After Separation - Livro 2
42 Capítulo XL
"O que mais importa é dar o primeiro passo, seja para um recomeço de vida ou para o início de um amor"
(Autor desconhecido)
***
- Oi! Morgan disse que eu podia entrar.
- Claro, Doug. — olho de relance para ele, parado entre o vão da porta entreaberta, e depois volto a atenção ao computador de mesa que estou desligando.
Meu horário de trabalho tinha se encerrado dez minutos atrás e eu estava doida para ir pra casa. Minhas costas doíam e meus pés idem. Tudo o que eu precisava, era de um banho relaxante, sorvete, meu sofá confortável e uma boa série para maratonar, exatamente nessa ordem.
- Já está de saída?
- Sim. E você? — o encaro ao levantar da cadeira.
- Também.
Ele fica me encarando em silêncio com as mãos enfiadas no bolso da calça. Desconfio que queira me dizer algo, então indago como forma de incentivo:
- Quer me falar alguma coisa? — recolho algumas pastas da mesa e o celular logo em seguida.
- Eu... — ele coça a nuca e percebo certa hesitação misturada com timidez. -... Quero te convidar para um café. E conversar com você sobre uma coisa particular.
Ergo uma das sobrancelhas com a menção da palavra "particular". Um sinal de alerta ressoa dentro da minha cabeça.
"Adeus banho relaxante, sorvete, sofá e série, insolente!"
- Mas também se você estiver cansada e com pressa pra ir pra casa, eu posso deixar para outro dia essa conversa. — ele se adianta, já que ainda me mantinha calada, sem lhe dar uma resposta ao convite.
- Se importa se conversarmos na minha casa? — proponho após mais alguns instantes de silêncio.
Estava cansada demais para ir a algum lugar que não fosse a minha casa.
- Por mim, sem problemas. — Doug concorda com um sorriso mais aliviado.
Alguns minutos minutos mais tarde, estávamos entrando em minha casa.
- Você me aguarda só tomar uma ducha?
- Claro.
- Prometo não me demorar.
Ele assente, apertando as mãos em claro sinal de nervoso.
"Falou a especialista em comportamento humano!"
"Que saco, você, hein?!"
Me retiro da sala e sigo para o andar superior.
Um par de minutos depois, eu descia as escadas de banho tomado e roupas confortáveis, para encontrar Doug de pé diante da estante da sala onde há porta-retratos meus e alguns exemplares de livros de vários autores, divididos por categoria e ordem alfabética.
- Procurando algum livro em especifico?
Doug vira para mim e sorri.
- Não. Somente admirando sua coleção. Tem um "arsenal" diversificado. Pensei que só gostasse de romances.
- Não, meu gosto é eclético. Mas admito certa predileção por romances. — conto, ao parar do seu lado, que havia voltado a 'inspecionar' minha estande de livros.
- Não! Nietzsche! Sério? — ele me encara surpreso e com o exemplar de "Crepúsculo dos ídolos", que puxou da prateleira. — Não sabia que a tão solar Sarah Sidle, tinha um lado sombrio.
- Engraçadinho! — retruco com um sorrio e apanhando de sua mão o livro. — Embora a filosofia de Nietzsche aborde temas que podem parecer sombrios, como o niilismo e a crítica à moralidade tradicional, ele não pode ser classificado simplesmente como um autor sombrio, Doug. — defendo. — Seu trabalho é complexo, com uma perspectiva multifacetada sobre o sofrimento e a alegria, e um forte apelo à superação e à afirmação da vida.
- Eu sei disso. Não foi uma critica. Também curto Nietzsche. — Doug sorri. — Conheci Nietzsche na adolescência e foi a melhor coisa pra mim, pois me tirou do ambiente religioso e idealista em que eu nasci. Também me ajudou a direcionar minhas forças para resolver meus problemas e escapar de armadilhas. Depois com o tempo aprendi a ver seus pontos fracos e a concordar com críticas, aí larguei de mão. Uns anos depois, voltei a estudá-lo novamente e a entender muitas sutilezas que os críticos não enxergam e que eu também não percebia quando era mais jovem e sem experiência de vida. Agora com uma mente mais madura, posso dizer que o pensamento de Nietzsche me ajudou muito em toda minha vida, como um princípio norteador geral, e sou muito grato a ele por isso.
