Notas iniciais
Salve, salve, meus amores. Ó, eu aqui trazendo atualização pra vocês dessa fic Simbora ler.

— Amiga é você que ele quer!... Pega logo!

Ouço Dayse resmungar pela terceira vez em menos de cinco minutos enquanto observamos John na companhia de alguns dos nossos amigos na pista de dança enquanto os demais foram ao bar pegar bebidas.

— Que é, hein?! Virou disco arranhado pra ficar repetindo a mesma coisa, foi?

— Sim. Até você seguir minha sugestão.

— Você não está interessada nele, não? – me viro para encarar Dayse sem entender o porquê de ela me jogar para o amigo do Bolton, sendo que há interesse de sua parte no sujeito.

— Estava!... Tempo passado. Mais precisamente alguns minutos atrás.

— Como é?

— Ah! Saquei logo que não é a mim que o bofe quer. O gato tá interessado em você. Me crivou de perguntas ao seu respeito, que meu interesse por ele brochou que nem aquele cretino tenha brochado com...

— Dayse o que eu disse sobre falar no Grissom? — interrompo minha amiga tão logo a ouço mencionar sobre Gil.

Que obsessão que ela tem em trazer aquele cretino de uma figa para a conversa de dez em dez minutos, eu hein?!

— Tá. Foi mal! – pediu com as mãos erguidas.

— Foi péssimo isso sim.

— Já entendi, Sara.

— Pois é. E sobre as perguntas que ele te fez... Eu espero de coração que você não tenha...

— Tranquila que só dei informações genéricas, chuchu. – ela dá duas batidinhas de leve em meu ombro com uma das mãos.

— Hum... Olha lá, hein. — resmungo de olhos semicerrados em desconfiança.

Da outra vez, ela contou coisas a meu respeito para o Grissom que até hoje não sei quais foram ao certo.

Merda! Olha eu agora mencionando aquele cretino. Que ódio!

— Dá logo uns pegas nele. E com sorte, aquele cretino do Grissom ainda te vê nos braços desse boy magia gato.

— Sério, que de novo você falou nele?

— Desculpa... Desculpa. Mas sobre pegar o John, seria bom. Ele é gatinho e tem uma bundinha que dá vontade de apertar.

Foi inevitável não rir do comentário daquela desajustada. Acho que já são as várias doses de mojitos fazendo efeito na minha amiga.

— Dayse, você não vale nada. — bato com meu ombro no dela que ri. — E sobre pegar o John... a resposta é: nem pensar!

— Por que?... Sei que não quer que eu o mencione, porém é inevitável.. vai dizer que você não adoraria esfregar na cara do pirocudo cretino o que ele perdeu, te vendo com outro?

Desvio meu olhar de Dayse e concentro meus olhos na figura de John dançando com Nina. Ele claramente não leva muito jeito para dançar, mas e daí? Cada um com os seus problemas.

— Ele nem deve estar aqui mais. – brincando de passar o dedo indicador pela borda do copo, eu resmungo após alguns segundos.

— Ah! Sabia que você estava cogitando isso, safada. – do seu jeito espalhafatoso de sempre, Dayse diz alto e, em seguida, me dá um safanão no braço.

— Ai, porra! – exclamo, alisando o lugar golpeado. – Não é nada disso. – me defendo.

— Mentirosa.

— Não estava, não. Você que fez essa ideia absurda se propagar na minha mente ao mencioná-lo. — digo séria e encaro Dayse.

Foram necessários três segundos apenas da gente se encarando para a minha amiga explodir em risada, me fazendo acompanhá-la logo em seguida. É real, o álcool já está fazendo seu efeito em nós.

— Assim que eu gosto. — Dayse menciona ainda rindo. — E quanto a questão dele não estar mais aqui. O irmão dele está e posso apostar meus peitinhos durinhos, que o Lewis comentará com o cretino que te viu aos beijos com um cara. — minha amiga mexe as sobrancelhas de modo sugestivo.

Balanço a cabeça de modo negativo, tentando inutilmente não rir daquela doida.

— Não acho certo me submeter a este tipo de coisa. — resmungo alguns segundos depois já com um semblante mais sério.

