando lá de Albuquerque.

O namorado de Morgan havia viajado há dois dias para Albuquerque, no estado do Novo México, para passar uma semana com os avós por quem foi criado. Se as coisas na editora não estivessem tão corridas, eu teria até liberado a Morgan para ir com ele, mas como estamos trabalhando a todo vapor para o novo lançamento, então não deu, porque a presença da minha assistente é imprescindível aqui comigo.

- E eu vou ligar para dona Laura e contar a boa nova.

- Não sei como ela ainda não te ligou.

- Porque ela não sabe que é hoje. — rebato me acomodando em minha cadeira.

- Você não contou? — me interpela já da porta, prestes a sair da sala.

- Não. Ela ia ficar ansiosa e me deixar ansiosa por tabela, me ligando de uma em uma hora. Mas agora, a ansiedade de eu contar a novidade pra ela já é enorme.

Morgan deixa uma gargalhada alta escapar, logo em seguida, saí da sala e aproveito a oportunidade para ligar para mamãe.

Foi no terceiro toque que dona Laura atendeu e foi logo pedindo para eu aguentar na linha uns segundos apenas que já falava comigo. Acato seu pedido e ao fundo ouço mamãe repassar algumas recomendações médicas a alguém.

- Querida ainda está na linha? — me questiona alguns segundos depois de terminar de falar com a outra pessoa.

- Sim, mãe. — respondo. — Se soubesse que estava ocupada teria ligado depois, mas é que não dava para esperar até a noite.

- Você não tinha como saber. Mas o que houve? Aconteceu alguma coisa com você ou o bebê?

Pais são engraçados. Sempre acham que aconteceu alguma coisa com a gente quando ligamos, pelo menos os meus são assim.

- Não, mãe. Estamos ótimos. Mas tem haver com o bebê. É que hoje eu descobri o sexo dele. Vocês serão avós de um menino!

- Que alegria, minha filha! Vem aí outro principezinho na família. — sua voz embargada deixa clara sua emoção pela notícia. — Seu pai vai ficar louco da vida. E o Sean, nem se fale! Se prepare, porque seu irmão vai querer ensinar tudo de Monster Jam para o sobrinho.

Não pude deixar de sorrir em meio as lágrimas que outra vez deixava rolar, só de imaginar já Sean falando e falando disso para o bebê. E do jeito que meu irmão é louco por esse esporte, os seus presentes para o sobrinho não serão outro senão os carros iguais das competições da Monster Jam.

- Você conta pra eles, mãe, por favor. E pra Li também. — digo e vejo a porta da minha sala abrir um pouco, e pela pequena fresta Doug aparece com um papel, gesticulando com a boca um "desculpa, é urgente" sem emitir som. Sinalizo com uma das mãos para ele entrar e aguardar um instante.

- Contarei, meu amor. Ela, certamente, vai amar assim como eu. Independente do que viesse, a vovó aqui já amava. Bom que sendo menino vai ser companheiro de brincar do William.

- Hum... — resmungo, me sentindo meio desconfortável pela menção ao filho de Maryanne. Não tenho nada contra essa criança, longe disso. Meu problema é com a mãe dele, o menino não tem nada a ver. E eu sei separar muito bem isso. Agora não quer dizer, que não me incomode com a menção de seu nome, sabendo de quem ele é filho. — Mamãe, preciso desligar agora. O trabalho me chama. — digo encarando Doug que àquela altura está acomodado na cadeira diante de minha mesa e também esse é o meio mais eficiente que encontro de evitar que dona Laura se estenda no assunto "William".

- Tudo bem, querida. Eu também tenho que ver uns pacientes. Um bom trabalho para você. E amei a notícia. Vou espalhar para o hospital todo que serei vovó de outro menino.

- Tá bom, mamãe. — sorrio e vejo Doug abrir um sorriso. — Beijo. — dito isso, encerro a ligação.

- Desculpa te interromper, mas é que preciso do seu aval para mandar as artes para a gráfica.

- Claro. Deixa eu ver.

Ele se levanta da cadeira e dando a volta se posta ao meu lado com os storyboard das artes. O primeiro consiste em um casal abraçado. A mulher está de costas e tem o rosto escondido na curvatura do pescoço do homem, que está de frente, como que encarando o leitor e exibindo um sorriso maligno, acompanhado de um olhar frio e perigoso. Já o segundo traz a mulher abraçada ao homem e encarando o leitor com um sorriso de canto da boca, retraído lateralmente e ostentando um olhar fixo e intenso. O título da obra está bem ao centro e o subtítulo logo abaixo. O nome da autora está na parte superior e no centro

A arte é bem simples, mas às vezes o menos é mais. Além disso, foi um pedido especial da autora, que alegou que a história por si só já é o máximo, que florear muito na arte se faz desnecessária. Concordo com ela.

