After Separation - Livro 2
56 Capítulo LIV
Notas iniciais
Grissom...
O vento frio do Atlântico chicoteava impiedosamente meu rosto, trazendo consigo o cheiro acre do sal marinho e a promessa de um fim de tarde diferente do que eu desejava. Parado na beira do cais, ao lado do meu veleiro que balançava suavemente, suspirei em uma derrota que se instalava nos ossos. O relógio de pulso, um presente de aniversário que agora zombava de mim com seu tique-taque arrogante, confirmava a sentença cruel: o tempo havia se esgotado. Sara não viria. No fundo, eu devia saber; nossa convivência se tornara um campo minado implacável, e ignorar essa realidade estava aquém da Sara que eu conhecia, por algumas vezes apegada à razão.
O sol mergulhava no horizonte, pintando o céu em tons dramáticos de laranja, violeta e um vermelho intenso — uma beleza excessiva e quase sádica, que tornava minha solidão ainda mais pungente. A ausência dela nesta comemoração particular, um aniversário que eu tanto desejei partilhar com ela e meus filhos, era o golpe final.
- Senhor, podemos zarpar quando desejar — a voz grave e paciente do comandante soou acima do burburinho do porto e do bater das ondas contra o casco, ruídos que me mantinham presa a um torpor melancólico.
Virei-me para ele, sentindo o peso da derrota no peito, como uma pedra fria. Meu rosto, embora impassível e mascarado pelo controle habitual, escondia a agonia da espera. A maquiagem leve já não disfarçava o cansaço. Ainda assim, num último e desesperado lampejo de esperança, olhei mais uma vez para o cais vazio, torcendo para que em cinco minutos Sara aparecesse. Então pedi, minha voz mal ultrapassando o som do vento:
- Mais cinco minutos, por favor.
Ele assentiu em silêncio, compreensivo, e subiu de volta para o convés superior.
Os cinco minutos se arrastaram, lentos e excruciantes, cada segundo um prego no caixão da minha expectativa, um peso insuportável sobre meu peito. O último vestígio de esperança se dissolvia com a luz moribunda do dia, que pintava o céu de um laranja doentio e púrpura. Com certo desapontamento, que na verdade era um oceano de mágoa, dei as costas para a entrada da Marina, a desolação misturada à resignação, e encarei meu motorista.
- Luke, em uma hora retorne com o carro para nos buscar.
O homem, que mantinha uma pose estoica de guarda ao meu lado, assentiu com a cabeça, um movimento mínimo de submissão, seus olhos fixos no horizonte, talvez para evitar o meu olhar derrotado.
Segui rumo ao veleiro. Eu já estava no primeiro degrau da escada de embarque, com a mão no corrimão de metal, que pinicava de frio sob meus dedos, quando ouvi sua voz:
- Senhor? — Luke me chamou, mas seu tom era diferente, carregado de uma hesitação sutil que ele jamais demonstrava, um quebrar da sua armadura profissional.
Virei apenas o rosto em sua direção, a curiosidade superando minha pressa em partir. Luke não me olhava; ele mantinha os olhos fixos num ponto à sua direita, mais precisamente na entrada da Marina, onde a luz do crepúsculo se acentuava, lançando sombras longas e dramáticas. Segui o olhar dele.
E lá estava ela.
Sara.
Ela estava lá parada, como quem acabara de tomar a decisão mais difícil de sua vida. Vestia calças de alfaiataria escuras de corte impecável e uma blusa de seda branca que a brisa moldava suavemente em seu corpo. Seus cabelos estavam um pouco desgrenhados pelo vento salgado, emoldurando seu rosto com uma beleza inesperadamente vulnerável.
Um trovão mudo explodiu em meu peito, fazendo o ar que eu havia contido por uma hora inteira ser liberado em um suspiro involuntário e trêmulo. A resignação se desfez em um instante, substituída por uma torrente incontrolável de incredulidade e alívio avassalador. Desci os degraus de dois em dois com fúria controlada no deck de madeira, a urgência me consumindo.
