After Separation - Livro 2
76 Capítulo LXXIV
— Quantas você já tomou dessa? — a voz de Dayse surgiu ao meu lado, cortando as batidas graves da música, enquanto ela apontava para a taça de champanhe que eu segurava com uma firmeza já duvidosa.
— Não sei. Parei de contar na sexta ou sétima, eu acho — revelei, sentindo um sorriso bobo e persistente se alargar em meu rosto.
Minha voz soou estranhamente aos meus próprios ouvidos; era como se as palavras estivessem envoltas em veludo, saindo um pouco mais lentas e vibrantes do que o habitual, ecoando dentro da minha cabeça antes de alcançarem o ar. O mundo ao redor parecia ter ganho um filtro de nitidez suave, onde as luzes da pista de dança deixavam rastros coloridos conforme eu movia a cabeça.
Eu sentia minhas bochechas quentes, não apenas pelo calor do salão, mas por aquela dormência gostosa que o espumante gelado trazia. Dayse riu, balançando a cabeça, mas eu já não conseguia focar totalmente nela. Meus olhos buscavam, por instinto, a figura de Gil na multidão.
Ele estava a poucos metros da minha mesa, rindo de algo que Edgar dizia, movendo-se com uma fluidez que me parecia hipnótica. Sob o efeito das várias taças de champanhe que já tomei, cada gesto dele parecia amplificado. O modo como ele passava a mão pelo cabelo, ou como a luz violeta da pista refletia no corte impecável do seu terno, fazia meu coração dar pequenos saltos desordenados.
Eu estava naquela zona segura da embriaguez onde o cansaço dos pés haviam desaparecido por completo. Só existia o ritmo da música, o sabor frutado do champanhe e a certeza absoluta de que, se Gil me chamasse para dançar novamente agora, eu seria capaz de flutuar sobre aquele chão de mármore.
— Você está irremediavelmente perdida, não está? — Dayse perguntou, um sorriso de soslaio denunciando que ela já sabia a resposta antes mesmo de eu abrir a boca. Ela seguia a direção do meu olhar, que permanecia magnetizado pela figura de Grissom do outro lado do salão.
Eu apenas dei mais um gole na minha bebida, deixando que as bolhas geladas estourassem na ponta da língua e subissem como pequenas fagulhas de euforia para a minha cabeça. Assenti lentamente, sentindo o mundo balançar num ritmo preguiçoso e agradável. Eu não estava apenas tonta pelo álcool; estava embriagada por aquela nova versão de mim mesma que Gil havia despertado: uma mulher que, finalmente, parara de contar as horas e começara a viver a intensidade dos segundos.
— Culpa dele e dessa versão romântica que ele resolveu tirar da cartola — retruquei, minha voz saindo com uma leveza que eu mal reconhecia. — Quem poderia prever que por trás daquela postura safada existia um arquiteto de clichês? Ele me desarmou, Dayse. Peça por peça.
Olhei novamente para Grissom. Ele estava em pé, segurando uma taça de vinho com aquela elegância despreocupada, o terno agora levemente desalinhado e um brilho nos olhos que parecia atravessar a distância e as pessoas entre nós. Ele era o culpado, sim. Culpado por me levar à Broadway, por me fazer patinar no gelo e, principalmente, por cuidar de bebês chorosos com a mesma dedicação com que cuidava do meu coração.
— Pois eu acho que essa "versão romântica" dele é a sua ruína favorita.
— E a minha melhor história — admiti, enquanto via Gil se despedir de Edgar e começar a caminhar em nossa direção.
O modo como ele atravessava o salão, com os olhos fixos em mim como se eu fosse a única alma presente naquele casarão, apenas confirmava minha sentença: se eu estava perdida, não tinha a menor intenção de ser encontrada. No entanto, enquanto eu o observava ser subitamente interceptado por um convidado entusiasta no meio do caminho, uma onda de impaciência — e algo muito mais quente que o champanhe — percorreu meu corpo.
Inclinei-me na direção de Dayse, sentindo o mundo girar levemente, e deixei que a barreira da sobriedade caísse de vez.
