Notas iniciais
Salve, salve, meus amores! Bora lá para mais uma atualização.

— Oi! Estava indo agora mesmo te chamar para tomar um café tardio.

O tom alegre e sorridente dele ao se dirigir a mim, me deixa preocupada e pior, me faz crer mais ainda na hipótese de que deva ter rolado algo entre a gente o que não deveria.

— Tardio?... Que horas são? — consigo balbuciar após sair da letargia que me abateu ao dar de cara com João ali no corredor.

— Quase uma da tarde.

— Jesus!! — murmuro.

— Vamos lá, senhorita?!

John vem até mim e segurando-me pelos ombros com uma intimidade de nos conhecermos há tempos, vai me guiando pelo pouco que resta de corredor, sem que eu ao menos concorde ou discorde em acompanhá-lo.

Passamos por uma sala e ao dobrar à direita já estamos dentro de uma cozinha estilo Americana com um balcão e banquetas de madeira escura. As paredes do lugar em tom bege assim como o piso, contrastam muito bem com a decoração em tons de cinza anil.

Me acomodo em uma banqueta que John, gentilmente, puxa para mim. Encaro a mesa/balcão e observo que há uma cesta pequena com pães, além de uma jarra de suco que parece ser de laranja, pote de iogurte, garrafa de café, geleia — talvez morango ou framboesa, não sei — e um prato com fatias de mamão, melão, pedaços de banana e maçã. Só de olhar para tudo aquilo meu estômago se embrulha na hora.

— Não faça essa cara feia para a mesa. Você precisa comer. — olho para John que sem que eu tivesse percebi antes estava atento às minhas reações. Enrrugo a testa e ele sorri não sei de quê, se não há nada de engraçado ali. — E como não sei o que come pela manhã quando está de ressaca então o exagero das coisas na mesa.

— Estou na sua casa?

Consigo me expressar após um breve instante de impasse sobre fazer ou não aquela pergunta um tanto quanto retórica, já que a resposta para ela parecia bem óbvia dada a familiaridade com a qual aquele homem se porta ali no ambiente.

— Sim! E não se acanhe. Pode se servir do que quiser.

— Obrigada, mas não estou com fome. Para ser sincera estou enjoada.

"E tentando criar coragem de te perguntar se rolou o que desconfio que rolou entre a gente!", Penso ao encarar o sujeito se servindo de uma xícara de café.

— Eu imagino. Mas faz um esforcinho. Você precisa forrar o estômago com algo. — John pisca um olho para mim e sorri antes de tomar um gole de café que acaba de se servir.

Cristo! Por que este homem está só sorrisos para o meu lado?

"Deve ser porque a noite de vocês foi boa para ele."

"Ah, não vem não! Desaparece daqui."

Mesmo não sendo muito do meu agrado, resolvo seguir o conselho de John. Pego um pratinho e me sirvo de algumas frutas.

— Antes de você aparecer no corredor... — John se pronuncia depois de alguns segundos de um silêncio um tanto quanto desconfortável se estabelecer ali entre nós. — Eu já ia te chamar. Estava apenas terminando de falar com um dos meus colaboradores, para depois ir até o quarto.

Assinto enquanto taco um morango dentro da boca como fuga para não responder de modo verbal para o sujeito, tamanha minha vergonha.

— Até porque... — ele prossegue diante do meu silêncio. -... Sua amiga Dayse me disse que você precisará estar na casa de vocês antes das duas, para você terminar de empacotar suas coisas, já que o serviço de mudança que contratou, estará lá às quatro para levar suas coisas para o novo endereço.

A lentidão com a qual o meu cérebro processa todo aquele emaranhado de informações disparadas por John, é a mesma da velocidade de uma tartaruga. Mas quando, por fim, consigo processar sua fala, um ponto de interrogação grande e luminoso se acende na minha cabeça.

Em quê momento da noite de ontem Dayse lhe disse isso?

Porque nas lembranças ainda nítidas que tenho, eu não recordo de tê-la ouvido mencionar nada a este respeito.

— Quando ela te disse isso? — sondo.

— Antes de sair daqui mais cedo para ir em casa trocar de roupa e ir trabalhar.

— Oi?!... Dayse dormiu aqui?

— Sim, com você.

Eu não sei se fico aliviada ou continuo preocupada, pior, mais preocupada ainda diante da constatação rápida de três pontos:

1 — Dayse dormiu comigo.