- Gostei. Quero como capa frontal essa aqui do cara rindo. — aponto o storyboard referente. — E a da mulher como verso, junto com o texto de apresentação da obra.

- Beleza. Vou mandar pra gráfica agora mesmo. Só faltava o seu aval para eu repassar para eles. — Doug conta, pegando das minhas mãos os dois storyboard. — Olha fiquei interessado para ler esse livro só pela sinopse e olha que romance nem é a minha praia.

- Que bom. Espero que nossos leitores também se interessem igual a você.

A narrativa é sobre um cara inescrupuloso que vê a chance de enriquecer mediante a tragédia que se abate sobre uma jovem rica que perde os pais. Ele a envolve em uma teia de mentiras até conseguir casar-se com ela. Depois disso, ele aplica um golpe nela, roubando tudo da esposa e sumindo logo em seguida, deixando a jovem na miséria e grávida de um filho que desconhece a existência. Pobre, sozinha e grávida, a mulher só deseja vingança e tem a oportunidade disso anos mais tarde, quando reencontra o ex-marido agora mais rico e com outro nome. Porém, ela se vê em um impasse, deixar o passado no passado e seguir sua vida feliz com a família que construiu ao lado de um novo amor ou se vingar do ex-marido bandido, pondo em risco seu casamento feliz de mais de dez anos.

- Certamente, que irão se interessar. Deixa eu cuidar logo disso.

- Doug espera! — peço quando ele faz menção de se virar para ir embora.

- Que foi?

- Morgan te contou do bebê?

- Não. Ela não estava lá fora quando cheguei, por isso fui entrando sem ser anunciado.

Estava explicado o porquê de ele não ter comentado nada antes de falar de trabalho, era porque não sabia da novidade.

- Mas o que tem o seu bebê? Tá tudo bem com ele?

Percebo sua preocupação e imediatamente o tranquilizo.

- Está tudo ótimo. Só que na consulta de hoje descobri o sexo.

- Sério? E aí o que vem?

- Um menino! — conto com um sorriso de orelha a orelha.

- Puxa que legal, Sara! Parabéns!

Ele me puxa com delicadeza para um abraço afetuoso e caloroso que retribuo de bom grado.

- Obrigada, Doug! Eu ainda tô digerindo essa novidade. Mas tô mega feliz.

- Imagino. — diz, desfazendo nosso abraço. — Que venha com saúde esse garotão. Posso? — ele aponta para a minha barriga. Concordo com um balançar de cabeça. Sua mão desliza carinhosamente por cima da minha barriga, escondida sob o tecido de linho da camisa social que uso. É uma sensação estranha, mas ao mesmo tempo boa. — Ei, garotão, aqui é o tio Doug, já tô mega curioso para te conhecer.

Acho fofo o modo com que ele conversa com o meu filho. Doug parece visivelmente abobalhado, que nem um tio babão falando com o sobrinho. Inevitavelmente, me vem à cabeça a conversa com Dayse no carro. Futuramente, quando eu voltar a me relacionar com alguém, quero que seja uma pessoa bacana assim como o Doug.

"Quem sabe não seja o próprio, né insolente?!"

- Parabéns de novo, Sara. Qualquer coisa tô por aqui. Só ligar.

- Obrigada.

O restante da minha tarde foi resumida a trabalho e receber felicitações de alguns colegas de trabalho tanto dali da BoB, incluindo o Owen que vieram em peregrinação a minha sala para dar os parabéns, já que Morgan se encarregou de espalhar a boa nova mediante a minha autorização; como também dos meus antigos companheiros da NP que me mandaram mensagens de felicitações, inclusive minha ex-chefe. Brooke me mandou um áudio todo esfuziante e feliz, que chegou a me emocionar.

- Quer dizer que vem um garoto é?

Parada na calçada em frente a BoB, aguardando o carro de aplicativo chegar para me levar para casa, me viro ao ouvir tais palavras e encontro Julie com um sorriso largo e os abraços abertos.

- Pois é. — digo, já sendo envolvida pelos braços de Julie em abraço apertado na medida certa e bastante afetuoso, o qual é retribuído por mim.

- Queria ter ido mais cedo te felicitar, mas estava no corre. Aí, como te vi lá de dentro, resolvi vim te dar os parabéns. Como está depois de saber que vem um menino? — ela indaga ao desfazermos o abraço.

- Ainda tô saboreando a novidade. Mas tô bem feliz. — repito as mesmas palavras que disse ao Doug horas atrás.

- Sei bem como é. Fiquei assim quando soube também que seria mãe de menino. O Robinson então pirou total. Choramos na hora, que nem dois bobos, que a médica não sabia quem acudir.