- Que bom! Impressiona-me o quanto Nietzsche é odiado por muita gente de forma irracional. Uma vez um conhecido religioso do meu pai, só porque me viu com este livro. — aponto a capa do exemplar que tenho desde a faculdade, presente de um ex. -... Ficou me olhando com um ar de reprovação, sendo que quando o indaguei sobre já ter lido o livro, ele foi veemente em afirmar nunca ter lido e nem leria uma obra de Nietzsche.
- A raiva/aversão que as pessoas sentem dele, é produzida em parte pela ignorância de não entender seu pensamento propositadamente fragmentário. E em outra parte, porque ele ameaça as crenças e ideais das pessoas em geral. Mas sabe o que acho?... Que Nietzsche estava e ainda está à frente de seu tempo em alguns aspectos.
Doug sorri e eu o acompanho nisso.
Há um breve silêncio, mas que logo é quebrado por mim, ao convidar o editor a me seguir até a cozinha.
Enquanto a cafeteira se encarregava de preparar nossos cafés, Doug me ajudava a pôr a mesa apesar dos meus protestos veementes de que não era preciso.
Poucos minutos depois, estávamos acomodados em duas cadeiras, uma de frente para a outra, com nossas xícaras de café diante de nós, bem como uma cesta com alguns bagels que havia comprado ontem e aqueci no forno, e ficaram ótimas.
Houve segundos de silêncio após os primeiros goles de café, depois comentários de Doug se derramando em elogios à bebida. Para mim também estava sendo uma novidade o café que tomávamos, pois o comprei ontem. Era de uma marca nova que tinha visto no supermercado. Em sua composição há notas de baunilha, banana caramelizada e pasta de amendoim com mel. Fiquei curiosa assim que li sua descrição e na hora resolvi trazer para experimentar, duvidando que aquela mistura toda fizesse sentido. E não é que faz? O café é muito bom!
- Vai me passar a marca desse café tão bom, hein?!
- Ok!
Permanecemos um novo silêncio outra vez. Estava começando a ficar nervosa, confesso. Queria que Doug entrasse logo nesse tal "assunto particular", mas nada dele fazer isso. Quando já estava quase me rendendo a tentação de cobrar dele que falasse, Doug, por fim, resolve se pronunciar.
- Eu não achei que seria tão difícil começar a falar para você o que vim disposto a te dizer. — ele inicia enquanto brinca com a ponta do dedo indicador ao ficar deslizando-o pela borda da xícara em círculos atrás de círculos. — Mas eu não posso mais esconder que... Eu estou apaixonado por você. — diz baixinho.
- Doug...
- Estou apaixonado por você... — ele repete, me encarando, e posso ver o canto de seus olhos se apertarem. — Foi seu jeito simples de ser que me deixou apaixonado!... Desde que te conheci senti algo diferente e especial, que só foi crescendo à medida que fui te conhecendo e convivendo com você. Eu sou apaixonado por cada detalhe seu. O seu olhar, o rosto, e principalmente, o sorriso. — Doug sorri e eu apenas seguro o ar em meus pulmões desde que ele começou a se declarar. — Seu sorriso faz eu me perder no infinito. Em certos momentos me pego fitando a maneira estonteante como sorri, ou o balançar de seus cabelos quando anda, ou o movimento sutil e delicado de seus olhos, e até mesmo a maneira doce e suave como sua voz ecoa. Tudo em você me fascina, Sara. Não sei se você sente a mesma coisa, mas... — sua mão se estende por cima da mesa até alcançar a minha e segurá-la com delicadeza. — Quero pedir uma chance de te fazer feliz e de escrevermos uma bonita história juntos. O que me diz?
