— Quero falar com seus pais sobre a gente, Sara!

As palavras de Gil pairaram sobre a mesa, mais pesadas que o vapor que subia das canecas de cerâmica. Ergui a cabeça devagar, sentindo o ar fugir por um instante. Meus olhos encontraram os dele em um misto de surpresa e um pânico surdo que reverberou no peito.

Estávamos mergulhados na inércia de um café da manhã tardio, cercados pelos vestígios banais de uma manhã comum: o rastro de migalhas de torrada espalhadas sobre o jogo americano e o brilho gorduroso da manteiga derretida que esfriava no prato. O ar carregava o aroma persistente de café passado, misturado ao eco dos resmungos rítmicos de William e Benny, que se agitavam em seus carrinhos estacionados estrategicamente próximos à mesa. Aquele ambiente, antes um refúgio de segurança doméstica e previsibilidade, subitamente pareceu encolher; as paredes pareciam mais próximas, pequenas demais para conter a gravidade da proposta que agora pairava entre nós como uma nuvem de tempestade.

— Gil... — a minha voz surgiu carregada de uma cautela quase dolorosa, as sílabas pesadas como se tivessem que atravessar um oceano de incertezas.

Eu buscava o ângulo certo para introduzir aquele assunto delicado, um território minado de implicações, mas o destino foi mais rápido. Antes que eu pudesse formular a próxima palavra, o celular de Grissom, largado displicentemente sobre a madeira da mesa, irrompeu em uma vibração estridente. O toque cortou o silêncio tenso como uma lâmina, a luz da tela piscando freneticamente e denunciando uma urgência que não nos pertencia, mas que, naquele exato segundo, interrompia o curso da nossa conversa.

Grissom lançou um olhar fugaz ao aparelho e, no mesmo instante, o vinco profundo que se formou entre suas sobrancelhas denunciou uma mistura de surpresa e sobressalto. Era como se o nome no visor fosse um fantasma que ele não esperava invocar naquela manhã.

— Preciso atender — avisou, a voz subitamente despojada de qualquer suavidade enquanto pressionava a tecla e levava o celular à orelha. — Oi, Luke! O que houve?

Fiquei estática, observando Gil mergulhar em um silêncio absoluto enquanto ouvia o relato de seu segurança e motorista. Era fascinante e aterrador assistir à metamorfose de suas feições: a serenidade que compartilhávamos até segundos atrás, ruiu como um castelo de cartas. Uma máscara de rigor súbito e gélido assumiu o controle, endurecendo o contorno de sua mandíbula até que os músculos da face estivessem tensos como cordas de aço.

— Maravilha! — exclamou ele. A palavra, que deveria carregar entusiasmo, soou oca, um alívio sombrio e puramente estratégico, despido de qualquer alegria real. — Levem-no para o meu antigo apartamento. Deixe o sujeito sob supervisão rigorosa da equipe de segurança e venha me buscar aqui na Sara imediatamente. Quero estar presente quando ele der o nome do responsável... ou dos responsáveis. Até.

O estalo seco do celular contra a madeira da mesa ressoou como o martelo de um juiz, selando irremediavelmente o destino da nossa manhã tranquila. Grissom fez uma pausa deliberada, fechando as pálpebras por um segundo, como se estivesse organizando as peças de um tabuleiro invisível dentro de sua mente. Com uma calma calculada que me enviou calafrios pela espinha, ele abriu os olhos e levou a xícara aos lábios, tomando um gole longo do café agora morno. Quando finalmente seus olhos me encararam, sua expressão carregava uma doçura que, embora familiar, parecia ensaiada demais para a gravidade do que eu acabara de ouvir.

— Aconteceu alguma coisa? — sondei, minha voz saindo quase em um sussurro diante daquela ausência perturbadora de explicações.

— Conseguiram encontrar o sujeito que deixou o envelope com a carta anônima — ele disparou, as palavras cortantes apesar do tom baixo. — Aquela que me revelou sobre ser pai do Benny.