Quando cheguei ao chão firme do cais, ela já se dirigia em minha direção, caminhando pelo piso de tábuas com a graciosidade imperturbável que eu sempre lembrava, um deslizar elegante que desafiava a gravidade. Suspirei, um som que ficou preso na garganta.
Céus! Como era possível que, depois de todo o caos que nossa relação se tornara — após o golpe seco da minha descoberta sobre sua omissão a respeito de Benny -, Sara ainda me atingisse com a mesma força devastadora da primeira vez? A força de um amor nascido há mais de um ano, na festa de Camille.
Eu a magoei. Ela me magoou. Isso é um fato inegável, uma cicatriz profunda na história que escrevemos juntos, uma linha de falha que marcava nosso terreno.
Mas, mesmo diante daquele cenário de caos, mesmo em meio àquela ruína emocional, o amor permanecia, vivo e intenso. Era um amor torto, sim, e obsessivo, como meu irmão vivia a acusar, um monstro de duas cabeças que eu não sabia domar. Mas, ainda assim, apesar do peso intransponível dos erros cometidos, o sentimento estava ali dentro de mim, enraizado e forte como uma rocha. Eu tinha certeza do meu. Do dela, não sabia mais.
Contudo, eu queria, eu precisava, desesperadamente, acreditar que sim.
Sara parou diante de mim, a respiração ligeiramente ofegante pelo passo apressado, a blusa de seda balançando com a brisa, como uma bandeira de rendição ou de desafio. Seus olhos cor de avelã demonstravam uma hesitação, uma batalha interna refletida, um oceano de dúvidas que ela trazia consigo.
- Você veio. — A voz me saiu em um sussurro rouco. Não foi uma pergunta, foi mais uma fala para convencer a mim mesmo de que a imagem à minha frente era real e tangível, e não apenas um desejo desesperado do meu coração. — Você realmente veio.
- Talvez, eu esteja cometendo um erro vindo aqui e me arrependa disso depois... — sua voz era um punhado de incerteza, baixa e áspera, mal quebrando o silêncio denso e salgado do cais. Seus dedos estavam apertados, torcendo a alça da bolsa de couro contra a lateral da coxa, um tique nervoso que entregava sua vulnerabilidade. — Mas...
Ela não conseguiu ir além. O peso daquela palavra pareceu a sufocar, e seu olhar, geralmente resoluto, voou para um ponto qualquer da Marina, um horizonte imaginário, evitando o meu.
Eu não a deixei terminar a frase, nem concluir a ideia do erro. Fechei a distância que nos separava com dois passos largos e rápidos, a decisão subitamente fria e clara, ignorando a batida furiosa e desgovernada do meu próprio peito. Ela me encarou. O cheiro de seu perfume de sândalo e jasmim, uma fragrância inconfundível, me atingiu como uma onda forte, quase me derrubando.
- Sem "mas". — eu insisti, a voz mais rouca do que pretendia, quase um sussurro quebrado. — Não precisa explicar nada. Você veio e é isso que me importa. — sorri contente com sua decisão. — Vamos lá. É só subir. — a convidei, gesticulando para a escada de embarque.
O aceno dela foi mínimo, mal perceptível, mas carregado de resignação. Soltou o ar que parecia prender nos pulmões com um sibilo, e eu permiti que Sara passasse à minha frente. O degrau de madeira antiga gemeu sob o peso hesitante de seus sapatos, o som seco ecoando no silêncio pesado do cais, uma nota nervosa que se somava ao meu próprio tremor interior.
Observei a forma graciosa de sua nuca enquanto ela subia. A luz fraca do patamar superior delineava sua silhueta. Eu a segui, sentindo a tensão vibrar no ar frio entre nós, como cordas de um instrumento prestes a se romper. Aquele cheiro de sândalo cítrico e familiar e a melodia hesitante dos passos eram a única prova da realidade daquele encontro; o ponto de não retorno que eu tanto esperei.
***
O balanço suave do veleiro, um ritmo ditado pelas ondas, embalava nossos corpos enquanto a brisa constante acariciava suavemente nossos rostos e cabelos. O sol, como um artista pintando o horizonte, beijava o mar ao longe, criando um espetáculo visual de tirar o fôlego. Aquele cenário idílico era o pano de fundo perfeito para a celebração do meu aniversário, um momento que eu não poderia imaginar passar de outra forma, senão na companhia de Sara, Benny e William, as pessoas mais importantes da minha vida.
