After Separation - Livro 2
47 Capítulo XLV
Notas iniciais
Ele estava há uma distância segura, como se o espaço entre nós fosse uma barreira invisível e, de certa forma, sagrada. O ar se tornou denso. O silêncio do estacionamento, o som das nossas respirações, tudo pareceu desaparecer, substituído pelo silêncio opressor daquele reencontro. Eu mantinha a armadura da frieza, mas por dentro, as rachaduras começavam a surgir. Eu não podia desmoronar. Não ali, não na frente dele.
- Você me parece muito bem. — A voz dele ecoou, carregada de um desdém e desagrado que não se deu ao trabalho de esconder. Os olhos dele, antes capazes de me desarmar, agora me analisavam com uma mistura de rancor e um estranho arrependimento. Grissom não estava feliz por me ver bem. A felicidade alheia, para quem causou tanta dor, pode ser uma afronta.
Engoli em seco, sentindo o gosto amargo na boca. As palavras dele eram uma provocação, um anzol para me puxar de volta para o jogo que eu jurei ter abandonado. Mas eu não morderia a isca. Não mais.
- E você parece o mesma. — Retruquei, a voz controlada, mas com uma ponta de veneno. A armadura da frieza estava rachando, mas eu não a deixaria cair. — É incrível como o tempo passa e algumas coisas não mudam.
O olhar de Grissom se contraiu, a tensão em seu rosto se intensificando. Ele queria uma briga, uma discussão, talvez um último capítulo, mas eu não daria a ele esse luxo. Meu filho, meu trabalho, minha nova vida, eram minha prioridade agora. E a minha sanidade dependia de manter o passado enterrado.
Dei um passo para trás, criando mais distância, e me preparei para virar as costas de novo. Eu não precisava provar nada para ele. Minha vida, minha felicidade, não eram um espetáculo para o deleite de quem me abandonou.
- E outras mudam completamente. — ele retruca, azedo. — Você é um ótimo exemplo.
A alfinetada me atinge em cheio, como uma flecha certeira. O tempo em que suas palavras tinham o poder de me esmagar parecia ter voltado, e por um instante, a dor do abandono me sufoca. Mas então, a imagem de Benny, seguro no colo de Lina, preenche minha mente, e a armadura, antes rachada, se solidifica. A nova Sara, a mãe e profissional, era feita de uma fibra diferente.
- É, eu mudei — respondi, o tom agora mais firme e controlado do que nunca. — Descobri que posso e consigo viver muito bem sem você. E pretendo continuar assim.
As palavras, simples e diretas, atingiram Grissom com a força de um soco. A expressão de irritação em seu rosto se transformou em surpresa, e por um instante, o vi sem sua máscara. O mesmo homem que se vendera por poder, agora parecia ter sido desarmado por uma verdade inegável.
- Foi preciso que você me trocasse, que me humilhasse, para que eu me desse conta do meu próprio valor — continuei, sentindo um poder que há muito não sentia. — Você pensou que me destruiria, mas, na verdade, você me libertou.
Virei-me, dando a conversa por terminada. Mas antes que ousasse dar o primeiro passo para deixá-lo sozinho no meio do estacionamento, Grissom segurou meu braço com força, me fazendo virar de volta para ele. Seu toque, tão familiar e ao mesmo tempo tão estranho, causou um arrepio.
- Seria bem mais fácil para você se eu tivesse ficado longe, não é? — A voz dele, agora um fio de aço envenenado, rasgou o ar. O rancor era um animal selvagem em seus olhos, mas, por algum motivo, não me abalei. — Mas eu voltei como disse a você que voltaria assim que o prazo do meu casamento com Maryanne findasse.
A mão de Grissom apertou meu braço com força, como uma brasa incandescente.
- Me solta! — ordenei, mas ele não cedeu. — E você achou que ia me encontrar te esperando com corações e flores? Que ia correr para os seus braços e a gente ia retomar de onde paramos? Ilusão sua achar isso!... Você destruiu tudo que havia de bonito entre nós... Acabou com a gente... E, não satisfeito, acabou comigo! — Minhas palavras saíram carregadas de uma raiva sufocada, um grito que não podia ser calado.