— Mas preciso confessar... — sussurrei, a voz carregada por uma gravidade nova, quase rouca. — Eu sinto uma falta absurda daquela versão "sem filtros" e cretina da Grissom. Essa maratona de clichês foi linda, mas meu corpo está gritando por outra coisa agora. Eu quero ele, Dayse. Sem roteiro, sem público e, principalmente... sem roupas.
O desabafo saiu sem censura, impulsionado pela eletricidade que corria sob minha pele toda vez que eu via Grissom ajeitar aquele terno. Dayse tocou meu braço, soltando uma risada cristalina que se misturava ao som da festa, achando graça da minha absoluta sinceridade etílica.
— E quando exatamente — Dayse indagou, um brilho de pura malícia cruzando seu rosto enquanto seus olhos acompanhavam a cena de Gil, metros à frente, tentando se desvencilhar de uma conversa cortês com um convidado insistente — essa faceta de "arquiteto de romances" pretende ceder espaço para o sexo de reconciliação? Porque, amiga, a julgar pelo seu olhar, você já entrou em combustão espontânea faz muitos drinques.
Desviei meu olhar de Dayse para o homem que era o centro de toda a minha gravidade. Grissom parecia sentir o peso do meu escrutínio à distância, como se houvesse uma frequência de rádio sintonizada apenas entre nós dois; mesmo enquanto gesticulava educadamente para o convidado, sua atenção permanecia ancorada em mim, pesada e faminta.
Havia algo pecaminoso no contraste que eu testemunhava. O Grissom que, horas antes, acalmava um bebê com uma doçura quase angelical e que planejara roteiros dignos de um filme de época, era o mesmo homem que eu sabia existir entre quatro paredes — o Grissom de mãos firmes e desejos vorazes. Esse paradoxo era o que me deixava em chamas.
O romantismo meticuloso dos últimos dias fora um banquete requintado, um prelúdio necessário e inesquecível. Mas ali, sob as luzes pulsantes e violetas da festa, com o álcool correndo quente em minhas veias e o pulsar grave do baixo da música reverberando no meu peito, a delicadeza já não era mais suficiente. Eu não queria mais o roteiro; eu queria a improvisação. Estava faminta pelo Grissom cru, pela intensidade que não se coloca em papel, pelo prato principal que prometia ser consumido com a urgência de quem não suporta mais um segundo de espera.
Senti um calafrio percorrer minha espinha quando vi Gil finalmente encerrar a conversa. Seus olhos estavam fixos nos meus, sem desvios, enquanto ele dava o primeiro passo em minha direção. Ele atravessava o salão com uma determinação silenciosa, os ombros relaxados, mas o olhar carregado, como se estivesse prestes a reivindicar algo que era, por direito, dele.
— Se depender de mim, hoje mesmo, Dayse — murmurei para minha amiga, as palavras saindo num hálito quente de champanhe e um sorriso carregado das piores e mais deliciosas intenções.
Dayse não teve oportunidade de retrucar. O ar ao meu redor pareceu mudar de densidade, tornando-se eletrizado quando Grissom finalmente alcançou nossa mesa. Ele não parou em uma distância formal; ele se posicionou exatamente atrás da minha cadeira, e a proximidade foi o suficiente para que o calor do seu corpo irradiasse contra as minhas costas.
— Interrompo algo importante? — Gil perguntou, a voz saindo em um tom mais baixo, uma vibração rouca que parecia destinada apenas aos meus ouvidos, embora ele olhasse para Dayse com um sorriso polido.
Uma de suas mãos deslizou pelo meu ombro, os dedos longos e precisos traçando o caminho da minha clavícula com uma lentidão torturante, como se ele estivesse mapeando um território que já conhecia de cor, mas que ansiava por redescobrir. Enquanto isso, sua outra mão repousava possessivamente no encosto da minha cadeira, cercando-me, transformando aquele pequeno espaço em nosso domínio particular no meio da multidão.
— Estávamos apenas... comentando sobre o sucesso da festa — inventei, a voz saindo um pouco mais instável do que eu pretendia, enquanto arriscava um olhar por cima do ombro.
Ao encontrar os olhos dele tão de perto, a ebulição em meu corpo pareceu não apenas se intensificar, mas atingir um estado crítico. Gil não comprou a mentira. Ele inclinou o rosto apenas o suficiente para que seu hálito morno roçasse o lóbulo da minha orelha, um contraste arrepiante com o ar condicionado do salão. O brilho em suas pupilas era escuro, denso, desprovido de qualquer um daqueles clichês açucarados dos últimos dias. Ali estava o Grissom que eu convocara em meus pensamentos momentos antes.