Instalou-se um silêncio, não um que pesasse ou causasse desconforto, mas um silêncio cúmplice e sereno. Sara aninhava Benny em seus braços, enquanto eu envolvia Will nos meus. Tínhamos trocado algumas palavras breves antes de nos acomodarmos cada uma em um banco em L, a mesa central de teca nos separando gentilmente. Ela havia me oferecido seus parabéns pela data especial logo que nos ajeitamos, e desde então, a quietude preenchia o espaço entre nós, pontuada apenas pelo farfalhar das velas e o suave bater das águas contra o casco enquanto o veleiro seguia pelas águas do Hudson.
O silêncio era preenchido apenas pelo slosh-slosh suave da água batendo ritmicamente contra o casco de fibra e pelo ocasional estalo da corda solta no mastro. Era a trilha sonora perfeita para um momento de gratidão pura. Eu apoiei o queixo no topo da cabecinha de Will, inalando o cheiro dos cabelos do bebê, uma fragrância que superava qualquer perfume. Seus pequenos punhos estavam cerrados, e o calor do seu corpo no meu colo era uma âncora, um peso tranquilizador que me lembrava de tudo o que importava.
O sol já havia mergulhado quase totalmente, mas a luz residual pintava o céu de um degradê dramático: do laranja queimado ao rosa-pêssego, com pinceladas de violeta nas nuvens mais altas. O ar tinha aquele toque salgado e fresco do crepúsculo. Olhei para Sara. Ela sorria suavemente para Benny, que abriu e fechou a boca em um bocejo silencioso, revelando uma covinha na bochecha. Os olhos dela estavam calmos, refletindo o azul profundo do mar escurecido.
- Obrigado — murmurei, a voz um sussurro que rompeu a quietude, quebrando o feitiço do silêncio, embora eu não quisesse desfazê-lo completamente. A palavra flutuou no ar salgado entre nós.
Sara ergueu o olhar, seus olhos encontrando os meus no crepúsculo. O sorriso em seus lábios permaneceu, talvez menos expansivo do que o que ela dedicava a Benny, mas estava ali, real e dirigido a mim, aquecendo o espaço frio que nos separava.
- Pelo quê, Grissom? — ela questionou, a curiosidade suave em sua voz, o tom de avelã combinando com a cor de seus olhos.
- Por ter aceitado vir — respondi, sentindo a sinceridade pesar em cada palavra, pesada como as âncoras que mantinham os barcos no lugar. — Por fazer parte desta comemoração. O aniversário deste ano está sendo o mais... completo. Não consigo imaginar mais nada que eu pudesse querer do que isso — completei, gesticulando com a cabeça para o mar cintilante, para as crianças, e finalmente, para ela, um gesto que abrangia todo aquele momento perfeito.
Depois do aniversário passado mergulhado na infelicidade, preso em um casamento com Maryanne, alguém que eu não amava de verdade, estar ali, exatamente um ano depois, comemorando de uma forma tão íntima e genuína em meu veleiro, com as pessoas que realmente importavam e a quem eu amava, era mais do que uma simples virada. Era uma reviravolta mágica e perfeita, um círculo de 360 graus que fechava um ciclo de dor e abria um novo, que eu esperava ser de pura felicidade.
- Disponha. — foi sua única resposta, seguida de um puxar de lábios, um vislumbre de sorriso, tão rápido quanto o bater de asas de uma gaivota no horizonte.
O vento aumentou ligeiramente, fazendo a vela estalar acima de nós. O veleiro inclinou-se suavemente, respondendo ao ritmo do mar.
Sara ajustou Benny em seu colo, cobrindo seus pezinhos com a barra da camisa de seda, um gesto instintivo de carinho. Seus olhos voltaram-se para o horizonte, onde a última faixa de luz do sol morria lentamente. Havia uma paz em seu rosto, uma serenidade que eu raramente via em nosso convívio tenso.