Uma nesga de racionalidade permeia minha mente. Eu não irei me submeter a descer ao nível baixo daquele cretino.

Porém, só não contava em ouvir uma resposta tão ríspida de Dayse.

— Perguntei por acaso, Sara?

— Oi?! — arregalo os olhos surpresa com aquela sua fala grosseira.

Vejo Dayse endurecer a expressão.

— Acorda, amiga! — Dayse bate as mãos uma na outra. — Enquanto você está aqui quieta... Se privando de curtir e pegar quem bem entender... O cretino do seu ex está em algum canto desse bar ou fora dele aos beijos com outra, ou até mesmo trepando com essa fulana. E, domingo, ainda vai casar com a sua prima. Então, levanta essa bunda da cadeira... Vai até aquele boy que está te cadelando desde que colocou os olhos em você e dá uns pegas nele, Sara.

Certo, Dayse está oficialmente fora de seu juízo perfeito já. Se bem que juízo é algo que aquela louca tem quase nada sóbria, quem dirá alcoolizada. Mas deixemos isso para lá.

Apesar do jeito torto e das coisas em tom nada gentil que ela disse, no fundo Dayse tem lá sua razão. Porém, não darei essa moral àquela maluca, que já ingeriu sei lá quantas doses de mojitos até ali.

— Sara chega junto nele.

Desvio o olhar de Dayse para encontrar alguém se aproximando da gente.

— Acho que não será preciso eu ir até ele, Dayse. – comento disfarçadamente ao ver John vindo na nossa direção.

— Deus é bom com quem não merece, puta que pariu.

— Cala a boca! E nada de me jogar pra cima desse cara.

É tudo que consigo cochichar segundos antes de John parar diante da gente.

— Amigo do Bolton... Que bom que veio aqui. Minha amiga está doidinha pra dançar.

Parece que eu falei grego ou qualquer outra língua menos a nossa para a Dayse, porque a maluca fez exatamente o que pedi que não fizesse. Santa paciência, viu?!

— Estou é? – lanço um olhar assassino para Dayse que me encara com um sorriso tão falso quanto o casamento daquele cretino do Gil Grissom com a minha prima.

Ah, merda! De novo eu estou falando dele. Parece perseguição!

— Está sim, amiguinha. — ela diz na maior serenidade ou chame de cara de pau mesmo, que combina mais até. — Mas ela não quer ir sozinha pra pista, sabe?... E como os meninos estão demorando para vir do bar, você pode acompanhá-la? Se não estiver cansado de dançar.

— Claro que posso!

O sujeito responde de imediato, sem sequer pestanejar. Não sei se fico feliz ou triste por sua aceitação tão rápida. Melhor nem racionalizar muito a respeito.

— Vai lá, Sara. Agora, você já tem um par para dançar.

Eu não tenho chance nem de dizer um A, já que Dayse me faz ficar de pé com um beliscão na bunda, que quase deixo escapar um grito de susto e dor. Mas pelo olhar nada feliz que lanço a Dayse, ela deve ter entendido que não curti nada isso que fez.

— Vamos lá? – alheio ao que se passa, John me estende a mão de modo educado e só me resta render-me a segurar a sua dois segundos depois de ter sido jogada por Dayse para cima do sujeito.

O homem sai me levando na direção da movimentada pista de dança. Olho para trás, só para ver Dayse fazendo sinal de positivo com os dedos polegares e rindo feito uma pateta.

“Você me paga.”, De cara amarrada, gesticulo com a boca, sem emitir som. Palhaçada o que ela fez.

“E você me agradece depois.”, Consigo ler seus lábios articular a frase com um sorriso e antes dos demais rapazes retornarem a mesa com algumas bebidas em mãos.

Desvio o olhar de Dayse já de papo com nossos amigos, para encarar as costas largas do sujeito com quem estou indo dançar.

Será que estarei me prestando a um papel tão ridículo, caso ceda a ideia descabida daquela sem juízo da minha amiga?

“Não!”

“Não pedi a tua opinião!”

“Então porquê faz a pergunta mentalmente, se sabe que eu hábito a sua mente, insolente?”

