Notas iniciais
N/A: Salve, salve, meus amores! E cá estamos com o mais aguardado capítulo desde que houve o rompimento deles lá na primeira história: One Night. Acho que mais ansiosas que vocês com esse capítulo, estou eu, porque este capítulo marca uma nova fase da fic. Então simbora. Boa leitura.

Três meses depois...

Munique, Alemanha...

— Você conseguiu, Gil!

A voz de Joshua soou como a libertação de um peso invisível, que eu carregava na alma há meses. O sorriso que se espalhava em meu rosto era mais do que uma expressão de alívio; era a prova concreta de uma batalha vencida. O telefone, agora silencioso e descartado sobre a mesa, parecia um troféu por si só, e a boa-nova ainda zumbia em meus ouvidos, como um eco insistente de sucesso.

— Consegui! — repeti, ainda digerindo a notícia, sentindo o peso das palavras. — Precisamos comemorar isso. — anunciei, a voz ainda com um leve tremor de descrença e triunfo.

Joshua assentiu, mas não antes que um sorriso discreto e cúmplice despontasse em seus lábios. Ele caminhou até o bar, um refúgio de mogno e vidro que refletia o sucesso que agora eu podia chamar de meu. Com a familiaridade de quem compartilhou vitórias e derrotas ao longo desse curto, mas intenso período como meu advogado, ele pegou uma garrafa do meu uísque favorito. Ele sabia que, para mim, o momento requeria algo além do comum. O uísque, com sua complexidade e elegância, era o brinde perfeito para a ocasião.

Ele encheu os dois copos com precisão. O meu, sem gelo, como eu gostava. O dele, com duas pedras de gelo que tilintaram suavemente, quebrando o silêncio da sala. Nossos olhares se cruzaram no momento em que ele me estendeu o copo, uma troca de gratidão e reconhecimento.

— À sua persistência — Joshua ergueu o copo, e o tilintar suave do nosso brinde selou a vitória que eu havia perseguido por meses.

O primeiro gole do uísque foi uma explosão de sabor. O calor suave se espalhou pelo meu peito, um bálsamo para a tensão acumulada. Notas de caramelo, baunilha e especiarias dançaram na minha boca, enquanto o carvalho tostado do envelhecimento trazia uma complexidade elegante. Era uma doçura robusta, o sabor líquido do triunfo.

Depois do brinde, a formalidade desapareceu. Joshua, que sempre mantivera a postura profissional, colocou o copo de lado. Sem hesitar, ele me abraçou com a força de um amigo que testemunhou todo o meu sofrimento. Foi um abraço apertado, carregado de alívio e reconhecimento, que transmitiu tudo o que as palavras não conseguiam dizer

— Foram meses de uma insistência desmedida e incessante — murmurei, ainda inebriado pela emoção.

— Incontáveis rejeições do sujeito em sequer me atender para ouvir a sua proposta — Joshua completou, a voz suave, mas com um toque de alívio por trás.

Lembrei-me das semanas em que Joshua tentou, incansavelmente, furar o bloqueio imposto pelo proprietário. A frieza com que ele nos ignorava era quase palpável, uma barreira de gelo que parecia intransponível. A frustração me corroía, mas, finalmente, na semana passada, Joshua conseguiu o encontro que mudou tudo. As horas daquela reunião voltaram à minha mente em um filme em alta velocidade, as imagens desfocadas e cheias de tensão. Eu, me esforçando ao máximo, tentando convencer aquele homem de que não se tratava apenas de negócios. Para mim, a aquisição daquelas ações era algo muito maior, com um propósito que o dinheiro jamais poderia comprar.

— Me diga essa razão, então, e vejamos se me convence de que não é apenas um investimento com fins de retorno financeiro, senhor Grissom. — A voz do sujeito, pesada de ceticismo, soou como um ultimato. Ele se recostou em sua poltrona de couro, um trono de poder e cinismo, e seus olhos, que já tinham desvendado inúmeros blefes, me observaram com uma curiosidade fria.

