After Separation - Livro 2
45 Capítulo XLIII
Notas iniciais
— Caramba, você está agitado hoje, hein cara? — Doug comentou, a voz transbordando de carinho e riso. O motivo da sua alegria repousava sobre minhas coxas: era a cabeça dele, que acabara de receber um novo chute do meu bebê, ainda em minha barriga. A manhã ensolarada e tranquila no Central Park foi interrompida pelo movimento enérgico do bebê.
Momentos antes, Doug comentava algo engraçado sobre uma nuvem que parecia um urso, e o chute veio como uma resposta perfeita, um lembrete constante e afetuoso da vida que crescia em mim. O riso dele era genuíno, a mão repousada na minha barriga, e o olhar, misto de surpresa e deslumbramento, dizia mais que qualquer palavra.
Estávamos de folga e havíamos combinado um piquenique, aproveitando o dia bonito e o clima perfeito para relaxar. A toalha xadrez se espalhava sob a sombra refrescante de uma árvore frondosa, e a cesta repleta de guloseimas permanecia quase intocada. O cenário ideal, porém, era roubado pela interação pura entre meu namorado e meu filho.
Doug, ainda com a mão em minha barriga, continuou a conversar com o bebê:
— Ei, cara, calma aí. Minha cabeça não é bola de futebol para chutar — disse ele, fazendo um carinho na região agitada. O sorriso bobo em seu rosto me fez suspirar de alegria e diversão.
— Acho que ele vai gostar de futebol igual o Cris — sugeri, lembrando-me do filho de Finlay. Cris, já era um garoto aficionado pelo esporte, e Finlay sempre dizia que, isso foi influência de Robinson, o pai do garoto.
Doug riu, erguendo a cabeça e me encarando com os olhos brilhantes.
— Cris terá um concorrente à altura. Mas sabe de uma coisa? Se ele decidir ser jogador, que seja o melhor. Se quiser ser artista, que seja o melhor. O importante é que ele seja feliz.
As palavras dele me tocaram profundamente. O amor que ele já demonstrava pelo meu filho, ainda dentro de mim, era a coisa mais linda que eu já havia presenciado. Naquele momento, com o sol se pondo lentamente e pintando o céu de tons alaranjados, eu tive a certeza de que a felicidade do meu príncipe seria a prioridade de Doug, tanto quanto já era a minha.
Antes que eu pudesse verbalizar minha gratidão, uma pontada aguda no baixo ventre me fisgou. Em seguida, senti um líquido quente e viscoso escorrer pelas minhas pernas, manchando a calça de malha. O susto foi imediato, um sinal inconfundível.
— O que foi, Sar? — Doug se adiantou, o sorriso de felicidade murchando para uma expressão de pânico. Seus olhos me vasculhavam, procurando a causa da minha careta.
— Minha bolsa estourou, Doug — murmurei, tentando controlar a respiração. Um suspiro sôfrego, interrompido por outra contração forte, que me fez gemer, incapaz de sorrir da sua cara de desespero. Era a mistura perfeita de pavor e euforia.
O que se seguiu foi uma completa correria. A serenidade do piquenique se desfez em um borrão de desorganização. Em meio ao pânico e à confusão, Doug recolheu nossas coisas em tempo recorde e me ajudou a levantar, guiando-me com cuidado até o carro. As contrações já vinham em ondas mais intensas, uma cólica avassaladora que me tirava o fôlego.
Fizemos uma parada rápida em casa, tempo suficiente para Doug pegar as bolsas já preparadas para o hospital. No caminho, liguei para minha médica, que felizmente estava de plantão e prometeu nos esperar. A próxima chamada foi para Dayse. Sua reação histérica quase me deixou surda, mas no fundo sabia que ela morria de alegria.
A adrenalina de Doug era palpável; ele mal conseguia ficar parado. Chegamos ao hospital, onde a equipe já nos aguardava. A partir daquele momento, a contagem era regressiva para conhecer o meu pequeno príncipe.
***
Eu estava cercada de profissionais na sala de parto, com minha médica no comando. Suada e cansada após horas de trabalho de parto, com a dilatação completa e as contrações atingindo o auge, alguém pede novamente que eu faça força para expulsar o bebê. A cabeça do bebê emerge, mas em vez de o corpo seguir o movimento, a cabeça parece recuar em direção ao canal de parto. Um sinal de alerta acende em minha cabeça quando alguém informa que estou com indício de uma complicação chamada distocia de ombro, uma emergência obstétrica.
