Abri a porta de casa para ir trabalhar, e o ar da manhã se encheu de uma surpresa indigesta. Grissom estava parado no meu degrau, o punho suspenso no ar, pronto para bater. A simples visão dele me esgotou.

"Eu mereço isso", pensei, sentindo um peso me invadir. Era cedo demais para essa perturbação.

— Bom dia, Sara! — A voz dele era doce, mas o efeito em mim era de choque.

Eu nem me dei ao trabalho de responder ao sorriso dele.

— De novo? — Minha voz estava carregada, um coquetel de exaustão e irritação. — Vai ficar me perseguindo?

Era a terceira vez que o confrontava em menos de um dia. A repetição era o que tornava tudo mais exaustivo. Grissom não desistia. E o sorriso dele, que um dia foi inocente, agora só me trazia a certeza de que a perturbação estava longe de acabar.

— Se insistência é perseguição pra você, então sinto muito — ele falou, as mãos erguidas em um gesto irônico. — Mas vou te perseguir até ser minha de novo, meine liebe.

A arrogância dele era gritante, um abismo entre o homem que ele foi e o que se apresentava agora. Parecia outra pessoa, uma que não conhecia limites nem vergonha. Se bem que "limites" nunca foi o seu forte.

— Não me chame de "meine liebe" — rebati, a ordem saiu seca, pesada. A intimidade daquela palavra em alemão, dita por ele agora, era um insulto.

— Por quê? — A pergunta soou inútil.

— Porque não! — A resposta veio imediata, a exaustão se sobrepondo a qualquer outra emoção.

— Quando te chamei assim a primeira vez você gostou e pediu que eu só te chamasse assim dali por...

— O que quer aqui, Grissom? — O interrompi, o ruído da porta fechando atrás de mim como um portão de ferro. Eu o encarei com uma seriedade pesada, a apenas dois degraus de distância.

— Vim te buscar para ir comigo a um lugar conversar — ele revelou, subindo um degrau, diminuindo ainda mais a nossa distância.

A audácia dele me deixou sem ar. Após a confusão que armou ontem, vindo à minha casa, dizendo desaforos ao Doug, ele agora aparecia como se nada tivesse acontecido, querendo me levar para sabe-se lá onde. Conversar era a última coisa que eu queria com aquele homem hoje.

— Estou saindo para o trabalho — respondi, o tom gélido. — E mesmo se não estivesse, eu não iria com você depois de ontem.

— Ontem foi ontem — ele disse, com uma simplicidade nauseante e uma calma irritante, muito diferente do homem arrogante que esteve aqui ontem. Hoje, Grissom se mostrava mais calmo, mais "controlado". E pela forma de falar, para ele a cena do dia anterior era um evento isolado, uma nota de rodapé. Para mim, a memória pesava como um fardo, uma ferida ainda aberta. Ontem, para mim, ainda era hoje.

— Você não tinha o direito de vir aqui e dizer aquelas coisas ao Doug — minha voz saiu pesada, carregada de tudo o que eu sentia.

— Só falei verdades ao seu namoradinho. Ele está esquentando o meu lugar mesmo — Grissom encolheu os ombros, um sorriso sutil brincando em seus lábios, como se estivéssemos discutindo sobre o tempo.

— Isso não é verdade! — Senti a fúria me dominar. Em um impulso incontrolável, o acertei com minha bolsa. O impacto ressoou, mas em vez de se intimidar, ele riu. Riu! Aquele som, o som do meu desespero se tornando entretenimento para ele.

— Vamos conversar sobre isso e outras coisas em outro lugar mais tranquilo. Vem! — Ele segurou o meu braço, um toque gentil e inesperado, que afastei com um puxão brusco. O contato era uma afronta, uma tentativa de me acalmar quando tudo que eu queria era uma resposta, a verdade.

— Que parte do "Estou saindo para o trabalho" você não entendeu? — Cruzei os braços sobre o peito, uma barreira frágil que, eu sabia, não o conteria. A expressão de Grissom era a de quem chegava ao limite da paciência. Vi o sujeito soltar o ar pela boca, um som exasperado que eu conhecia bem, a desaprovação escancarada em seus olhos. A cada segundo, eu esperava a explosão.