Respirei fundo, o ar parecendo mais pesado na sala. Reuni a coragem necessária para expor uma verdade tão íntima naquele ambiente de negócios impessoal.

— É por amor, senhor — confessei, e a palavra, solta no ar, fez o luxuoso escritório parecer estranhamente mais frio. A menção de algo tão humano e frágil em um ambiente de números e balanços era quase chocante, mas para mim, era a única verdade possível.

Ele esboçou um sorriso, mas era um sorriso de descrença, que não chegava aos olhos. O cinismo era sua armadura, polida por anos de negociações difíceis. Aquela simples palavra não seria o suficiente para penetrá-la.

— Amor? Essa foi a razão mais descabida que alguém me deu. Invente outra. Sua história não me convenceu em nada. A minha editora não é negociada com base em contos de fadas, senhor Grissom.

As palavras, duras e frias, poderiam ter me desarmado, mas a indiferença dele me impulsionou. Minha voz, antes vacilante, ganhou uma força que eu mesmo não esperava. Não era apenas um negócio, era a concretização de um sonho, um futuro. A imagem de Sara surgiu em minha mente, tão vívida que por um instante pareceu que ela estava ali, ao meu lado. A presença dela me deu a coragem que eu precisava.

— Mas é a verdade — insisti, olhando-o nos olhos, expondo a ferida. — Quero as suas ações por amor a uma pessoa. Ela é uma mulher incrível. O amor da minha vida.

Sem que percebesse, um sorriso bobo surgiu em meu rosto, desenhado pela simples menção de Sara. A imagem dela se pintou em minha mente: o cabelo caindo sobre o rosto enquanto se concentrava em um manuscrito, a paixão que dedicava a cada palavra, o brilho em seus olhos quando falava de trabalho.

— Ela trabalha em sua editora — retomei a fala, minha voz agora carregada de uma ternura que eu raramente permitia em ambientes profissionais. — E quero, no futuro, me casar com ela. Mas sei que a tarefa será árdua, porque eu a magoei muito, senhor. — Uma pontada aguda em meu peito me fez lembrar a forma horrível como fui obrigado a pôr um ponto final em nossa história. — Porém, farei de tudo para reverter a situação e tê-la de volta. — A tristeza momentânea se dissolveu na esperança e na convicção. O amor, eu sabia, falaria mais alto do que a mágoa. — Eu vou me casar com ela. E darei de presente de casamento essas ações. Quero que a empresa para a qual, imagino, ela se dedica de corpo e alma, se torne o seu futuro, o legado que construirá com o seu trabalho. Não é um investimento com fins financeiros para mim, é o maior investimento que já fiz pelo meu futuro e pelo futuro da mulher que eu amo, senhor — concluí, a emoção transbordando em minha voz.

O magnata me encarou por um longo tempo, e o ceticismo em seu rosto deu lugar, aos poucos, a uma expressão pensativa e até um pouco atordoada. Ele viu além dos números e dos contratos frios; ele viu a paixão e a dedicação que eu tinha por uma mulher, por um futuro. Aquele homem, que havia construído um império sobre as bases pragmáticas do mercado, talvez tenha sido tocado por algo que não podia ser quantificado, algo que não cabia em planilhas.

E, a julgar pela ligação que recebi há pouco, na qual ele me informou que me venderia os 51% das ações da BoB, ele compreendeu que os investimentos mais importantes não podem ser calculados. Aquele negócio não foi selado pela ambição, mas pelo amor. A Editora BoB, agora, tinha um novo propósito. Era o primeiro passo para reescrever uma história interrompida, um presente para a mulher que, no meu coração, já era minha. E, para ele, o magnata, foi a prova de que, mesmo em um mundo de negócios frios e calculistas, ainda havia espaço para histórias que valiam mais que qualquer retorno financeiro.

— E agora? — a voz de Joshua, ainda misturada com a euforia da vitória, cortou a lembrança. Ele parecia mais ansioso pelo próximo passo do que eu.

Meu sorriso, que se tornara permanente, era de pura felicidade.