Não me dou ao trabalho de responder, porque John pára e se vira para mim. Assim resolvo me concentrar no sujeito comigo e não na voz em minha cabeça, que só me deixa louca.

— Não sei dançar muito bem esse ritmo. – digo aproximando o rosto do sujeito para me fazer ouvir por conta da música alta.

Dançar sempre foi comigo, mas esse ritmo latino, mais especificamente, reggaeton nunca foi o meu forte.

— Nem eu. – ele admiti, abrindo os braços. – Mas o segredo está em se deixar levar pela música, Sara. – sugere com um sorriso de orelha a orelha antes de fechar os olhos para começar a se mover de modo desengonçado ao som da música tocada pelo DJ.

De modo receoso começo a dançar embalada pela batida dançante da música cantada por um dueto no qual certo verso diz:

Você roubou meu coração como um criminoso
Bebê, isso eu não posso negar
Isso que eu sinto por você não pode ser legal, ah *

Não queria, mas foi mais forte que eu. Quando me dê conta aqueles versos e, os que se seguiram, já estavam me fazendo, de modo involuntário, associar a música àquele cretino. A verdade é que a letra inteira caía como uma luva para aquele filho da mãe. Parecia até sacanagem comigo.

Curioso como quanto mais você quer ignorar a existência de alguém, mais o mundo é do contra e te joga coisas na cara que te fazem lembrar-se do dito cujo, para testar a sua paciência, só pode.

Agradeci infinitamente, quando a canção encerou para outra tão dançante quanto se iniciasse.

— Você dança bem.

— Obrigada! – agradeci ao meu parceiro de dança. Pena que eu não podia dizer o mesmo ao seu respeito, mas ele era até esforçado.

— Ao contrário de mim.

Minha língua coçou para concordar com a opinião de John, porém a educação não me permitiu cair nessa deselegância toda.

— Você não é tão ruim.

— Verdade. Eu sou péssimo.

Acabamos rindo juntos do comentário dele. E dali em diante entre uma música e outra, algumas risadas e conversas sobre assuntos para se conhecer e outros aleatórios, pegamos intimidade rapidamente. E diante disso, percebi John flertando comigo de modo mais claro a cada nova troca de olhar que fazíamos durante a nossa dança.

— Bolton me confidenciou que essa reunião se trata de uma comemoração de despedida sua com o pessoal, porque irá começar em um novo emprego. – sua boca murmura perto da minha orelha em certo momento da dança que fazíamos, na qual eu me encontrava de costas para ele.

— Sim. – afirmo me virando de frente para John. – Eu trabalhava em uma editora junto com esse pessoal todo que você conheceu, mas aí recebi o convite para trabalhar em outra companhia. Aceitei e agora estamos todos aqui, nessa despedida. – compartilho de boa a informação com ele, sentindo àquela altura certa confiança nele. Acho que é o álcool se acentuando por conta da dança, das luzes e da fumaça que vez ou outra era lançada pelo DJ.

— Que legal! Parabéns pelo emprego novo então.

— Obrigada. – agradeço, encarando seu rosto sorridente iluminado pelas multicores do estroboscópio.

Lembrei do que Dayse disse sobre pegar John para esfregar na cara daquele cretino do Gil o que ele perdeu.

Àquela altura, depois de já sei lá quantas músicas dançamos até ali, olhares e sorrisos trocados, eu começava a considerar a ideia como não tão absurda assim. John é gato, porém dança péssimo, é verdade. Mas é gente boa e muito animado, apesar de demonstrar em certos momentos uma timidez.

“Sério, insolente, que tu vais cair nessa?”

“Lá... Lá... Lá... Lá... Não te ouço... Não te ouço...”

“Nossa! Santa maturidade, insolente! Depois dessa vou me recolher. Até!”

— Sara? Tá tudo bem?

— Sim! Por que?

— É que você tá parada há segundos me encarando.

— Desculpa. Vamos continuar dançando.

Ele assentiu meio desconfiado e voltamos a dançar.

Três músicas.

Foi o tempo de apenas três músicas com letras bem sugestivas sobre vingança e fazer o ex pagar na mesma moeda, para eu chutar qualquer senso lógico e me jogar de cabeça na sugestão descabida dada por Dayse.