Mas o que veio foi a rapidez. Antes que eu pudesse reagir, o chão sumiu sob meus pés. O mundo girou e, com a mesma facilidade que fez há mais de um ano na casa dos meus pais, ele me jogou sobre o ombro. O choque me paralisou, a memória daquele gesto, por um instante, fez o passado se misturar ao presente.

— Grissom, me põe no chão! — bati em suas costas com os punhos cerrados, a fúria se misturando ao pânico.

— Não! — retrucou, já caminhando em direção ao seu veículo escuro, descendo os pequenos lances de escada com cuidado. A facilidade com que me carregava era assustadora. — Nós vamos conversar. Luke, abra a porta. — A voz de comando, cheia daquela arrogância que me deixava mais enfurecida com aquele cretino, ecoou.

Luke obedeceu prontamente. Senti o corpo de Grissom se inclinar e, em seguida, fui depositada no banco de trás. Ele entrou logo depois, acomodando-se ao meu lado. Afastei-me dele, encostando-me o máximo possível na outra porta, criando um vazio entre nós. Quando Luke se sentou ao volante, Gilbert se virou para mim, sorrindo, e deu a nova ordem:

— Pode ir, Luke. E tranque as portas, para que a Sara não queira se jogar do carro em movimento.

— Ridículo! — insultei e o cretino sorriu.

O carro começou a se mover, e eu senti a raiva se acumular. Afinal, para onde esse cretino louco estava me levando? E o que, exatamente, ele queria conversar?

— O que está fazendo é crime, sabia? — disse após um instante de silêncio com ele me encarando da forma mais passiva e natural possível, como se não tivesse me sequestrado.

— Ah, é? Não sabia. — O tom de Grissom, uma doçura forçada, apenas intensificou minha fúria. A calmaria deliberada era a prova final de que ele estava se divertindo com a minha raiva. — E qual é o crime, mesmo? Levar uma pessoa para conversar? Não vejo nada de errado nisso.

— Quando é a força, sim, se configura como um crime. — De raiva, acertei um safanão no braço dele. O tapa ressoou e, em vez de se assustar, ele caiu na risada, novamente, o som estridente reverberando no carro e se misturando ao perfume daquele cretino.

— Se quiser depois que nós conversarmos, eu peço para o Luke te levar numa delegacia e aí você faz uma denúncia formal contra mim. — ele provocou.

Seu sarcasmo me atingiu como um golpe, mas eu não me intimidei. A raiva que sentia era um combustível, e eu não ia deixar que ele tivesse a última palavra.

— Está duvidando que eu vá fazer isso? — rebati, a voz tensa, mas firme.

Grissom soltou uma risada curta e debochada, revirando os olhos como se estivesse diante de uma criança mimada.

— Não acredito que fará depois que ouvir tudo o que tenho a dizer. — provocou.

— Grissom me leva de volta pra casa. Eu preciso ir trabalhar. Tenho responsabilidades. Não sou dona de um império para faltar ao serviço, como você.

— Não se preocupe com o trabalho.

— Não me preocupar? Eu não posso faltar assim e correr o risco de perder o meu emprego. Tenho um chefe para dar satisfação.

— Seu chefe não irá...

O som estridente do meu celular tocou dentro da bolsa e interrompeu a fala dele. Uma faísca de esperança cintilou em mim. A oportunidade perfeita de contar a alguém o que estava acontecendo, de me libertar das garras de Grissom. Mas antes que eu pudesse sequer pensar em agir, o cretino de uma figa se antecipou.

Em um movimento rápido e ensaiado, ele arrebatou a bolsa das minhas mãos, abrindo o zíper com agilidade e pegando o aparelho. A agilidade com que ele agiu era impressionante, a prova final de que ele estava à frente de tudo.

— Ei! — A exclamação de surpresa e raiva escapou por entre meus lábios.

— Seu celular vai ficar comigo — Grissom disse, a voz cheia de triunfo enquanto desligava o aparelho.

— Me dá meu celular, Gilbert — ordenei, com um tom que não admitia réplicas.