Eu continuei a observá-la, a luz fraca do mastro lançando um brilho sutil em seus cabelos agora mais bagunçados. O amor que sentia por ela, complexo e ferido, parecia, naquele instante, a coisa mais simples e natural do mundo. A gaveta das mágoas permanecia trancada. E o silêncio, que retornou, já não era apenas cúmplice, mas uma promessa silenciosa de novos começos, embalada pelo suave slosh-slosh das águas do Hudson.
***
Sara...
Observava Grissom e seu cuidado com William, em mantê-lo aquecido da brisa que vinha do Hudson durante o passeio do veleiro e me surpreendia com sua versão pai, uma faceta que eu estava descobrindo com sua convivência com Benny, tão diferente do homem de negócios e do ex-amante com quem me envolvi.
- Não imaginava que você seria um pai tão dedicado assim. — minha voz era mais suave e desprovida de qualquer ironia ou deboche, ou alfineta, apenas pura observação.
- Nem eu. — ele admitiu, com um sorriso fraco, ajeitando uma mecha de cabelo de William atrás da orelha minúscula. — A verdade é que tento ser a minha melhor versão para o Will e agora para o Benny também.
Fiz um leve meneio com a cabeça, a conversa tomando um rumo inesperado e íntimo, dissolvendo mais uma camada da nossa armadura.
- Ser pai nunca foi algo que eu quis, Sara. — ele confessou em um tom baixo, como se aquilo fosse um segredo que pesava em sua alma. — Pelo contrário, sempre refutei essa ideia. Mas hoje, quando eu olho para o Will e o Benny... — seu olhar passeou do garotinho em seu colo para o nosso filho em meu colo, dormindo sereno. — Só consigo pensar em como eu não fui pai logo.
Ele sorriu, um sorriso genuíno que iluminou o crepúsculo, e eu acabei o acompanhando no gesto e compartilhando do mesmo pensamento.
- Comigo é igual. — confessei, os olhos encarando Benny aconchegado em meu colo enquanto deslizava o dedo indicador por seu rosto rechonchudo, sentindo a suavidade da pele do meu filho.
O silêncio que se seguiu foi confortável, preenchido apenas pelo ritmo do barco e o som tranquilo das crianças respirando. A essa altura, o céu já estava completamente escuro, salpicado pelas primeiras estrelas. As luzes da cidade de Nova York começavam a brilhar ao longe, delineando a silhueta urbana contra a noite.
Senti o olhar de Grissom sobre mim como uma brasa fria, uma pressão silenciosa e insistente. Quando finalmente ergui os olhos de Benny para encara-lo, ele não demonstrou a menor intenção de desviar a vista; pelo contrário, sustentou o contato, firme e desafiadora. Em seus olhos, o azul opaco e turvo que eu conhecia havia se dissipado por completo, substituído por um brilho incrivelmente suave, quase líquido, refletindo as luzes distantes da cidade. Não havia traço do velho ressentimento amargo; apenas uma quietude profunda e inesperada.
Para quebrar a tensão quase palpável, desviei meu olhar, pousando-o sobre o garotinho aninhado em seu colo — William, com seus cachos escuros e pele alva.
- Ele se parece com Maryanne quando pequena — comentei, sentindo um sorriso tênue surgir ao notar a semelhança marcante.
- Sua mãe, quando o viu pela primeira vez, disse exatamente o mesmo — Grissom respondeu.
Minha curiosidade, há muito tempo adormecida, despertou com um leve desconforto. Ajeitei-me na poltrona macia antes de indagar:
- Ela sequer liga para saber do filho? — Eu já esperava a resposta negativa, mas a pergunta era inevitável.
Grissom soltou uma risada curta, um som seco e sem humor.
- Que nada! Desde que nos separamos, ela não discou o telefone uma única vez.
Dei de ombros, o gesto um reconhecimento da verdade amarga.
- Isso, honestamente, não me surpreende em nada. Maryanne sempre foi apegada unicamente à própria vida.
- William ficar comigo foi um alívio. Uma etapa encerrada, um peso a menos para ela, você sabe — ele concluiu, a voz carregada de uma franqueza que ambos reconhecíamos.
