Notas iniciais
Salve, salve, meus amores. Bora para atualização. Boa leitura.

"Quanto mais se tenta controlar um sentimento, mais se é controlado por ele."

(Desconhecido)

***

A manhã seguinte me encontrou em um purgatório diferente, mas igualmente sufocante.

​Acomodada na cadeira giratória de couro em minha sala na editora, eu tentava ancorar-me no trabalho, mas o esforço era em vão. O tampo de vidro polido da mesa de carvalho refletia apenas o rosto pálido e a sombra escura sob meus olhos apesar da maquiagem, denunciando a batalha noturna. O conflito interno de ontem havia se solidificado em uma dor latejante na têmpora e um arrependimento profundo. A madrugada fora uma vilã implacável, colocando-me no banco dos réus da própria consciência e condenando-me em primeira instância, sem direito a recorrer da sentença.

​Uma pontada de pena, aguda e lancinante, trespassava-me o peito toda vez que pensava em Doug, na sua honestidade imerecida que eu havia esfacelado. Mas era o ódio, um ácido corrosivo, que me devorava por dentro: ódio de mim mesma por não conseguir cauterizar a lembrança daquele que era a raiz do meu inferno pessoal.

​Gil Grissom. Aquele cretino havia se retirado, levando não só minha sanidade como um troféu, mas também drenando cada gota de emoção genuína, deixando-me uma casca incapaz de reconhecer ou merecer a felicidade que Doug ou qualquer outra pessoa tentasse me estender.

​E a traição tinha um sabor recente, inebriante e proibido: o beijo que trocamos ontem. Foi a perdição que não deveria ter ocorrido, o último e mais fundo prego que cravei no meu próprio caixão de traidora. Doug ainda devia sentir o calor do meu abraço de despedida e o beijo que trocamos, quando os lábios de Grissom tomaram os meus e eu acabei cedendo ao corresponder avidamente. Eu havia traído Doug, primeiro com fantasmas do passado enquanto transávamos, e depois, de forma física e irrefutável após sua ida para casa.

​Minha mente, um carrossel nauseante e incessante, girava em um movimento circular que parecia imitar o café preto que, incapaz de descer pela minha garganta, escorreu ralo abaixo na pia quando eu o joguei fora, levando consigo qualquer traço da minha tentativa de recomeço. A reconstrução da vida, o castelo de cartas que tentei erguer com Doug, estava condenado, dissolvendo-se na água suja da minha traição. E a questão mais cruel pairava: como meu coração, mutilado e pisoteado, ainda podia carregar uma lealdade tão doentia, um amor tão profundo, pela pessoa que me havia ferido de forma tão deliberada?

Duas batidas secas na porta de madeira e vidro me fizeram girar a cadeira abruptamente. Morgan espremeu-se pela fresta, a expressão atenta e cúmplice.

​— O comprimido que pediu, chefinha. — minha assistente anunciou em voz baixa.

​Eu gesticulei com a cabeça, quase imperceptivelmente, para que ela entrasse. Morgan deslizou para dentro da sala, a mão segurando um copo de água translúcido e, na outra, fechada, os dois analgésicos. Ela me estendeu com a solicitude de quem lida com ressacas ou crises de estresse.

​— Aqui. — Ela me entregou o copo seguido das pílulas.

​Lancei as pílulas brancas na boca e as empurrei com um gole generoso de água fria, sentindo o líquido gelado descer e aliviar a secura de minha garganta.

​— Obrigada, Morg. — Agradeci, depositando o copo úmido sobre o tampo de vidro da mesa.

​— O que está havendo, hein, chefinha? Está tão borococho. — O olhar dela era de preocupação sincera.

​Suspirei, um ruído seco. Apesar da intimidade e cumplicidade que tínhamos, expor a podridão emocional de um triângulo amoroso onde um dos vértices era um fantasma do passado, mas muito presente no atual momento da minha vida, e uma traição auto-imposta era impensável, especialmente para Morgan.