Em puro estado de choque e sem palavras é assim que me encontro. Calada e os olhos encarando um Doug ansioso por uma resposta minha, eu avalio meus próprios sentimentos e o homem a minha frente. Apesar de gostar dele e até achar que Doug pode ser o tipo de pessoa com quem gostaria de construir um relacionamento no futuro. Eu sabia que o meu "gostar" não se equipara ao "estar apaixonado" dele. Portanto, eu deveria ser honesta e lhe dizer que não compartilho os mesmos sentimentos e que não quero machucá-lo, apesar de saber que farei isso com minha recusa.
- Doug... — início com cautela e procurando as melhores palavras. — Entendo que isso pode ser difícil de ouvir, e lamento por qualquer dor que possa te causar, só que... Eu preciso ser honesta com você, como acabou de ser comigo ao me expor seus sentimentos. Te acho uma pessoa incrível, fora de sério e agradeço muito a sua declaração, mas gosto de você como um amigo.
- Uma grande parte dos relacionamentos românticos começa com uma amizade já estabelecida, mostrando que o amor muitas vezes tem raízes na convivência amigável, Sar. — retruca com um olhar gentil e um sorriso acolhedor.
Eu era consciente disso. Uma proporção significativa de relacionamentos românticos se desenvolve a partir de uma amizade preexistente, mostrando que a convivência, confiança e cumplicidade da amizade são uma base sólida para um amor duradouro, ao contrário da ideia popular de que o amor surge apenas de paixões intensas à primeira vista.
- Sei disso... Só que tem mais... Eu ainda não estou pronta para um novo relacionamento amoroso com alguém, Doug. — puxo com delicadeza minha mão da sua. — Aqui dentro... — aponto para o lado esquerdo do meu peito. -... Ainda tem uma ferida não cicatrizada, por conta do meu envolvimento com Grissom.
- Você me disse que foi algo curto. — ele diz em um muxoxo.
- Porém foi muito intenso. — afirmo. — Eu o amei e não foi pouco... Foi muito. Um muito que, até então, eu não conhecia, Doug. E a forma como tudo terminou, só fez com que eu ficasse muito machucada, no fim das contas.
Meu amor por Grissom excedeu qualquer experiência anterior, sendo avassalador e único. Tanto é que a forma como o relacionamento terminou causou um sofrimento intenso, que me deixou uma marca profunda.
A experiência foi tão intensa que o fim deixou uma sensação de quebra, como se algo fundamental tivesse sido abalado. E uma incapacidade de abrir as portas do coração novamente para o amor.
Observo Doug assentir com seus olhos baixos, encarando a mesa.
No fundo, eu me sentia mal pela situação. Queria poder ser recíproca no sentimento com ele, porque Doug é um cara incrível, mas no momento não consigo ser nem com ele e nem com ninguém. Talvez no futuro, quem sabe!
- Muitas vezes o que nos impede de abrir o coração para o amor novamente, são as nossas crenças limitantes, que, como o nome adianta, nos limitam. — Doug fala com uma calma e voltando a me encarar. — Por conta delas, temos certas "travas" em nosso consciente e, principalmente, no nosso inconsciente também. Imagino que apesar do fim doloroso, o Grissom foi um grande amor na sua vida, que te deixou essas feridas que ainda doem, mas não feche de modo definitivo as portas do seu coração para mim. Você pode não sentir o mesmo que eu ainda... Mas sei que se me deixar, eu posso te mostrar que o amor não é feito só de dor e que pode ser acolhimento e refúgio, Sara.
Sua declaração de fé na capacidade do amor de ser um bálsamo, um lugar de conforto e pertencimento, e não apenas um reflexo da dor, com a promessa de demonstrar essa outra faceta, através da ação e da entrega, me desarma.
- Não precisa me dizer que "sim" ou "não" agora. Apenas me permita seguir estando ao seu lado para te mostrar dia a dia que as coisas entre nós podem acontecer sem pressão e da melhor forma. — ele pisca um olho, um sorriso confiante brinca em seus lábios e não ouso dizer nada mais, até porque me fugiram as palavras.
***
Três meses depois...