A equipe médica reagiu rapidamente. O ambiente calmo, antes apenas preenchido pelos sons da minha respiração e das batidas do coração do bebê no monitor, se transformou em um cenário de tensão controlada. Instruções sussurradas se misturavam a movimentos rápidos e precisos. A enfermeira, com a voz firme, pediu que eu parasse de fazer força, enquanto minha obstetra e a equipe se mobilizaram para tentar liberar meu bebê.
— Doutora, por favor, não deixe que nada de ruim aconteça com o meu bebê — supliquei, a agonia rasgando minha voz. O medo me consumia, enquanto as contrações violentas me paralisaram.
— Calma, Sara. Vai dar tudo certo. Eu estou aqui — ela respondeu com firmeza, mas seus olhos mostravam concentração intensa e o foco daquele momento. Ela se inclinou sobre mim, sua mão pousando em meu ombro. — Preciso que você confie em mim. Vamos precisar fazer algumas manobras, mas vamos tirar o seu bebê daqui, seguro e saudável.
Sua voz, apesar de séria, continha a força que eu precisava. Ela chamou a equipe e, em um balé orquestrado, o ambiente se encheu de gente. Minhas pernas foram posicionadas de um jeito diferente, enquanto a médica guiava o processo. O tempo parecia se arrastar e, para mim, era uma mistura de dor e pânico. O desespero daquele momento só era superado pelo instinto de mãe, que me dizia para lutar.
Minha obstetra, com a ajuda da equipe, tenta girar o ombro do bebê para desobstruir o canal. A dor é excruciante, uma mistura de esforço físico intenso e pavor emocional, desesperada com a possibilidade de algo dar errado com o meu filho.
De repente, o som estridente do monitor cardíaco invade o ar, e uma voz diz que o bebê está em sofrimento fetal, com os batimentos caindo rapidamente. A tensão atinge o seu ápice.
— Tragam o vácuo extrator — ouço minha médica pedir, a voz carregada de pressa e urgência, cortando o barulho das máquinas.
Fecho os olhos e, em silêncio, rogo a Deus por ajuda. Penso em Grissom, em como eu o queria ali, segurando a mão de modo apertado, me acalmando com a sua voz enquanto diz que nosso filho nascerá bem, que tudo dará certo. Seu nome escapa baixo, repetidas vezes, enquanto o procedimento de extração é realizado com o impulso de uma contração. Segundos depois, uma nova onda de dor e alívio me atinge, e o bebê nasce.
Meu filho chega ao mundo e é rapidamente avaliado pela equipe. Apesar do susto, a enfermeira me tranquiliza, dizendo que ele está bem. Exausta e aliviada, sinto o corpo relaxar. A médica realiza uma sutura na pequena laceração após o nascimento, mas meu foco já não está na dor. O medo e a preocupação dão lugar à mais pura emoção e alívio quando a enfermeira vem e me entrega aquele pacotinho de amor aos berros, ainda todo coberto de sangue.
— Oi, meu amor! — minha voz está embargada de emoção, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto, enquanto o choro forte dele me inunda de alegria. Meu coração pulsa em um ritmo diferente, mais forte e mais completo do que nunca, com a chegada do amor mais incondicional da minha vida. Seguro-o firme, sentindo seu calor, sua pele contra a minha, e sei que, apesar do susto, valeu a pena cada segundo, porque meu filho, meu pequeno Benjamin está agora em meus braços.
***
— Que susto nos deu, pirocudinho! — Dayse exclamou, com a voz embargada pela emoção, mas sem perder o humor.
Ao meu lado, Doug caiu na gargalhada, mas eu apenas fiz uma careta, balançando a cabeça em negação.
— Dayse, sério, esse apelido não — retruquei, olhando para minha amiga, que agora embalava com carinho o pequeno Benny, calmo e de fome saciada.
Há pouco, a enfermeira havia deixado meu bebê ali para sua primeira mamada. Foi uma experiência intensa e multifacetada, misturando sensações físicas e emocionais complexas. Não foi como nos filmes. Não foi uma cena serena e mágica, com olhares apaixonados e um encaixe perfeito. A dor, mesmo pequena, estava lá. Quando ele abocanhou, senti um beliscão forte e desconfortável.
A enfermeira, percebendo minha careta, me corrigiu com calma e precisão: "A pega está errada". Ela ajustou a posição dele, corrigindo o ângulo da boca e a profundidade da sucção, e a dor diminuiu, mas ainda havia um incômodo persistente. Aquela sensação de um sugador potente no meu seio, que já estava sensível e inchado, era estranha e desconfortável, e as cólicas no útero só aumentavam o desconforto físico.