​— Deve ser um resfriado querendo me derrubar. — Inventei, forçando a voz a soar ligeiramente nasalada e cansada. — Ontem Doug e eu fomos passear de barco. Vai ver que o vento frio do mar acabou me resfriando.

​— Ah, provavelmente. Quer que eu peça um suco de laranja? Vitamina C é ótimo para isso.

​— Não, Morgan. Obrigada. Só preciso de um momento a sós, mesmo.

​— Tudo bem.

​— Mandou o boy buscar na gráfica os dez exemplares do "Canto de Sereia"? Aqueles que Charles ia mandar para a gente repassar para o pessoal do marketing começar a fazer as publicidades no site e nas redes sociais? — Me forcei a soar profissional, agarrando-me à formalidade do trabalho.

​— Ele já foi, sim, chefe. Está a caminho.

​— Ok.

​Morgan se retirou, fechando a porta com discrição, e eu me permiti afundar na cadeira de couro, o estofado macio parecendo engolir-me. O analgésico faria efeito em breve, mas nada que existisse em uma pílula poderia anestesiar o turbilhão de culpa e a dolorosa questão que voltava a martelar: o que, afinal, eu estava fazendo da minha vida e com Doug?

Antes que eu pudesse tentar articular uma resposta plausível para o caos interior, o meu celular, pousado sobre o tampo de vidro polido da mesa, explodiu em uma vibração insistente, um zumbido áspero que quebrou a concentração. Apanhei o aparelho que estava virado com a tela para baixo. Assim que visualizei o nome em letras brancas – Grissom – o ar preso nos meus pulmões se soltou num suspiro rouco, quase um gemido de frustração. Fechei os olhos, apertando-os até verem estrelas esvoaçantes no escuro.

​A lembrança do nosso beijo irrompeu na mente como um relâmpago, incandescente e imediato. Uma onda de calor escaldante subiu pela minha nuca, tingindo a pele do pescoço e das orelhas com um rubor traiçoeiro. Não foi um tropeço hesitante; foi um ato de entrega consentido, forjado em uma decisão rápida, quase selvagem.

​Lembrei-me do modo febril como Gil me envolveu, a pressão de seus braços me prendendo firmemente contra o corpo dele. Seus dedos assertivos, cravando-se nas minhas costas e exigindo proximidade.

​A boca dele se fundiu à minha com uma urgência há muito reprimida, a língua avançando com o desespero de quem procura um porto seguro. E eu me afoguei no sabor inebriante dele — uma combinação perfeitamente viciante do sal na pele com o toque tânico e rústico do vinho, que me fez perder qualquer senso de tempo ou lugar.

​O celular cessou o seu zumbido patético, um som mudo e insignificante contra a tempestade avassaladora que continuava a ecoar na minha mente, inteiramente sequestrada pela memória daquele beijo trocado com Grissom, ontem, no meio da minha sala.

​A cada flashback, a confusão se condensava, tornando-se uma névoa densa. O beijo de Grissom fora o caos luminoso, a erupção vulcânica que desenterrava uma paixão que eu havia enterrado sob camadas de autocontrole. Ele pulsava com a promessa do inesperado e do avassalador. Doug, por sua vez, representava a âncora de segurança, o porto sereno, a previsibilidade acolhedora da rotina meticulosamente edificada. Eram dois polos opostos, rasgando o mapa do meu presente.

​Eu havia engolido a pílula, esperando que o analgésico extinguisse o pulsar na têmpora, mas ele era ineficaz contra a dor cáustica do conflito. Nenhuma química farmacêutica poderia silenciar o dilema ético e emocional que me corroía.

​Foi então que o celular voltou a tremer, não mais com um zunido patético, mas com um pulso urgente, direto no centro da minha palma. Grissom. O nome dele não apenas brilhava; ele incendiava a tela, um farol perigoso que emitia uma luz combinada de tentação e ameaça.