O ar pareceu faltar nos meus pulmões. Engoli em seco, o impacto da informação me atingindo como um soco no estômago.

— Você... você estava procurando pelo sujeito que entregou a carta? — perguntei, aturdida, sentindo o ambiente doméstico ser invadido por uma realidade policial que eu não estava pronta para processar.

— Sim — confirmou ele, sustentando meu olhar com uma serenidade que beirava o gélido. — Ele foi flagrado pelas câmeras de segurança da empresa, uma falha de principiante. Eu não ia deixar passar. Mandei Luke colocar toda a equipe de segurança à caça desse homem até que ele fosse localizado.

— Mas por que, Gil? Por que ir tão longe por causa disso?

Ele se inclinou levemente para frente, a luz da manhã refletindo em suas pupilas que agora pareciam duas frestas de obsidiana.

— Porque ele, ou quem quer que tenha ordenado que ele deixasse aquele envelope, não o fez por benevolência. Não houve dó ou compaixão por eu não saber a verdade — ele fez uma pausa dramática, a voz endurecendo como metal resfriado. — O objetivo era cirúrgico: causar uma ruptura irreversível entre nós dois. Queriam que a verdade fosse uma arma de destruição, e eu preciso saber quem puxou o gatilho.

— Certo — retruquei, sentindo um calafrio de concordância.

A revelação agiu como um catalisador; de repente, o peso daquela traição anônima também começou a queimar em mim. Agora, mais do que medo, eu sentia uma necessidade visceral de desmascarar o arquiteto daquele caos.

— Você tem alguma suspeita de quem possa estar por trás disso? — lancei a questão, tentando manter a mão firme ao levar o copo de suco de laranja aos lábios, embora o líquido parecesse ter perdido o sabor.

— Em vista dos últimos acontecimentos... — Gil começou, deixando a frase suspensa no ar enquanto tomava um gole de café, os olhos fixos em um ponto invisível além da mesa. Quando ele voltou a me encarar, seu tom de voz ganhara uma gravidade notória, quase sombria: — Nada me tira da cabeça que foi Doug.

O nome ecoou na cozinha como uma sentença. A menção a ele trouxe de volta uma enxurrada de memórias e ressentimentos, transformando a suspeita em uma possibilidade palpável e sufocante. Grissom não estava apenas supondo; ele estava declarando guerra a um fantasma do meu passado que se recusava a nos deixar em paz.

****

Grissom...

Assim que cruzei o batente da sala, a atmosfera pesada do apartamento me atingiu. No centro do recinto, um homem estava encolhido no meu sofá, a cabeça oculta por um capuz escuro que o isolava do mundo. Ele parecia tragado pela vastidão do móvel, flanqueado por dois brutamontes da minha equipe de segurança, que se mantinham como estátuas de pedra em cada extremidade do sofá, com as mãos cruzadas à frente do corpo em uma postura de vigilância absoluta.

— Tem alguém aí? — a voz do sujeito emergiu abafada pelo tecido, flutuando no vazio. — Eu juro... eu já ia pagar o que devo. Não precisava chegar a esse ponto, eu vou conseguir o dinheiro!

Luke inclinou-se em minha direção, o hálito quente carregado de uma confidência sombria enquanto sussurrava ao meu ouvido:

— Ele acha que foi sequestrado por alguma quadrilha. Pelas súplicas, tudo indica que seja dívida de jogo.

— Ou drogas — retruquei, a voz gélida, enquanto meus olhos não desviavam daquela figura patética.

A peça que faltava no quebra-cabeça parecia finalmente se encaixar em minha mente: o desespero financeiro. Aquele homem não era um mestre do crime, era apenas uma engrenagem barata e descartável. Provavelmente aceitara o trabalho sujo de entregar o envelope em troca de uma quantia que aliviasse a corda no seu pescoço. Alguém havia comprado o seu silêncio — ou a sua audácia — com o preço exato da sua sobrevivência.