- Acha mesmo que não desejei voltar atrás e consertar as coisas? — Ele cuspiu as palavras, com a voz tão dura quanto a minha. — É claro que sim! Mas não podia colocar...
- Suas explicações não me interessam mais — o interrompi com aspereza e com um puxão consegui livrar meu braço do contato da mão dele.
- Escuta bem, Sara. Voltei disposto a retomar nossa relação. — A voz dele era um sussurro, mas cheio de uma falsa certeza que me revoltou. O mesmo tom que usava para me convencer de qualquer coisa.
- Você acha que é assim, Gilbert? — A raiva finalmente explodiu em minha voz. — Que você volta e eu desfaço a vida que construí para correr para os seus braços? Achou errado, Gilbert Grissom. Eu tenho um namorado agora. Um cara bacana que me valoriza e não me trocaria por nada.
O rosto dele perdeu a cor, a máscara de falsa confiança finalmente desmoronando para revelar a surpresa e a dor genuínas. Ele recuou um passo, como se eu tivesse lhe dado um tapa.
- Eu sei que tem um namorado — sua voz era cortante e sentida. — Eu os vi na frente da sua casa com um bebê. Pela interação é filho de vocês.
Meu coração falhou uma batida. Ele tinha me visto com Benny e Doug. E a tristeza em sua voz ao proferir as palavras "filho de vocês", foi a prova de que Grissom tinha entendido, finalmente, o que havia sido arrancado dele. Não a mim, mas o futuro que poderíamos ter tido. O vazio em seus olhos era a imagem mais clara de como eu me senti no dia em que ele me deixou.
- Quando nos viu?
- Não importa! O que importa é que... eu voltei... por você.
- Voltou por você, Grissom — respondi, com a voz fria como mármore. — Voltou para aliviar sua própria consciência, para ter a certeza de que ainda podia ter o controle sobre mim. Mas eu não sou mais a mesma. Já me despedi daquela Sara.
- Não! Eu voltei disposto a ter você comigo e não vou desistir. Você pode me odiar e com razão... Mas aí dentro... — ele aponta para o lado esquerdo do meu peito. — Eu sei que ainda há amor. Seu ressentimento e o babaca do pai do seu filho não vão ser empecilhos para mim.
Se ele não estivesse sendo tão idiota e prepotente como nesse momento, eu até lhe corrigiria, dizendo que Doug não era o pai do meu filho e sim, que Benny era filho dele também. Mas Grissom estava agindo tão estupidamente que não ousei desmentir o que ele pensava sobre Doug. E também, ali não era local e muito menos, o momento para uma revelação como aquela. O desprezo por Doug em suas palavras, a forma como ele falava da minha nova vida, me impediu de qualquer gentileza.
- Você está demonstrando uma arrogância e prepotência que eu não sabia que podia ter.
- Eu passei um ano de inferno sem você, preso à um casamento de merda. E não vou passar o resto da vida num inferno sem você, Sara. Esse seu namorado não vai ficar com a MINHA MULHER.
- Eu não sou sua propriedade. E você perdeu qualquer direito quando me deixou. Agora, vai embora!
- Sara, está tudo bem?
Me virei e encontrei Finlay acompanhada de DB, ambos revezavam seu olhar curioso de mim para Grissom sem entender nada.
- Sim, está tudo bem — tentei forçar um sorriso, mas a voz me saiu falha. — Este senhor já estava de saída, não é?
Grissom, com o rosto contorcido de ódio e surpresa pela interrupção, encarou as pessoas por um instante. Ele sabia que, com testemunhas, a situação estava perdida. O veneno que transbordava de sua boca agora ficava contido, mas o olhar dizia tudo.
- Eu volto, Sara — ele murmurou, a voz como um fio de aço que prometia uma ameaça.
- Não aqui no meu trabalho — respondo, com um tom firme e seguro.