​Hesitei. Meu polegar pairou sobre o ícone de aceitar, suspendendo o fôlego numa eternidade de milissegundos. Mas o medo da voz dele, o medo do que ele iria dizer, era maior que o desejo. Recusei a chamada, empurrando o aparelho para o lado.

​O silêncio retornou à sala, pesado e opressor, mas a carga elétrica na minha mão ainda zumbia, um lembrete físico de que não havia como escapar. A vibração logo se transformou em uma notificação sutil. Puxei a barra superior da tela e a frase dele surgiu, cortando o véu da minha negação com a frieza de uma ordem:

​"Atende, Sara. Precisamos conversar!"

​Li a mensagem, sentindo o peso das palavras afundar no meu estômago. Eu tinha que enfrentar tanto Grissom quanto, inevitavelmente, Doug, mas não nesse exato momento.

***

A ansiedade me fazia prisioneira do tempo. Olhei para o relógio de pulso pela terceira vez em dois minutos, o ponteiro a se arrastar com a lentidão absurda de dez horas de agonia. Lewis estava em atraso, exatamente dez minutos.

​Eu estava plantada bem em frente à boutique escolhida—um templo de ternos e fraques caríssimos para casamentos, o tipo de lugar que exalava o compromisso da vida inteira. O burburinho do shopping era um ruído branco irritante, um coro constante de vozes e passos que meu cérebro se recusava a decifrar. A luz artificial, fria e ofuscante, banhava a vitrine, refletindo o brilho de ternos escuros e outros claros. Eu estava ali, uma espiã no meu próprio caos, pois um casamento era a última coisa que eu tinha cabeça para discutir.

​Aceitar o convite de Lewis não foi um gesto de gentileza, mas sim uma fuga covarde. Era o mesmo artifício usado na hora do almoço, quando me tranquei nem minha sala e instruí Morgan a afastar Doug, alegando estar submersa em trabalho. Qualquer pretexto servia para evitar meu namorado e a farsa de normalidade que eu seria obrigada a encenar.

A transa com ele havia sido o ápice de uma mentira silenciosa. Para Doug, representou a consumação de um desejo puro e genuíno, a conquista da paz de um amor correspondido. Para mim, contudo, a memória deixava um resíduo amargo, quase metálico.

​Enquanto ele dormia, pacífico e satisfeito, eu permanecia desperta, um corpo vazio e inerte ao seu lado. Meu coração estava selado, e a única pergunta que ecoava no silêncio era: onde se escondia a minha alma? A carne havia se movido e simulado o desejo, mas a essência permaneceu intocada.

​Foi nesse abismo de introspecção que ouvi a voz familiar de Lewis, um tanto apressada, quebrando o zunido constante. Ergui a cabeça, mas antes que pudesse formular uma saudação, o pânico gelado me atingiu. Lewis não estava sozinho. Grissom vinha ao seu lado.

​"Devia tê-lo atendido, insolente, e resolvido isso por telefone!" — A voz da minha consciência gritava.

​"Cala a boca, voz do inferno!" — Respondi mentalmente, sentindo o nó na garganta apertar.

— ​Desculpa o atraso, Sara! O trânsito da cidade está uma loucura hoje, juro que tentei voar — Lewis ofegou, me puxando para um abraço rápido. Ele parecia genuinamente aflito. — E para completar, ainda tive que esperar o Gil, que fez questão de vir.

​Grissom, que estava parada logo atrás, ostentava um sorriso lento e calculado, que não alcançava os olhos, mas que era o bastante para me desarmar.

— É, claro — Grissom ironizou, os braços cruzados. — Eu que vou pagar esse terno, não é mesmo?

​Lewis riu, mas havia algo mais na troca de olhares rápida e cúmplice entre os irmãos.

— Sei! Vou fingir que acredito que veio por esse motivo, maninho.— O olhar de Lewis era de pura travessura.

