Na noite seguinte ao passeio, a cozinha estava quente e cheia do aroma residual do nosso jantar. Foi ali, em meio ao ritual doméstico e reconfortante de lavar os pratos, que escolhi soltar para Doug sobre o meu passeio com Grissom e os meninos.

O nome, Grissom, saiu da minha boca com uma leveza forçada, como uma rolha arremessada ao mar. Tentei manter o foco no brilho recuperado do prato, mas o silêncio que se seguiu não era o silêncio de quem ouve; era o silêncio de quem para. De canto de olho, vi Doug congelar. O pano de prato, que ele usava para polir o último copo, parou abruptamente no ar, interrompendo a rotina com uma pausa densa e expectante que parecia preencher cada centímetro da cozinha.

— Você saiu com ele? — a pergunta dele finalmente cortou o ar como um fio de aço sendo esticado.

Eu me virei lentamente, encontrando seu olhar. Seus olhos, minutos atrás iluminados pelo calor de planejar um domingo só nosso, já que seria o fim de semana de Grissom com Benny, haviam se transformado. Estavam sombrios e profundos, como a escuridão abissal de águas onde a luz nunca penetra – o prenúncio de uma tempestade interior.

— Sim! — confirmei. A palavra foi um gatilho.

A reação dele não foi a explosão de raiva; foi algo infinitamente mais gelado e penetrante. Ele abandonou a tarefa e apoiou os quadris na beirada da pia, cruzando os braços sobre o peito. Era uma postura de julgamento, de barricada, e a desconfiança e mágoa se materializaram em cada músculo contraído do seu rosto. Ele me encarava como se a minha confissão, mesmo que voluntária, fosse a prova de um crime hediondo.

Eu sabia que essa crise era inevitável. Era uma maré alta que eu via se aproximando no horizonte, impossível de desviar. A simples menção de Grissom, o peso do meu passado complexo com ele e o ciúmes de Doug eram os ingredientes ativos para este drama – um coquetel molotov prestes a explodir no conforto da minha cozinha.

Mas eu fiz questão de abrir o jogo, detalhe por detalhe, derramando o conteúdo inteiro da caixa de Pandora sobre a mesa, porque a transparência era o pilar inegociável deste novo relacionamento. A dor momentânea, aguda e fria, daquele confronto era um preço que eu estava disposta a pagar para construir algo sobre uma base de verdade nua e crua, mesmo que essa verdade, agora, estivesse cortando a atmosfera entre nós como vidro quebrado.

O contraste com Grissom era gritante. Em nosso relacionamento, a transparência não era apenas rara; era uma miragem. Eu havia enterrado verdades e me escondido em omissões, e ele havia feito o mesmo. Aquelas meias-verdades viraram mágoas e ressentimentos que, tijolo por tijolo, ergueram um muro intransponível entre nós. O desmoronamento total de tudo o que tínhamos era a consequência. Eu me recusei, categoricamente, a carregar esse fardo venenoso novamente.

— Estou te contando porque não quero segredos, Doug — afirmei, erguendo o queixo e sustentando o seu olhar — Grissom é passado. Mas o que houve com ele, a forma como tudo terminou e os acontecimentos posteriores ao término, me ensinaram que a verdade, mesmo que doa, é a única fundação para o futuro. Não vou construir nada em cima da areia movediça do silêncio de novo.

Ele fechou os olhos por um segundo, respirando fundo, o esforço visível em sua mandíbula cerrada. O ciúme era uma maré alta e ameaçadora, mas a minha firmeza parecia ser o dique que o faria recuar, que o conteria antes do transbordamento.

— Tá certo — ele por fim disse ao abrir os olhos e me encarar.

O "tá certo" dele não foi um assentimento resignado, mas a rendição da sua insegurança à clareza da minha promessa, a aceitação de que minha honestidade era mais forte que seus medos. Seus ombros relaxaram, a tensão pesada que os enrijecia se dissipando como fumaça ao vento, e o verde dos seus olhos — que estiveram nublados pela dúvida — ganhou a limpidez calma. Ele estava me vendo de novo, não o fantasma do passado, mas a mulher que escolhera a honestidade em detrimento do conforto.

Doug estendeu a mão, não em um convite silencioso, mas num pedido de trégua. Seus dedos roçaram a lateral do meu braço, um toque hesitante que pedia permissão para se aprofundar, para reconectar. Eu me inclinei para a frente, diminuindo a última distância entre nós. O contato foi a confirmação de que o dique tinha aguentado, de que a tempestade havia passado.