Grissom lançou um último olhar furioso para mim, depois para DB e Finlay, e virou as costas, seguindo até um carro escuro, onde reconheci Luke postado. A tensão que pairava no ar foi substituída por um silêncio constrangedor assim que ele se foi.
- Quem era aquele? — DB perguntou, os olhos ainda arregalados.
- Um velho conhecido — suspirei, sentindo as pernas bambas. — Vamos entrar. Eu conto para vocês, mas em resumo porque é uma longa história.
Enquanto seguíamos para o elevador, resumi a história para os dois. Falei da nossa relação, de como Grissom me deixou por conta do patrimônio da sua família, da humilhação, da dor. Evitei, por enquanto, o detalhe de que Benny era filho dele. À medida que as portas do elevador se fechavam, a expressão de choque de Finlay e DB se tornou evidente.
- O quê?! — DB exclamou, com o queixo caído. — Ele te deixou pela sua prima? Que tipo de pessoa faz uma coisa dessas?!
Finlay, mais calma, mas com o olhar fixo em mim, perguntou:
- E agora ele volta, depois de tudo, achando que pode te ter de volta?
Chegamos ao nosso andar. O silêncio no corredor só não era mais pesado que a tensão do nosso grupo.
- A arrogância e a prepotência de que eu lhe pertencia me revoltaram. — respondi, enquanto saíamos do elevador. — Por isso... eu disse que tinha um namorado.
- E ele te viu com Doug e Benny — completou Finlay, com uma voz suave. — E pensou que Benny era filho do Doug.
- Sim — assenti, sentindo um arrepio. Eu sabia que a arrogância de Grissom vinha da crença de que eu tinha seguido em frente com outro alguém, enquanto ele chafurdava na sua própria miséria. Era cruel, mas era a verdade. E a verdade completa... era ainda mais cruel. Todavia, eu tinha que contá-la. Por Benny. Não por Grissom e sua arrogância de milhões.
Me despedi dos dois amigos e cada um de nós tomou caminhos distintos na editora. Alguns corredores depois, eu estava diante da mesa da minha assistente. Ela me olhou com um sorriso que se desfez assim que notou a tensão em meu rosto.
- Sar? Aconteceu alguma coisa? — perguntou Morgan, o tom de voz suave e preocupado.
- Encontrei o Grissom no estacionamento da editora — revelei, ainda atônita e tensa com aquele reencontro.
- O quê?! — Ela se levantou de um pulo, a expressão de choque evidente. — Como assim ele estava lá no estacionamento? Estava te esperando?
- Ele estava com a mesma prepotência de sempre, a voz cheia de uma arrogância que eu já conhecia bem, declarando que tinha voltado disposto a me ter de volta — contei a Morgan, a ironia e a raiva se misturando na minha boca. — E quando o interrompi, avisando que agora eu tinha namorado, ele sorriu de forma cínica, um ar de superioridade, dizendo que já sabia de tudo, como se a minha vida fosse um livro aberto em suas mãos.
Um calor de fúria subiu ao meu rosto. Juro que senti ímpetos de dar-lhe um tapa.
- Mas como ele sabia sobre o Doug? — Morgan parecia atônita com a revelação, o rosto contraído de espanto.
- Ele me viu com Doug e Benny, sabe Deus quando, na frente de casa — a voz me falhou por um instante. — E tirou conclusões precipitadas. Achou que Benny fosse filho do Doug.
Morgan me olhou com uma expressão de preocupação profunda. Ela sabia o quanto a mentira que Grissom construiu poderia tomar proporções inimagináveis se não fosse desmentida. A teia de enganos que ele teceu em sua própria mente era perigosa. Mas, em meio a toda a raiva, Morgan me lembrou de algo que eu já sabia no fundo do meu ser:
- E você disse a verdade? — perguntou Morgan, a voz baixa, como se o segredo pudesse ser ouvido.
- Não — respondi, balançando a cabeça, um peso no peito. — Não era a hora. Mas eu tenho que consertar isso. Por Benny. Grissom precisa saber que ele é filho dele.
Morgan me abraçou, um gesto de conforto que me deu a força de que eu precisava. Senti que a decisão, embora assustadora, era a única coisa certa a fazer.