Caminhei lentamente até a zona de influência do homem, cada passo meu contra o piso ecoando como uma contagem regressiva. O som parecia perfurar a escuridão do seu capuz, fazendo-o estremecer; ele tateava o ar com os dedos nervosos, asfixiado pelo pânico do desconhecido. Ao chegar a uma distância curta o suficiente para sentir o cheiro do medo que emanava dele, fiz um gesto seco com a cabeça para meus seguranças.

Imediatamente, os dois homens o agarraram pelos braços, suspendendo-o do sofá com uma brutalidade eficiente. Os pés do sujeito mal tocavam o chão, e o desespero finalmente transbordou em uma súplica rasteira:

— Por favor, não me matem! Eu juro, eu vou pagar cada centavo da dívida! Só me deem mais alguns dias, eu imploro!

O clamor era patético, uma sinfonia de covardia que quase me arrancou um riso amargo. Era fascinante como a audácia de invadir a minha privacidade com cartas anônimas se transformava tão rápido em uma humilhação servil diante da força bruta.

Com um movimento lento e deliberado, fiz outro gesto, agora com a mão, sinalizando para que Luke removesse aquela barreira de tecido. Eu queria que a luz ferisse seus olhos e que ele visse que o seu "cobrador" não era um agiota de esquina, mas o homem cuja vida ele tentou desestabilizar.

O capuz foi arrancado com um solavanco, e o sujeito piscou freneticamente, as pupilas tentando se ajustar à claridade enquanto o pânico o deixava ofegante. Ele esperava ver armas ou rostos mascarados; em vez disso, encontrou o meu olhar frio e a sofisticação impecável da minha sala.

A confusão em seu rosto foi quase instantânea. Ele não reconhecia o ambiente, mas a autoridade que eu emanava era inegável. Aproximei-me o suficiente para que ele pudesse sentir a frieza do meu hálito, mantendo uma distância que o obrigava a olhar para cima.

— Eu não quero o seu dinheiro, e não estou interessado nas suas dívidas — comecei, minha voz saindo em um tom tão baixo e calmo que parecia mais perigoso do que um grito.

Houve um segundo de silêncio absoluto, onde apenas o som da respiração descompassada dele preenchia o ar. Então, lancei a pergunta que cortou o que restava de sua esperança:

— Quem te deu o envelope que você deixou na minha empresa, e quanto te pagaram para garantir que aquela carta chegasse às minhas mãos?

Ele franziu a testa, as sobrancelhas unindo-se em um esforço genuíno para processar a pergunta. Por um instante, o pânico absoluto em seus olhos deu lugar a uma confusão genuína, como se as engrenagens de sua mente estivessem patinando em uma realidade que ele não conseguia reconhecer. Ele olhou para mim, depois para o luxo sóbrio da sala, e finalmente para os homens que o prendiam, buscando um nexo causal que não existia.

— Envelope? — ele balbuciou, a voz rouca e instável. — Que envelope? Eu... eu não sei do que o senhor está falando. Juro por Deus! Eu achei que vocês eram os caras do Senhor Tucker... do cassino.

Eu me inclinei um pouco mais, invadindo seu espaço pessoal até que nossas sombras se fundissem no chão. O cheiro de suor frio e desespero que emanava dele era quase palpável. Eu não pisquei. Estudei cada microexpressão daquele rosto pálido, procurando a hesitação característica de um mentiroso treinado.

— Não tente ser esperto — sibilei, minha voz vibrando com uma ameaça contida que parecia eletrificar o ar ao redor. — Minhas câmeras registraram você. Eu tenho o seu rosto em alta definição cruzando o meu saguão. Se você mentir para mim mais uma vez, eu ligo para o "Senhor Tucker" e digo que você está sob minha proteção. E eu garanto que ele vai adorar saber que você está gastando o tempo dele com amnésia seletiva.