— Quando acabarmos de conversar, te devolvo. — retrucou, guardando o aparelho no bolso do seu blazer.

A situação estava ficando fora de controle. Sem o celular, estava incomunicável, refém daquele cretino desequilibrado. O que ele ia me dizer? Eu não tinha mais controle sobre nada, estava completamente à mercê dele.

O carro seguia em frente, as ruas da cidade passando pela janela, o mundo real seguindo seu ritmo enquanto eu estava presa em um pesadelo particular. Luke permaneceu impassível, como se a cena fosse normal.

— Por que está fazendo isso, Grissom?

— Eu já disse, vamos conversar. — O tom dele era frio, inabalável. — Sei que a abordagem não foi a melhor, e por isso, peço desculpas.

— Vá para o inferno com as suas desculpas! — retruquei, interrompendo-o com uma explosão.

— Precisamos conversar, desta vez, como dois adultos. Civilizadamente. — disse ele.

— Civilizadamente?! — A risada debochada me escapou, alta e cheia de escárnio. — Até parece que você sabe o que isso significa, seu cretino!

O sorriso dele se abriu ainda mais.

— Senti falta de ouvir você me chamar assim. — A voz era doce.

— Louco! — foi tudo que consegui dizer.

— Louco por você — sussurrou ele, e o brilho em seus olhos e a maciez em sua voz não me abalaram. — Mas você vai me ouvir, queira ou não.

A frieza em sua voz, a calma deliberada, era irritante. Eu engoli em seco, o coração batendo forte no peito.

— Eu te odeio, sabia? — as palavras saíram tão logo pensei nelas, carregadas de uma acidez que eu nem sabia que tinha.

Grissom me encarou petrificado. Por um breve instante, a máscara de deboche caiu, e uma vulnerabilidade assustadora se instalou em seu rosto.

— Uma vez me disse isso também, lembra? — ele disse, e a memória daquele dia me atingiu como um soco no estômago. — Logo que nos reencontramos na casa dos seus pais. Mas o tempo mostrou que não era verdade, assim como não deve ser agora.

Uma onda de frustração me percorreu. Ele estava certo, em parte. Naquele dia, a raiva mascarava outras emoções. Agora, a raiva também era uma camada protetora. O ressentimento que havia entre nós era um labirinto, e ele sabia exatamente onde estavam as armadilhas.

O silêncio no carro, que se instalou após a fala de Grissom, foi quebrado por Luke instantes depois. O motorista parou o veículo e anunciou a chegada com uma voz monótona e profissional.

— Chegamos — disse ele, sem sequer olhar para trás.

Olhei pela janela e vi a fachada da marina, com o ar salgado da maresia se misturando ao cheiro de gasolina. Meus olhos se voltaram para Grissom, que já tinha o olhar fixo em mim, como se estivesse esperando a minha reação.

— Desembarque a senhora, por favor, Luke — disse Grissom, sem desviar os olhos dos meus.

O motorista abriu a porta do carro, e a brisa da manhã me atingiu. Saí do veículo, seguida por Grissom. O sol brilhante no céu, e o som das águas batendo contra os barcos era uma melodia presente.

— É aqui que vamos conversar? — A voz vacilou, a pergunta mais um eco da memória do que uma questão real. A visão da marina trouxe um baque gelado. A última vez que estive com Grissom ali, sob a luz das estrelas sobre o rio Hudson, foi na noite em que ele me pediu em casamento. As palavras ainda reverberam na minha mente, um juramento que se desfez um tempo depois quando ele terminou tudo.

— Sim. É um lugar mais discreto e silencioso para conversar, não acha? — A resposta dele foi suave. O silêncio que se instalou era cheio de expectativas e incertezas que dançavam na brisa fria. Eu o encarei, a cada segundo tentando decifrar o que se passava por trás daquele olhar impenetrável.

— Justo aqui, Grissom? — A acusação era mais um lamento do que uma pergunta, um fio de voz que parecia prestes a se romper.

— Por favor, vem comigo, meine liebe? — A mão dele se estendeu. Não havia ironia, nem o sorriso de deboche. Era o olhar doce de um tempo em que as coisas entre nós eram boas. — É só uma volta. Tem coisas que você precisa saber, coisas que eu posso te contar agora.