A sua mão, grande e quente, fechou-se em torno da minha nuca, e ele me puxou delicadamente para si. O beijo veio, da parte dele com o sabor da gratidão profunda e o reconhecimento silencioso da coragem que o momento exigira. Já da minha, eu senti o gosto da incerteza, uma mistura agridoce de desejo e apreensão. Meus lábios, inicialmente, responderam com uma hesitação quase imperceptível.

Quando ele tentou aprofundar o beijo, intensificar o contato, buscando uma entrega maior, senti meu corpo se enrijecer instintivamente. Foi um movimento sutil, mas carregado de significado. Deslizei minha mão aberta e a coloquei sobre o peito dele, sentindo a batida firme e apressada do seu coração sob a palma da minha mão. Usei essa barreira suave do meu toque para me afastar, quebrando o contato e o momento, colocando um ponto final no beijo, demarcando uma fronteira física e emocional que eu, naquele instante, ainda não estava pronta para cruzar.

A quietude da cozinha retornou, mas agora carregada de uma nova questão.

— Por que você sempre faz isso quando tento aprofundar as coisas entre nós? — Ele cobrou, a voz carregada de uma frustração contida, mas o desalento marcando cada sílaba.

Eu suspirei, sentindo o peso daquela pergunta.

— Doug, não quero ir de novo para esse caminho de conversa... não agora. — respondi, tentando soar suave, como um pano macio tentando absorver um derramamento de óleo, mas sentindo o peso da minha própria ambivalência, um sabor metálico na boca.

Os questionamentos vieram em cascata, um dilúvio que quebrava a barreira que eu tentava erguer, cada um mais carregado que o anterior, a voz dele subindo de tom, perdendo o controle que ele tentava manter:

— Quando vamos passar dos beijos, Sara? Quando vou poder dormir aqui na sua casa com você? Quando vamos ter intimidades? — As palavras, antes suaves promessas de futuro, agora soavam como exigências, batendo contra as paredes da cozinha já densa de silêncio e mágoa.

Senti o peso triplo e esmagador de suas perguntas. A pressão era imensa, e o calor da cozinha pareceu aumentar, fechando-se ao meu redor como uma jaula. Fui encurralada contra a bancada fria, buscando um apoio que não fosse ceder.

— O caminho... é a rapidez — comecei, minha voz um pouco mais firme, mas ainda baixa, tentando ancorar a conversa em terreno sólido. Minhas mãos apertaram a beirada da pia, os nós dos dedos ficando brancos. — O que eu tive antes começou rápido, Doug. Muita intimidade física antes de ter substância, antes de ter essa clareza que acabamos de ter. E quando tudo desmoronou, não sobrou nada para amortecer a queda. Eu não quero isso com você. Eu quero que a nossa conexão seja sólida aqui — bati levemente no centro do meu peito, onde meu coração martelava um ritmo ansioso —, antes de ser em qualquer outro lugar.

Doug se desencostou da pia, a silhueta se movendo em minha direção. A frustração ainda estava lá, um sulco tenso e profundo entre suas sobrancelhas, mas ele se concentrou em mim, absorvendo as minhas palavras.

— Eu entendo a necessidade da fundação, Sara. De verdade. Mas... eu não sou o seu passado. Eu sou eu. E eu estou sendo paciente, estou esperando... e, às vezes, parece que você está me punindo por algo que ele fez.

O golpe foi sutil, mas certeiro. O silêncio voltou, mais honesto agora do que o beijo que havíamos compartilhado. Eu desviei o olhar para o brilho da torneira, incapaz de negar completamente aquela acusação.

— Me dê mais tempo — sussurrei, a frase mais uma súplica para mim mesma do que para ele.

Ele suspirou, um som de aceitação que carregava uma dose de dor. Em vez de avançar, ele estendeu a mão novamente, desta vez apenas para pegar a minha. O aperto da sua mão grande e quente foi um juramento: ele ficaria, por enquanto, no ritmo que eu ditasse, ancorando a paciência dele na minha promessa de honestidade.

O calor da mão dele irradiava para a minha, um contraste reconfortante com a superfície fria da pia. Ele não forçou a proximidade, mas manteve o contato, permitindo que a quietude curasse as fissuras criadas pela conversa. Permanecemos assim por um longo instante, apenas o som da água pingando da torneira marcando o tempo.

— Vamos terminar isso — ele murmurou, quebrando o feitiço.