— Agora, é assinar o contrato, na semana que vem. — respondi a Joshua, a voz carregada de uma felicidade que se tornou uma emoção constante. — Providencie todos os papéis. Quero que tudo esteja impecável para a assinatura.

O magnata que me vendeu a BoB havia instruído que eu preparasse a documentação com meu advogado. A partir da próxima semana, eu seria sócio majoritário da editora.

— Com certeza. — A empolgação de Joshua era contagiante. — Falando em papéis, os do divórcio já foram levados para a corte. E o da guarda do seu filho também. Segunda-feira sai a data da audiência.

— Ótimo. — Um suspiro de alívio escapou de mim, e a palavra soou como uma libertação. — Não vejo a hora de esse divórcio sair.

A espera, que antes parecia uma eternidade, estava a um passo do fim. O divórcio não era apenas a formalização de um rompimento, mas a libertação de uma prisão silenciosa. A liberdade de me desvencilhar de um casamento sem amor, de tomar minhas próprias decisões sem o peso da culpa, de ser o único dono do meu destino. Aquele divórcio representava o fim de uma era e o início de uma nova, uma em que eu, finalmente, poderia buscar a felicidade com quem realmente amava.

Eu me dedicaria plenamente a reconquistar o amor da minha vida e a reescrever minha história, ao lado das duas pessoas mais importantes: Sara, o meu amor, e William, meu filho. Com a aquisição da editora, o futuro parecia mais brilhante do que nunca. A liberdade estava a um passo de se tornar completa, e eu mal podia esperar para abraçá-la. Era o sabor da vitória em dose dupla: a conquista nos negócios e a chance de recomeçar a vida pessoal.

— Sorte a sua que Maryanne aceitou o divórcio amigável e cedeu a guarda do filho sem resistência. Caso contrário, teríamos uma batalha árdua no tribunal — observou Joshua, balançando a cabeça.

Eu sorri, tomando o restante do uísque em um gole só.

— Maryanne sabe muito bem que perderia. Ela jamais brigaria por William. Na verdade, para ela, é um favor que lhe faço ficar com a guarda dele. Acredite, meu filho, com aquela fútil, seria negligenciado, Joshua.

Maryanne não tinha instinto materno. A maternidade foi um acidente, um descuido. No fundo, ela sabia que o amor e a estabilidade que William precisava só eu poderia oferecer. Eu a encurralara por um motivo maior: o bem-estar do meu filho. O divórcio, a editora, a reconquista de Sara... tudo isso não era apenas a minha vitória. Era a garantia de um futuro melhor para Will.

***

Nova York, EUA...

Uma semana depois...

As primeiras horas da manhã filtravam-se pela janela, pintando o quarto em tons suaves de dourado e cinza. Com um sorriso que iluminava todo o meu rosto, eu segurava Benny, nos braços. Aos três meses, ele era um pequeno novelo de alegria, e hoje seria seu primeiro passeio no Central Park.

— Quem vai conhecer o grande Central Park? — sussurei, enquanto o aninhava sobre a cômoda, pegando um macacão macio e azul bebê.

Benny, sentindo a mudança de posição, começou a movimentar as pernas de forma desordenada. Ele não conseguia formar palavras, mas expressava sua felicidade através de um conjunto de sons adoráveis. Os primeiros murmúrios soaram no ambiente, seguidos por balbucios e gorgolejos animados.

— Que tal este macacão? — perguntei, estendendo a peça. O tecido macio parecia perfeito para a nossa aventura.

Meu pequeno Benny reagiu com um som animado, balançando os bracinhos. Fiz uma cara engraçada, inflando as bochechas, o que o fez rir ainda mais, uma risada clara e contagiante que preencheu o quarto.

Enquanto eu abotoava o macacão, os sons de felicidade dele eram a trilha sonora perfeita.

— Ah, não, espertinho — murmurei, fingindo cócegas que o fizeram se contorcer de rir. Com delicadeza, penteei seus cabelos finos. — Agora está pronto para a nossa aventura — anunciei, beijando sua testa com ternura.