Meus olhos se moveram da mão dele para seu olhar, e de volta para a mão. Uma batalha árdua entre a curiosidade, que clamava por respostas, e a raiva, que gritava para fugir dali, dançava dentro de mim. O "meine liebe" sussurrado, um resquício de um tempo que parecia uma vida inteira atrás, era uma isca. Aquele olhar, tão genuíno e doce, outra isca para romper as minhas defesas.

Finalmente, a raiva cedeu, mas não se apagou. Foi a curiosidade, o desejo de saber o que ele queria me contar, que falou mais alto.

Devagar, como se cada passo fosse sobre gelo fino, me aproximei dele. A raiva ainda borbulhava, mas a curiosidade, e a necessidade desesperada por um fechamento, eram mais fortes. Parei a milímetros de distância, nossos corpos quase se tocando, mas a distância entre nós parecia infinita.

Encarei por alguns segundos seus olhos azuis. Sob a luz do sol, eles pareciam um tom mais claro, quase vítreo, exatamente como os de Benny. A familiaridade daquele olhar me atingiu como um soco no estômago, misturando a lembrança de um amor com a dor de um término.

— Ok! — A voz soou mais como uma rendição do que como uma concordância. Desviei o olhar, incapaz de sustentar a intensidade dos seus olhos, e me afastei.

Meus passos ecoaram sobre o piso de madeira da marina, cada tábua rangendo sob meu peso, como um aviso. Eu seguia em direção ao veleiro, sentindo os olhares de Grissom nas minhas costas. Com o coração batendo forte, subi os degraus e entrei no veleiro. As memórias voltaram, uma enxurrada de risadas, o jantar à luz de velas e promessas quebradas. A pergunta de Grissom sobre um lugar discreto para conversar foi substituída por uma queimação no meu estômago. O arrependimento bateu instantemente. Eu não deveria ter vindo. Não deveria ter cedido ao seu pedido de conversa. Não ali!

— Por que tinha que ser aqui, Gilbert? — A mágoa e a dor ecoaram na pergunta que eu repeti, sem abrir os olhos. Ainda era difícil encarar o cenário que outrora fora o palco do nosso amor. — Você sabe o que este lugar significa para nós.

— E é por isso que estamos aqui. — A voz de Grissom se aproximou, e pude sentir a proximidade de seu corpo. Quando finalmente abri os olhos, seu olhar era uma mistura complexa de arrependimento e uma determinação que me assustava. — Eu sei que te magoei e sei que quebrei sua confiança. Mas você precisa saber de toda a história antes de continuar me condenando.

O veleiro deslizou suavemente pela água escura. A brisa do rio Hudson soprou meus cabelos, mas eu não sentia nada. A batalha entre a curiosidade e a raiva tinha cessado, dando lugar ao medo, um sentimento que dominava cada centímetro do meu ser. O que Grissom teria a dizer? O que o futuro nos reservava depois daquela conversa?

Grissom me conduziu até a mesa que havia ali no veleiro. Acomodados um de frente para o outro, a luz do sol refletia em seus olhos, parecendo querer me hipnotizar. Sua expressão era séria, mas suas mãos tremiam levemente sobre a mesa.

— O que quer me falar? — O questionei. A voz que saiu da minha boca soou mais impaciente do que eu pretendia, mas ele me ignorou.

— É tanta coisa, que não sei por onde começar — ele sussurrou, a voz carregada de arrependimento. A tristeza em seu tom era tão palpável que eu quase a podia tocar.

— Pelo começo é uma boa ideia — sugeri, meu tom carregado de impaciência.

— O começo! — ele repetiu, a voz parecendo carregar um peso insuportável. Seus olhos vagaram para algum ponto distante no rio, como se a palavra o tivesse transportado de volta a um momento em que tudo era diferente. — O começo do meu, ou melhor, do nosso inferno... foi quando eu terminei com você.

Eu o encarei, em choque. Por que ele estava querendo me fazer reviver um passado que lutei tanto para enterrar? Aquele momento doloroso em que meu mundo desmoronou. Levantei-me, a raiva me movendo, mas ele segurou minha mão, com o olhar implorando para que eu ficasse.