— O sucesso da festa? — Gil repetiu, a voz sendo uma vibração rouca que reverberou direto na base da minha coluna, fazendo cada terminação nervosa entrar em alerta. — Engraçado. Pelo modo como você estava me olhando, eu juraria que o assunto era outro.
Seus dedos na minha clavícula exerceram uma pressão mínima, quase imperceptível para quem olhasse de fora, mas que para mim soou como um comando silencioso, um "eu sei exatamente o que você quer". Eu estava prestes a ceder àquela gravidade, quando a voz de Dayse cortou o ar como um estalo.
— Aí, Gil! — a voz de Dayse cortou o ar com uma descontração que beirava a ironia, forçando Grissom a desviar o foco magnético de mim. — Seria bom levar a Sar para dançar e tentar evaporar um pouco do álcool que ela consumiu. Ela está... bem entusiasmada depois de várias taças de champanhe.
O feitiço daquele silêncio compartilhado foi quebrado, mas a eletricidade entre nossos corpos permaneceu intacta, vibrando sob a pele. Gil soltou um riso curto e anasalado, uma vibração que senti ressonar contra o meu ombro. Ele não se afastou; pelo contrário, deslizou os dedos longos pela curva do meu pescoço até alcançar a nuca, um toque possessivo e firme que me fez estremecer, mesmo sob o olhar atento de Dayse.
— Sério? — Gil perguntou, voltando a me encarar. Seus olhos agora carregavam um brilho desafiador, uma mistura de diversão e uma curiosidade perigosa.
— Dayse tem razão. O álcool precisa de um destino — respondi, minha voz saindo mais densa do que eu planejava. — E a pista parece o lugar ideal para a gente resolver esse... "entusiasmo".
Coloquei-me de pé com movimentos propositalmente lentos, deixando que o leve desequilíbrio do champanhe desse um ar de entrega ao meu gesto. Estendi a mão para Grissom em um convite que, nas entrelinhas, era uma convocação. Ele aceitou sem hesitar, seus dedos fechando-se em torno dos meus com uma força que prometia muito mais do que apenas alguns passos de dança.
A sugestão de Dayse caiu como o combustível perfeito. Eu amava o "Grissom Arquiteto de Romances", o homem que planejava o pôr do sol e encantava bebês, mas meu corpo, inflamado pelo álcool e pela saudade, clamava por outra versão. Eu precisava desesperadamente trazer à tona o Grissom que não pedia permissão, a versão crua e intensa que transformava nossas madrugadas em maratonas de desejo absoluto. Eu queria o Grissom cujas mãos eram urgentes e cujos beijos não tinham roteiro. Eu queria o meu... Cretino e safado de volta.
Lancei um último olhar cúmplice e agradecido para Dayse, um reconhecimento silencioso pela deixa providencial. Então, puxei Gil para o coração pulsante do salão. À medida que o barulho e o movimento começavam a nos envolver, criando uma barreira entre nós e o resto do mundo, senti a batida grave do baixo sincronizar-se com o ritmo acelerado do meu pulso. Eu não o estava levando apenas para a pista; eu o estava conduzindo para o território onde os clichês morriam e as nossas vontades mais viscerais finalmente assumiam o controle.
À medida que mergulhamos no coração da pista, o ar tornou-se mais denso, saturado pelo calor de centenas de corpos e pelo aroma de perfumes caros que agora se fundiam em uma névoa inebriante. As luzes cortavam o ambiente em flashes frenéticos, transformando o movimento das pessoas em frames de um filme antigo, mas, para mim, o único foco nítido era Grissom.
Parei diante dele, sentindo a batida grave do baixo reverberar não apenas nos alto-falantes, mas diretamente no meu esterno, ditando um novo compasso para o meu coração. Sem pedir licença, envolvi o pescoço dele com meus braços, puxando-o para o meu espaço pessoal até que não houvesse mais um centímetro de ar entre nós.