​O sangue pareceu gelar nas minhas veias. Céus. O destino não estava apenas zombando de mim; estava me empurrando para o precipício. Vim ao shopping para evitar Doug e caí direto nos braços (ou, no mínimo, na frente) do homem que desestabilizava toda a minha vida. Grissom me olhava com uma intensidade que parecia ler cada traço da minha alma, e eu soube: a conversa que eu havia tentado evitar por telefone agora se tornaria um confronto silencioso em plena luz.

​— Oi, Sara! — Ele me cumprimentou, e o som do meu nome, tão casualmente pronunciado, atingiu-me como um chicote.

​O ar sumiu dos meus pulmões. O "Oi" dele carregava o peso e a urgência do beijo trocado ontem. Forcei um sorriso que me pareceu mais uma careta.

​— Grissom. Não esperava que viesse.

​Minha voz saiu controlada, talvez fria demais, mas ele ignorou a pontada. Seus olhos escanearam meu rosto, demorando-se nos lábios antes de retornar a uma expressão de desafio sutil. Não havia nada de "cálculo" naquele olhar; havia posse e desejo.

​Lewis estava ali, absorvido pelo pequeno mundo iluminado do celular, completamente alheio à corrente elétrica de culpa e alívio que me atravessava.

— Pois é, surpresa! Ele disse que queria ver as ‘opções exóticas’ da vitrine. Ah, vamos entrar, por favor! Já perdi tempo demais! — o irmão de Grissom nos convidou ao finalmente levantar os olhos da tela.

​A porta de vidro da Dandy Traje foi aberta por um atendente impecável. Fomos engolidos pelo interior da boutique: um santuário de luxo, forrado em veludo cor de café e inundado por um aroma com notas terrosas e amadeiradas. Os ternos pendiam das araras como fantasmas, cada um deles uma promessa de futuro.

​Enquanto Lewis se adiantava, tagarelando sobre cortes e modelos, Grissom diminuiu o passo até ficar exatamente ao meu lado. Nossos ombros se roçaram brevemente. O toque foi mínimo, mas suficiente para reacender o fogo sob minha pele.

​— Você não atendeu minhas ligações — ele murmurou, a voz baixa, perigosa, e direcionada apenas para mim.

​Meu coração acelerou descontroladamente, fazendo o tecido da minha blusa tremer. Eu não conseguia olhá-lo. Em vez disso, fixei os olhos em um manequim vestindo uma fraque completo na cor branca que parecia gritar "eternidade".

​— Eu estava ocupada — respondi, tentando injetar indiferença.

​Antes que qualquer réplica pudesse ser formulada, Lewis irrompeu de volta. Ele não caminhava; ele atravessava o corredor de sedas e linhos com a força de um vendaval de energia e determinação, seu humor vibrante preenchendo o espaço. Seus olhos me prenderam com uma ordem inquestionável.

​— Vem, Sara. Esquece a presença do meu irmão.

​"Impossível," pensei, a culpa se apertando em meu peito, um lembrete constante da mentira.

​Sem esperar por contestação, Lewis se virou para o irmão, apontando com a ponta dos dedos:

​— Gil, você vai se acomodar ali. — Ele indicou um pequeno divã forrado com veludo cor de vinho na lateral da loja, logo abaixo de um espelho antigo de moldura suntuosa e dourada. — A Sara veio especificamente para me ajudar, então não atrapalha o processo.

​— Ok! — vi Grissom sorrir e erguer as mãos em um gesto de rendição calculada, mas seus olhos nunca deixando os meus.

​Lewis agarrou meu pulso e me puxou energicamente para o fundo da loja. A pequena distância física criada pelo noivo era uma trégua bem-vinda, mas ilusória. Eu estava sendo arrastada para o palco da minha própria crise, cercada por símbolos de compromisso, enquanto a razão da minha crise estava sentado no sofá, observando cada um dos meus movimentos com a paciência perigosa de um predador.