Apesar da dor e da dificuldade, eu não conseguia tirar os olhos dele. A ansiedade de saber se ele estava recebendo leite o suficiente se misturava com a alegria avassaladora de tê-lo ali, seguro e nos meus braços. Aquele pequeno ser, que eu havia gerado e protegido, agora dependia de mim de uma forma completamente nova. O cansaço do parto ainda pesava no meu corpo, mas a sensação de que, apesar de tudo, estávamos bem, era uma força motriz.
O choro histérico de antes, a corrida até o hospital, a tensão na sala de parto, tudo isso parecia ter acontecido há muito tempo. Agora, no silêncio e na intimidade daquele quarto, a vida começava a tomar uma nova forma, com Benjamim adormecido tranquilamente e o cheiro do bebê preenchendo o ar. A primeira mamada foi uma luta, mas foi a nossa luta, um momento de aprendizado e de amor, que me encheu de uma alegria profunda e de um alívio imenso
— Ai, Sar, deixa de ser implicante. O apelido é meu. — ela se defendeu, fazendo um biquinho.
— Mas o bebê é meu — declarei com um sorriso cansado, mas vitorioso.
— Chata! — Dayse me mostrou a língua em uma atitude infantil que me fez rir e balançar a cabeça outra vez. Aquele era o tipo de humor que me ancorava, que me lembrava da vida fora da bolha do hospital.
— Dayse, não me leva a mal, mas... Prefiro o apelido Benny, que a Sar deu — Doug opinou, colocando a mão gentilmente nas minha costas.
— Você é namorado dela, óbvio vai ficar do lado da Sara.
Doug sorriu e deu de ombros, sem desmentir. O ar entre nós estava leve, preenchido pela alegria genuína e pelo alívio que sentíamos por tudo ter dado certo. E enquanto Benjamin dormia tranquilo nos braços de sua madrinha, e Doug me olhava com o amor mais profundo que já vi, eu soube que meu filho tinha chegado ao mundo cercado por tudo que precisava: amor, família e, claro, um pouco de bagunça.
— Você avisou ao Lewis? — perguntei, sentindo um cansaço bom tomar conta de mim. Durante a ligação que fiz a caminho da maternidade, pedi que avisasse ao irmão de Grissom e também a Morgan, que esteve por ali há pouco com Memo para conhecer o pequeno Benny.
— Sim. Ele ficou de vir após uma reunião na joalheira. O que já tem tempo, então a qualquer momento... seu titio deve estar chegando aí, pirocudinho da dinda — Dayse disse a última parte diretamente para o bebê, mas lançou um olhar travesso para mim, teimando em manter o apelido.
— Desisto de você! — falei, balançando a cabeça, resignada.
Mal acabei de falar e escutamos uma batida leve na porta. Em seguida, ela se abriu, revelando Lewis e Edgar. Os dois irradiavam sorrisos e carregavam um urso de pelúcia grande, balões de coração e um buquê de flores.
— Titio chegou! — Lewis exclamou, com uma alegria contagiante, os olhos marejados de emoção ao ver Benjamin nos braços de Dayse. Edgar, ao seu lado, sorriu, o olhar fixo no bebê.
Lewis, com uma facilidade e naturalidade que eu, de primeira, desconhecia, mas que logo lembrei que devia ser pela experiência com o filho de Maryanne, segurou o bebê que Dayse lhe estendeu. O homem pegou Benny com cuidado e ternura, como se estivesse segurando a coisa mais frágil e preciosa do mundo. Aquele gesto, a forma como ele o aninhou perto de si, fez meu coração se encher de uma alegria imensa e de um alívio profundo.
— Oi, camaradinha do titio — ele sussurrou, a voz trêmula de emoção, e seus olhos marejados de amor me atingiram em cheio. Lewis o balançou levemente, ajeitando a mantinha, e a familiaridade do gesto me fez ver que, sua experiência com bebês, estava impecável e que ele seria um tio e tanto para Benny.
Edgar se aproximou, o sorriso ainda mais largo, e acariciou a mãozinha do bebê com o dedo, num gesto de admiração e carinho. O urso de pelúcia gigante, os balões e as flores jaziam esquecidos no chão, como meros objetos diante daquele pequeno ser que era o centro de toda a nossa atenção.