Caímos na risada juntas. Acho tão bacana a boa relação que a Julie faz questão de manter com o pai do filho dela, apesar do término deles não ter sido legal. Não tenho essa maturidade e nem sei se um dia terei com relação aquele cretino.

Julie e eu ainda trocamos mais algumas palavras antes do carro que solicitei, estacionar próximo a nós duas.

Já em casa, recebo ligação de papai que com voz embargada de emoção e alegria me felicita pelo neto menino, bem como Sean que foi pura empolgação pelo sobrinho a quem já disse que vai levar para competições de Monster Jam. Ainda falei com Li que foi só choro na ligação tanto da parte dela quanto da minha. Fiquei falando com a minha família por quase meia hora e depois me despedi deles, encerrando a ligação.

Pelos dias subsequentes, eu fui à concessionária e fiz o teste drive, que me fez ter certeza de que aquele carro supria as minhas necessidades, portanto fechei negócio com o vendedor para alívio dos meus pais, que já não viam a hora de eu ter meu próprio carro e parar de pegar trem ou carro de aplicativo para cima e para baixo.

O prazo estipulado pelo vendedor foi de duas semanas para a entrega do veículo, pois não havia o modelo em estoque e eles estavam esperando chegar uma nova remessa.

Também trabalhei bastante para o novo lançamento do livro; comecei a comprar as coisas para montar o enxoval do bebê com Dayse e a Julie; sai para almoçar com Jhon que estava de passagem pela cidade. Inclusive, ele me parabenizou pelo bebê e no caminho para me deixar na editora, fez questão de parar em uma loja e comprou um mimo de presente para o bebê.

- Obrigada, Jhon. Mas não precisava. — digo lançando um olhar para ele acomodado já atrás do volante.

- Claro que sim. Me considero meio tio dele já.

Sorrio. Meu filho é bem abençoado de tios e tias, porque todos os amigos que eu tenho se sentem assim dele e são bem babões.

- Olha, vocês que se sentem tios e tias não pensem que vão estragar o meu bebê, hein?!

- Eu vou, com certeza.

- Aí, que lindo! — me derreto ao tirar a tampa da caixa e encontrar um kit contendo uma manta poá cinza, um sapatinho de tricô e um paninho pequeno e macio com um elefante cinza de pelúcia. — Amei, Jhon. Ainda mais esse paninho com esse elefante lindo. — levo o paninho ao lado rosto e sinto a maciez do tecido.

- A vendedora disse que isso é um tal de naninha, um objeto que ajuda o bebê a se sentir seguro, confortável e acolhido na hora de dormir.

- Obrigada.

- De nada! — ele retruca me enviando uma piscadela.

Seguimos para a editora onde ele me deixou na frente do prédio. Nos despedimos com a promessa de nos vermos no próximo sábado, no jantar lá em casa em comemoração ao meu aniversário. Esse "evento", por sinal, vem sendo mantido em sigilo de mim por Morg e Dayse. Só sei quem são os convidados, porque fui eu quem fiz a lista das pessoas. Fora isso estou às cegas. Nenhuma das duas bonitas me diz o que estão aprontando.

- E esse presente? — Morgan me interpela ao me aproximar de sua mesa.

- Ganhei do amigo com quem fui almoçar. O doido parou em uma loja no trajeto pra cá e comprou este mimo. — mostro o conteúdo da caixa para Morgan que acha lindo o presente.

- Pois tem outro presente lá em sua mesa. — revela minha assistente. — É do Doug. Ele passou aqui um pouco depois que você saiu com o seu amigo, só para deixar o presente e me pediu pra colocar lá.

- Ele veio aqui?

Estranho, pois pelo que eu saiba, Doug está de folga hoje.

- Sim. Ele disse que estava aqui perto e como tinha comprado esse mimo, resolveu deixar logo.

- Tá bom. Deixa eu ver então o que é.

- Posso ver junto?

- Vem.

Essa Morgan é a curiosidade em pessoa.

Seguimos para minha sala e ao entrar noto a sacola de papel com estampa infantil sobre a mesa. Sigo até lá e logo estou puxando de dentro do embrulho um lindo macacão azul marinho manga longa, com detalhes de gravatinha listrada em branco e azul, sendo fechado por botões frontais. E há também junto um par de sapatinho de crochê, modelo mocassim azul marinho.

- Ah, meu Deus! Olha esses sapatinhos, Morg. É um mocassim.

Fico encantada com o objeto delicado e muito bem feito. É a coisa mais fofa, tanto o sapatinho quanto o macacão.

- O editor gostosão divou no presente. Mas o presente do seu amigo também é lindo.

- Dois belos presentes.