— Eu sei, eu sei. Eu sei que o que fiz foi imperdoável. Eu sei que você me odeia, e você tem todo o direito. Mas, por favor, me deixe explicar — suplicou, a voz quase inaudível.

— Explicar o quê? — As palavras saíram como um ataque enquanto voltava a me acomodar na cadeira. — Que me trocou pelo patrimônio da sua família? E que o seu pai usou a memória da sua mãe, para te convencer a casar com Maryanne?

— Não foi por isso. — A voz dele era firme, mesmo com a tristeza nos olhos. — Sei que fiz você acreditar todo esse tempo, que essas foram as razões para terminar nossa relação, mas não foram, Sara.

Franzi a testa, mal acreditando no que ouvia. O que seria mais doloroso do que a 'história' que eu já conhecia?

— Eu me submeti ao capricho do Joseph de casar com a Maryanne... — Ele parou, respirou fundo, como se a revelação fosse doer nele mais do que em mim. —... Para proteger você e a sua família.

— O que diabos você está falando?

Grissom segurou minha mão com mais força, e sua voz se tornou um sussurro desesperado.

— Joseph me chantageou com ameaças.

— Que ameaças? Seja claro! — exigi, a voz carregada de uma urgência que não podia mais conter. A necessidade de saber a verdade, por mais dura que fosse, era avassaladora.

Grissom respirou fundo, parecendo reunir toda a coragem que lhe restava. A doçura que por um breve momento havia suavizado seu olhar foi substituída por uma dor crua e aterrorizante. Ele listou as ameaças, uma a uma, e cada palavra foi como um golpe frio.

— Ele disse que faria você perder o seu emprego e se encarregaria de que você não conseguisse outro em nenhuma editora do país.

Um calafrio percorreu minha espinha. Joseph sabia como atingir meus pontos mais vulneráveis.

— Depois, usaria a influência dele no mercado para manipular meu pai a fazer investimentos errados, levando a sua família à ruína.

Meu estômago se revirou. O patrimônio da minha família, o trabalho de anos, a dedicação do meu pai... tudo seria destruído.

— Sua mãe seria alvo de uma investigação por erro médico. E ele faria com que seu irmão fosse acusado de algo grave, que o colocaria atrás das grades.

As palavras dele ecoaram, cada uma delas uma atrocidade. Eu o olhei, com o coração palpitando, a garganta seca. Eu não podia acreditar no que ouvia. Joseph não era apenas um homem cruel, era um estrategista impiedoso, usando cada fraqueza e cada laço de amor para arquitetar um plano de chantagem perfeito.

— Por que não me contou isso na época? — Eu sussurrei, a voz tremendo de incredulidade, enquanto as atrocidades reverberam em minha mente. A raiva que antes me consumia dera lugar a uma perplexidade avassaladora. — Nós poderíamos ter lutado juntos.

— Eu não podia arriscar a sua segurança e a da sua família — Grissom balançou a cabeça, o cabelo voando com a brisa. O olhar dele era de uma resignação assustadora. — Joseph disse que deixaria um encarregado de olho em mim, para se certificar de que seus caprichos fossem cumpridos. Se eu não me casasse com Maryanne e não cumprisse o prazo de um ano de casamento, seu encarregado teria total poder para executar cada uma das ameaças que te falei.

A revelação foi a gota d'água. Meu coração, que já estava em frangalhos, parecia agora congelado pelo terror. A imagem de Joseph, antes apenas uma figura manipuladora, agora se materializou como um vilão de um pesadelo.

— Seu pai é um monstro. — A frase saiu da minha boca, um sussurro cheio de repulsa, mas também de uma dor profunda.

O silêncio voltou a pairar entre nós, mas desta vez, a atmosfera era pesada, sufocante. A raiva se dissipou, e a confusão tomou seu lugar. Eu não sabia mais o que pensar, o que sentir. Grissom tinha me protegido de uma ruína, mas em troca, havia destruído meu coração. E agora, as memórias felizes estavam manchadas por uma crueldade que me aterrorizava. O homem que amei tinha se sacrificado por mim, mas a dor do sacrifício era tão grande quanto a mentira que ele me fez acreditar todo esse tempo.