Assenti lentamente, a sombra da realidade de Maryanne pairando sobre o ar.
- Ela continua morando lá na Alemanha?
- Não — Grissom respondeu, ajeitando a criança adormecida com um toque carinhoso. — Foi para os Emirados Árabes a trabalho. O escritório que ela trabalhava em Berlim abriu uma filial por lá, e Maryanne conseguiu a transferência para ser a responsável por esse novo polo de arquitetura.
Lancei um olhar enviesado para Grissom, um misto de ironia e aceitação cínica.
- Bom, ao menos ela foi para onde o dinheiro corre farto e onde a companhia é mais... selecionada. Exatamente o que ela sempre quis para a vida dela.
- Foi a mesma coisa que pensei.
Sorrimos, um gesto compartilhado de compreensão amarga e resignação.
- Sabia que ela quase nunca carregava o William? E sequer quis amamentá-lo, porque não queria estragar os seios?
- Céus! Pior que eu acredito. É bem a cara dela. — eu balancei a cabeça penalizada pela pobre criança, sentindo uma pontada de raiva pela negligência. — Eu lembro quando éramos crianças e brincávamos de boneca. Ela sempre era a mãe, mas nunca queria cuidar da criança. Isso ficava pra mim. Eu quase sempre nas brincadeiras era a babá ou a tia legal que cuidava da criança.
- Maryanne é um caso sério. Ela não nasceu com instinto materno.
- Não mesmo, Grissom. Sorte do William que tem você.
- Na verdade, o sortudo foi eu em ter esse carinha na minha vida.
Um silêncio confortável caiu sobre nós por um momento, a brisa do mar nos envolvendo novamente, tecendo uma paz temporária ao nosso redor. A noite de Nova York desdobrava-se ao longe, um horizonte cintilante de vidro e luzes que refletia, distorcido e hipnótico, nas águas escuras do Rio Hudson. O som da água batendo suavemente no cais era a única trilha sonora para a quietude que se instalara.
- Como foi quando descobriu a gravidez do Benny? — Grissom perguntou, a voz quase um sussurro que parecia ter medo de quebrar a magia daquele momento. Seus olhos, antes fixos no horizonte, voltaram-se para mim, carregados de uma expectativa silenciosa e ansiosa.
- Foi um susto a princípio. — comecei, o calor da lembrança subindo ao meu rosto. — Eu vinha passando mal constantemente, uma náusea persistente que não dava trégua, transformando cada manhã em um desafio. E minha assistente desconfiou. Ela, com sua observação aguda e preocupação quase maternal, não apenas desconfiou, mas agiu. Ela inclusive marcou a consulta com minha médica. — sorri ao lembrar da insistência de Morg, sentindo um calor no peito, uma gratidão profunda por sua intuição. Ela havia sido um anjo e tem sido até hoje. — Quando ela me confirmou, o consultório girou. Eu fiquei tão em estado de negação e desespero que a médica julgou que eu fosse interromper a gravidez.
- Mas isso passou pela sua cabeça? — Grissom me interrompeu, a mão pairando no ar, a incredulidade e o medo de sua própria pergunta visíveis em seu rosto.
- Jamais! — A resposta veio firme, reflexa, vinda de um lugar mais profundo que o pânico inicial. — Eu fiquei com medo, um pavor paralisante, mas... Nunca tiraria o nosso filho. O medo era de não ser suficiente, de como a vida mudaria, mas nunca de não o querer.
- E como foi a gravidez dele?
Vi seus olhos brilharem de expectativas por saber daquelas informações que eu privei de presenciar. A luz da lua, agora mais alta, prateava as ondas suaves que batiam contra o casco do veleiro, enquanto o ar ficava ligeiramente mais frio, carregado com o cheiro salino do rio e o perfume adocicado da minha colônia. Eu me ajeitei na poltrona, inclinando-me para contar o segredo mais bem guardado do meu coração.
Em um monólogo de risos e lembranças gostosas, eu lhe relatei como foi o desenrolar de toda a gestação de Benny. Grissom ouvia atento e vidrado a cada revelação, seus olhos fixos nos meus, absorvendo cada detalhe do tempo perdido, como se pudesse, através das minhas palavras, recuperar cada dia que o fiz estar ausente na vida do nosso filho.