"O amor não é estático; ele se fortalece com a perseverança e a continuidade das ações que demonstram carinho e apreço. E que a conquista diária se manifesta em detalhes como um abraço, uma palavra sincera, um agrado ou um ato de cuidado, que fortalecem o vínculo."
Abraçada a um pequeno ursinho de pelúcia marrom claro com macacão quadriculado azul marinho e gravatinha borboleta na mesma cor, observo o quarto do meu bebê com verdadeira emoção e encantamento.
O cheiro de lavanda que borrifei ainda pouco, toma conta do ambiente, promovendo relaxamento e calma; as paredes decoradas com papel de parede na temática de príncipe urso azul, que Dayse e eu compramos há duas semanas; os moveis brancos com detalhes em azul, enfim montados e já sem o plástico que outrora os protegia de pegar poeira; alguns brinquedos decorando alguns pontos do quarto. Enfim, estava tudo pronto, só não estava perfeito, porque faltava o "dono" do lugar ali, mas era só questão de alguns dias para ele chegar, caso não houvesse outro alarme falso como na semana passada para me deixar pensando que já era a hora.
Foi um alvoroço naquela noite. Dayse tinha vindo dormir aqui por conta da reta final de gravidez. Lá pelas tantas da noite comecei a sentir umas contrações incômodas. Como mãe de primeira viagem, me preocupei logo e imediatamente chamei minha amiga. Dayse sugeriu irmos para a emergência e acatei agoniada com as dores que não seguiam um padrão regular de tempo e espaço.
Ao chegar ao hospital fui prontamente atendida. Relatei a médica plantonista o que sentia e ela me levou para fazer alguns exames. Um tempo depois, sem ausência de dilatação de colo do útero e nem progressão, a médica me informou que havia sido um alarme falso. Segundo ela, eram apenas contrações de Braxton Hicks, que nada mais são do que contrações que preparam o corpo para o dia do parto. Assim, eu voltei para casa com Dayse e o primeiro susto dado por esse rapazinho.
Os últimos meses não têm sido dos mais fáceis. Nessa reta final da gravidez, tenho sentido os efeitos do peso aumentado, do sono difícil e da expectativa para a hora do parto. Não vejo a hora do meu pequeno príncipe chegar.
Sorte a minha que tenho pessoas maravilhosas ao meu lado, me ajudando e me paparicando direto. Uma delas está bem diante de mim, pregando um quadro com a imagem da última ultrassom 3D que fiz com 33 semanas de gestação. A imagem traz o rosto do meu bebê com um aspecto muito semelhante a como será quando nascer. E ele será tão lindo!
- Fico bom ou está torto, Sar?
- Tá ótimo, Doug.
Ele sorri satisfeito e vem se postar ao meu lado, depositando o braço direito sobre meus ombros.
- É até que não ficou mal. Depois de martelar o dedo uma vez... — Doug comenta e inevitavelmente, eu deixo uma sonora gargalhada escapar. — Sério que achou engraçado? Doeu?
- Ô! Tadinho dele. — retruco ainda rindo e em seguida lhe dou um beijo no rosto, desmanchando a falsa cara de sério que Doug exibia.
- Espera aí! Acho que vou martelar o dedo de novo só pra ganhar mais um beijo. — há um ar de divertimento em sua expressão.
- Engraçadinho! — soco de leve seu braço.
Ouvimos a campainha soar.
- Deve ser a Dayse. — informo.
- Deixa que eu atendo para você não descer as escadas.
- Obrigada.
Observo Doug sair do quarto descalço e sorrio, balançando a cabeça.
Ele tem a mania de andar descalço em casa, descobri recentemente com a nossa convivência.
As coisas entre nós tinham se estreitado bastante desde a tarde em que ele se declarou a mim aqui em casa. Eu havia aceitado em silêncio que ele ficasse por perto. E ele ficou!
E com pequenos gestos e ações de gentileza, autênticos e consistentes, sem forçação de barra ou pressa, fomos criando uma conexão profunda e segura a ponto de me sentir muito bem ao seu lado e uma pessoa amada e especial por ele. A nossa aproximação me fez admirá-lo e constatar mais ainda o cara extraordinário, singular, surpreendente, e brilhante que ele é.