- Ai, chefe! Olha, é uma pena que você não queira se envolver, porque se quisesse, pretendentes não te faltavam. Tem o chefe máster, o editor de artes gostosão e o seu amigo de hoje que teve aqui.

- Todos são amigos, Morgan.

- O chefe máster, eu sei. Mas os outros, sei não. O Doug, eu acho que é doido pra ser mais que amigo. E quer saber? Vocês formam um bom par.

- Você também? — a encaro passada, porque ela tem a mesma opinião de Dayse.

- Eu também?? Quem mais acha o mesmo?

- Dayse. Ela, inclusive, chegou a dizer que eu devia dar uma chance ao Doug.

- Pois concordo com ela. O editor tem sido um doce com você desde sempre. E sem contar que é lindo, Sara. Você podia pensar com carinho na possibilidade de vocês dois como um casal.

- Acho que você tem serviço, não? Porque do contrário te arranjo um agora.

- Fui!

Morgan sai da sala em um pique.

Me acomodando na cadeira fico admirando feito uma boba os dois presentes de Doug.

Tenho que reconhecer que o editor a cada gesto de carinho e atenção tem ganho mais pontos comigo. E com a "campanha" que Dayse e Morgan ficam fazendo a respeito dele e suas qualidades, fica difícil não levar em conta. Ele é uma boa pessoa, um cara bacana e que tem sido bastante atencioso comigo desde sempre, como bem disse Morgan.

Resolvo ligar e agradecer pelos mimos agora mesmo ao em vez de mandar mensagem com essa intenção ou agradecer somente amanhã quando ele vier trabalhar.

No segundo toque ele atende.

- Oi, Doug! Estou ligando pra agradecer pelos presentes. São lindos e eu adorei.

- Que bom que gostou, Sara. Eu estava no shopping onde fui encontrar um amigo e ao passar em frente a uma loja de bebê, vi esse macacão em um manequim na vitrine. Não pensei duas vezes em comprar para o seu bebê.

- Muito delicado da sua parte. Obrigada.

- Imagina. E, ó, pretendendo ainda comprar mais outros presentes.

- Doug, você não precisa fazer isso.

- Que nada! Faço, porque gosto de você e já gosto desse garotão.

Não tenho chance de dizer nada em réplica, pois ouço duas batidas na porta e, logo em seguida, aparece Morgan.

- Chefe tem um rapaz te procurando. — minha assistente avisa.

Sinalizo para ela esperar e retomo a fala com Doug.

- Eu vou precisar desligar, Doug. A Morgan acabou de avisar que tem gente me procurando na recepção.

- Ouvi. Vai lá. Bom trabalho pra você.

- Obrigada. E, mais uma vez... obrigada pelos presentes.

- De nada! A gente se vê amanhã.

A ligação é finalizada

- Ele ligou pra se certificar que você já viu o presente?

- Não. Na verdade foi eu quem ligou pra agradecer. E ele disse que pretende ainda comprar mais outros presentes. Aí, falei que ele não precisava fazer isso e ele retrucou que faz porque gosta de mim e do meu filho. — conto.

- Ai, que fofo! Devia dar uma chance pra ele, chefe, real. Ele quer hein?!

Balanço a cabeça em negativa. Eu ainda não estava pronta para me envolver de novo.

- Melhor não.

- Bom... Você que sabe. Mas ele é um partidão.

- Quem está me procurando? — mudo de assunto.

- Ele disse que é seu amigo.

- Sim, mas esse amigo não tem nome?

- Ele não quis dizer. Alegou que é surpresa, mas que você vai adorar vê-lo, já que tem um tempinho que vocês não se veem.

- Hum... Nenhuma chance de ser o Bryan, né?

Esse nojento poderia inventar isso e ter vindo me importunar por sabe-se lá qual motivo.

- Não, chefe. Você me mostrou uma vez a foto da peça. Eu o reconheceria na hora e, obviamente, barraria a entrada dele no ato e sem ao menos te consultar, porque sei que seria isso que mandaria eu fazer.

- Muito bem.

- Vai receber?

- Como ele é?

- Moreno, alto, um verdadeiro gato e... Eu tenho a sensação que já vi o rosto dele em algum canto.

- Com essa descrição não consigo formular quem seja. Vou atender, torcendo para que seja um amigo mesmo.

- Ok. Vou lá avisar pra ele.

Assenti. Cerca de dez segundos depois a porta se abre outra vez e a pessoa adentra a minha sala, quando vejo quem de fato é, fico petrificada de surpresa. Porém, minha surpresa não é maior do que a da pessoa ao me ver de pé ao lado da mesa.

- Sara?! — seu olhar vageia do meu rosto até estacionar em minha barriga já evidente. E o sorriso que o homem exibe vai se desfazendo lentamente feito um castelo de cartas.

- Lewis?!