No fundo da loja, a iluminação era mais suave, destacando as sedas, os linhos e gravatas do ternos que flutuavam em cabides de madeira. O cheiro de tecido novo e amadeirado tentou me acalmar, mas meu coração continuava a martelar contra as costelas.

Lewis, agora no centro do mostruário de noivos, irrompeu em um jorro de palavras. Sua ansiedade era um motor febril que a fazia gesticular sem parar.

​— Estou tão ansioso, tão nervoso! Não faço a menor ideia de qual terno escolher. Sequer sei que modelo ou cor usar! — Com um movimento rápido e desordenado, ele arrancou uma gravata borboleta vermelha do cabide.

​Sua excitação efervescente era palpável, quase dolorosa em seu brilho, um contraste cruel com o mar gelado e crescente do meu pânico interno.

​Forcei os músculos do meu rosto a se repuxarem em algo que se assemelhasse a um sorriso genuíno. Eu precisava, a todo custo, ser a madrinha sólida e prática que ele esperava.

​— Tenho certeza que você vai achar um perfeito, Lewis — consegui dizer, minha voz soando um pouco mais seca do que eu pretendia. — Um que te agrade e que seja só seu.

Lewis anuiu, a cabeça cheia de visões de modelos de ternos, e se afastou em direção a uma arara onde um vendedor já começava a apresentar modelos cuidadosamente selecionados. Eu devia estar concentrada ali, mas minha atenção se recusava a seguir o movimento.

​Minha mente estava totalmente aprisionada, uma âncora invisível me puxando para longe do burburinho alegre. Através da estreita fenda formada pelo alinhamento de dois manequins de cetim pálido, meus olhos o encontraram.

​Grissom estava ali, elegantemente instalado no sofá de veludo cor de vinho. Ele havia cruzado as pernas com um desinteresse estudado e folheava distraidamente uma revista qualquer, mas seu corpo era apenas uma fachada. Seus olhos — intensos, fixos — estavam em mim.

​Ele não precisava de uma única palavra. Aquele olhar era um manifesto silencioso, uma força que me trespassava e dizia tudo o que precisava ser dito. Era uma promessa não dita e, ao mesmo tempo, uma ameaça sutil pairando no ar. Ele sabia exatamente o poder que exercia sobre mim, o cordão elétrico que ligava nossos corpos, especialmente depois daquele beijo na noite anterior.

Lewis, sem me dar tempo para respirar, agarrou meu braço e me arrastou para dentro de sua frenética saga com a vendedora. O noivo tagarelava, misturando termos técnicos sobre sedas, linhos e cortes com a funcionária da butique, mas suas vozes rapidamente se converteram em um zumbido abafado, um ruído irrelevante que não conseguia penetrar a bolha de pânico e atração que me cercava.

​O mundo encolheu, resumindo-se ao espaço silencioso e eletrizado entre mim e Grissom. Um diálogo mudo se desenrolava, carregado de uma história não resolvida e de um desejo proibido, violentamente reacendido pelo ato impensado da noite passada. A lealdade a Lewis era um peso morto que me puxava para um lado, enquanto a atração avassaladora pelo sujeito sentado no sofá me impulsionava na direção oposta.

​Grissom capitalizou meu tormento. Com um movimento estudado, lento e deliberado, ele pousou a revista sobre o divã. Uma outra vendedora se aproximou, oferecendo-lhe um copo baixo que continha uma bebida âmbar, talvez uísque. Grissom a recebeu e levou o copo aos lábios, bebendo um gole longo, mas em nenhum momento, nem mesmo para piscar, ele desviou seu olhar fixo e penetrante do meu. Era uma performance silenciosa, uma demonstração de poder que me dizia: eu vejo tudo, e você é minha.

Grissom inclinou a cabeça ligeiramente, e eu sabia que ele estava lendo cada linha de confusão e culpa no meu rosto. Ele não estava apenas me olhando; ele estava me saboreando.