Meus sentimentos por ele ainda não estão tão claros para mim. Mas posso afirmar que o meu "gostar" se elevou nos últimos três meses, posto que tenho apreciado cada vez mais o fato de passar um tempo ao seu lado. Sem contar que, ultimamente, venho prestando mais atenção aos detalhes nele. O homem bonito e de sorriso cativante, que ele é. Alguém de um ótimo humor e sensibilidade. Sinto alegria e um bem-estar na sua presença. Ele me faz bem!
- Ei! — me viro para o chamado de Dayse. — Nossa! Que saudades. — ela vem e me abraça, tomando o devido cuidado de não me abraçar muito forte por conta da barriga enorme.
- Nem fale, amiga.
Dayse tinha viajado por uns dias para o sul, por conta de sua avó paterna ter se hospitalizado. Na verdade, toda a família foi para lá ficar perto da matriarca. Apesar da distância, nos falávamos todos os dias e para que eu não passasse as noites sozinha em casa, Morgan e Dayse se combinaram sem eu saber, que minha assistente ocuparia o posto da minha amiga como minha companhia, o que foi uma tremenda surpresa para mim.
"Morgan??", estranho sua presença em minha porta. Não fazia nem duas horas que havíamos nos despedido na editora.
"Oi, chefinha! Posso entrar?"
"Claro!", autorizo ainda confusa e quando Morg passa por mim, noto que carrega uma valise. "Que bolsa é essa?"
"É que vou passar os dias que a Dayse estará no sul, com você!"
"Oi?"
"Ela me pediu, porque não achou legal deixar você só, já nesse estado super avançado de gravidez. E como um pedido da Dayse é uma ordem e a sua companhia é a minha preferida depois da do Memo, é óbvio. Então cá estou para ficar com vocês dois, chefinha!"
Cheguei a argumentar que isso era desnecessário, mas quem disse que Morgan ouviu? Ela fez ouvidos de mercador e até ontem ela ficou aqui em casa.
— E a sua avó?
- Melhor, glória Deus! A velha trinca, mas não quebra. — comenta aos risos.
- Que bom!
- Mas olha só! Fico fora por uns dias e o quarto já fica pronto?
- Sim! O que achou?
- Ficou show o quarto do meu afilhado! — Dayse se admira. — Doug tá de parabéns. — elogia.
- Realmente, ele fez um ótimo trabalho.
Dias atrás Doug se ofereceu para montar todos os móveis do quarto e fazer alguns ajustes em outras coisas. De início, eu rechacei a sua "oferta" por achar que estaria abusando demais da sua bondade. Ele já tinha colocado o papel de parede e pintado alguns pontos da parede, que não queria me aproveitar mais dele.
Entretanto, ele foi taxativo em dizer que não tinha problema alguma fazer mais isso e que ficaria chateado se caso, eu chamasse um montador estranho para essa tarefa. No fim das contas, acabei cedendo e quase setenta por cento da arrumação do quarto, ponho na conta dele. O restante fica dividido entre minhas "fiéis escudeiras", Dayse e Morgan, além de mim também.
- E você ainda queria contratar um montador. Ia te cobrar os olhos da cara para montar tudo isso.
-Pois é. E cadê o Doug?? Por que ele não subiu com você? — estranho a ausência dele.
- Ah! Ele ficou ajeitando a mesa. Trouxe pizza pra gente. Vamos descer e comer. Vem!
Minha amiga saiu me levando para a saída do quarto. Momentos depois estamos, os três na sala, comendo as pizzas e se divertindo horrores dos relatos engraçados da minha amiga sobre os dias "aterrorizantes" que passou convivendo com a mãe na casa da avó.
- Cara, você e sua mãe juntas são uma combinação explosiva ao estilo: Vinagre e bicarbonato de sódio, cuja reação produz gás carbônico e a liberação desse gás em um recipiente fechado pode causar acidentes.