2 — Eu acordei nua na cama.

3 — O sujeito a minha frente está todo sorridente.

Uma vez Dayse me confessou que seu maior fetiche é um ménage. Mas ela só toparia se fosse entre ela, um cara e eu. Na ocasião, eu dei muita risada e até brinquei dizendo que para isso acontecer, era só se eu tivesse muito chapada para aceitar. Ontem, eu estava chapada. Portanto... Estou achando que ela realizou o fetiche dela.

Ah, merda!

— Sara tá tudo bem? Você tá pálida.

— Me responde uma coisa, John... A Dayse, você e eu... Nós... Você sabe... — fiz um gesto nervoso de mexer as mãos, sem coragem de continuar a formular o restante da pergunta.

— Não sei não. O que tem a Dayse, você e eu? — ele me observa com o cenho franzido como se eu estivesse falando qualquer língua menos a nossa. Portanto, sou mais explícita.

— Nós três transamos juntos. — sinto as maçãs do rosto esquentarem de vergonha. Uma vergonha que se transforma em outro sentimento diante do fato de John cair na risada a ponto de até jogar a cabeça para trás, depois que ouve o que digo.

— Qual a graça, hein? — questiono de modo emburrado.

— Desculpa... — ele pede ainda rindo. Posso vê-lo enxugar os cantos dos olhos. — Mas, sério, que você acha que rolou um ménage aqui?

— E não rolou?

— Não, Sara! Por que achou isso?

Agora estou morrendo de vergonha de ter chego aquela contestação equivocada.

— Na verdade, primeiro achei que você e eu tivéssemos dormido juntos, já que acordei nua na cama e depois dei de cara com você no corredor. Aí, já fui achar sobre o ménage, depois que você disse que a Dayse dormiu comigo. Como uma vez aquela doida disse que toparia fazer um só se fosse ela, um cara e eu juntos, então achei que nós três tivéssemos feito.

Ele é só risos enquanto falo. Claramente se divertindo da asneira pensada pela palhaça de circo aqui.

— Ok. Vamos por partes, Sara. Primeiro lugar, você estava nua, porque sua roupa e até às peças íntimas estavam soadas e você ainda vomitou na calça quando chegamos aqui. — fiz uma careta. — Pois é, eca! — foi a vez dele fazer careta. — E, a propósito, todas as peças estão limpas já. Estão, inclusive, estendidas lá na lavanderia. Antes que pergunte, foi a sua amiga quem tirou sua roupa. — fico mais aliviada em saber disso. — Deu pra ouvir da sala que ela travou uma árdua batalha lá no quarto tentando tirar a sua roupa, porque você estava mais dormindo que acordada e a Dayse não estava no seu melhor estado também. Sei que foi quase meia hora para ela vir cambaleando do quarto com as roupas. — John ri e eu sou incapaz de falar ou expressar reação ao seu relato. — Até falei para Dayse pegar uma roupa minha e vestir em você, mas ela disse que quase morreu para tirar as peças de você, que não ia tentar te colocar nada, você ia dormir nua mesmo.

— Meu Deus! Que vergonha! — enterro o rosto entre as mãos.

— Não fique. Essas coisas acontecem. E, bem, por último lugar, ménage não é um fetiche que tenho. Sou um sujeito quadrado. Sexo para mim só entre duas pessoas, uma terceira não vai. Portanto, se tivesse que rolar algo seria só com você, Sara, e mais ninguém participando. — ainda bem que meu rosto continua escondido entre as mãos, para não ficar escarlate de vergonha depois dessa direta. — Mas no estado em que estava ontem, jamais eu deixaria rolar, mesmo que houvesse desejo da minha parte em ir além dos beijos que trocamos. Você não estava consciente para o "além dos beijos" e eu não sou homem de me aproveitar de mulher alguma nesse estado ou qualquer outro estado de vulnerabilidade.

***

Quando John para em frente ao prédio que moro, fico com a sensação de ter uma dívida com o sujeito, pois durante o restante do café no apart dele, John me contou tudo o que rolou da festa até o fim e o pós, já que eu não lembrava nada. Me esclareceu o motivo de Dayse e eu termos ido parar na sua casa, ao invés, de termos ido para o nosso apartamento. Como seu apart ficava mais próximo, Bolton deu a sugestão de nós duas irmos para lá com John, já que seria perigoso nos mandar em um Uber sozinhas, posto que no carro do meu amigo já iam os demais.