Ouço o celular tocar bem ao lado da cômoda. Estico o braço e o apanho. Na tela, o nome e a foto de Doug.

— Oi. Já tá vindo? — indago, mantendo o celular preso entre a orelha e o ombro enquanto faço caretas engraçadas para Benny, que se desmancha em risos.

— Infelizmente, não vai dar pra eu ir com vocês ao Central Park, Sar — sua voz soa frustrada.

— Por que? Aconteceu alguma coisa? — pergunto, com um tom de preocupação na voz. O sorriso de Benny some em virtude da minha pausa nas caretas. O bebê então resmunga enquanto me observa, como se entendesse a tensão no ar.

— Vou ter que resolver uma situação com um amigo. E como é assunto sério, talvez eu demore. Provavelmente não dê tempo nem de encontrar vocês no Central Park — a voz de Doug soa hesitante.

— Ah... que pena! — lamento, a decepção evidente. Viro o rosto para Benny, que me olha com os olhos curiosos. — Então, seremos eu e o gostosão. — sorrio para Benny e faço uma careta. Graças aos céus e a tanto eu ter pegado no pé de Dayse, ela desistiu do apelido horrível que tinha colocado em Benny e agora ele é o "gostosão". Ainda que não me agrade tanto, este apelido por me remeter ao apelido que Dayse fez associação: o de Grissom, que ela mesma deu também de Sr. Gostoso. Ainda era menos pior que "pirocudinho".

— Sar, depois a gente conversa, tá? Preciso ir. — A voz de Doug, mais pesada que o normal, me tira dos meus devaneios. A hesitação em seu tom faz um pequeno alarme soar na minha cabeça.

— Tudo bem, Doug. Se cuida. — desligo a chamada, guardando o celular no bolso da calça e pego Benny no colo. Beijo sua bochecha fofinha, e ele solta uma risadinha. — A manhã no parque vai ser só nossa, filho.

Saio do quarto e rumo para a sala, onde mais cedo havia deixado o carrinho de Benny juntamente com suas coisas, ajeitadas para nossa aventura.

Enquanto o ajeitava, a fala de Doug ecoava em minha mente: 'Resolver uma situação com um amigo'... Aquela frase vaga, somada à voz hesitante, me deixava com uma pulga atrás da orelha. A insistência em afastar essa preocupação era inútil, como tentar ignorar um formigamento constante.

A alça da bolsa, pesada com fraldas, mamadeiras e o 'kit de sobrevivência' de uma mãe, atravessava meu ombro. Com meu bebê confortavelmente aninhado em um braço, a outra mão empurrava o carrinho. Um malabarismo que eu já dominava. Enquanto seguia para a porta, a inquietação com a conversa de Doug me deixava um gosto amargo. Algo não parecia certo.

Assim que a abri, levei um susto. Na soleira, parado, estava John.

— John?! Que surpresa! — A alegria se misturou ao choque na minha voz. Faz meses que não o via pessoalmente. Sempre ocupado com sua rede de hotéis, nossa comunicação se resumia a videochamadas e mensagens de texto. Mas vê-lo ali, em carne e osso, era um alívio.

— Ué, estão de saída? — ele perguntou, o olhar atento.

— Sim. Vou levar esse rapazinho para o primeiro passeio no Central Park. — respondi par John, enquanto trocávamos beijos no rosto. A sensação de ter um velho amigo ali, tão perto, era acolhedora.

— Puxa vida! Eu vim visitar vocês! Cheguei ontem do México. Mas já que estão de saída... — a surpresa era visível em sua voz e em seu rosto.

— Se quiser vir conosco, sem problema. — ofereci, interrompendo sua fala e genuinamente feliz com a possibilidade. A ideia de ter John por perto, especialmente naquele dia, era um alívio, um contraponto à tensão que Doug havia deixado. — Ficaríamos felizes com a sua companhia, né, Benny? — encaro meu bebê que parece entretido com a mão na boca.