— Eu sinto tanto nojo e vergonha de ter o Joseph como pai. — A voz dele vacilou, carregada de uma emoção tão crua e genuína que, pela primeira vez, a dor que eu sentia deu lugar a uma pontada de compaixão por ele. Grissom também era vítima desse senhor.

— Quem é esse encarregado dele? — A pergunta saiu sem que eu percebesse, a curiosidade sobre a peça-chave dessa chantagem me consumindo.

— Até dias atrás, eu não fazia ideia de quem era, mas recentemente descobri e foi uma rasteira que eu não esperava. — Grissom fez uma pausa, o olhar fixo em mim, como se temesse a minha reação. A pele dele parecia ter perdido toda a cor. — O encarregado do Joseph... era Matilde.

A revelação de Grissom era uma nova camada de dor que se somava à anterior. A chantagem de Joseph já era algo monstruoso, mas saber que Matilde, a figura de confiança, a "segunda mãe", que Gilbert considerava, era a encarregada de garantir que o plano cruel se concretizasse, era um golpe abaixo da linha da cintura do homem diante de mim.

— A governanta da sua casa? A mulher a quem você tinha como uma segunda mãe? — Eu mal conseguia ainda processar a informação, e a incredulidade marcava minhas palavras.

— Pois é. A facada sempre vem de onde menos se espera. — Grissom disse, o peso da traição e do desapontamento esmagando sua voz.

— Como você soube? — A pergunta saiu em um sussurro incrédulo.

— Ela mesma me contou. — A resposta dele foi seca, desprovida de qualquer emoção. — Me chamou um dia antes de eu voltar para cá atrás de você, após o meu divórcio com Maryanne sair e contou que Joseph lhe pediu isso. Segundo Matilde, sua lealdade ao Joseph lhe fez atender ao último pedido daquele homem que era meu pai... — Grissom usou de todo um tom debochado e de escárnio ao pronunciar a palavra "pai", como se o título agora fosse um insulto. — Assim que me contou a verdade, me pediu perdão, mas... Não consigo perdoar. A conivência dela com Joseph para me afastar de você, Sara... Não tem perdão.

As últimas palavras de Grissom pairaram no ar, carregadas de uma dor tão profunda que me atingiu em cheio. Eu olhei para ele, em choque.

— Eu pensei que o amor dela por você fosse maior que a lealdade dela pelo Joseph. — sussurrei, a voz embargada. — Ela parecia gostar tanto de você.

— Eu também pensava isso — Grissom disse, um sorriso amargo se formando em seus lábios. — Por culpa deles e também pela minha covardia... nós dois sofremos — ele continuou, sua mão ainda segura a minha. — Eu sinto muito pela dor que te causei. E se não for muito pedir... Me perdoa? Não foi porque não quis ficar com você, foi porque não podia.

Eu olhei para nossas mãos unidas sobre a mesa. As palavras de Grissom, "me perdoa", eram um bálsamo para o meu coração ferido, mas a dor da mentira e de tudo que passei para me reerguer do baque do nosso término ainda eram muito fortes. A compaixão que comecei a sentir por Grissom não apagava a mágoa. Não era um jogo de preto ou branco, mas um espectro confuso de cinza.

— Grissom, eu preciso de um tempo para digerir tudo. — A voz mal saiu, a garganta seca. Eu queria me soltar, mas o aperto dele era firme, um pedido mudo para que eu não fosse embora.

— Sara, por favor... — ele implorou, os olhos brilhando pelas lágrimas que ele bravamente segurava. — Volta pra mim. Vamos recomeçar agora que você sabe a verdade.

Eu o encarei, a tristeza dele era palpável, mas a minha ainda era mais forte. A ideia de que ele pensava que uma simples confissão apagaria toda a dor que me causou era quase um insulto. A mão dele, segurando a minha, pedia algo que eu não tinha mais para dar. Eu me soltei do seu toque, o movimento brusco e definitivo, e me levantei.

— Não é tão simples assim, Gilbert — respondi, balançando a cabeça. — Eu entendo o que você fez, eu entendo que você estava com medo, mas isso não apaga a dor que eu senti.