O impacto daquela ameaça foi imediato. O homem engoliu em seco, um movimento ruidoso em sua garganta seca. O suor começou a brotar em seu buço, e ele começou a tremer de forma mais violenta, os olhos saltando nas órbitas enquanto a ficha finalmente caía: ele estava entre a cruz e a espada, e eu era a espada.

O homem fechou os olhos com força, como se tentasse bloquear a visão da própria ruína. O tremor em suas mãos agora era incontrolável, e um soluço seco escapou de sua garganta antes que ele finalmente cedesse, as palavras atropelando-se para sair.

— Um cara me parou na saída de um bar no centro... eu juro! — ele disparou, as lágrimas de terror começando a turvar seu olhar. — Eu estava devendo, desesperado. Ele disse que seria o dinheiro mais fácil da minha vida.

Ele fez uma pausa para tomar fôlego, o peito subindo e descendo em espasmos.

— Ele não me deu nome. Era um sujeito alto, de terno escuro, com um sotaque que não parecia daqui. Ele me entregou o envelope e o dinheiro, metade ali e metade quando eu saísse da sua empresa. Ele só disse que eu não precisava saber de nada, apenas garantir que o envelope chegasse à recepção com o seu nome.

Luke trocou um olhar significativo comigo, sua expressão endurecendo enquanto processava a descrição. Eu me afastei um passo, cruzando os braços e sentindo um frio gélido percorrer minha espinha. Aquele intermediário era cauteloso demais, uma barreira profissional erguida para proteger o verdadeiro mandante.

— O envelope está aqui — Luke murmurou, estendendo o papel pardo. Estava vincado e gasto, como se tivesse sido apertado com força demais durante o trajeto. Encarei a caligrafia no verso: letras tortas, apressadas, uma elegância forçada que beirava o grotesco.

— E como você recebeu o restante do pagamento? — perguntei, voltando meu olhar ao sujeito. Minha voz agora fria como o mármore. — Ele não deixaria um rastro sem que você tivesse uma forma de contatá-lo.

O homem baixou a cabeça, derrotado.

— Ele me deu um número de descarte. Disse para eu mandar uma mensagem com uma foto do comprovante de entrega da recepção. Depois que eu recebi o depósito em uma conta de laranjas, o número foi desativado. Mas... — ele hesitou, olhando para mim com uma esperança patética. — Eu salvei a foto que ele me mandou da localização do encontro. Talvez... talvez o GPS ajude vocês?... Se me soltarem, eu posso pegar o celular no meu bolso — ele balbuciou, a voz trêmula acompanhando o suor que escorria por sua testa.

Lancei um olhar carregado de desconfiança ao sujeito, deixando o silêncio se estender por alguns segundos para que o peso da minha presença o esmagasse. Dei um passo à frente, diminuindo a distância entre nós até que ele pudesse ver o reflexo de seu próprio pânico em meus olhos.

— Se tentar qualquer gracinha — comecei, minha voz saindo em um tom baixo, quase um sussurro letal —, esses dois cavalheiros terão o imenso prazer de transformar você em picadinho antes mesmo que consiga desbloquear a tela. Entendido?

— Eu juro que não farei nada, chefe. Eu juro! — ele implorou, os olhos saltando nas órbitas.

Com um aceno de cabeça quase imperceptível, sinalizei para os seguranças. Os homens afrouxaram o aperto de forma coordenada, libertando-o com uma brusquidão que o fez vacilar sobre as próprias pernas. Luke manteve a mão espalmada, um comando silencioso e gélido que o sujeito acatou imediatamente, pescando o aparelho do bolso traseiro de sua calça jeans surrada com dedos que não paravam de tremer.

O celular era um modelo obsoleto e barato, com a tela estilhaçada em uma teia de aranha e marcas profundas de desgaste, mas, para nós, aquele pedaço de plástico e vidro era o único fio em um labirinto de sombras.