Já em seu apart, John ofereceu seu quarto para Dayse e eu, e dormiu na sala. Pela manhã, acordou em um susto com Dayse lhe puxando o pé. Ela lhe avisou que precisava ir em casa trocar de roupa e ir trabalhar.

"Ela disse que te chamou umas cinco vezes, mas você mandou ela ir se foder e deixa-la dormir em paz. Então desistiu."

"Cristo amado!"

"Antes de ir, Dayse me fez mil e uma ameaças se eu fizesse alguma coisa com você. E, ainda avisou que era louca o suficiente para cumprir cada uma das ameaças."

"E ela é mesmo!"

"Eu que não dúvido!"

— Está entregue, moça!

A fala de John me traz de volta ao tempo presente. Lanço um olhar na direção do sujeito de ósculos escuro, acomodado atrás do volante e suspiro, apoiando a cabeça no encosto do banco do carona.

O cara foi um verdadeiro gentleman comigo. Nesse mundo de hoje em que alguns — ou a grande maioria, infelizmente — dos homens em baladas não podem ver uma mulher em um estado mais vulnerável devido ao álcool e já querem se aproveitar dela, ainda se é capaz de achar perdidos por aí algumas raridades, sujeitos que saibam respeitar uma mulher e não abusar dela quando não se está em um estado sóbrio, como foi o John comigo e Dayse.

O cara nos levou para sua casa — o que não deveríamos ter deixado, porque é perigoso já que não nos conhecíamos direito. Ele é só amigo de um amigo nosso, mas enfim, aconteceu — sem qualquer tipo de segundas intenções. Emprestou seu quarto, sua cama e suas roupas para nós e se contentou em dormir na sala. Não conheço um cara que faria isso tudo e mais como ele fez, sem esperar algo em troca.

— Poxa, John. Não sei nem como te agradecer.

— Eu sei como. — ele ergue o óculos até o topo da cabeça, exibindo um sorriso de lado enquanto as sobrancelhas se movendo em um sobe e desce sugestivo demais.

Franzo a testa, não acreditando que ele vai sujar a boa imagem que criei dele agora no final. Porra, você estava indo tão bem, John!

— Como?

Já me preparei para descasca-lo todinho e lhe enfiar um murro bem no meio da cara logo em seguida.

— Me convidando qualquer dia para conhecer sua casa nova.

A mão que eu disfarçadamente tinha fechado e estava apertando para lhe acertar o murro caso viesse com alguma proposta indecente, relaxa diante de tal fala.

— Que susto, criatura. Eu pensei que você ia... Esquece. — nem valia a pena externar aquele meu pensamento equivocado. — Mas é claro que está convidado. Inclusive, amanhã a noite vou organizar um open house, todo o pessoal de ontem vai estar lá. Se quiser aparecer te dou o endereço e será muito bem-vindo.

Vejo seus lábios se curvarem para baixo em uma careta triste.

— Poxa, infelizmente não vai dá pra ir. Amanhã a noite vou com um amigo e a esposa dele ao casamento de uma pessoa que ele quer me apresentar. Alguém que pode vir a se tornar um investidor e alavancar os meus negócios mais ainda.

Que pena! Seria legal tê-lo lá, mas se ele já tinha um compromisso, então que ficasse para outro momento a visita a minha nova casa.

— Ah, sim. Tomara que consiga esse investidor então. E quanto a ir lá em casa, o convite já está feito. Quando puder ir é só me avisar.

— Para isso preciso do seu número de contato para saber o seu endereço. — ele diz, tombando a cabeça para a direita e fechando um dos olhos enquanto abre um sorriso, me fazendo sorrir daquilo.

— Me dá aqui o seu celular para eu salvar meu número. — estendo a mão para John.

O sujeito pesca o aparelho de um compartimento ao seu lado da porta e deposita o celular já destravado na minha mão. Dígito meu número de contato, salvo e entrego de volta o aparelho para John.

— "Sara, amiga do Bolton". — sorrindo, ele lê como salvei meu contato em seu celular. — Esse final nem era preciso.

— É que só o meu nome pode ser que você esqueça de quem se trata.

— Jamais esqueceria quem é você.

Achei por bem depois dessa direta dele, sair antes que ele quisesse DR por ontem, coisa que até então sequer havíamos discutido.

— Bom, vou nessa, John. Agradeço a carona e tudo mais que fez por mim. Até.