- Eu estou aqui para o que precisar, Sar — disse ela, a voz firme e solidária.
Assenti, sentindo a determinação crescer em meu peito. Era hora de encarar a verdade. De enfrentar Grissom e sua arrogância. E de, finalmente, dar a Benny a chance de conhecer seu pai. A tensão ainda estava ali, pesada, mas a presença de Morgan funcionava como uma âncora. Sorri para ela, grata. Morg era um contraponto perfeito para me tirar do abismo de pensamentos. Sua alegria e espontaneidade sempre me davam um up, especialmente quando as coisas saíam dos eixos.
- Obrigada, Morg — murmurei. — Por tudo.
Ela sorriu de volta, aquele sorriso sincero que sempre acalmava a tempestade em mim.
- Para isso servem as amigos, certo? Agora vamos. Tenho que te atualizar do andamento dos projetos e das fofocas. E já adianto que tenho uma bomba.
Eu assenti, ajeitei os cabelos e segui para a minha sala, com Morgan em meu encalço. Ao me sentar na cadeira, o peso da decisão recém-tomada pesou sobre mim. A adrenalina do confronto com Grissom se misturava com o medo das consequências. Minha vida estava prestes a mudar de novo, e a incerteza me preenchia. Mas, no fundo, uma determinação que nunca havia sentido antes me aquecia. A mulher que Grissom havia deixado para trás, insegura e à mercê de suas manipulações, não existia mais. Eu me tornei uma nova pessoa, mais forte, mais consciente e mais dona de mim. E era hora de Grissom saber disso, de sentir na pele a diferença entre a Sara do passado e a mulher que ele agora enfrentaria.
***
Doug mastigou lentamente um pedaço de bife, o garfo suspenso no ar enquanto tentava processar o que acabara de ouvir. Seus olhos, sempre tão expressivos, estavam fixos em mim, uma mistura de confusão e incômodo.
- Quer dizer que ele voltou? E não perdeu tempo em te procurar? — perguntou ele, a voz baixa, como se o assunto fosse delicado demais para ser discutido em um restaurante movimentado.
- Pois é — respondi, suspirando. A história, contada em voz alta, parecia ainda mais surreal.
Ele largou o garfo no prato, o som metálico ecoando no silêncio entre nós.
- O que sentiu ao estar diante dele?
A pergunta de Doug me pegou desprevenida, e o garfo, a meio caminho da boca, parou. Respirei fundo, a imagem de Grissom reaparecendo vividamente em minha mente. Não era uma emoção única, mas um turbilhão. A raiva pela sua prepotência se misturava à familiaridade de seu olhar, um eco do homem que eu um dia amei. Havia a frustração por ele ter sido tão arrogante, tirado conclusões tão precipitadas e, por trás de tudo, uma pontada de pena por ver a dor em seus olhos, um sinal de que, talvez, a arrogância fosse apenas uma máscara. A falsa certeza com que ele havia se aproximado, a mistura de certeza e vulnerabilidade, me deixou mais confusa do que qualquer outra coisa. Eu não conseguia decifrar o que sentia.
- Não sei explicar, Doug — respondi, com sinceridade. Afastei o garfo, a fome havia sumido. — Foi uma mistura de raiva, de indignação... mas também de uma estranha indiferença. Não me abalou como eu achei que abalaria. E isso, de certa forma, me assustou.
Ele deu um sorriso tranquilo.
- E o que pretende fazer?
- Eu ainda estou tentando processar o que fazer — respondi. — Mas deixei claro que o tempo dele havia acabado. E contei sobre você.
- E como ele reagiu? — a voz de Doug tinha uma pontada de curiosidade e preocupação.
- Ele não reagiu como eu esperava. Disse que já sabia de tudo, como se isso fosse uma carta na manga para me desestabilizar. E, inclusive, já tinha nos visto juntos com Benny em frente a minha casa.
O ar entre nós ficou tenso. Doug juntou as mãos sob o queixo e me encarou confuso.
- Mas como ele sabia sobre mim antes de você contar?