Luke caminhou até a mesa de centro com uma calma profissional. Abriu um estojo de couro tático, de onde retirou um notebook de fibra de carbono que parecia saído de um centro de inteligência. Com movimentos metódicos e precisos, ele conectou o dispositivo do sujeito a uma das portas criptografadas. No instante seguinte, o brilho azulado e intenso da tela inundou seu rosto, conferindo-lhe uma aura quase cibernética enquanto os primeiros códigos começavam a rolar, desvendando os segredos que aquele homem jurava não conhecer.

— Vamos ver o que temos aqui — murmurou Luke, os dedos voando sobre o teclado enquanto linhas de código começavam a rolar rapidamente pela tela. — Ele limpou as mensagens, mas o rastro de metadados em uma rede de descarte é como fumaça: difícil de ver, mas deixa resíduos.

Fiquei observando por cima de seu ombro. Luke não estava apenas olhando fotos; ele estava mergulhando nas camadas profundas do sistema operacional.

— Aqui está. A foto da localização que ele te mandou — Luke isolou uma imagem granulada de um galpão industrial. — O mandante foi esperto, usou um proxy, mas a imagem original não teve os dados EXIF removidos antes do envio. O GPS aponta para uma torre de celular na zona portuária, setor norte.

Ele digitou mais alguns comandos e um mapa digital se expandiu, revelando um ponto pulsante em vermelho.

— E tem mais, senhor. O depósito na conta de laranjas... a origem do fundo passou por três bancos de fachada nas Ilhas Cayman antes de cair aqui. É uma estrutura de lavagem profissional. Isso custa caro. Ninguém monta um esquema desses só para entregar uma fofoca de família.

Um silêncio pesado caiu sobre a sala. Luke girou a tela para mim, revelando uma série de registros de chamadas criptografadas que o "intermediário" havia esquecido de mascarar totalmente.

— O número de descarte que lhe contatou — Luke apontou para uma sequência numérica internacional. — Ele fez uma única ligação de três segundos para um número fixo em Manhattan antes de ser desativado. O código de área é o mesmo de um escritório de advocacia em nome de... Bryan Simons.

O nome ecoou na sala como uma nota dissonante, fazendo o ar parecer subitamente carregado de eletricidade estática. Senti um solavanco no peito, uma mistura de choque e repulsa que me deixou momentaneamente sem fôlego.

— Bryan?? — repeti, a palavra saindo como um estalo de incredulidade. — Mas que merda o Bryan ganharia me revelando que o filho da Sara é meu? Ou melhor ainda... Como ele sequer sabia disso?

Cruzei os braços, sentindo o frio do mármore sob meus pés, enquanto minha mente trabalhava em uma velocidade febril, conectando pontos que eu preferia que estivessem distantes.

Os arquivos que Luke me entregara, obtidos por meio de seus contatos nas sombras, não deixavam margem para erro: cada relatório de passos, cada conversa interceptada, cada detalhe da minha rotina era enviado sistematicamente para Bryan por Ian, que deveria ser leal a mim, mas sua lealdade e servidão eram para Bryan.

— Talvez ele tenha passado todo esse tempo nas sombras, espreitando a senhorita Sidle enquanto o senhor morava na Alemanha — sugeriu Luke, sua voz emergindo da penumbra como um veredito sombrio.

— Faz sentido — respondi, o tom de voz gélido, embora minha mente estivesse em chamas. — Ou quem sabe ele tenha algum contato na clínica em que a Sara fez o pré-natal. Descubra se há algum contato direto dele com a clínica onde o Benny nasceu. A informação vazou de algum lugar, e eu vou queimar cada ponte que ele usou para chegar até mim.

— Certo. Vou precisar do nome da clínica.

— Pegarei com a Sara e te repasso. — lhe disse. — Mas a peça que não se encaixa nesse quebra-cabeça é o motivo. O que ele ganha arrancando o véu desse segredo?

Caminhei até a janela, observando as luzes da cidade que pareciam indiferentes ao meu caos interno.

— Talvez ele não quisesse apenas que o senhor soubesse a verdade; ele queria que a verdade destruísse a sua estabilidade com a senhorita Sidle.