Com Benjamin nos braços, Lewis se aproximou da cama onde eu estava e me parabenizou, seus olhos fixos em mim e no bebê, alternadamente. Edgar logo atrás dele fez o mesmo, depositando as flores cuidadosamente sobre o móvel ao lado do leito, juntamente com o urso.
Os balões, ele amarrou na cabeceira da cama, preenchendo o quarto com cores e alegria.
— Como você está, Sar? — Lewis perguntou, sua voz suave, cheia de preocupação.
— Cansada, dolorida, mas imensamente feliz — resumi, sentindo que aquelas palavras não eram suficientes para expressar a montanha-russa de emoções que eu havia experimentado.
— Queria ter vindo antes, mas tinha uma reunião importante na joalheira — ele justificou, com um tom de pesar.
— Dayse contou agorinha quando a indaguei se havia te ligado — respondi, com um sorriso fraco.
— E o parto? Foi tranquilo? — Edgar se adiantou, a curiosidade e a preocupação evidentes em sua voz.
Resumi as complicações que ocorreram na sala de parto, a tensão, a pressa, a incerteza. Descrevi a sensação de pânico ao ouvir a queda dos batimentos cardíacos de Benjamin e a necessidade do vácuo extrator. Contei sobre a luta, a dor e, finalmente, o alívio. Narrei o desfecho feliz e a sensação avassaladora de segurar meu filho nos braços pela primeira vez. Enquanto eu falava, o olhar de Lewis se enchia de admiração e alívio, e Edgar ouvia atentamente, afagando minha mão com carinho. Mesmo sem terem presenciado o momento, eles sentiram a emoção e a intensidade do nosso milagre.
Foi só após meu relato que Lewis se deu conta que ainda não havia cumprimentado Doug. Com um sobressalto, ele se desculpou com Doug, constrangido, pelo ato falho.
— Me perdoe! Fiquei tão emocionado por ver Benny que me esqueci de tudo — alegou, passando a mão livre pelos cabelos.
Edgar também se desculpou, admitindo a mesma distração.
— Tudo bem, gente. É completamente compreensível — Doug tentou amenizar a situação, lançando-lhes um sorriso. — Eu também ficaria igual.
Depois, virou-se para mim, e a intensidade do seu olhar me aqueceu.
— Sar, vou indo. Amanhã, antes de ir para a editora, passo aqui para ver vocês dois.
Ele queria ter ficado comigo de acompanhante, mas como teria expediente e Dayse insistiu em assumir esse papel, Doug iria para sua casa.
— Tá ok, Doug — assenti.
Ele se inclinou e depositou um beijo terno em meus lábios. Escutei ao fundo um pigarro seco que identifiquei como Lewis. Ele já sabia do meu relacionamento com Doug há mais de um mês, e deixou explícito na época que não tinha se agradado, já que era sabido por mim que o homem nutria esperanças de que seu irmão e eu voltássemos.
— Tchau pra vocês — Doug saudou Edgar, Lewis e Dayse com um aceno de cabeça.
Assim que a porta se fechou e Doug saiu, Lewis se virou para mim com a cara nada contente.
— Grissom não vai gostar nada quando souber desse seu namoro ao voltar — soltou, a voz baixa, mas afiada, como uma flecha certeira.
A alegria do momento se esvaiu em segundos, e uma névoa pesada de desconforto invadiu o quarto. Antes que eu pudesse responder, Dayse interveio, sentindo o clima pesado.
— Lewis, agora não é hora. A Sar acabou de ter um filho. Vamos deixar essa conversa para outro momento — disse minha amiga, com firmeza, protegendo o ambiente e a paz do pequeno Benjamin.
Lewis apenas assentiu em concordância, desviando o olhar para o bebê em seus braços. A alegria genuína de sua chegada foi subitamente ofuscada pelo resquício de um passado que parecia ter vindo me assombrar, mesmo em um dos momentos mais felizes da minha vida. O pigarro de Lewis e seu comentário cortante me lembraram que nem tudo era perfeito, e que a história com Grissom volta e meia pairava no ar.
— Edgar, pega meu celular aí no seu bolso, por favor? — ele pediu, segundos depois, quebrando o silêncio pesado. — Posso tirar uma foto com o Benjamin, Sar?
— Claro, Lewis — respondi, observando-o. O tom agora era mais suave, mas o desconforto permanecia.
Edgar prontamente puxou o aparelho do bolso interno do blazer. Lewis posicionou o bebê contra o peito, ajeitou a mantinha e sorriu, um sorriso genuíno e feliz. Tirou a foto e, por alguns instantes, o clima voltou a ser de pura felicidade. Mas a pontada de desconforto permaneceu, como um lembrete sutil de que, mesmo em meio a tanta alegria, nem todas as feridas estavam cicatrizadas.