Com as mãos ainda unidas, voltamos à tarefa. Eu ensaboava, ele enxugava, mas o ritmo era lento, quase meditativo. O silêncio agora era bom, pesado de entendimento, não de ressentimento. Quando o último copo foi guardado e o pano de prato pendurado, ele virou-se totalmente para mim, a mão livre subindo para afastar uma mecha de cabelo do meu rosto, um gesto que era pura ternura.

— Eu confio em você, Sara. Mais do que você pensa. Só... não se perca no medo.

Seus olhos verdes eram um oceano de sinceridade. Ele não estava cobrando a intimidade, estava avisando sobre o isolamento, quase como um pacto mútuo. Senti as lágrimas se acumularem, não por tristeza, mas pela imensa gratidão por ter alguém que via suas defesas e ainda assim escolhia ficar.

— Eu sei. Obrigada. — Minha voz saiu em um sussurro rouco.

Ele sorriu, um sorriso suave que chegava aos olhos e apagava de vez os sulcos de frustração em sua testa. Então, sem pedir, ele me beijou na testa. Não foi um beijo apaixonado, nem um beijo de trégua. Foi um beijo de compromisso. Um "eu estou aqui, de verdade, e vou esperar" silencioso.

E ao sair da cozinha, deixando o aroma de sabão, o calor residual da comida e a promessa inacabada para trás, eu soube que havíamos superado duas batalhas importantes naquela noite: o fantasma do ciúme e a pressão da intimidade. Mas o maior desafio permanecia: convencer o meu próprio coração de que valia a pena construir devagar, mesmo quando a pressa, a fuga ou o medo pareciam ser os instintos mais fáceis.

***

Absorta na conversa com o responsável da gráfica ao telefone, o som de duas batidas na porta da minha sala ecoou. Antes que eu pudesse sequer processar a interrupção, a maçaneta girou e a porta se abriu, revelando a figura imponente de Grissom. Ergui a sobrancelha, um misto de surpresa e curiosidade me tomando. Sem que eu autorizasse, ele simplesmente entrou e, num movimento fluido, trancou a porta, invadindo meu espaço sem ser convidado, como um furacão que ignora as leis da física.

— Sara?! — a voz de Charles, do outro lado da linha, soou distante.

— Oi?! Desculpa, do que falávamos? — perguntei, tentando me reconectar à realidade da ligação, embora meus olhos estivessem irrevogavelmente focados em Gilbert. Ele desfilava pela minha sala, os passos medidos, um sorriso no canto da boca, como alguém que inspeciona um território recém-conquistado. Com as mãos para trás, ele circulava pelo meu espaço como se fosse o dono do lugar.

"Mas ele é o dono, insolente. Esqueceu que ele comprou a editora?"

"Não te chamei!"

— Sobre o livro "Canto da Sereia", você ia me confirmar as informações que te passei.

— Quais eram as informações mesmo? — minha mente ainda estava dividida entre a gráfica e a presença inesperada à minha frente.

— Tiragem de 8.000 exemplares, miolo em papel Pólen Bold 90g, capa a quatro cores com laminação mate. É isso?

— Excelente! Então, se está em impressão hoje, conseguimos manter a data de entrega para a próxima quarta-feira, dia 20? É fundamental para a distribuição. — tentei focar na conversa, sendo o mais profissional possível. Mas com Grissom agora parado bem diante da minha mesa, feito um poste, me encarando de modo fixo e mantendo ainda o sorriso de canto de boca que beirava o flerte, manter a compostura era um desafio hercúleo.

— Deixe-me ver o planejamento de acabamentos... — ouvi uma sucessão de cliques abafados, indicando que Charles consultava seu computador. — A impressão termina amanhã, no final do dia. Os acabamentos – encadernação, guilhotinagem e embalamento – estão previstos para segunda e terça-feira. Sim, Sara, confirmo. A paletização estará pronta para levantamento na quarta-feira de manhã, como combinado.

— Perfeito, Charles, muito obrigada pela confirmação e pela rapidez.

— Não há de quê. É o nosso trabalho. Precisa de mais alguma coisa?

Eu queria encerrar a chamada, curiosa por descobrir o que aquele cretino, que agora se encontrava sentado à minha frente com as pernas cruzadas, queria ali. Porém, havia mais uma informação que precisava saber de Charles, um último detalhe crucial.

— Só uma última coisa, por favor. Seria possível reservar e pôr de lado umas dez cópias, sem embalar, assim que saírem da encadernação? A nossa equipe de marketing precisa de alguns exemplares antecipados para as ações de imprensa de terça-feira.