- Grissom tem os meios dele — respondi, com um suspiro pesado, sem querer me aprofundar na psicopatia dele. — Ele acha que Benny é nosso filho. — apontei, primeiro para mim, depois para ele, deixando a realidade bizarra pairar entre nós.
Doug ficou sem palavras. Ele mastigou de novo, pensativo, o silêncio preenchido pelo som dos talheres contra a porcelana.
- Quem dera — ele sussurrou, e eu franzi a testa, o olhar de confusão questionando sua fala. Ele se adiantou, a pergunta séria estampada no rosto. — E como ele foi o comportamento dele por achar que Benny é nosso filho?
- Ele ficou visivelmente incomodado — respondi, lembrando-me do olhar de Grissom. A arrogância se partiu por um instante, revelando algo que se assemelhava a dor. — E eu decidi que na próxima oportunidade, vou contar a verdade para ele. Grissom tem que saber que Benny é filho dele.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Doug não parecia surpreso, mas sim preocupado, e sua próxima frase me atingiu em cheio, como um balde de água fria.
- Claro. Só fico com receio de que, quando ele souber que Benny é dele, queira tirá-lo de você. Porque um homem como ele, influente e com todos os recursos que tem, facilmente conseguiria a guarda dele.
A preocupação de Doug fez um medo profundo e gelado se espalhar por todo o meu corpo. A ideia de perder Benny era insuportável. A possibilidade de Grissom usar sua riqueza e influência contra mim, para obter a guarda do nosso filho, era um fantasma que eu nunca tinha considerado.
- Ele não faria isso — respondi, tentando me convencer.
- Eu espero que não, Sar. E espero mais ainda que, por despeito e arrogância por você ter refeito sua vida comigo, Grissom não queira usar a guarda do Benny como uma moeda de troca. Tirá-lo de você, como forma de você voltar pra ele.
As palavras dele caíram como uma pedra em um poço, fazendo eco na minha mente. A chantagem emocional, a manipulação... tudo isso se encaixava perfeitamente no perfil de Grissom. Ele sempre foi um homem que gosta de ter o controle, que quer ter tudo sob suas mãos, mesmo que isso signifique passar por cima de outras pessoas. O pânico de perder Benny se tornou algo tangível, misturando-se à certeza de que Grissom era capaz de qualquer coisa para conseguir o que queria. A ironia era cruel: a decisão de contar a verdade, que me parecia o caminho para a liberdade, agora se revelava uma armadilha.
Eu olhei para Doug. O pânico que me tomou se transformou em uma raiva fria e calculada. A imagem de Benny sendo arrancado dos meus braços deu lugar a uma determinação feroz. Grissom poderia tentar, mas ele não tiraria meu filho de mim. Eu lutarei por ele e não cederei. A raiva me deu forças para lutar, para ser forte, para proteger o que era meu.
- Ele não vai conseguir — respondi, com a voz firme. — Não vou deixar.
Doug, percebendo a mudança drástica no meu semblante, esticou a mão sobre a mesa e segurou a minha, firme e tranquilizador. Aquele toque, em meio à tempestade de emoções, foi o que me trouxe de volta à realidade.
- Eu estou aqui para o que precisar, Sar — disse ele com carinho. — Nós vamos proteger o Benny, não importa o que aconteça.
Eu assenti, me sentindo um pouco mais segura com seu apoio. A adrenalina e o medo ainda corriam em minhas veias, mas agora tinham uma nova força ao meu lado. Eu não estava mais sozinha. Eu tinha Doug e, juntos, nós enfrentaríamos o que viesse pela frente. A certeza de sua parceria era como uma armadura, e o pensamento de Benny me dava a coragem que eu precisava. O medo ainda estava lá, mas agora, eu tinha a certeza de que não enfrentaria essa batalha sozinha.
***
O reencontro com a realidade do meu filho, depois de toda a estranheza e dor provocadas por Grissom, foi como ser puxada para a superfície após um mergulho profundo. Chegar em casa, naquele finalzinho de tarde, e carregar meu bebê, sentir seu cheiro de lavanda, aveludado e reconfortante, foi revigorante. Ele era meu farol, a âncora que me trazia de volta ao porto seguro do presente.