Senti um calor subir pelo meu pescoço, encontrando-se com a sensação sufocante que o ar pesado e perfumado da boutique estava causando. O linho, a seda, o barulho alegre de Lewis experimentando um colete —tudo era uma barreira fina e ridícula contra a verdade nua entre nós. Ontem, o beijo tinha sido um erro, um lapso momentâneo de sanidade no final de uma noite de vulnerabilidade. Hoje, sob a luz dura e elegante da boutique elegante, parecia uma fundação, um terremoto que havia rearranjado toda a paisagem da minha vida.

Por quase uma hora, ajudei Lewis na escolha de um terno ideal. Cada modelo que ele vestia exalava uma elegância impecável. Havia ternos de corte italiano que abraçavam seus ombros com uma precisão quase insolente, e tecidos de lã fria que brilhavam discretamente sob as luzes de LED. Lewis parecia um príncipe em cada um deles, e era difícil escolher um só. Finalmente, depois de experimentar o último terno, uma peça de lã fria em tom grafite, com um corte italiano que abraçava sua silhueta com uma autoridade, Lewis buscou meus olhos através do espelho triplo.

— Este parece... definitivo. — ele disse, a voz baixa, carregada de um significado que nada tinha a ver com a costura.

Eu não pude deixar de sorrir com a sua felicidade.

— Ótima escolha! Você ficou lindo nele, Lewis. — comentei, sentindo a emoção genuína apesar do meu próprio turbilhão interno.

— Acha que Edgar vai gostar?

— Absoluta, Lewis.

Lewis e eu nos viramos para Grissom após sua fala.

Grissom sorriu, aquele sorriso lento e perigoso que só ele possuía, e levantou o copo minimamente, em um brinde silencioso.

— O que achou, Gil? — a pergunta de Lewis parecia cheia de expectativas e ansiedade, talvez buscando uma validação que ia além da minha.

Observei Grissom se levantar do sofá, um movimento fluido e elegante. Depositou o copo de champanhe vazia na mesinha de centro com um leve tilintar e veio até onde seu irmão e eu estávamos. Seus olhos, sempre tão calculados, agora pareciam, de fato, encantados com a visão do irmão mais novo naquele terno de noivo. Havia uma suavidade ali.

Ele parou a poucos passos de Lewis, analisando o terno escuro com um olhar crítico, mas aprovador. O silêncio se estendeu por um breve instante, carregado de uma tensão diferente agora, menos sobre nós e mais sobre o momento dos irmãos.

— Sara tem razão... — Grissom pronunciou e lançou um rápido olhar em minha direção. Sorriu. Depois retornou os olhos para o irmão e depositando uma das mãos no ombro de Lewis, completou: — Você está lindo nele. Edgar é um sortudo.

​Grissom abraçou o irmão, tomando cuidado para não amassar o terno ajustado pelo alfaiate. O espelho triplo refletia a imagem de três pessoas — Lewis, Gil e eu — emocionados e cúmplices. O ar na sala parecia ter se enchido de algo leve e vibrante, a certeza de que aquele momento era especial, um marco.

​Lewis soltou um suspiro profundo, seus olhos percorrendo o próprio reflexo. Ele não precisava de mais nenhuma aprovação; a dele já estava completa.

​— Então é este mesmo. Não quero experimentar mais nada.

​— E nem deve! — eu disse, afagando os ombros de Lewis enquanto ainda encaramos nossos reflexos nos espelhos.

— Isso merece um brinde. ​— Grissom anunciou já se virando para uma das funcionárias da loja e pedindo uma nova de uísque para si e dois champanhes para mim e seu irmão. Em frações de segundos estávamos com nossas bebidas. — Um brinde ao terno dos sonhos e ao casamento mais lindo que teremos o prazer de presenciar. — puxou Grissom o brinde. Nossas taças se chocaram suavemente, o tilintar do cristal selando a decisão. Lewis, com a mão livre, tocou o tecido, a felicidade transbordando em seu rosto.