— Espera, Sara. — ele diz, segurando de modo delicado em meu pulso esquerdo.

— O que foi?

— Sobre ontem...

— John... — o interrompo e deixo escapar um suspiro. Tudo o que eu não queria era DR, mas pelo visto vamos a ela. — Ontem foi bom, mas se espera que o que houve se repita, eu sinto muito em lhe informar, que não vai ser possível. — digo sem fazer rodeios.

Apesar de ele se mostrar um bom cara, eu não estou para engatar romance com ninguém. Grissom deixou meu coração em frangalhos para ter outro relacionamento tão cedo assim.

— Uau! Que direta!

— Desculpe, mas eu prefiro ser honesta com você, ainda que a minha honestidade não seja a que você gostaria de ouvir.

Ele assente e ficamos em silêncio por um breve momento até John se pronunciar outra vez.

— Olha não vou dizer que fico um tanto decepcionado com esse fora, que está me dando, porque estaria mentindo. Gostei muito de ontem, de termos ficado. Você é uma mulher muito legal e fora de sério. Além é claro de beijar bem pra caramba. — ele ri e eu acabo meio sem jeito, o acompanhando nisso. — E eu adoraria que a gente se conhecesse melhor e ficasse mais vezes. Porém entendo que não queira. E, saiba que não irei mais insistir em nada. Para mim "não é não".

John só pode ser uma pessoa utópica, cara, porque alguém assim como ele não deve existir outro, não.

— E já que não posso ter mais de você como ontem, me contento em ser apenas seu amigo caso me dê esse prazer, porque como eu disse anteriormente, gostei de você.

— Com certeza. Amigos. — estendo a mão para John que não hesita nada em segura-la e aperta de leve, para selar nosso acordo de amizade. — Também gostei de você, ainda mais por ser um cara tão gente boa, John.

— Obrigado.

Nos despedimos com um abraço e a promessa de muito em breve John ir me visitar para conhecer a casa nova.

***

Estou quase terminando de empacotar as minhas coisas na sala, quando ouço a chave na porta e logo em seguida Dayse entra no apartamento, praticamente se arrastando.

— Seu estado está deplorável. — comento, segurando o riso, porque a minha amiga nem de longe parece bem. A expressão abatida, as olheiras embaixo dos olhos e o ar cansado não escondem que ela é a visão perfeita de alguém com ressaca.

— Valeu, amiga.

Sorrio enquanto a vejo, desabar no sofá.

— Cara... Trabalhar com ressaca e tendo uma chefe como a Sullivan, que te olha como se você tivesse cometido um crime hediondo, é um pesadelo daqueles bem horripilantes. Ainda mais que hoje a bruxa estava com o diabo no couro.

— E quando ela não está?

A chefe da Dayse parece sempre acordar com o pé esquerdo. Eu hein?!

— Mas hoje estava muito mais. Juro, tem vezes que penso em sair de lá e trabalhar em outro lugar. A propósito, se pintar alguma vaga lá na BoB, lembra de mim.

Sorrio balançando a cabeça e terminando de guardar os últimos livros que faltavam colocar dentro da caixa de papelão.

— Vou me lembrar disso.

— Ah, tô morta. Nunca mais bebo assim.

— Sei... — resmungo, apanhando o rolo de fita gomada e vedando a caixa onde meus livros estão guardados e protegidos. — Se está assim, então nem vai me acompanhar com a mudança para a casa nova, né?

— É claro que vou. — ela responde de imediato e me olhando de modo feio, como se eu tivesse dito a pior coisa do mundo. — Agora, mudando de assunto. Me conta uma coisa, o amigo do Bolton não tentou nada com você, não né? Eu vim embora lá da casa dele com o cu na mão por ter te deixado lá sozinha e dormindo.

— Ele não tentou nada. John é um cara respeitador.

Comecei então a contar como foi lá na casa e sobre tudo que John e eu conversamos. Inclusive o papo no carro quando ele me deixou aqui na frente do apê.

— Esse cara nem parece real! Tá bom demais para ser verdade!

***

Às quatro em ponto o pessoal do serviço de mudança chegou. O que têm para os dois funcionários levarem são seis caixas de tamanho grande e quatro malas que couberam perfeitamente — e até sobrou espaço — dentro do furgão da empresa de mudança.