Grissom hesitou por uma fração de segundo, ainda tentando manter as aparências, mas eu não estava disposta a facilitar. Inclinei meu corpo contra o dele, movendo meus quadris em um ritmo lento e provocativo que contrastava com a euforia da música ao redor. Meus dedos se enterraram nos fios de cabelo dele, puxando levemente, enquanto eu sussurrava contra seus lábios, sem chegar a beijá-lo:
— Se lembra da primeira vez que dançamos? — perguntei, aproximando meu rosto do dele até que nossas respirações se misturassem, criando uma redoma de intimidade no meio do caos estroboscópico da pista.
Gil soltou uma risada baixa, um som vibrante que senti ecoar no meu próprio peito. Seus braços envolveram minha cintura com uma firmeza que não deixava margem para fugas, enquanto ele me balançava lentamente no ritmo hipnótico da música.
— Com seus mínimos detalhes — ele confessou, a voz descendo uma oitava, tornando-se aquele sussurro rouco que sempre me desarmava. — Você me provocou por duas ou três músicas seguidas... acho que nunca senti tanta vontade de perder o controle em público quanto naquela noite.
Havia um sorriso divertido e perigosamente nostálgico em seus lábios, as luzes da festa refletindo em suas pupilas que agora pareciam duas poças de obsidiana. Ele lembrava do Grissom que tinha que se segurar, do Grissom que jogava o jogo das aparências enquanto eu o incendiava.
— Que tal um remember disso? — sugeri, minha voz carregada de uma audácia que só o champanhe e a saudade poderiam justificar.
Apoiei minhas mãos em seus ombros, deslizando-as lentamente pelo tecido da sua camisa de seda até que meus dedos encontrassem a pele quente da sua nuca. Comecei a me mover, não apenas seguindo a batida, mas desenhando um ritmo próprio contra o corpo dele. Era uma provocação deliberada: o roçar de coxas, o contato intermitente dos nossos quadris e o modo como eu sustentava seu olhar, desafiando-o a manter a compostura por mais um minuto sequer.
O sorriso de Grissom vacilou por um segundo, transformando-se em uma linha tensa de desejo puro. O jogo romântico dos últimos dias acabara de ser atropelado pela lembrança de quem éramos quando as luzes se apagavam. Eu não queria apenas a dança; eu queria a reação em cadeia que viria depois dela. E, pelo modo como as mãos de Grissom apertaram minha cintura, reivindicando cada centímetro do meu movimento, o remember prometia superar em muito a versão original.
Nosso duelo particular na pista transformou-se em uma guerra de atrito silenciosa, onde cada movimento era um golpe estratégico. Eu não estava apenas dançando; eu estava testando a estrutura daquela armadura de "namorado comportado" que Grissom vinha usando com tanto empenho.
A música mudou para um beat mais profundo, um sintetizador denso que parecia vibrar dentro dos ossos. Aproveitando a batida, virei-me de costas para Grissom com uma audácia renovada. Meus quadris moviam-se com uma lentidão calculada, desenhando um ritmo pecaminoso contra o tecido da calça dele. Eu sentia cada músculo de Gil retesar, uma resposta involuntária aos meus movimentos que me causava uma satisfação quase elétrica.
— Você está jogando sujo — Grissom sibilou contra o meu ouvido, sua voz agora era apenas um sopro carregado de urgência.
— Eu? Só estou dançando, Gil. Como na nossa primeira vez — respondi com uma inocência fingida, inclinando minha cabeça para trás para expor a linha do meu pescoço, sentindo o olhar dele descer como uma brasa por minha pele.
Eu sabia exatamente o que estava fazendo. Fiquei de frente para ele novamente. Deslizei minhas mãos pelas lapelas da camisa, puxando-o para mais perto, até que a ponta do meu nariz roçasse a sua. O cheiro dele — uma mistura de sândalo, perfume caro e o leve toque de gim — era o meu maior entorpecente. Comecei a traçar círculos invisíveis com meus dedos logo abaixo da sua nuca, um gesto que eu sabia que o desarmava completamente.
Grissom respondeu ao meu avanço. Suas mãos, que antes apenas me guiavam, agora me seguravam com uma força possessiva. Ele nem me deu tempo para pensar e me girou bruscamente, colando minhas costas ao seu peito e passando os braços pela minha cintura, prendendo-me contra si enquanto continuávamos no ritmo da música. Senti sua respiração errática na minha nuca, um contraste delicioso com a frieza das joias que eu usava.