Caímos na risada ante a comparação de Doug. Em meio às nossas risadas, escutamos um celular reverberar. Era de Doug. Ele atendeu a chamada e após meia dúzia de palavras encerrou a ligação.
- Preciso ir. Esqueci que havia marcado de assistir um jogo com um amigo. Ainda bem que ele ligou, senão eu ia furar. — conta já se levantando do sofá menor.
- Deixa que a gente limpa isso, Doug. — digo ao vê-lo juntar as coisas da mesa de centro.
- Se é assim, vou nessa. — ele vem até mim e me dá um beijo na testa. Esta tinha virado sua forma carinhosa de se despedir. Dayse a primeira vez que viu isso, achou fofo, depois alfinetou, dizendo que Doug adoraria beijar outro lugar ao invés da minha testa. Dayse é péssima! — Tchau, Sar. Nos vemos amanhã na editora.
- Tchau, querido. Até amanhã, com certeza.
- Tchau, Dayse.
Ele dá um abraço, seguido de um beijo no rosto dela.
- Tchau, editor gostoso.
Vemos Doug corar instantaneamente com o elogio de Dayse. Era de lei, ele reagir assim ao termo. Minha amiga havia tomado posse daquele termo de Morgan desde a primeira vez que ouviu minha assistente se referir ao editor daquela forma. Mas ao contrário de Morgan, que só se refere assim a Doug no "off", Dayse, cara de pau como só ela, faz questão de dizer na cara do editor mesmo.
- Olha que um dia ainda acredito nisso. — Doug retruca antes de seguir rumo a porta e avisar que eu não preciso me levantar para levá-lo até a saída.
Assim que a porta é batida, indicando que Doug havia ido embora, acerto a almofada do colo em Dayse.
- Ai!
- Você adora deixá-lo sem jeito.
- E você quando vai dar uma chance pra ele? Esse cara só falta lamber o chão que você pisa.
- Não exagera.
- Você não gosta dele?
A pergunta é direta e reta.
- Eu aprendi a gostar mais do que já gostava. — admito. — Criamos uma conexão especial. Ele é um homem fora de sério.
- Isso é maravilhoso, amiga, porque quando você encontra alguém com quem a conexão é profunda, a relação se torna especial e leve. Então por que não se permite uma nova chance com alguém bacana como Doug?
- Não sei se devo. — respondo alguns segundos depois de me manter em silêncio.
- Por que não deveria? — Dayse se vira no sofá para me encarar melhor. — Vocês são solteiros e claramente, tem uma química rolando aí.
- Sei lá, Dayse. Tenho receio de acabar não correspondendo às expectativas dele.
- É isso mesmo. Ou será que você ainda gosta dele?
Suspiro.
Fazia um bom tempo que não pensava nele. E na real, tem me feito só bem, não pensar e nem lembrar. Acredito que isto seja um sinal muito positivo de que estou no caminho certo para a superação. O alívio de não ser mais assombrada por pensamentos sobre ele só mostra um progresso importante no meu processo de cura emocional.
- Eu o tranquei em um lugar fundo e escuro dentro de mim, e joguei a chave fora, que nem sei dizer com exatidão o que sinto, ou se ainda sinto.
Dayse meneia.
- Isso demonstra que você está se priorizando e que a decisão de seguir em frente foi a mais saudável para você, amiga.
- Acha?
- Sim.
- Sabe, uma parte de mim quer muito dar uma chance ao Doug, mas a outra parte acha que não é uma boa decisão isso; que vou magoa-lo e não quero isso. Ele não merece. É um cara tão gente boa.
- Você só saberá se é uma boa decisão ou não, permitindo-se viver de fato algo com ele. Na verdade, vocês meio que já são um casal e se portam como um.
- Não é verdade.
- É sim, amiga. Passam tempo juntos. Trocam mensagens. Saem. Ele vive aqui. Ou seja, sempre estão por perto um do outro, algo bem comum entre casais. Só falta mesmo os beijos, dormirem juntos e aquela melação toda para serem um casal completo. — ela pisca um olho e abocanha uma fatia de pizza.
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