— Se é assim, então aceito o convite, óbvio. — John diz com um sorriso enorme, e eu retribuo, grata. — Doido pra saber as novidades sobre esse garotão. — ele afaga o rosto do meu bebê, e Benny se encolhe no meu colo, como se sentisse a invasão.

— Então vamos nessa?

Bati a porta de casa, e John, gentilmente, pegou a bolsa do bebê para me ajudar a descer o carrinho. Descemos os lances da escada com a cautela de quem tem pressa, e, no momento de ajeitar Benny no carrinho, me recordo de um detalhe. A minha carteira! Tinha ficado no quarto.

— Segura o Benny um instante? Esqueci a carteira.

— Claro. Me dá esse garotão aqui. — John pegou o bebê com um sorriso fácil.

Subi e desci em tempo recorde. Voltei para a calçada e o susto me fez prender o ar. John, rindo, jogava Benny para cima, e o bebê gargalhava com a brincadeira.

— John! Para com isso, seu maluco! — Dei um tapa de leve em seu braço, mais por instinto do que por raiva.

— Ele estava curtindo, Sar! — defendeu-se, rindo.

— Por que vocês, homens, têm essa mania de brincadeiras sem noção com bebês?

Nossa conversa foi interrompida por um carro que passou voando, cantando pneu.

— Tá louco?! — John gritou para o carro, que já se perdia na esquina. — É cada um que ganha carteira...

— Nem me fale. — balancei a cabeça.

Passado o susto, acomodei Benny no carrinho. O bebê sorriu para John, um sorriso sem dentes que iluminou a manhã. Saímos os três, e a brisa daquele dia de verão nos agraciava, trazendo consigo o cheiro de flores e o som abafado da cidade. O sol brilhava intensamente no céu azul, pintando um cenário de paz que me fez esquecer por completo o susto com o carro desconhecido.

A conversa com John fluía com leveza. Ele me contava as novidades sobre sua rede de hotéis e a vida agitada, enquanto caminhávamos em direção ao Central Park. Ele parecia genuinamente empolgado com Benny, fazendo caretas e rindo das reações do bebê, que o olhava fixamente. Ao chegar ao parque, os raios de sol filtravam entre as árvores, iluminando as folhas e a grama verde. Nos sentamos em um banco, observando o movimento.

Por um bom tempo, nos perdemos em conversas e risadas. Benny, em seu carrinho, observava o mundo com a curiosidade e o deslumbramento de quem o descobre pela primeira vez. Seus pequenos olhos azuis se moviam de um lado para o outro, acompanhando as pessoas que passavam, os cães que corriam e as folhas que se moviam com o vento. Era um quadro de paz e simplicidade, um bálsamo para as preocupações que eu tinha tentado afastar.

— E quando você volta para o trabalho? — Joãhn indagou, quando a pauta da conversa migrou para o meu trabalho enquanto apreciávamos nossos sorvetes para aplacar o calor que, a essa altura, fazia.

— Amanhã. — respondi, sentindo uma careta se formar no meu rosto. A palavra, que antes soava como triunfo, agora era um fardo. Só de pensar em voltar e deixar Benny em casa aos cuidados de uma babá, meu coração já se apertava. Os últimos três meses, dedicados integralmente a ele, tinham me desacostumado de uma forma dolorosa. Aquela licença, que parecia ter durado uma eternidade e um piscar de olhos ao mesmo tempo, havia me tornado mal acostumada. Mal acostumada a ter meu bebê por perto, a desfrutar de cada risada e de cada descoberta.

— Ah, amanhã já? — John perguntou, e mesmo sem saber o motivo da minha tristeza, a voz dele soou mais suave.

Assenti, enquanto Benny estendia uma mãozinha para pegar um pouco do meu sorvete, e eu o impedi gentilmente. Aquele gesto simples me fez sentir um calor no peito, mas também um aperto no coração. A alegria do momento contrastava com a angústia de saber que, no dia seguinte, a rotina fria do mundo corporativo me chamaria de volta.