Estávamos cercados por centenas de pessoas, sob luzes que piscavam em um ritmo alucinante, mas o duelo era estritamente privado. Cada vez que ele apertava o abraço, cada vez que eu inclinava meu corpo para trás buscando o seu apoio, a barreira do "socialmente aceitável" se tornava mais fina. Estávamos em um jogo de quem cederia primeiro, e o prêmio era a explosão que ambos sabíamos ser inevitável.
— Me provoque bem. — ele sussurrou e um déjà vu se pintou em minha mente.
— Tenho a sensação de que já ouvi isso antes. — retruquei com um sorriso e me virando para Grissom. — Seu romantismo tem sido impecável, Gil... mas eu cansei de esperar pelo próximo capítulo.
Senti o momento exato em que o autocontrole dele se estilhaçou. A mão que antes repousava com cautela na minha cintura subiu, espalmando-se com força contra as minhas costas e me prensando contra o seu corpo com uma urgência que me fez perder o fôlego. O brilho doce que ele sustentara durante todo o casamento deu lugar a uma pupila dilatada, escura e predatória.
Ele inclinou o rosto, escondendo-o na curvatura do meu pescoço, e sua respiração agora era errática, quente contra a minha pele.
— Você não tem ideia do que está fazendo — ele rosnou, a voz tão baixa que era quase um segredo vibrando contra a minha jugular. — Eu passei dias tentando manter a porra de um "namoro tradicional " para você, mas se você continuar se movendo assim... eu vou esquecer que estamos no casamento do meu irmão e levar você para o primeiro lugar escondido que eu encontrar dentro da casa.
Sorri sem esconder a empolgação que aquelas suas palavras me causaram. Nosso duelo de dança atingiu seu ápice quando a música pareceu desacelerar para um grave profundo e reverberante. Eu sentia Gil vibrar contra mim, uma corda de piano esticada ao máximo, prestes a romper sob a pressão da minha provocação. Meus movimentos eram agora uma carícia lenta e desavergonhada, um desafio mudo que dizia que eu não pararia até que ele quebrasse.
E, finalmente, ele quebrou.
Senti o momento exato em que a resistência dele desmoronou. Grissom soltou um suspiro pesado contra a minha nuca, um som que era metade derrota e metade desejo puro. Suas mãos, que antes me seguravam com uma firmeza controlada, subiram com urgência, uma delas enterrando-se nos meus cabelos enquanto a outra me puxava com tanta força que meu corpo arqueou para trás, buscando o apoio total dele.
Ele inclinou o rosto, colando os lábios no meu ouvido. A voz que saiu era uma vibração baixa, crua e definitiva, desprovida de qualquer roteiro romântico.
— Chega. Você venceu, porra — ele rosnou, o palavrão saindo como uma carícia proibida que me fez estremecer da nuca aos pés. — Se a gente ficar mais um segundo nessa pista, eu vou te foder aqui mesmo, na frente dos noivos e de todos esses convidados.
O ar sumiu dos meus pulmões. A versão romântica de Grissom havia saído de cena, deixando em seu lugar o Grissom que eu tanto clamava: possessivo, impaciente e intensamente real. Ele não esperou por uma resposta. Seus dedos se fecharam no meu pulso como uma algema de seda, e ele começou a me guiar para fora do centro do salão com passos largos e decididos.
— Acabou a festa para nós dois — ele sussurrou, sem sequer olhar para trás, enquanto cortávamos a multidão em direção às sombras do corredor que levava às áreas privadas do casarão. — Agora, você vai ter exatamente o que estava pedindo.
Eu não disse uma palavra. Apenas o segui, sentindo o triunfo latejar no meu sangue junto com a expectativa. O banquete de clichês tinha sido maravilhoso, mas o verdadeiro evento da noite estava apenas começando.
O trajeto até algum canto qualquer reservado do casarão foi uma mistura de urgência e sombras. Entramos na mansão onde o som da festa começava a se tornar um eco abafado e Gil me guiou por um corredor.