Já estava me dirigindo com Dayse ao carro dela postado a frente do furgão para irmos embora, quando um táxi estaciona diante do veículo da minha amiga. Do carro amarelo vejo meus pais descerem. Imediatamente vou até eles e sou recebida com uma abraço por minha enquanto meu pai está pagando a corrida. Assim que ele termina, puxa duas malas de dentro do táxi e o veículo se vai, é então que ganho um abraço do meu pai também.

— Que surpresa vocês aqui! Não avisaram nada que vinham.

— É que decidimos de última hora vir para a sua casa, ao invés, de ir para Maryanne.

O casamento amanhã. Eles tinham vindo para esse "evento". Juro que havia esquecido disto até aquele momento em que eles mencionaram o nome da minha prima.

— Ah, sim. — dou um meio sorriso. — Quase não me pegam aqui. Estou indo para a casa nova. — conto.

— Nosso medo era este mesmo. Chegar e não te encontrar aqui mais. Será que podemos ir para conhecer sua casa nova e passar a noite lá com você?

— Mas é claro, pai. Nem precisa perguntar isso. Venham. — me pus entre eles e seguimos para o carro da Dayse.

Durante o trajeto para a casa nova, minha mãe e seu olho clínico perguntou se eu andava me alimentando direito, porque eu parecia ter emagrecido mais ainda desde a última vez que nos vimos poucas semanas atrás, o que meu pai concordou.

— Dona Laura e seu Carl, eu estou comendo, não caçem coisas.

A verdade que não ando me alimentando bem mesmo, mas eles não precisam saber. Venho sentindo nas roupas que visto a diferença. Perdi alguns quilinhos, porém os recuperarei logo. Aquela cretina não merece que eu fique definhando por ela.

— Sara... Sara... Olhe lá. — papai diz em seu jeitão sério.

Entrando na rua tranquila onde minha casa fica, de cara mamãe se apaixona pelas casas e as árvores com as folhagens em tons vermelhos, laranja e amarela. Há folhas cobrindo grande parte das calçadas, criando uma paisagem bonita típica do outono, a estação do ano que estamos.

— Parece ser um bom bairro e tranquilo.

— É sim, segundo mencionou o corretor. E o melhor é que fica há pouca distância do Central Park.

O papo finda por ali, já que Dayse estaciona naquele momento em frente a minha casa. Descemos do veículo e ficamos os quatro encarando a fachada marrom da casa por alguns segundos até os funcionários da mudança chamar a nossa atenção dizendo que precisavam descarregar as coisas para dentro da casa, pois ainda tinham outra mudança para fazer.

Coisa de quinze minutos depois, as minhas coisas já estão dentro de casa e o pessoal da mudança tinha ido embora. Estávamos somente meus pais, Dayse e eu dentro de casa.

— Que sala bonita e de bom gosto, filha.

— Obrigada, mãe. Na verdade... Obrigada aos dois por esta casa de presente. — puxo meus pais para um abraço.

— Não precisa nos agradecer, filha. — mamãe sussurra.

Ouço um pigarro e finalizo o abraço com meus pais.

— Desculpa interromper o momento, mas amiga preciso ir. Você sabe tô doida para cair na cama e hibernar até amanhã. Mas não podia sair a francesa.

— Tá bem, Dayse. — assisto minha amiga se despedir dos meus pais com um abraço em cada e depois lhe acompanho até a porta. — Vê se come algo antes de dormir e bebe muito líquido.

— Sim, senhora. — ela faz sinal de continência.

— Engraçadinha. Cuidado no caminho. E te espero amanhã para o open house.

— Tá. Venho a tarde, pois assim te ajudo a arrumar as coisas.

Trocamos um abraço. Eu agradeço a minha amiga por me trazer até ali e depois nos despedimos. Assim que Dayse se vai, eu fecho a porta e retorno até meus pais.

— Que tal um tour pela casa para vocês conhecerem-na?

Os dois concordaram no ato. Da sala, eu os levei para conhecer a cozinha, que logo na entrada tem uma estante com alguns itens de decoração nela, os quais pretendo substituir por meus livros.

Mamãe se apaixona na hora pela cozinha rústica com prateleiras em vez de armários na parte de cima, balcão ilha e uma decoração em tom de azul claro.

Da cozinha os levei para conhecer o pequeno escritório, o banheiro social, o quarto de hóspedes que eles ficariam e por último, o meu quarto com suite.

— Filha a sua casa é linda e cheia de vida com suas multicores em cada ambiente. Amei cada cômodo. — mamãe diz com empolgação, já que ela ama o lance de decoração.