— Por que? — me virei para encarar Luke. — Será que ele tem interesse nela? E talvez acredite que, ao lançar essa bomba entre nós, causaria uma ruptura definitiva, deixando o caminho livre para ele se aproximar dela?

Luke se ergueu do sofá, ajustando os punhos do paletó, o rosto marcado por uma dúvida metódica.

— Ou talvez ele seja apenas o mensageiro de um interesse maior, senhor. Lembre-se do detalhe nos arquivos: Simons mantém contato frequente com um número que morre assim que a chamada termina. Um fantasma digital. Bryan pode estar jogando, mas as cartas podem pertencer a outra pessoa.

Aquelas palavras pairaram no ar como fumaça, densas e sufocantes. Se Bryan era apenas o executor, quem estaria sentado no trono, movendo as peças com tamanha precisão? A dúvida era uma lâmina afiada, mas o som de um pigarro seco cortou o fio do meu raciocínio.

​— Será que eu já posso ir? — A voz do entregador soou estridente, rompendo a gravidade do momento.

​Eu o encarei com uma seriedade que o fez se encolher como um bicho acoado, o corpo teso sob o uniforme surrado. Por um segundo, eu o havia esquecido ali, uma testemunha involuntária de um desmoronamento iminente. O suor brilhava em sua testa, não pelo calor, mas pela aura elétrica de perigo que Luke e eu emanávamos naquela sala.

​Aproximei-me dele, o som dos meus passos no mármore ecoando como batidas de um metrônomo. O rapaz engoliu em seco, os olhos arregalados fixos nos meus. Eu não via nele apenas um trabalhador, mas o último elo físico com quem quer que tivesse enviado aquele dossiê.

​— Quem te entregou isso? — perguntei, as palavras saindo pausadas. — Quero detalhes. Roupas, cheiro, o jeito de falar, qualquer sinal de nervosismo.

​— Eu... eu juro que não vi o rosto direito, senhor — ele gaguejou, a voz falhando. — Ele usava um boné baixo e me deu o dinheiro adiantado. Disse apenas que, se eu entregasse em mãos e esperasse a confirmação visual, eu ganharia o dobro. Mas o jeito que ele falou... parecia que ele já sabia que o senhor estaria lá, exatamente na hora da entrega.

​Troquei um olhar rápido com Luke. A vigilância era absoluta. Se até o entregador era uma peça monitorada, eu estava caminhando em um campo minado onde cada passo já havia sido previsto por um mestre de obras invisível.

O silêncio que se seguiu foi interrompido apenas pela respiração curta e ruidosa do rapaz. Luke deu um passo lateral, posicionando-se de forma estratégica entre o entregador e a porta, uma sombra silenciosa e imponente que parecia fechar qualquer rota de fuga. O ar na sala havia se tornado rarefeito, carregado com a percepção de que não estávamos apenas sendo observados, mas conduzidos através de um labirinto invisível.

​— Saia. — A ordem foi um sussurro gélido, uma lâmina de gelo que não admitia réplica ou hesitação.

​O rapaz hesitou, os olhos saltando de mim para a mesa.

— Meu... meu celular — ele balbuciou, apontando para o aparelho descascado e obsoleto que jazia sobre a mesa, ainda atracado aos cabos do notebook de fibra que Luke usara para dissecar a origem da foto enviada ao entregador.

​Com movimentos lentos e deliberados, Luke aproximou-se da mesinha de centro. Ele desconectou o aparelho com um puxão seco e o estendeu ao sujeito, mantendo o braço rígido.

​— Um conselho... — A voz do meu segurança desceu uma oitava, tornando-se um rosnado baixo e perigoso. — Se você ousar abrir essa boca para contar o que viu, ouviu ou sentiu nesta sala... este domingo será o último pôr do sol que sua memória terá o prazer de registrar.