- O primeiro trimestre foi... caótico. — confessei, rindo baixinho. — Sono. Idas constantes ao banheiro. O enjoo não era só pela manhã; ele vinha a qualquer hora, como um golpe baixo. Lembro de um dia em que Morgan me obrigou a comer um sanduíche e, dez minutos depois, eu estava de joelhos, abraçando o vaso sanitário da editora.
Grissom soltou uma risada silenciosa, mas seus olhos azuis marejaram levemente. Ele se ajeitou melhor na poltrona, cruzando as pernas com um movimento elegante, e cuidadosamente agasalhou William com um cardigã macio e de um tom de azul pálido, cobrindo o garotinho até o queixo, com um carinho palpável no gesto.
Em meu colo, Benny estava igualmente agasalhado da noite fria e da brisa que soprava, envolvido em um cobertor felpudo, enquanto o veleiro havia dado uma pausa no meio do Hudson.
- A barriga só começou a aparecer de verdade por volta do quinto mês. Mas o momento mais surreal... Ah, Grissom, foi quando ele chutou pela primeira vez.
Parei, fechando os olhos por um segundo, permitindo-me reviver a sensação.
- Eu estava na poltrona da sala, assistindo a um filme bobo. Era uma sensação tão suave no início, como se fosse um peixinho... ou bolhas estourando, lá dentro. Mas aí veio o chute. Forte, decisivo, bem ali onde o medo morava. Eu gritei! Foi ali que a ficha realmente caiu, sabe? Não era mais uma ideia abstrata, era uma pessoa minúscula, mas muito agitada, avisando que existia. Naquele instante, chorei de tanta felicidade e medo, tudo misturado.
Grissom suspirou. A respiração suspensa. Sua pele, iluminada pela luz prateada da lua, parecia etérea.
- E você nunca me disse nada... — ele murmurou, a voz quase um sussurro rouco, sem censura, apenas a dor lancinante da saudade e do tempo irrecuperável.
- Eu sei. — eu disse, estendendo a mão sobre a mesa de madeira para tocar a dele, um toque que quebrava a barreira do tempo e da distância. — Eu quis me proteger, me resguardar. Mas eu deveria ter te contado.
Seus olhos se fixaram na minha mão que tocava a dele. Em resposta, ele virou a palma e apertou meus dedos, forte.
- Nos últimos meses, eu andava como um pinguim. — voltei a rir, aliviando a carga emocional. — Dormir? Uma piada. Eu vivia esmagada entre travesseiros, tentando achar uma posição que não me fizesse sentir que ia rolar da cama. E a ânsia de comer! Principalmente doce. Virei quase uma formiga, por doce.
Grissom riu, uma risada gutural e libertadora que reverberou no Hudson. Era a primeira risada de verdade desde que tínhamos tocado no assunto.
- Eu senti tanta falta de você. — ele disse, após o riso se acalmar, soltando minha mão, mas a mantendo próxima, sobre a mesa. — Eu daria tudo para ter sentido esse primeiro chute, ou para ter te ajudado a montar o berço, escolher o enxoval. Ou ainda, ter estado ao seu lado, segurando a sua mão na sala de parto.
Eu peguei sua mão novamente, desta vez para um aperto de confirmação.
- Você tem todo o resto agora, Grissom. O Benny é todo seu também. E ele está aqui, para você cuidar e amar cada pedacinho dele. — Minha voz soou firme, carregada de uma certeza que há muito tempo não sentia.
- Obrigado por me deixar fazer parte. — A gratidão em sua voz era quase tangível, uma rendição silenciosa à minha oferta.
O silêncio que se seguiu foi de aceitação, de trégua. O veleiro balançava gentilmente, um ritmo hipnótico. As luzes de Nova York brilhavam como estrelas na terra, e as estrelas no céu pareciam mais próximas.
Senti o peso do olhar de Grissom novamente. Desta vez, não desviei. Sustentei o contato, permitindo que a quietude da noite fizesse o seu trabalho. Havia uma nova luz em seus olhos, um calor que derretia o último resquício de gelo entre nós. A gaveta das mágoas permanecia trancada, e, naquele instante, o trinco parecia mais seguro do que nunca. Apenas o som suave da água e a respiração das crianças preenchiam o espaço, e era o suficiente.