​— Agora — disse Lewis após um gole generoso na taça de champanhe e piscando para Gil e eu, a ansiedade dando lugar à praticidade — Preciso tirar esta obra-prima para que eu possa ligar para o Ed e fazê-lo sofrer um pouquinho com o suspense. Quero que ele morra de curiosidade até o grande dia!

​Nós rimos, e a alegria do momento se tornou palpável. A missão estava cumprida. Aquele terno, o clássico elegante italiano com o toque de modernidade, aguardaria pacientemente o dia em que faria Lewis brilhar de verdade no altar.

A vendedora levou Lewis até a porta do provador para ele trocar de roupa e finalizar os detalhes do contrato, deixando-me na companhia de Grissom.

Assim um a vendedora e Lewis se foram, um silêncio opulento tomou conta. De repente, o vasto espaço da boutique de noivos pareceu etéreo, preenchido apenas pelo cheiro amadeirado e pelo brilho frio e quase ofuscante do cetim nas araras. Fiquei parada, fingindo contemplar uma fileira de gravatas de seda suspensos, tentando em vão ignorar a única presença que restava ao meu lado.

​— Não vejo a hora de sermos nós a estar às voltas com isso.

​A voz de Grissom era um sussurro, mas carregava a firmeza inegável de uma declaração. Seu comentário atraiu minha atenção de forma imediata e brutal, um choque elétrico que eu vinha tentando aterrar desde o momento em que Lewis desaparecera e a vendedora se afastou. Esforcei-me para manter meu olhar fixo na parede onde haviam abotoadoras.

​— Isso o quê? — me fiz de desentendida, e a voz saiu mais fina do que eu pretendia, uma nota aguda de fingida inocência.

​Grissom soltou aquela risada baixa, um som áspero e doce que parecia ser feito de caramelo queimado e fumaça fina, carregado de um conhecimento secreto. Ele pousou o copo de uísque quase vazio na mesinha lateral de vidro, e o clique seco do cristal contra o vidro polido soou alto demais, quebrando a delicada quietude da loja com a força de um martelo.

​Ele deu um passo à frente. Um único movimento que, no entanto, anulou a distância entre nós de forma devastadora. Seus olhos, de um brilho azul-claro, não desviaram dos meus, e a intensidade era quase física, como se a mão dele estivesse pousada no meu pescoço, não apenas me observando, mas me segurando ali. Ele estava tão perto que eu podia sentir o calor leve do seu hálito de uísque e menta.

​Seus lábios se curvaram em um sorriso lento, quase predador, e ele inclinou a cabeça, diminuindo a distância ainda mais.

​— Você sabe muito bem o quê, meine liebe. O 'isso' de estar planejando uma vida inteira, de estar escolhendo a roupa para o dia mais importante, de estar... Se unindo a alguém até que a morte os separe. — A voz dele caiu para um tom ainda mais baixo, aveludado e perigoso.

​Seu sussurro carregava o peso de um segredo compartilhado, um pacto silencioso que eu era a única tentando desesperadamente romper. O cheiro do seu perfume inundou meu espaço pessoal. Meu próprio coração começou a bater contra as costelas como um pássaro enjaulado. A verdade era um espelho, e naquele momento, eu estava vendo minha própria traição refletida no brilho insolente dos olhos dele.

​Eu não conseguia formular uma resposta coerente. Ele estendeu a mão, não para me tocar diretamente, mas para alisar uma das pregas de um terno que Lewis acabara de provar, pendurado num manequim próximo. Seus dedos roçaram o linho com uma possessividade casual, e o gesto, pequeno e despretensioso, era a maior ameaça de todas.

​— Nós dois precisamos, e vamos, conversar... Sobre ontem. — Grissom pontuou, a frase suspensa no ar como uma sentença. O sorriso predatório de outrora deu lugar a uma máscara de seriedade fria e inegociável.


Notas finais
A noite posto outro. Xero.