Eu andei até a borda do veleiro, a brisa do rio Hudson me atingindo em cheio, como se quisesse me lembrar que eu estava viva e que havia um mundo além da dor que ele me causou.

— Eu preciso de um tempo, Grissom. Para mim. Para o que eu passei. Para processar tudo isso. — virei-me para ele, que permanecia sentado à mesa, o rosto com um ar triste, o corpo encolhido. A imagem dele, vulnerável e arrependido, era mais perturbadora do que a imagem dele, manipulador e frio. — Eu não posso simplesmente esquecer e voltar com você como se nada tivesse acontecido.

Respirei fundo, sentindo um peso enorme nas minhas costas, o peso do que eu tinha para falar.

— Além do mais, tem o Doug agora na minha vida. Não posso me desfazer dele como quem se desfaz de um objeto.

O ar no veleiro pareceu congelar. A expressão de Grissom, antes de tristeza, agora era de um choque profundo. A ferida que eu causava nele era um reflexo da que ele causou em mim, e, por um momento, a dor dele me atingiu como a minha o atingiu. Mas não era hora de sentir pena.

— Dou? Seu namorado? — A voz dele era de um desgosto visível, o nome dele soando estranho em seus lábios.

— Sim. — Respondi, a voz firme. — Ele me ajudou a superar o que você fez. Ele me mostrou que a felicidade era possível. Eu não posso jogar isso fora por uma confissão tardia.

Grissom me olhou, os olhos azuis cheios de uma dor que era quase palpável. A tristeza dele era genuína, mas eu não podia me deixar levar. O que ele sentia agora foi o que eu senti por meses.

— Você o ama?

A pergunta inesperada, me atingiu como uma flecha certeira. Era a pergunta que eu vinha evitando, até mesmo de mim mesma. Um nó se formou em minha garganta, e o silêncio se estendeu. Grissom, que parecia ler minha indecisão e meu embaraço, logo interveio, quase como um ato de autodefesa.

— Melhor não saber a sua resposta — disse, a voz embargada. — Isso seria a pior coisa de se ouvir.

Aquela frase foi um soco no estômago, um reconhecimento doloroso do quanto ele ainda se importava, e de como a minha felicidade sem ele era uma punição para o seu próprio erro. O ar ficou pesado, e eu precisei respirar fundo para responder.

— Ele é diferente. É mais leve, mais simples. E me faz bem — digo, tentando soar o mais sincera e firme possível. Focar nos fatos, nas qualidades de Doug, era mais fácil do que encarar a intensidade do que sentíamos no passado.

— E eu não! — a voz dele foi baixa, mas cheia de um amargor que se tornou quase palpável. A dor e o ciúme se misturaram, rompendo a fachada de tristeza. — Não suporto pensar em você com mais ninguém — ele murmurou, fechando os olhos como se as palavras lhe ferisse feito uma faca sendo enfiada em seu peito. As lágrimas enfim escorreram por seu rosto, mas ele tratou de enxugar rapidamente, era de uma dor ciumenta e egoísta.

Aquele momento, de vulnerabilidade e raiva, me revelou um Grissom que eu conhecia bem. O Grissom que me amava de forma possessiva, que não me queria com ninguém, mesmo depois de tudo. O amor que ele sentia era tão grande quanto a sua capacidade de destruição, e a revelação de que ele não podia me ter, mas também não me suportava com outro, era a maior prova disso.

— Você não tem esse direito — eu disse, a voz cheia de uma mágoa renovada. — Você me deixou. Não pode querer que eu seja sua e de mais ninguém, se você mesmo abriu mão de mim.

Grissom me olhou, e a dor em seus olhos era imensa.

— Talvez não — resmungou ele. Um silêncio pesado se instalou, até que ele disparou: — O pai do seu filho não implica com o seu namorado?

Franzi a testa pela mudança brusca de assunto.

Não houve tempo para eu responder e desfazer o engano de que John era o pai de Benny. O comandante do veleiro, um homem de feições cansadas, nos interrompeu.

— Senhor, com licença...

Grissom e eu nos viramos ao mesmo tempo, a apreensão dele era palpável.