— E esse carinha, vai ficar com quem? — John indagou, e nós dois encaramos Benny, que observava o mundo do carrinho com olhos curiosos.

— Contratei uma babá para cuidar dele — respondi, o peso da decisão ainda me incomoda. — Não queria, mas não tinha outra opção.

— Mas você se certificou de que ela é boa o suficiente? — A pergunta de John vinha carregada de cuidado.

— Com certeza. A empresa que contratei é muito rigorosa na seleção.

— Ah, bom. Porque se ela fizer qualquer coisa com esse carinha, eu faço picadinho dela. — John brincou, mas havia um tom de seriedade na ameaça.

— Você, a Dayse, o tio dele, o Doug, o Owen, a Morgan... — enumerei, rindo. — E um monte de outras pessoas que já me disseram a mesma coisa.

A simples menção me fez sorrir. Meu filho tinha uma rede de proteção gigantesca, um exército de pessoas prontas para defendê-lo. Era gente de sobra que o protegia.

— Faltou mencionar o pai dele. — A fala de John me atingiu em cheio. Ele havia brincado e conversado sobre tudo, mas o tom hesitante e o cuidado com que me lançou tais palavras me alertou. Ele se inclinou na minha direção, o som do parque se esvaindo um pouco enquanto sussurrava a pergunta: — Grissom já sabe da existência do Benny?

O sorriso em meu rosto desapareceu. A menção de Grissom, depois de todo esse tempo, ainda era capaz de me desarmar. Eu encarei meu amigo, a alegria que sentia há segundos se esvaindo.

— Não. Ele ainda não sabe.

A perspectiva de contar para Grissom sobre Benny me apavorava. Por vezes, disquei o número dele, a coragem se esvaindo a cada toque, até que o bom senso me alertava: uma notícia assim não se dá por telefone. Eu sabia que uma hora ele voltaria, Lewis em sua última visita lá em casa para ver Benny, comentou que o divórcio de seu irmão com Maryanne já iria sair, portanto era questão de tempo para Grissom aparecer. Eu tinha que esperar e me preparar. Mas a verdade é que eu estava procrastinando, me escondendo atrás de uma desculpa.

— Mas vou contar... Quando ele aparecer.

A hesitação na minha voz não passou despercebida por John. Ele sabia que o medo era maior do que a minha coragem, e o silêncio entre nós se tornou pesado. O parque, que antes era um refúgio de paz, agora parecia ter testemunhado um segredo doloroso. E a certeza de que Grissom voltaria se misturava ao meu medo, criando uma ansiedade que eu não conseguia mais ignorar.

***

Enquanto me arrumava para ir trabalhar diante do espelho naquela manhã, a imagem que me encarava era a de uma mulher dividida. Os três meses de licença-maternidade haviam redefinido cada curva do meu corpo e cada traço do meu rosto, mas a mudança mais profunda estava em meu olhar, que agora carregava uma mistura de expectativa e de um medo quase palpável. Em breve, voltaria para a editora, e a transição se apresentava complexa, emocionalmente carregada.

De um lado, a expectativa. O mundo editorial me chamava de volta com a promessa de resgatar a identidade profissional que, por um tempo, ficou em segundo plano. Anseio por mergulhar novamente nas palavras, nas histórias, e na rotina intelectual que tanto amo. Voltar a discutir projetos, a me conectar com os colegas e a usar habilidades que estavam adormecidas sob a demanda incessante de um recém-nascido, parecia um reencontro com uma parte essencial de mim mesma. A editora, com seus cheiros de papel e tinta, me esperava como um refúgio intelectual, um lugar para exercitar o cérebro de uma forma diferente da maternidade.

Contudo, essa expectativa era acompanhada de um profundo receio. A imagem do meu bebê, tão pequeno e dependente, invadia meus pensamentos. A separação era iminente, e a culpa materna, um peso silencioso, começava a se instalar. A questão não era só sobre deixar meu filho, mas sobre confiá-lo a partir de hoje aos cuidados de uma babá, uma pessoa que, por mais qualificada que fosse, nunca seria eu.