— É de muito bom gosto, querida. Parabéns pela escolha. — reforça papai.

— Que bom que gostaram. — digo abraçando ambos pelos ombros enquanto estou acomodada entre eles no recamier aos pés da cama. — Falta dá meu toque com itens pessoais como meus quadros, livros, fotografias e outros artigos, para ficar com a minha cara.

— E vai ficar, filha. — papai é quem diz, me piscando um olho.

Eles me ajudam a desempacotar e arrumar todas as coisas das caixas, mesmo sob fortes protestos meus de que são visitas.

— Visita. Ora veja! — resmunga papai trazendo uma caixa para perto de mim e mamãe para abrirmos.

Quando terminamos já é noite e como eu não tinha feito compras ainda, a dispensa estava vazia, optamos por pedir um jantar japonês em um restaurante delivery que pedi pelo aplicativo.

Enquanto aguardamos a comida conversamos sobre como estavam as coisas lá por Santa Mônica. Eles me deram notícias da Li e de Sean.

Agradeci ao fato de não citarem o nome da minha prima e nem da noiva dela ou fazerem qualquer menção ao casamento de amanhã, porque eu não precisava e nem queria saber ou ouvir nada daquelas duas.

Quando estávamos conversando sobre o neto de Li que está para nascer, a campainha toca. Nosso jantar havia chego.

Acomodados em torno da mesinha de centro da sala, nós três nos deliciamos com cada item gostoso da barca japonesa enquanto conversamos assuntos aleatórios. Foi uma noite bem agradável.

No dia seguinte, eles tomaram café comigo depois de termos ido ao supermercado comprar algumas coisas para fazer o nosso café. E por volta das onze estávamos nos despedindo na frente de casa, pois eles já iam para a casa de Maryanne. Mamãe ia ajudá-la a se arrumar para o casamento mais tarde.

— Por mim não iria. Ou melhor, Mary nem estaria se casando com aquele homem, já começava por aí.

— Essa não é uma escolha nossa, querido. Ela que quis. — resmunga mamãe afagando o ombro de papai.

— Eles se merecem! Tenho certeza que vão se dar muito bem nesse casamento. — digo com amargor e os dois não ousam dizer nada em resposta.

Trocamos abraços e o carro que pedi para eles chega naquele momento.

— Se cuida, querida. E trate de se alimentar melhor.

— Ok, mamãe.

— E mantenha mais contato conosco, filha.

— Pode deixar, pai.

Assim que o carro deles dobra a esquina já me vejo sentindo falta deles. Foi um dia apenas que eles ficaram aqui, mas foi o bastante para me sentir mimada, paparicada e com o espírito renovado pela presença deles ali.

Pais são como nossos guias. Eles nos ensinam tantas coisas valiosas e seguram nossa mão sempre que estamos prestes a cair, ou caímos, como foi no meu caso. Os meus pais são o meu alicerce e a certeza de que sempre terei um abraço forte me esperando. Eu tenho muita sorte de ter a dona Laura e o seu Carl como pais.

***

Um a um os meus convidados foram chegando aquela noite, trazendo consigo um presente para minha casa, algo que não esperava e nem pedi que trouxessem. Ganhei desde descansos de copo com cada um dos seis estampando a logo de uma cerveja famosa à uma linda luminária lua cheia, que segundo a Cris que me deu, brilha como a lua cheia e pode ser usada tanto na sala de estar quanto no quarto.

Além dos presentes, eles ainda trouxeram comes e bebes. Ajeitei tudo na mesa junto com as coisinhas que tinha feito junto com Dayse.

Mostrei a casa a todos e o feedback foi unânime: é linda!

Depois do tour pelo imóvel nos sentamos na sala e Dayse colocou uma música para tocar em volume baixo. Começamos a comer e beber enquanto a resenha sobre ontem a noite rolava solta, principalmente meu lance com John ontem. Inclusive, até perguntaram porquê não o convidei para o open house, já que ontem não nos desgrudavamos.

— Vocês estão inventando só porque não lembro. E, sim, eu o convidei, mas ele tinha compromisso.

— E o lance com ele, vai pra frente?

— Não, Nina. Resolvemos só sermos amigos.

Achei por bem não expor o pobre do John contando que eu lhe dei um fora. Para todos os efeitos foi uma decisão nossa ficar só na amizade.

— Amigos? Depois de tanto beija, beija a todo instante ontem? Fala sério, Sara.