— Claro que sim. Coloco uma nota no processo de controle de qualidade. Dez exemplares separados na segunda-feira, no final do dia. Pode pedir ao seu estafe para recolher separadamente?

— Combinado. Te ligarei na segunda-feira. Muito obrigada, Charles. Até breve.

— Até breve, Sara. Bom trabalho!

Assim que ouvi o clique final do outro lado da linha, indicando o encerramento da chamada, coloquei o celular de volta à base com um gesto deliberado, e finalmente encarei Grissom, pronta para o que quer que ele tenha vindo me falar.

— Grissom?! Posso saber o que veio fazer aqui? — indaguei, minha voz mal contida, o aborrecimento evidente em cada sílaba, porque hoje está sendo um dia cheio de coisas para resolver e, principalmente, problemas. Não preciso que ele me traga mais um.

Grissom sorriu, um gesto lento e deliberado.

— Oi, para você também, Sara. — ele disse, o sorriso largo. Sua postura exalava uma tranquilidade, e eu poderia jurar que seus olhos, de um azul claro, tinham um brilho de divertimento.

— Grissom, eu estou trabalhando. E você escolheu um péssimo dia para aparecer aqui. O que quer? Aliás, como conseguiu passar sem que minha assistente te anunciasse?

— Não sei de que assistente está falando, porque não havia ninguém lá fora. A porta estava aberta. — ele respondeu com um encolher de ombros casual.

De certo, Morgan tinha ido lá no pessoal do marketing para fofocar sobre o novo lançamento e ainda não havia retornado ao seu posto. Um bilhete mental de bronca foi anotado mentalmente.

— O que quer aqui, então? Seja direto. — insisti, minha paciência se esgotando rapidamente com aquele jogo de gato e rato.

— Antes de responder sua pergunta, preciso fazer um comentário bem sincero. — ele inclinou-se ligeiramente para a frente.

Recostei-me pesadamente na minha cadeira giratória de couro, que rangeu levemente sob o movimento, e encarei Grissom, que parecia estupidamente tranquilo e, para meu desgosto, inegavelmente bonito naquele momento, com a luz do sol da tarde incidindo sobre seu rosto.

— Essa sua versão profissional, em plena ação... organizando tiragens, prazos, falando em papéis e acabamentos... É simplesmente... — ele fez uma pausa dramática, deixando o suspense pesar no ar entre nós. — Sexy.

Havia um sorriso beirando a malícia em seus lábios, um sorriso que denunciava sua intenção de desestabilizar-me. E ele conseguiu.

Confesso que a palavra me atingiu com força, como um golpe de vento inesperado. Definitivamente não esperava por algo assim saindo de sua boca, muito menos dito com aquela naturalidade toda, como se estivesse comentando o clima. Senti um calor súbito subir pelo meu pescoço, misturando a raiva que ardia em mim com uma pontada de confusão perturbadora.

Cruzei os braços sobre o peito, um gesto defensivo e automático, e tentei manter a expressão mais impassível que consegui.

— Engraçadinho. — murmurei, minha voz um pouco mais rouca do que o pretendido. — Se veio aqui para bancar o engraçadinho ou a cantada barata, sugiro que saia agora mesmo.

Grissom não se moveu, apenas inclinou a cabeça para o lado, o sorriso alargando-se ligeiramente. A tranquilidade dele era exasperante.

— Calma, Sara. Não precisa ficar tão na defensiva. — ele disse, a voz aveludada, quase um ronrono, contrastando propositalmente com minha irritação. — Só estava sendo sincero.

— Sincero ou não, o que você quer aqui? — insisti, batendo levemente com a ponta dos dedos no braço da minha cadeira, um tique nervoso que denunciava minha impaciência crescente. — Minha paciência com joguinhos está zero.

Grissom inclinou a cabeça para o lado, avaliando-me com aquele olhar azul e insolente.

— Achei que o passeio de veleiro de dois dias atrás tinha apaziguado mais as coisas pra você. Te vejo ainda tensa, irritada e... defensiva.

A menção ao breve momento de paz fez meu maxilar travar.

— Não era só uma trégua de uma hora? — rebati, o sarcasmo evidente na minha voz.

Ele sorriu, o gesto lento e provocador que já me era familiar.

— Pra mim a trégua pode ser permanente. Depende de você.

Suspirei, um som pesado de cansaço escapando por entre meus lábios cerrados. Aquele joguinho dele, essa dança de insinuações e segundas intenções, estava me exaurindo.