Foda-se que eu esteja descendo àquele nível baixo. E, sinto muito, por John, por usá-lo daquela forma. Mas já sem senso lógico e não pensando mais racionalmente, e sim motivada pela vingança cantada em alguns versos das canções, eu me vi querendo que aquele cretino sinta o amargor da decepção ao me ver nos braços daquele sujeito, como eu senti ao vê-lo com outra mulher. Quero que ele veja o que perdeu, ou melhor, que ME perdeu.

Porque Grissom me perdeu. E o que sinto por ele, eu ei de superar, porque não o quero mais. Não vejo qualquer possibilidade de volta entre nós. Ele e eu não cabe mais depois do fim proclamado por ele como “temporário”.

Para mim foi definitivo! Sem volta!

Ele fez a escolha dele. E não fui eu a sua opção. Foi Anitta. Foi a herança. Foi o projeto. Foi cumprir a promessa feita ao pai dele. Foi tudo, menos eu no final das contas.

Ele não teve consideração comigo, por que eu deveria ter por ele?

Mas também eu deveria me submeter a descer ao seu nível, apenas para puni-lo assim?

Me igualar a ele me faria tão o mais baixa quanto ele. Porém, eu não estou ligando muito para isso, ou melhor, para nada. Foda-se! Só desejo que ele veja e sinta, algo tão doído quanto vi e senti.

Decidida a cair de cabeça na sugestão de Dayse, me viro de frente para John após dançar quase metade daquela música me esfregando nele. Não penso duas vezes em lhe beijar a boca. Como foi um ato que ele não esperava, sinto que o sujeito leva alguns poucos segundos para corresponder.

No fundo, eu sei que irei me arrepender daquilo amanhã, mas vou deixar esse sentimento de culpa ou algo semelhante para o amanhã mesmo. Vou viver o hoje e saborear a minha doce vingança daquele cretino e torcer para que Grissom esteja em algum canto daquele bendito lugar me assistindo com John.

O beijo até que não estava sendo ruim. Estava envolvente com a "dança das línguas", a pegada do John e o cheiro bom que vinha do sujeito, só que eu não conseguia sentir aquele "algo mais" com o beijo.

"Talvez a explicação esteja no simples fato de que você NÃO sinta nada por ele, insolente."

Talvez desta vez eu deva concordar com essa diaba habitante em minha mente.

"Obrigada!"

"Não se anima muito não!"

Se era uma ficada para se vingar daquele cretino, então não tinha muito cabimento sentir esse "algo mais" que cogitei sentir.

"Exatamente, insolente!"

O beijo ainda dura mais um pouquinho e quando se encerra, abro os olhos, encontrando John com um sorriso de orelha a orelha. Acabo esboçando um sorriso em resposta para ele.

Foi um bom beijo, mas na real? Já experimentei outros melhores. Mas ainda assim, consenti que outros viessem depois deste primeiro e pelas próximas duas músicas que ainda dançamos juntos.

Me deixei envolver e levar que nem quando foi com o Owen.

Quando john e eu retornamos à mesa fomos alvo de brincadeiras e comemorações besta do grupo, principalmente por parte de Dayse que já mandou um: shipo muito vocês já!

— Um brinde ao novo casal!

A louca da Dayse disse com a voz já embolada e puxando brinde.

— Que novo casal! Pode parar. — digo, baixando o braço da minha amiga.

— Aí, cachaceira. Dá uma segurada na emoção. — Bolton zomba dela e nós rimos todos.

— Ela vai querer casar vocês, cuidado. — alerta Trent com a fala tão embolada quanto de Dayse.

Não faço ideia de quem já estava mais bêbado ali. Só sei que entre piadas, risadas, copos e mais copos de mojitos e tequilas que passamos a beber depois... Beijos e mais beijos no John... Tudo foi se tornando um completo borrão para mim.

***

"Nível de ressaca: não sei onde estou nem como cheguei."