​O entregador engoliu em seco, um estalo audível de puro terror ecoando em sua garganta, enquanto suas mãos trêmulas agarravam o celular descascado como se o objeto fosse um talismã capaz de garantir sua sobrevivência.

​— Se manda! — a ordem de Luke chicoteou o ar.

​O rapaz não esperou por um segundo comando. Ele praticamente tropeçou nos próprios pés ao girar nos calcanhares em um movimento desajeitado e frenético. O som de suas solas de borracha derrapando no piso polido e seus passos apressados ecoaram pela sala, tornando-se cada vez mais distantes até serem subitamente engolidos pelo baque pesado e metálico da porta principal ao se fechar.

​Virei-me para as duas figuras que aguardavam nas sombras próximas ainda ao sofá, meus olhos fixos nos homens que serviam como meus braços armados.

​— Quero vocês dois como sombras desse cara pelos próximos quinze dias — ordenei, minha voz recuperando a cadência de comando, fria e objetiva. — Não quero apenas saber onde ele dorme; quero cada parada, cada olhar suspeito, cada encontro em esquinas escuras. Se ele se aproximar de qualquer rastro desse intermediário, avisem-me imediatamente. E se ele ousar abrir o bico... bom, vocês já sabem como silenciar o ruído.

​— Sim, senhor — os dois brutamontes responderam em um uníssono monossilábico e disciplinado.

​Com um aceno de cabeça, eles se retiraram, movendo-se com uma agilidade silenciosa que contrastava com o tamanho de seus ombros, desaparecendo pelo mesmo caminho que o entregador, como predadores que acabavam de receber o rastro da presa.

Virei-me para a imensa parede de vidro, onde o reflexo do meu rosto flutuava sobre a paisagem urbana, pálido e severo como o de uma estranha. Lá fora, a metrópole pulsava em um ritmo frenético; as luzes dos arranha-céus e o fluxo incessante do tráfego transformavam-se, diante dos meus olhos, em um tabuleiro de xadrez em escala monumental, onde cada luz era uma peça e cada sombra, uma ameaça.

​— Luke, analise aquela caligrafia no envelope e faça um pente fino nas câmeras do saguão — ordenei. Sentia a adrenalina recuar, deixando em seu rastro uma lucidez cortante, uma frieza impiedosa que estabilizava meus pensamentos. — Quero o rosto de quem colocou aquele dinheiro na mão do garoto. Bryan é inflado pela própria vaidade, jamais sujaria os dedos com o trabalho de campo, mas ele carrega uma falha trágica: é descuidado o bastante para confiar em mercenários que eu posso comprar pelo dobro do preço.

​— Considere feito, senhor — Luke respondeu, sua voz soando como o gatilho de uma arma sendo travado. — Eu mesmo farei a varredura. Não confiarei essa triagem a mais ninguém.

​— Ótimo. Porque se estamos realmente em um campo minado — continuei, meus dedos traçando o contorno frio do vidro enquanto observava o abismo da cidade —, é bom que eles saibam que eu aprendi a dançar entre as explosões sem perder o passo. Eles semearam o caos? Pois eu vou colher uma guerra.

​Girei sobre os calcanhares, encarando Luke com uma determinação que parecia vibrar no ar rarefeito da sala. Apontei para o notebook que ainda exibia linhas de código e coordenadas na mesa de centro.

​— Quero cada fragmento, cada nota de rodapé sobre as conexões recentes de Simons com esse escritório de fachada. E, principalmente, o paradeiro deste rato. Se ele acredita que pode usar a minha vida pessoal como moeda de troca, ele cometeu o erro fatal de me subestimar. Ele pensa que sou uma peça no tabuleiro dele... — fiz uma pausa dramática, um sorriso gélido curvando meus lábios — ... mas logo ele descobrirá que eu sou a mão que derruba a mesa.

​Luke apenas assentiu, um gesto breve e solene, antes de mergulhar novamente na luz azulada da tela, dando início à caçada digital.

Notas finais
Um xero e até o próximo 😘