— Grissom, pare de enrolar. Diga a que veio. Meu tempo está escasso hoje e minha paciência zero.

Ele apoiou os cotovelos nos braços da poltrona e inclinou-se mais uma vez em minha direção, diminuindo a distância entre nós na linha do meu olhar.

— Bom, como vim falar com o editor-chefe sobre assuntos profissionais, quis aproveitar que estava aqui para falar com você sobre uma questão.

— Qual?

— Nosso filho faz quatro meses em duas semanas. — ele começou, e eu franzi a testa, confusa com a mudança repentina do assunto. Do trabalho para a vida pessoal em milésimos de segundo. — Queria organizar uma pequena comemoração lá em casa para ele, já que será o primeiro mês que estarei com ele. Tudo bem pra você?

A pergunta pairou no ar, carregada de uma expectativa que eu não sabia como processar. "Tudo bem pra mim?" A questão não era se eu autorizava, mas sim se eu estava disposta a me envolver, a cruzar a linha tênue que separava nossa relação — até então, conflituosa — para um evento familiar.

— Ok, Grissom. — murmurei, aceitando o plano, mas ainda digerindo o convite implícito de sua primeira fala.

— Ótimo! E... eu gostaria que você estivesse presente no dia.

Fiquei sem resposta, processando o convite explícito agora. "Estar presente"? Na casa dele? O que isso significava para nossa dinâmica?

— Não sei se... — comecei, hesitante, a voz sumindo. A ideia me parecia ao mesmo tempo absurda e estranhamente apelativa.

— Por favor, Sara. Será algo simples, só para pessoas próximas mesmo. — ele me interrompeu, seu tom agora quase suplicante, desprovido do sarcasmo habitual que coloria a maioria de nossas interações. A mudança na sua voz foi tão brusca que me pegou de surpresa. — Pode até levar seu... namoradinho.

O deboche em sua voz foi gritante, uma nota azeda que quebrou a suavidade momentânea. Ele simplesmente não resistiu à alfinetada.

— Nossa, obrigada pela inclusão dele. — devolvi o deboche com o meu próprio, um sorriso irônico brincando em meus lábios, um espelho do dele. — Mas não sei se é uma boa ideia, Grissom.

— Por quê? Você tem medo que eu o enforque? — ele riu baixinho. — Eu te garanto que não vou. Irei até me comportar.

Balancei a cabeça, o sorriso irônico se aprofundando. A imagem de Grissom e Doug no mesmo ambiente era, no mínimo, caótica, uma receita para o desastre.

— Isso é reconfortante.

Ele sorriu, o breve momento de chacota terminando. Em seguida, já em um tom mais sério, que raramente usava, um tom que me fez prestar atenção, ele disse:

— Por favor, Sara, esteja lá. Creio que seria importante para o Benny ter os pais juntos nessa comemoração, ainda que ele não entenda nada agora. Mas quando ficar maior e ver as fotografias desse momento, vai ver que nós dois estávamos ali juntos, por ele.

O argumento me quebrou as pernas, destruindo minhas defesas mais rapidamente do que qualquer outra coisa que ele pudesse dizer. A ideia de um futuro Benny olhando fotos de nós dois juntos com ele atingiu um ponto sensível que eu nem sabia que tinha. Era um golpe baixo, mas incrivelmente eficaz. O muro de proteção que vinha erguendo em minha própria defesa ruiu, pelo menos em parte.

Expirei o ar que nem sabia que estava segurando. A seriedade no rosto de Grissom era inquestionável agora, substituindo o brilho malicioso por uma vulnerabilidade que me pegou desprevenida, um vislumbre raro do homem por baixo da armadura de deboche.

— Tudo bem. — cedi, a contragosto, mas a palavra soou mais firme do que eu esperava. — Eu vou. Mas sem promessas sobre o Doug.

Um sorriso genuíno, o primeiro que vi nele que não tinha um traço de ironia ou malícia, iluminou seu rosto. Era um sorriso bonito, desarmante, que transformou a expressão que eu estava acostumada a odiar em uma de alívio.

— Combinado. — ele disse, e o clima na sala pareceu mudar, a tensão anterior substituída por uma aceitação silenciosa, uma espécie de trégua forjada em nome do pequeno Benny.

Houve um instante de silêncio, quase de contemplação mútua do acordo selado, antes de duas batidas firmes na porta da sala quebrarem a quietude.