Entramos na primeira porta de carvalho pesado que avistei. Ele nos levou para dentro de uma biblioteca ou, talvez, um escritório. Assim que entramos, Grissom fechou a porta com um estalo seco e me prensou contra a madeira fria antes mesmo que meus olhos se acostumassem com a penumbra.
— Você queria o Grissom pervertido? — ele murmurou, a voz agora perigosamente baixa, enquanto suas mãos subiam pelos meus braços, prendendo meus pulsos acima da cabeça contra a porta. — Pois aqui está ele. E ele não está com a menor paciência para clichês.
O contraste era avassalador. O terno dele, antes símbolo de uma elegância impecável, agora parecia apenas um obstáculo. Senti o calor do seu corpo colado ao meu, o ritmo da sua respiração tão errático quanto o meu. O cômodo estava mergulhado em uma meia-luz vinda apenas do luar que atravessava as janelas altas, desenhando silhuetas de estantes de livros nas paredes.
— Dez dias, Sara — ele sibilou, encostando a testa na minha, o nariz roçando o meu com uma intensidade que me fazia arfar. — Dez dias sendo comportado e romântico... enquanto tudo o que eu queria era sentir você exatamente assim. Desarmada.
Ele soltou um dos meus pulsos apenas para deslizar a mão com força pela minha coxa, subindo o tecido do meu vestido até que a palma da sua mão encontrasse minha pele quente. O toque não era gentil; era uma reivindicação. Eu soltei um gemido baixo, que foi imediatamente abafado pelo seu beijo — um beijo que não tinha nada de romântico, mas tudo de faminto. Era o sabor do champanhe, do vinho, do desejo acumulado e da urgência de quem finalmente havia chegado ao prato principal.
Ali, naquele canto da mansão, cercados pelo cheiro de papel velho e pela poeira mágica do passado, o mundo lá fora — com seus brindes, vestidos e champanhes — deixou de existir. O banquete havia acabado, e a nossa maratona particular estava apenas nos primeiros segundos.
A biblioteca parecia um universo à parte, onde o tempo não era medido em minutos, mas no ritmo da nossa respiração. Grissom me mantinha prensada contra a porta, e o peso do seu corpo contra o meu era a âncora que eu precisava para não flutuar na névoa do álcool. A madeira fria nas minhas costas servia como o contraste perfeito para o incêndio que ele ateava em cada centímetro da minha pele.
Ele interrompeu o beijo por apenas um segundo, o suficiente para me olhar nos olhos com uma intensidade que quase me fez perder os sentidos. Suas mãos, antes firmes nos meus pulsos, agora desceram com urgência. Uma delas mergulhou nos meus cabelos, puxando minha cabeça levemente para trás para expor meu pescoço, enquanto a outra deslizava para a minha cintura, puxando-me para mais perto, se é que isso era possível.
— Você não tem ideia do quanto eu me segurei — ele confessou, a voz áspera, enquanto seus lábios traçavam um caminho de fogo da minha mandíbula até a curva do meu ombro. — Cada vez que você sorria, cada vez que você ajeitava o seu vestido... eu só conseguia imaginar as minhas mãos em você.
Meus dedos encontraram as lapelas do terno dele, puxando o tecido com força, desesperada por sentir a pele sob a peça cara e bonita. Com um movimento ágil, Grissom me girou, me levando para a mesa de mogno maciço que ocupava o centro da sala. Ele me sentou na borda fria, e o contato do metal das minhas joias contra o tampo de madeira ecoou suavemente na biblioteca silenciosa.
Eu envolvi a cintura dele com minhas pernas, prendendo-o no meu abraço, enquanto minhas mãos trabalhavam freneticamente nos botões do terno. Quando finalmente consegui abrir espaço, minha palma encontrou o calor do seu peito. Meu toque arrancou um rosnado baixo do fundo da garganta dele. Grissom mergulhou o rosto no meu decote, suas mãos subindo pela seda do meu vestido com uma impaciência que não admitia obstáculos.
Não havia mais espaço para a delicadeza ensaiada ou para o roteiro meticuloso dos últimos dias; naquele refúgio de sombras, o tempo parecia ter sofrido uma fratura. O que se desenrolava entre nós era uma conversa puramente física, uma gramática de peles onde as confissões não eram ditas, mas marcadas através de mordidas leves que deixavam rastros de fogo, suspiros abafados que morriam na curva do pescoço e a fricção elétrica de nossos corpos buscando um encaixe impossível de tão urgente.