***
Acomodei Benny com cuidado na cadeirinha em meu carro, tomando o devido cuidado de não acordar meu pequeno. O tecido fresco do assento roçou em sua bochecha. O cheiro de salinidade e motor diesel, trazido pela brisa noturna da marina, pairava no ar. Terminei de ajeitá-lo, o cinto de segurança estalando baixo com um clique seco, e fechei a porta do carro com a delicadeza de quem pisa em gelo fino.
Ao me virar, dei de cara com Grissom, uma silhueta tensa contra a luz fraca do estacionamento. Ele estava parado ali, postado atrás de mim após também ter ajeitado William na cadeirinha de seu próprio carro, e a atmosfera entre nós era o oposto do silêncio da noite — espessa, carregada.
- Obrigado, mais uma vez, por ter vindo — Grissom murmurou, a gratidão genuína suavizando sua voz. — Foi o melhor presente de aniversário que eu ganhei nos últimos tempos.
Assenti, deixando o silêncio preencher o vazio desconfortável.
- Lewis organizou uma social lá em casa para comemorar o meu aniversário — Grissom se pronunciou, e percebi que sua voz estava testando o terreno frágil, cada palavra quase um pedido. Seus olhos azuis, sempre tão expressivos, brilhavam com uma esperança cautelosa. — Alguma chance de você aparecer lá?
- Isso é um convite? — indaguei, embora já soubesse a resposta.
- Atrasado, mas é — ele confirmou, o tom subindo ligeiramente com o resquício de uma antiga familiaridade.
Sacudi a cabeça, a decisão já pesada no peito.
- Grissom, não vai rolar. Acho que isso...
- É demais? — ele disse, me interrompendo, a expectativa pintada em seus olhos azuis quase se transformando em súplica.
- Sim! — concordei, a firmeza retornando à minha voz como um escudo. Complementei, deliberadamente adicionando a barreira: — Além do mais, tem o Doug. Se eu fosse, ele iria comigo e não acho que você gostaria de tê-lo em sua festa de aniversário, certo?
O nome "Doug" foi a chave que virou a fechadura. A faísca de esperança nos olhos de Grissom se apagou instantaneamente. Seu tom ficou frio, metálico, e sua expressão facial mudou, fechando-se como uma porta de ferro recém-batida.
- Certíssimo. O que viu nele, Sara?
A pergunta foi direta, uma lâmina afiada que cortou o ar estagnado entre nós. Eu o encarei, meus olhos sustentando os seus sem vacilar, e a resposta veio, carregada de uma verdade dolorosa, mas inegável, que era o verdadeiro motivo da minha ausência:
- O que faltou em você... Certeza e segurança!
O impacto das minhas palavras atingiram Grissom em cheio. Vi a máscara de indiferença que ele sempre usava para se proteger rachar em mil pedaços, revelando a ferida aberta por baixo. Seus olhos azuis, que momentos antes brilhavam com um convite, agora se tornaram opacos, refletindo apenas a dor. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor, preenchido apenas pelo som do vento e do mar.
Ele recuou um passo, como se fisicamente atingido, e seus lábios se curvaram em um meio sorriso amargo.
- Entendi. — A voz dele saiu em um sussurro rouco, quase inaudível, carregado de uma mágoa que cortava mais fundo do que qualquer lâmina. — Bom, obrigado, novamente. Tenho que ir agora.
Sem esperar por uma resposta, Grissom se virou bruscamente e entrou em seu carro. A porta bateu com um som final e decisivo, um ponto final na trégua que havia sido tão breve e frágil.
Fiquei parada no estacionamento, observando as luzes traseiras do carro de Grissom se afastarem na escuridão. Um peso insuportável se instalou em meu peito, a culpa me corroendo por ter sido tão cruel, mesmo que a verdade fosse necessária. A gaveta das mágoas havia sido reaberta, e o caos, antes contido, agora transbordava, mais uma vez, em minha vida.
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