Levantei-me da cadeira, o tecido da minha roupa roçando contra o estofado de couro da poltrona, e fui até a porta para abrir e saber quem era. Durante o trajeto, podia sentir o olhar de Grissom queimando em minhas costas, uma presença tangível mesmo sem contato visual.

Ao destrancar a porta e abri-la, deparei-me com a figura sorridente e efusiva da minha assistente, que entrou tagarelando sala adentro, como um furacão de energia.

— Chefinha, você não vai acreditar no que o pessoal do — ela começou, mas as palavras morreram em sua garganta.

Ela parou abruptamente, como se tivesse batido em um muro invisível. Seus olhos, antes brilhantes, arregalaram-se ao se dar conta da presença de Grissom, que havia girado em sua cadeira para ficar de frente para ela, um sorriso educado e contido brincando nos lábios.

— Olá! — Grissom se pronunciou, a voz suave, quebrando o silêncio constrangedor que se instalara.

— Oooooi! — Morgan respondeu, gaguejando descontroladamente. Eu quase quis gargalhar de sua apatia, da forma como seu profissionalismo se desintegrou diante da presença de Grissom.

Recuperei minha compostura, pigarreando para chamar a atenção dele de volta para mim.

— Morgan, onde estava que não se encontrava em seu posto quando o Grissom chegou? — perguntei, minha voz um pouco mais dura do que o necessário, tentando restaurar a ordem.

— Eu-eu-eu... — ela balbuciou, visivelmente nervosa. — Estava no departamento de... Marketing, chefinha linda.

— Batendo papo? — insinuei, levantando uma sobrancelha.

— Não! — ela retorquiu, virando-se abruptamente para mim, a voz firme e quase ofendida, recuperando um pouco da compostura perdida. — Fui buscar as cópias das Ações de divulgação do livro "Canto da Sereia".

Ela estendeu um pen drive prateado, que capturou a luz do escritório por um instante.

— Está aqui o book trailer, as cópias para resenhas que enviaremos a críticos, jornalistas e resenhistas profissionais. Tudo exatamente como você pediu. E os originais, claro, estão seguros na nuvem, como é nosso procedimento padrão.

Enquanto falava, Morgan lançava um olhar nervoso e rápido na direção da figura imponente de Grissom, que permanecia em silêncio, observando cada movimento do nosso diálogo com total atenção.

— Ok! — Minha voz se suavizou apenas o suficiente para indicar que a crise imediata havia passado. Peguei o pen drive minúsculo e frio, que ela me estendeu. O objeto, em minhas mãos, parecia um pequeno troféu, a prova material de que sua ausência de alguns minutos tinha sido, de fato, produtiva.

​Morgan soltou o ar que parecia prender desde o momento em que visualizou Grissom ao adentrar minha sala. O alívio era palpável em seus ombros, que caíram ligeiramente, e ela se ajeitou com uma pressa que mal conseguia disfarçar. O olhar que lançava para Grissom era uma mistura fascinada de medo e respeito, como se encarasse uma força da natureza.

​Gilbert, por sua vez, permaneceu uma figura de autoridade inquestionável. Ele trajava um blazer de corte impecável, cor de carvão, sobre uma camisa de seda branca e gravata azul clara. Cada elemento do seu visual, desde os saltos até o vestuário, projetava uma autoridade fria e calculada. Seus olhos azuis, fixos e impassíveis, não se desviaram de Morgan nem por um segundo, enquanto ela praticamente corria para a saída da sala, como uma lebre em pânico.

​A porta mal havia se fechado, quando Grissom se inclinou ligeiramente em minha direção. Ele baixou o tom da voz para uma confidência grave, mas sem perder a secura.

​— Ela tem problemas? — ele me indagou, gesticulando discretamente com o queixo na direção da porta, referindo-se à fuga quase cômica de Morgan.

​— Não. — Eu sorri, ajeitando o pen drive na palma da mão. — Ela só sentiu um pouco intimidada com a sua presença.

— Por que já?

— Você é o dono da editora. — Retruquei em tom óbvio.

​— Hum... — Ele se levantou da cadeira com a elegância que lhe competia, o blazer de carvão se ajustando perfeitamente a cada movimento. — Vou indo. Estamos combinados sobre eu organizar esse aniversário de mês do Benny?

​— Sim.

​— Se quiser chamar alguém ou dar sugestões, é só me avisar.

​— Tá certo.

​Eu o acompanhei até a porta. Girei a maçaneta e a abri, e ele se foi com a imponência e elegância de sempre.

Notas finais
Já já tem mais.