Apertei Benny contra mim, inalando profundamente o aroma doce e suave que ele exalava. A cada inspiração, as imagens e a amargura daquela conversa se dissipavam, substituídas pela paz que só a presença dele me proporcionava.
Com Benny ainda nos braços, eu olhei para Doug, parado na porta, observando a cena com um sorriso discreto, mas cheio de ternura. Ele compreendia o silêncio, a necessidade daquele momento só meu e de Benny, de mãe e filho, uma purificação simbólica de toda a toxicidade do dia.
Doug se aproximou, estendeu a mão e fez um carinho delicado na cabeça de Benny.
- E aí, cara? Aposto que deve estar morrendo de saudades da mamãe, né?
Benny, com seus olhinhos redondos e cheios de vida, balbuciou algo incompreensível, mas agarrou o dedo de Doug com força. O bebê sorriu para Doug e fez barulhos de bebê, parecendo contente com o carinho.
- Acho que isso foi um "sim" — Doug me olhou e sorrimos.
Um pouco mais ao lado, Lina, a babá, aguardava em um silêncio gentil, que contrastava com a efusividade de Doug. Com Benny ainda aninhado no meu colo, me dirigi a ela, querendo saber como foi o primeiro dia dela cuidando do meu filho.
- E então, Lina? Como foi por aqui? Ele deu muito trabalho? — perguntei, a voz carregada de uma ansiedade.
Lina sorriu, um sorriso genuíno e doce.
- Foi muito tranquilo, Sara. Benny é um bebê maravilhoso. Nós brincamos, ele comeu direitinho, dormiu sem reclamar. O sono dele é leve, mas ele descansa bem. Acho que nos demos muito bem — disse ela, a calma em sua voz.
Eu suspirei, e o alívio que senti foi palpável, um peso se dissipando dos meus ombros. Após passar Benny para os braços de Doug, acompanhei Lina até a porta, agradecendo mais uma vez por sua paciência e cuidado. Quando o som da porta se fechando ecoou pela casa, o silêncio pela primeira vez em muito tempo, não me pareceu pesado, mas sim um refúgio. Voltei para perto de Doug que estava sentado no sofá, com Benny ainda no colo. Os dois estavam embalados em uma sintonia só deles.
- Acho que ele gosta muito de você — eu disse, sentando-me ao lado deles e apoiando a cabeça no ombro de Doug.
Ele sorriu, a mão acariciando as costas de Benny.
- A gente se dá super bem. Ele é um carinha legal — brincou Doug, a voz suave e aconchegante.
Horas mais tarde, com Benny dormindo tranquilamente no carrinho e Doug e eu acomodados no sofá, a conversa fluía suavemente. O caos do dia já parecia distante. Foi então que a campainha tocou, quebrando a serenidade.
- Deve ser a pizza — comentei, sem surpresa. Havíamos feito o pedido há quase uma hora.
- Eu pego — Doug se levantou, já com a carteira em mãos para pagar.
Ele se dirigiu à porta, e eu me aconcheguei mais no sofá, ouvindo o som da porta de entrada se abrindo. Segundos depois, ouvi Doug resmungar algo em um tom de voz mais irritado, e a resposta que veio em seguida, em alto e bom som, me fez arrepiar.
- Não te interessa quem sou. Sai da frente! Vim falar com a dona da casa. — Uma batida seca e oca da porta de entrada ecoou pela sala, mas a batida foi diferente, como se alguém tivesse se chocado com ela.
A voz era inconfundível. A grosseria, idem. Uma familiaridade que me fez levantar rapidamente do sofá.
- Não pode ser... — sussurrei para mim mesma, o coração disparado.
A figura de Grissom surgiu na sala, a expressão impassível e os olhos fixos em mim. A caixa de pizza, estranhamente, estava na mão dele, pendurada como um troféu macabro.
- Como você... — comecei, mas a pergunta morreu na minha garganta. O choque era grande demais.