(Diva Depressão)

Enjoo. Indisposição. Dor. Principalmente dor. Dor de cabeça. Dor nos pés, pernas, braços, enfim no corpo todo é isso que sinto. Sem contar no gosto de corrimão de escada na boca. Hã?! Aí, você me pergunta: como diabos é o gosto de "corrimão de escada na boca"? Deve ser exatamente este horroroso que sinto. Argh! Esse é o lado ruim de uma noite divertida, regada a muito álcool: ressaca.

Bebi ontem como se não houvesse amanhã, só que teve. E a consequência disto é esta tremenda ressaca. Jeito muito ingrato esse do nosso corpo agradecer por uma noite daquelas, né?

Há quem diga que ressaca é igual saudade: se você está sentindo é porque valeu a pena. Então, acredito que o tem deve ter válido muito a pena apesar de eu não lembrar nada da metade até o final da noitada.

“Bom dia, insolente!”

Ah, não! Não! Não! Não! Ninguém merece, acordar e ser esta voz irritante a primeira coisa que se ouve.

“Me erra que não tô bem!”

Sem abrir os olhos, me mexo um pouco na cama só para sentir com mais potência cada músculo do meu corpo doer.

“Pra quê está colocando o travesseiro sobre a cabeça se, de qualquer forma, você vai me ouvir?!”

Se não bastasse os "sintomas" de ressaca, ainda sou obrigada a ouvir “gracinhas” de manhã cedo. Eu só posso ter errado feio em outra vida e agora, estar pagando nessa os meus pecados.

“Não seja tão dramática!”

“Vai embora, por favor!”

“Quer saber? Eu vou mesmo, porque não se chuta cachorro morto. Melhoras, insolente. Tchau!”

Em outra ocasião, eu xingaria essa desaforada por me chamar de cachorro morto, mas eu não tô em condições de bater boca com essa peste. Tanto que só agradeço por ela me deixar em paz, porque tudo que quero é silêncio, já que minha cabeça parece que vai explodir com qualquer ruído por mínimo que seja.

Sério, não vou beber mais tanto assim tão cedo. Não tenho a menor ideia de quantos copos de mojitos ou tequila tomei e nem como cheguei em casa. Provavelmente, foi Bolton quem me deixou aqui, já que ele era o que deveria se manter sóbrio do grupo.

Graças a Deus Brooke me dispensou do serviço neste sábado por conta da minha mudança para a casa nova, porque do contrário eu teria que faltar. Não há qualquer condições de eu ir trabalhar assim nessa ressaca braba. Pobre da Dayse que não tem essa sorte e vai para a editora. Ou será que ela já foi? Jesus! Que horas deve ser?

Abro os olhos devagar. Aos poucos vou me acostumando com a leve claridade do ambiente, para então tomar um susto danado ao não reconhecer aquelas pareces em tom cinza, a enorme TV LCD presa em um suporte, o roupeiro escuro, bem como a colcha macia que me cobre.

Que lugar é aquele?

Sento na cama assustada e, pelo modo brusco e rápido com quê me coloco sentada, vejo o mundo dar um giro de 360° e minha cabeça latejar que deixo até um gemido de dor escapar.

Um desespero começa a me tomar. Onde eu estou? De quem é aquele quarto? Porque meu que não era. Meus olhos varrem o cômodo em busca de pista que me digam de quem é aquele quarto, mas não há nada, nenhum porta-retrato. Apenas uns quadros de carros pendurados em uma das paredes.

E se não bastasse estar naquele lugar desconhecido, o meu desespero aumenta com o fato de eu só então perceber agora meus seios à mostra e, de estar usando apenas minha calcinha por baixo da grossa colcha de cama.

— Merda, Sara! O que você fez ontem? — resmungo angustiada e puxando a colcha para cobrir meus seios.

Tento buscar na mente alguma lembrança de como vim parar ali, mas tudo é um emaranhado de borrões.

— Dayse não acredito que você me deixou vir sozinha pra sabe Deus onde. — digo em queixa. Que bela amiga ela!

Ainda desnorteada, eu procuro minhas roupas, porém não as encontro em canto algum daquele lugar, nem mesmo minhas sandálias ou a bolsa estão por ali.