Mas, naquele momento, diante do espelho, a jornada parecia longa e incerta. A prova de força não era apenas para o mundo exterior, mas principalmente para mim mesma, uma batalha silenciosa contra a culpa e o medo. Eu precisava de toda a resiliência para conciliar essas duas faces da minha nova e mais complexa identidade, e me lembrei que o equilíbrio não seria estático, mas sim uma dança constante entre altos e baixos.

A cada peça de roupa que vestia, vinham à tona lembranças dos últimos três meses: as madrugadas de amamentação, a pele macia do meu bebê contra a minha, os pequenos sorrisos que valiam mais que qualquer manuscrito. Mas também me recordava da mulher que era antes, da paixão que me movia e da carreira que vinha construindo com tanto esforço. E sabia, no fundo, que ser uma mãe realizada também significava ser uma profissional completa.

O vestido, antes guardado para ocasiões especiais, agora era o uniforme de uma nova fase, símbolo da necessidade de flexibilidade mental para ajustar os planos e lidar com os imprevistos que viriam. Ao olhar para o espelho, não via apenas o reflexo de uma mãe ou de uma editora, mas a imagem de uma mulher completa, com todas as suas contradições e fortalezas. A jornada seria desafiadora, com certeza, mas eu me vestia para ela, pronta para escrever não apenas a história dos outros, mas também a minha, com todos os seus capítulos de amor, trabalho e, acima de tudo, resiliência.

Meia hora depois, estou na sala, a babá havia chego. Meu peito aperta um pouco ao ter Benny no colo, e o seu cheiro que tanto inalei nos últimos meses parece mais intenso hoje. Envolvo meu bebê com o meu abraço, apertado e carinhoso, e beijo sua testa, sabendo que esse beijo precisa durar até a noite. Ele me olha com seus olhinhos curiosos, que não entendem a roupa formal que estou vestindo. Para ele, tudo é novidade, e eu quero que continue assim.

Olho para a babá, uma mulher gentil e calma, e busco um conforto em sua presença. Entrego Benny com um misto de confiança e a dor de uma despedida, mas sei que ele ficará bem. Contudo, a incerteza ainda era uma sombra. Afinal, a rotina de três meses com o nosso universo particular, onde cada um dos seus pequenos sons e gestos era um segredo compartilhado entre nós, seria substituída por uma nova dinâmica.

— Prometo que voltarei assim que o sol estiver se pondo, ansiosa para te encher de beijos — sussurro, segurando sua mãozinha com cuidado. Ele me sorri, e naquele instante, o mundo parece diminuir e se resumir a nós dois. — Fica com a babá, meu amor. A mamãe vai trabalhar, mas o meu coração, hoje, fica aqui, com você — digo, beijando sua testa mais uma vez.

Então, me dirijo a Lina, a babá, sentindo a necessidade de reafirmar o que já havia sido dito.

— Qualquer coisa, deixei meu contato pregado na porta da geladeira. Tem o meu, do meu assistente, do meu namorado e do meu trabalho.

Lina, acostumada com a ansiedade de mães de primeira viagem, me oferece um sorriso tranquilizador.

— Fique tranquila, que nada de errado vai acontecer — ela garante. Suas palavras são um bálsamo, mas a preocupação ainda lateja em meu peito.

Com um último olhar para Benny, que agora segurava o dedo de Lina, firme e confiante, me viro e sigo em direção à porta. O ar fresco da manhã me atinge na rua, e o som da cidade me lembra que o mundo continuou girando, mesmo quando o meu parou por três meses. Com o coração dividido, mas com a mente focada no futuro, dirijo para o trabalho, prometendo a mim mesma e a Benny que a história do nosso amor continuaria sendo o meu melhor e mais importante projeto.

***

Estacionei o carro na primeira vaga que encontrei livre. Apanhei a bolsa, o celular e, antes de abrir a porta, respirei fundo, num esforço consciente para acalmar o tumulto dentro de mim. Em poucos minutos, estaria subindo o prédio da editora, de volta à rotina de manuscritos, prazos e reuniões. A sensação era uma mistura estranha e complexa de ansiedade e nervosismo.