O aroma denso de couro e papel envelhecido das estantes misturava-se ao cheiro metálico do nosso desejo e ao perfume floral que, misturado ao calor da pele, tornava-se uma marca de posse invisível. Na penumbra da biblioteca, protegidos por lombadas de histórias alheias e séculos de silêncio, nós finalmente mergulhávamos na nossa página mais visceral.
Grissom me pressionava contra a mesa de mogno com uma força que fazia a madeira estalar sob o peso da nossa entrega. Meus dedos, impacientes, perdiam-se no tecido nobre do seu terno, enquanto os dele subiam pela minha coxa com uma autoridade que me fazia perder o fôlego. O luxo daquela casa opulenta — os lustres de cristal, a prataria e os sorrisos sociais — desintegrava-se, tornando-se nada mais do que um cenário pálido e insignificante para a nossa própria e caótica libertação.
Cada movimento era um parágrafo de urgência, cada toque uma vírgula de prazer que nos levava em direção ao clímax que nenhuma palavra escrita poderia descrever. Éramos apenas duas pessoas, o eco de nossos próprios arfares e a certeza de que, naquela noite, a única história que valia a pena ser lida era a que estávamos gravando, com dentes e unhas, na memória um do outro.
O ápice da nossa entrega, quando eu já estava descendo o zíper de sua calça, foi subitamente cortado por um som que gelou o sangue que, segundos antes, fervia em minhas veias: o eco rítmico de saltos batendo contra o mármore do corredor lateral.
Grissom travou instantaneamente. Sua mão, que estava firmemente espalmada contra o meu seio direito, paralisou, e o rosnado de prazer que escapava de sua garganta morreu em um fôlego retido. O silêncio da biblioteca, que antes parecia um casulo protetor, tornou-se subitamente opressor, amplificando o ruído das vozes que se aproximavam da porta de carvalho.
— Alguém viu o senhor Grissom? O Lewis está chamando para as fotos com os padrinhos — a voz da organizadora ressoou, abafada pela madeira, mas perigosamente próxima.
O contraste entre a nossa realidade — roupas desalinhadas, respirações erráticas e a pele queimando de desejo — e a formalidade daquelas palavras foi como um choque elétrico. Grissom colou o rosto no meu pescoço, não em uma carícia, mas para abafar a própria respiração. Eu sentia o coração dele batendo contra o meu peito em uma cadência frenética, uma batida de pânico e adrenalina pura.
Meus dedos se enterraram nos ombros dele, apertando o tecido amassado de sua camisa, enquanto meus olhos buscavam os dele na penumbra. O brilho predatório de momentos atrás ainda estava lá, mas agora vinha acompanhado por uma centelha de perigo. Se a porta se abrisse, o escândalo seria irremediável: os padrinhos de um dos noivos, seriam desintegrados pela verdade crua da luxúria naquela mesa de mogno.
— Acho que ele deve ter ido ver se os filhos estavam dormindo — outra voz respondeu, e o som dos passos começou a se afastar, diminuindo gradualmente até ser engolido novamente pelo som distante da orquestra.
Grissom soltou o ar em um suspiro longo, desabando a testa contra a minha. O perigo de sermos descobertos não havia apagado o fogo; ele o havia transformado em algo mais instável. Gil se afastou apenas alguns milímetros, o suficiente para que eu visse o sorriso torto e sombrio que surgia em seus lábios.
— Por um milésimo de segundo — ele sussurrou, a voz ainda rouca e perigosa — eu quase não me importei se elas entrassem.
Sua mão subiu novamente, traçando o contorno dos meus lábios agora inchados, e eu soube que o susto só havia servido para provar uma coisa: nós estávamos irremediavelmente perdidos naquele jogo, e a urgência de sairmos dali para um lugar onde ninguém pudesse nos interromper tinha acabado de atingir o ponto de não retorno.
O alívio da partida das vozes não trouxe o relaxamento, mas uma clareza elétrica. O risco de sermos flagrados naquela mesa de mogno havia injetado uma dose extra de adrenalina em nosso sangue, transformando o desejo em uma necessidade de fuga imediata. Não era mais sobre aquele casarão ou sobre a festa de Lewis; o cenário havia ficado pequeno demais para a voltagem que nos consumia.