Doug me olhou, os olhos arregalados de espanto e perplexidade, antes de desviar o olhar para Grissom. Ele estava visivelmente chocado, a carteira ainda na mão, inútil diante daquela situação surreal. A caixa de pizza, agora um objeto de escárnio, foi depositada na mesa de centro, e o cheiro de comida se misturou ao ar tenso da sala.
- Boa noite, Sara! Encontrei o entregador quando descia do carro — ele explicou, o tom seco.
- O que faz aqui?
Meu coração disparado, a adrenalina correndo pelas veias, eu dei um passo à frente, protetora.
- Primeiro... Quem é esse cara? — ignorando solenemente minha pergunta, Grissom questionou, os olhos faiscando de raiva, o polegar apontado para onde Doug estava, um misto de repulsa e desprezo em seu gesto.
- "Esse cara" tem nome — Doug se antecipou a mim na resposta, a voz firme e controlada. Ele deu alguns passos, parando não muito longe de Grissom. — Me chamo Doug, sou namorado da Sara.
Vi Grissom dar um passo para trás, o semblante confuso, como se a revelação tivesse sido um soco. A reação dele me chamou a atenção, já que ele havia dito que sabia sobre o meu namorado. Se sabia, não deveria ter essa reação, essa expressão de choque.
- Namorado? — ele me encarou, os olhos faiscando de raiva. — Não foi esse cara que vi com você ontem de manhã, na frente da sua casa, quando vinha chegando de carro.
Na hora, me recordei do veículo escuro que passou chutado quando John e eu estávamos nos preparando para levar Benny ao Central Park.
- Era você no carro escuro — afirmei, a ficha finalmente caindo.
- Eu achei que o sujeito de ontem fosse seu namorado — ele admitiu, visivelmente desconsertado com a descoberta. A informação parecia desmantelar sua teoria, mas ele não se deixou abalar por muito tempo. Seus olhos se endureceram novamente.
- Quem estava com você ontem? — Doug me lançou um olhar confuso.
- O John — contei. — Grissom, vai embora! — me dirigi a ele. Sei que tenho algo pendente para contar, mas naquele estado em que ele está, não me parecia o melhor. Sem contar que ainda havia o medo de que, com a revelação de que Benny é seu filho, ele tomasse a atitude que Doug comentou no almoço: querer tirar Benny de mim.
- Não sem antes... Te dizer que não irei desistir de você, mesmo que esteja com esse babaca — ele declarou, a voz carregada de uma determinação e raiva.
- Babaca é você! — Doug insultou de volta.
- Doug, não! — o puxei de perto de Grissom.
Ele o encarou, o cenho sério denunciando sua pose protetora.
- Quem pensa que é? — a pergunta carregada de cautela.
A resposta de Grissom veio rápida e afiada como uma lâmina.
- Sou Gilbert Grissom, o amor da vida dela — Grissom respondeu com uma arrogância gelada, a voz ganhando um tom superior que fez meu sangue gelar. — Você é só a perda de tempo dela. Um substituto, esquentando o meu lugar.
- Grissom! — O chamado escapou da minha garganta, uma mistura de medo e raiva. A situação fugia do meu controle, a sua arrogância era insuportável. Ele não veio conversar. Veio marcar território.
Doug, no entanto, não se intimidou.
- O seu lugar foi perdido, Grissom — ele rebateu, a voz de aço, sem espaço para réplica. — Você não tem mais lugar na vida da Sara. E agora, vai embora.
O rosto de Grissom se contraiu em uma máscara de ódio puro. A presença firme de Doug era um obstáculo que ele não esperava, e a raiva dele se voltou contra Doug.
- Eu vou voltar — sussurrou, a ameaça pesando no ar, antes de se virar e bater a porta com uma força que fez a casa tremer.
Meu coração deu um salto, e corri para o carrinho. Benny se moveu levemente, mas, para meu alívio, continuou a dormir, alheio ao furacão que havia acabado de passar por aqui.
- Esse senhor é um completa descompensado — comentou Doug, a voz ainda tensa, mas agora com um tom de alívio.
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