A ansiedade, aquela velha conhecida, se manifestava como um peso no peito, uma preocupação difusa sobre o que me esperava. Seria eu a mesma profissional? As ideias viriam com a mesma fluidez? A editora teria me esquecido? Três meses, para a mente acelerada de um bebê, é uma eternidade. No universo corporativo, pode parecer um piscar de olhos, mas a ausência cria lacunas, e eu temia as que a minha teria deixado.

O nervosismo, por sua vez, era mais pontual e excitante. Era a inquietação por estar prestes a retomar algo que amo, a vibração de voltar a um mundo que me completa intelectualmente. Senti uma faísca de energia percorrer meu corpo, uma vontade de provar a mim mesma que a maternidade não diminuiu minha capacidade, mas a aprimorou.

Com um último suspiro, misto de receio e esperança, agarrei a bolsa com mais firmeza, abri a porta do carro e dei o primeiro passo em direção ao meu novo normal, pronta para enfrentar o que viesse pela frente.

Alguns passos após me afastar do carro, com o coração ainda dividido entre a sala de estar e o mundo exterior, ouço meu nome ser dito de forma seca e imponente.

— Sara!

A pele arrepia. O corpo, que há minutos se preparava para a rotina da editora, estagna no piso acimentado do estacionamento. Um gatilho é puxado na minha mente. A voz inconfundível ecoou atrás de mim, e o tempo, que parecia ter curado todas as feridas, de repente parou. Um arrepio involuntário percorreu minha pele, e meu coração saltou, um eco covarde da paixão que insisti em enterrar. Tolo engano! Mais de 365 dias de distância, uma nova vida construída, mas o poder que Grissom exercia sobre mim permanecia, intacto, à espreita.

Viro-me lentamente, o ar preso nos pulmões. Lá está ele. Mais alto do que eu me lembrava, com o cabelo grisalho bem ajustado, a barba perfeitamente feita e contornando os lábios que sempre me hipnotizou. A mesma beleza avassaladora, a mesma postura confiante que me desarmava. Ele está parado, com as mãos nos bolsos do elegante blazer e a expressão tensa de alguém à beira de um colapso. O motivo de sua fúria? Não me interessava, nem de longe. Não mais.

Seu olhar percorreu minha figura, da roupa alinhada à expressão fria que eu me esforcei para manter. A armadura da indiferença, vestida com perfeição. O silêncio se estendeu por um instante, pesado e cheio de história, até que eu, finalmente, o quebrei.

— Grissom! Quanto tempo? — Pronunciei, e o som da minha própria voz soou estranho aos meus ouvidos. Como se outra pessoa estivesse falando por mim.

Ele cerrou os lábios, como se segurasse uma tempestade. Os olhos, antes capazes de me desarmar, agora me olhavam com uma mistura de rancor e algo que parecia raiva, mas que eu me recusei a decifrar. Aquele olhar me fez lembrar de todo o desgosto e a raiva que ele havia me causado, resgatando a memória da noite negra em que ele colocou um ponto final na nossa relação, para casar com minha prima.

O gatilho foi puxado, e as imagens inundaram minha mente: a dor da traição, as noites de choro, as capas de revistas e tablóides estampando a felicidade falsa de Grissom e Maryanne. O juramento que fiz a mim mesma naquela noite, de esquecer que um dia amei Grissom, queimou em minha memória. Principalmente depois que a própria Maryanne, com malícia, fez questão de me enviar uma foto da noite de núpcias deles, onde Grissom aparecia dormindo, agarrada a ela. A imagem da traição, impressa na tela do meu celular, foi a última dose de veneno que me fez jurar seguir em frente. E aqui estava ele, de volta, para me lembrar que certas promessas, mesmo as mais sinceras, são testadas pelo tempo.




Notas finais
Esse 'confronto' promete e ficará para o próximo capítulo. Xero.