Grissom se afastou minimamente, o suficiente para organizar os pensamentos, embora seus olhos ainda estivessem nublados pela luxúria. Com dedos ágeis e uma precisão que beirava a impaciência, ele subiu o zíper de sua calça com cuidado devido ao seu estado extremamente excitado e fechou os botões da camisa, enquanto eu tentava recompor a seda do meu vestido com as mãos ainda trêmulas.
— Não vamos ficar aqui para as fotos — ele sentenciou, a voz baixa e decidida, enquanto terminava de ajustar o terno com uma pressa que me deixava tonta. — Vamos para minha casa.
— Mas e o Benny? — minha preocupação de mãe emergiu como um último resquício de racionalidade, lutando contra o desejo gritante que pulsava em cada fibra do meu ser.
— Ele pode passar a noite aqui na mansão. A babá de William cuidará também de Benny, Sara. Ele está dormindo profundamente e estará seguro — ele respondeu, tentando me acalmar, mas a menção a babá fez meu sangue ferver de uma forma que não tinha nada a ver com luxúria.
— Não gosto dessa babá. Ela tem uma queda por você — externei sem filtro algum, sentindo o álcool destravar minha língua de uma maneira perigosamente honesta. — É óbvio o jeito que ela te olha.
Grissom parou o que estava fazendo. Suas sobrancelhas se ergueram e um brilho de puro deleite atravessou seus olhos. Ele deu um passo lento em minha direção, cercando-me novamente contra a mesa de mogno.
— Ciúmes... Honey? — ele provocou, a palavra deslizando por seus lábios como se ele estivesse saboreando um doce proibido.
— Sim! — admiti sem pestanejar, encarando-o com uma audácia que eu jamais teria em sã consciência. — Eu estou com ciúmes. Ela quer o que é meu: você, Gil.
O sorriso que se formou nos lábios dele foi sombrio, vitorioso e intensamente atraente. Ele amou. Amou o tom proprietário na minha voz, a falta de desculpas e a forma como eu reivindiquei meu espaço na vida dele. Grissom deslizou a mão pelo meu rosto, o polegar pressionando meu lábio inferior com uma força que me fez arfar.
— O que é seu... — ele repetiu, a voz sendo um rosnado de aprovação. — Você não tem ideia do quanto eu precisava ouvir isso de você. Guarde essa possessividade, Sara. Tranque ela em um lugar bem acessível, porque quando atravessarmos a porta da minha casa, eu vou querer que você me mostre exatamente o quanto eu te pertenço.
Ele não me deu tempo para responder. Puxou-me pela mão, seus dedos entrelaçados aos meus em um aperto inquebrável, e me guiou para fora da biblioteca. O ciúme havia sido a faísca final.
Saímos da biblioteca com a cautela de dois ladrões. Grissom segurava minha mão com força, guiando-me por corredores de serviço e saídas laterais que apenas alguém que conhecia as entranhas daquela propriedade saberia encontrar. O ar fresco da noite de Nova York atingiu nossos rostos como um batismo de realidade, mas o fogo sob minha pele não cedeu.
Atravessamos o jardim em direção ao estacionamento privativo, evitando as luzes principais. O som dos nossos passos na brita era o único ruído além do baixo abafado da festa que ficava para trás. Quando chegamos ao carro, Grissom desativou o alarme e, antes mesmo de eu entrar, ele me prensou contra a lataria fria do veículo, roubando-me um beijo que carregava toda a promessa da viagem que viria.
— São vinte minutos até a minha casa — ele sussurrou contra meus lábios, entregando-me as chaves para que eu entrasse enquanto ele contornava o carro. — Reze para que todos os semáforos estejam verdes, Sara. Porque eu não pretendo ser gentil quando atravessarmos aquela porta.
O motor rugiu baixo, cortando o silêncio da propriedade, e em poucos minutos as luzes do casarão tornaram-se apenas pontos distantes no retrovisor. À medida que cruzávamos a ponte em direção ao seu bairro, com o horizonte de Nova York brilhando à nossa frente, eu percebi que a maratona de clichês tinha sido o mapa, mas a casa de Gil era o destino onde eu finalmente me perderia de vez.
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