— O que foi? — perguntou Grissom, a autoridade em sua voz ressurgindo.

— Vamos precisar retornar agora mesmo. Recebi um rádio da marina... A polícia está lá à sua espera. — A revelação foi um choque.

— Polícia? — Grissom e eu dissemos juntos, a incredulidade em nossas vozes combinando.

Encarei Grissom, buscando uma resposta em seus olhos.

— O que você fez para a polícia estar te procurando?

— Que eu me lembre nada de ilegal. — A resposta dele foi rápida e firma. — Volte imediatamente. Quero saber o que a polícia quer atrás de mim.

O veleiro virou lentamente, e o som do motor ecoou pelo rio. O tempo parecia ter acelerado e desacelerado ao mesmo tempo. A distância para a marina, que parecia tão curta na ida, agora era uma eternidade.

Atracamos quinze minutos depois. Descemos do veleiro, e meus olhos imediatamente se fixaram em dois oficiais de polícia, parados ali, à nossa espera. A expressão deles, séria e profissional, não me deu qualquer esperança de que aquilo fosse um engano.

— Gilbert Grissom? — um dos oficiais, um sujeito de ombros largos e olhar impassível, se adiantou, a voz grave cortando o ar.

— Sim, sou eu — ele respondeu, a voz firme e a postura altiva como sempre.

— Sara Sidle? — o mesmo oficial se dirigiu agora a mim, e o meu estômago se revirou. Eu não entendia o que eu tinha a ver com isso.

— Eu mesma — confirmei, a voz falhando um pouco.

O oficial assentiu, e a expressão em seu rosto se tornou ainda mais séria. Ele olhou para o colega, que se aproximou.

— A senhora está bem? — ele perguntou, e a pergunta, direcionada novamente a mim, me deixou ainda mais confusa.

— Estou — respondi, sem entender nada.

— Vocês podem explicar o que estava havendo? — a impaciência na voz de Grissom era gritante.

— Vocês terão que nos acompanhar até a delegacia para prestar esclarecimentos sobre um possível sequestro.

— Sequestro?? De quem?? — eu encarei atônita aos oficiais.

— O seu, senhora Sidle, pelo senhor Grissom.

— Mas que palhaçada é essa, hein? — Grissom se irritou com o que ouviu, a voz carregada de fúria. — Eu não sequestrei a Sara!

— Houve uma denúncia. Então só estamos fazendo nosso trabalho.

— Quem fez essa denúncia? — indaguei, curiosa e confusa. A única que poderia denunciar aquele cretino por algo do tipo, seria eu. E, por mais idiota que ele tenha sido ao me trazer aqui, eu não faria isso, ainda que ele merecesse. Então, quem faria isso?

— Foi uma denuncia anônima. Alguém da sua vizinhança reconheceu o senhor Grissom e viu o momento em que ele lhe colocou à força em um carro. Então ligou para a polícia denunciando um possível sequestro, já que a senhora parecia claramente não concordar em acompanhar o senhor Grissom — resumiu o oficial. — Me acompanhem agora até a delegacia.

Eu olhei para Grisson, o ódio faiscando de seus olhos azuis.

— Isso é ridículo! — A voz de Grissom estava carregada de fúria. — Vocês estão cometendo um erro!

O oficial, com a voz grave e calma, anunciou, ignorando a explosão de Grissom:

— O senhor pode explicar tudo na delegacia. Vamos. — Ele fez um gesto de irmos na frente.

— Vou ligar para o meu advogado. — anunciou Grissom, bufando. Sua mão veio para as minhas costas, me conduzindo. O toque, firme e protetor, era um sinal de que, apesar de tudo, estávamos nisso juntos.

A caminhada até a viatura foi tensa. O som dos nossos passos na madeira da marina ecoava no silêncio da manhã, e a presença dos policiais ao nosso lado era um lembrete constante da situação em que nos encontrávamos. Antes de embarcarmos na viatura, Grissom deu a ordem ao seu motorista de nos seguir. E assim partimos para a delegacia. Minha cabeça dava voltas, tentando entender quem foi a pessoa que ligou para a polícia?

Notas finais
Até o próximo.