— Estou falando, Erick.

— Vocês estavam parecendo aqueles casais só de love.

— E até que fazem um bonito par.

— Vamos mudar de assunto, minha gente?

Aquelas pragas riram, mas acabaram atendendo meu pedido.

O open house ainda seguiu por um tempo a base de muita resenha, risadas, petiscos e cerveja para alguns, e suco para outros. Lá pelas dez os primeiros convidados foram indo embora até que restou Dayse e eu. Minha amiga me ajudou a limpar as louças e ajeitar as coisas.

— Ficará bem sozinha? — parada na porta de casa, prestes a se despedir de mim, Dayse me questiona.

Será a primeira vez que irei ficar só, ou melhor, morar só. Em toda a minha vida até ali sempre morei com alguém. Foi na casa dos meus pai, depois na faculdade dividindo o dormitório e depois no apartamento com Dayse. Agora seria eu, por eu em uma casa.

— Ainda não, mas preciso aprender a ficar.

— Qualquer coisa me liga?

— Sim!

Trocamos um longo abraço.

Como eu sentiria a falta de dividir o mesmo teto com aquela doida da Dayse. Sei que vai ser difícil no começo me acostumar com o fato de não tê-la comigo as 24hs do dia, mas aprenderei.

— Boa sorte amanhã no seu primeiro dia de trabalho, amiga.

— Obrigada.

— Arrasa lá na BoB, Sidle.

— Pode deixar.

Desfizemos o nosso abraço e Dayse desceu as escada, indo até seu carro. Antes, porém, de entrar no veículo, ela me joga um beijo, que faço questão de retribuir, jogando outro para ela. Em seguida minha amiga entra em seu carro e parte.

Fecho a porta e me encosto nela encarando a sala.

— É, Sara, agora é só você.

Fico ali por alguns segundos divagando sobre essa nova fase da minha vida que se já iniciou ontem, quando me mudei para a minha casa, meu lar doce lar, com a esperança de que as coisas a partir daqui só melhorem e sejam boas. Que só bons ventos comecem a soprar.

Subi. Tomei um banho e coloquei um pijama. Já estava me ajeitando na cama quando ouço o celular tocar sobre o móvel ao lado.

— Deve bem ser a Dayse já com saudades. — comento rindo, mas ao pegar o aparelho vejo que não se trata da minha amiga. O número que está ligando é completamente estranho para mim. Tanto que resolvo não atender e rejeito a ligação. Devolvo o aparelho ao móvel, mas nem bem largo o celular e ele toca de novo com aquele mesmo número desconhecido. Outra vez rejeito. Mas logo em seguida a pessoa que liga insiste de novo. Opto por atender devido a tanta insistência.

— Alô!

Ao fundo ouço uma música não tão alta e a respiração de alguém na linha, que não responde a minha saudação ao telefone.

— Alô?! — repito diante da ausência de resposta. Mas nada de falarem e isso é o suficiente para me irritar. — É muito não ter o que fazer, né?... Liga insistentemente para depois não falar nada, não?... Então vou desligar.

— Não desliga, Sara!

Ouço aquela voz tão conhecida falar de modo rouco e arrastado, me fazendo arrepiar e voltar o celular a orelha, já que havia afastado alguns centímetros.

— Grissom?!

— Oi!

É muita cara de pau dele me ligar, ainda mais sendo que hoje se casou com a minha prima.

— O que você quer me ligando? Eu pedi que não entrasse mais em contato comigo.

Ouço Grissom suspirar longamente. E outra vez um maldito arrepio varre meu corpo.

— Desculpa por ligar... Mas eu precisava... ouvir sua voz antes desses próximos... 365 dias que terei de ficar... Sem falar ou te vê.

Ele parece, claramente, fazer um esforço para não se embolar com as palavras, mas sua fala arrastada não ajuda nada.

— Você está bêbado, Grissom!

— Só um pouquinho.

— Não foi uma pergunta.

Ele fica um breve instante em silêncio até que declara:

— Tô com tanta saudades de você, meine liebe.

Mesmo eu não querendo, mesmo magoada, ainda assim suas palavras acabam mexendo comigo, porque apesar de tudo eu ainda amo aquele cretino, mas eu deixarei de amar, pois Gil Grissom não merece o meu amor depois do que fez.

— Grissom me deixa em paz. Você fez sua escolha, então seja feliz com ela. Adeus!

Notas finais
Xero e até próximo.