Em seguida, foi a vez de Edgar pedir para carregar Benjamin e tirar uma foto com ele. Quando Dayse batia uma foto minha com Lewis, Edgar e Benjamin em meu colo, o celular de Lewis, que estava com Dayse, reverberou. Meu coração gelou quando minha amiga anunciou que era Grissom quem ligava para o irmão. Um arrepio varreu meu corpo, fazendo com que os pelos da minha nuca se eriçassem.
— Estranho ele me ligar. Já é bem tarde lá na Alemanha a essa hora. Será que aconteceu alguma coisa?— comentou Lewis, pegando o telefone que Dayse lhe esticava, a preocupação substituindo a felicidade em seu rosto.
— Você contou pra ele? — questionei em pânico, minha voz saindo quase como um sussurro.
— Não, claro que não, Sara — ele negou veementemente, com os olhos arregalados. — Vou atender aqui.
Ele fez um sinal com a mão para que ficássemos em silêncio.
— Oi, mano! — ele atendeu, a voz soando um pouco forçada.
Encarei Lewis apavorada, com medo de que ele, sem querer, deixasse escapar sobre o nascimento do bebê. Ele sinalizou com a mão para que eu ficasse tranquila, mas não consegui relaxar. Fiquei observando-o trocar palavras com o irmão, até que em determinado momento, Lewis arregalou os olhos e seu rosto assumiu uma expressão de surpresa ao pronunciar meu nome. E isso me deixou mais tensa.
O que havia acontecido na sala de parto agora parecia insignificante perto do terror que se instalava em mim
— Você quer saber se está tudo bem com a Sara, por quê? — Lewis disse, me lançando um olhar tão confuso quanto o meu, tentando decifrar a emoção na voz do irmão. Na sequência, ele pôs o celular no viva-voz, e o que eu ouvi, mexeu comigo de um jeito que não esperava:
— Acordei há pouco sobressaltado com sonhos confusos... sonhei com a Sara chorando e me chamando, como se precisasse de mim ao seu lado. Você sabe se ela está bem, Lewis? Sei que disse que não me daria mais informações sobre ela, mas, por favor, mano... Só mais essa vez... me diz se ela está bem para tirar essa angústia do meu peito ou eu vou enlouquecer.
O desespero palpável na voz de Grissom fez um arrepio percorrer minha espinha novamente. O amor incondicional que ele sempre sentiu por mim, e que eu mesma sentia por ele, mesmo depois do tempo e da distância, parecia ter se manifestado em um pressentimento assustadoramente preciso.
Lewis me encarou, como se esperasse meu aval para responder ao irmão. Apenas move a cabeça em um lento sinal de positivo, ainda digerindo a intensidade das palavras de Grissom.
— Ela está bem, mano! — Lewis respondeu, a voz carregada de uma firmeza que era mais para tranquilizar a si mesmo do que para mentir para Grissom.
— Certeza?
— Sim. Mais cedo falei com ela por telefone — Lewis piscou um olho para mim, num sinal cúmplice, forçando a mentira.
De repente, como se soubesse quem falava ao telefone, Benjamim, que estava em meu colo, começou a chorar.
— Que bebê é esse chorando aí, Lewis? — Grissom questionou, a voz transbordando de curiosidade.
Lewis arregalou os olhos.
— É de uma amiga do trabalho. Ela ganhou bebê recentemente, e Edgar e eu viemos fazer uma visitinha — ele mentiu, engolindo em seco.
— Ah! Desculpa por te interromper. Vou desligar. Fico mais tranquilo sabendo que, segundo você, a Sara está bem.
— Fique tranquilo mesmo, mano. Está tudo bem — Lewis encerrou, e então a chamada foi finalizada.
— Cara! Ele só pode ser sensitivo — Dayse se pronunciou, em choque, quebrando o silêncio que se instalou na sala.
O coração ainda batia acelerado no meu peito. A intuição de Grissom, tão forte e real, era um lembrete doloroso do quanto ainda estávamos conectados, apesar de tudo. O amor que compartilhamos era um laço que a distância e o tempo não haviam sido capazes de quebrar. Eu respirei fundo, tentando me acalmar, mas a voz de Grissom e o choro do meu filho ecoavam na minha mente, me lembrando do segredo que pairava no ar e que, uma hora ou outra, precisaria ser revelado.
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