Entretanto, avisto sobre a mesinha de cabeceira um copo de suco que me parece ser de laranja, e um comprimido. Ao lado deles há um papel onde se lê: Para a sua resseca! A caligrafia é bonita, mas desconhecida por mim.

Apesar de desconfiada pego o copo e o comprimido e bebo o líquido, que de fato é suco de laranja, junto com a pílula que, provavelmente é um analgésico.

Devolvo o copo a mesa de cabeceira e suspiro, enterrando o rosto entre as mãos. Preciso ir embora dali o quanto antes. Não quero nem pensar no que possa ter acontecido, ainda que eu desconfie. Os "sinais" me parecem claros o bastante. Juro, eu não sei como posso ter ido tão longe assim. Ou melhor, sei sim: álcool.

Tá, aí e você esfrega na minha cara: é muito cômodo colocar a culpa no álcool agora. Mas na real, é tudo culpa do álcool mesmo. No meu juízo perfeito, eu não iria para a casa de sei lá quem e acordaria em uma cama desconhecida. Não mesmo!

— Como vou sair daqui sem minhas roupas? — questiono, retirando as mãos do rosto.

É então que enxergo uma camisa verde musgo e uma calça aos pés daquela cama enorme junto com outro bilhete: Vista! É a mesma caligrafia do bilhete na mesa de cabeceira.

Pelo visto quem quer que seja a pessoa dona daquele lugar, é bem gentil e atenciosa. O que me faz cogitar que eu esteja na casa de um dos meus amigos. Agora sabe-se lá porquê estou ali e não em casa?

Não penso duas vezes em apanhar as duas peças de roupa com os pés e vesti-la.

A camisa ficou grande assim como a calça de amarrar na cintura. Dobrei um pouco a manga da camisa e a barra da calça sem deixar de pensar de quem era aquele quarto. E rezando para eu estar na casa de um dos meus amigos ou amigas. Um estranho não teria tanta atenção e gentileza assim. Ou teria?

Não sei o que pensar. Só sei que estou angustiada por não saber onde estou.

Vejo uma porta ao lado direito da cama e desconfio que seja do banheiro. Vou até ela e de fato se trata do banheiro.

Meu reflexo no espelho não podia ser mais horrível. Cabelo todo bagunçado. Os olhos inchados. A maquiagem toda borrada pelo rosto. Um perfeito caos.

— Jesus! — exclamo quase que chorando.

Jogo uma água na cara. Em seguida prendo os cabelos em um coque tão doido quanto a minha sanidade naquele momento de ressacada.

Saio do banheiro e mesmo sem muita coragem de encarar o que há lá fora, saio do quarto alguns segundos depois.

Em passos hesitantes caminho por um corredor e logo estanco ao escutar uma voz masculina.

— Eu sei, Sanches. Mais tarde fazemos uma videoconferência para resolver isso. Peça desculpas ao pessoal por mim, por faltar, mas realmente houve um imprevisto aqui por isso não pude ir a reunião.

A voz parece conhecida, mas meu desespero não me deixa raciocinar direito. Eu achava de coração que estava na casa de algum amigo, mas não é assim.

Ainda ouço o sujeito trocar mais uma dúzia de palavras com o tal Sanches sobre finanças e projetos até que ele se despede e fica silêncio.

Juro fico em um impasse tremendo sobre voltar para o quarto ou ir adiante e enfrentar as consequências da minha bebedeira de ontem. De saber quem era a pessoal com quem eu... Passei a noite?

Deus! Será que eu dormir com um desconhecido?

— Sara?! Que bom que acordou!

É, não vai dar para voltar para o quarto.

Sem que eu me desse conta o sujeito estava há poucos passos de distância de mim, usando uma calça parecida com a que eu estava, porém na cor cinza. Sem camisa, deixando em evidência seu peitoral largo e o abdômen trincado. Há um sorriso genuíno em sua boca que alcança seus olhos que parecem contentes em me ver.

Céus! Não é um desconhecido.

— John!

Notas finais
*Trecho da música "Criminal" (Natti Natasha feat. Ozuna). Será que rolou? No próximo capítulo vocês e a Sarah descobrem isso. Xero e até semana que vem, meus amores.