After Separation - Livro 2
4 Capítulo II
Notas iniciais
"Sempre há maneiras de superar um término, basta que não se deixe levar apenas pelos sentimentos. Pensar e usar a cabeça é o único modo de quebrar as barreiras e seguir em frente."
(Autor desconhecido)
***
— Obrigada por entender, Brooke. — lhe agradeci.
Ele era o poço da compreensão. Um chefe maravilhoso e muito tolerante. Poucas foram às vezes em que faltei ao longo desses anos em que trabalho para ele. Mas estava sendo a primeira que eu inventava uma mentira para justificar minha falta, pois não tive coragem de lhe contar a verdade.
— Que isso. Apenas se cuida desse resfriado e segunda se estiver bem venha trabalhar. Do contrário me liga avisando e nem precisa vir, tá bom?
Assenti, mas logo me lembrei que ele não podia ver e então verbalizei a resposta.
— Está bem. Mas segunda eu irei sem falta. Preciso conversar com você sobre algo importante.
Tinha que comunicá-lo o mais breve possível sobre meu pedido de demissão, para que Brooke começasse a procurar uma substituta para ficar no meu lugar. Eu só tinha quinze dias para resolver minha situação na New Publications e então assumir meu novo cargo na BoB.
— Tudo bem. Nos vemos segunda. Melhoras, Sara.
— Obrigada mais uma vez, Brooke. Até segunda.
Quando desliguei a chamada um sentimento de tristeza se abateu sobre mim ao pensar que em duas semanas eu não trabalharia mais com Brooke.
Sentiria falta dele e de seus ensinamentos; da liberdade com moderação que ele me dava para opinar. Ele quase sempre fazia questão de saber o que eu achava sobre os manuscritos de novos autores que chegavam para serem avaliados. Me fazia lê-los e resenhar minha opinião.
Meu chefe confiançava nas minhas analises, tanto que eu era a única das assistentes que tinha essa liberdade de opinar. Por conta disso, inclusive, eu já tinha descoberto alguns dos autores que hoje em dia faziam parte do casting da NP e que eram sucesso de venda com seus livros na sessão de romance. E sempre que um deles fazia sucesso após ser lançado, meu chefe fazia questão de deixar claro as pessoas na editora que aquele autor tinha sido indicação minha. Ele sempre me dava o crédito quando os outros colegas vinham lhe dar os parabéns por "seu achado". Jamais se fez em cima das minhas sugestões. Até porque ele não precisava disso. Tem um nome conhecido e um faro nato para escolher suas apostas. Tanto que as vezes eu ficava me perguntando por que ele me pedia sugestões? O cara não precisava disso, ele tinha o feeling exato para a coisa.
Meses atrás eu o questionei a este respeito e ele me respondeu simplesmente: "é a minha forma de saber o quão boa e seletiva você pode ser. Além de ver se você tem o feeling para escolher e fazer suas apostas de maneira correta. E você tem isso, Sara. Quando chegar num cargo de editora, será uma das melhores". Eu fiquei muito contente na época em que ouvi aquilo.
— Sara já estou indo.
Encarei a porta de onde Dayse falou comigo e apenas balancei positivamente a cabeça para minha amiga.
— Deixei café pra você na cafeteira. Vê se toma. Não fica sem comer nada.
— Sim senhora, mamãe. — debochei e Dayse me fitou de maneira nada amistosa, que deduzo ser em resposta a forma como lhe falei.
— Vou relevar esse seu deboche, porque sei que não está legal hoje.
— Foi mal. — pedi ao me dar conta de que havia sido desnecessário o modo como lhe respondi. Dayse não merecia aquilo.
— Tá bom. Quando eu vier trago o almoço, porque, certamente, não irá fazê-lo, né?
Por natureza eu já detestava cozinhar. E levando em conta o péssimo estado de espírito no qual me encontrava, cozinhar era a última das coisas que eu faria ou pensaria em fazer.
— Não mesmo. — respondi poucos segundos após a pergunta que Dayse me lançou.
— Então o almoço é por minha conta.
Outra vez assenti para ela em resposta. Minha amiga ficou me olhando por um breve instante até que decidiu vir de onde estava para perto de mim.
— Tenta não ficar pensando nele. — ela aconselhou se agachando a minha frente na cama e tocando meus cabelos.
Dayse fala aquilo como se fosse fácil conseguir. Mas não era! Nem um pouco. Grissom estava tão agarrado às minhas memórias, quanto em meu coração. Mas eu ia dar um jeito de reverter aquilo. Não sei como ou quanto tempo ia levar isso, mas eu o faria e torceria para ser bem-sucedida nisso.
— Tentarei. — foi tudo o que consegui dizer a minha amiga.
— Bom esse é começo. — ela piscou e se pôs de pé logo seguida. — A gente se vê mais tarde.
Dayse me deu as costas e já ia seguir seu caminho quando a chamei.
— Dayse...
— Oi! — ela se virou para mim.
— Obrigada por ser essa melhor amiga incrível que você é.
Eu tinha muita sorte de poder ter ao meu lado uma amiga extraordinária como ela, que cuidava de mim e se preocupava comigo daquela forma que só quem é seu amigo de verdade faz.
— De nada. Mas estou apenas retribuindo o carinho que já recebi de você incontáveis vezes, Sidle. Sabe que você também costuma ser uma amiga incrível às vezes?
Esbocei um leve sorriso. Só Dayse para conseguir isso de mim no atual momento em que me encontro.
— Às vezes é, sua ingrata?
Ela riu.
— É. Agora deixa eu ir, porque se me atrasar e receber um sermão da Sullivan, vou ser sua pior amiga quando eu voltar. Tchau.
— Só pra você saber, eu disse ao Brooke que peguei um resfriado. — contei para que ela não fosse pega de surpresa.
— Certo. Tchau de novo.
— Tchau.
Depois que Dayse saiu do quarto, eu ainda permaneci encarando a porta pela qual ela saiu e inevitavelmente, a imagem de Grissom ontem tomando o mesmo rumo que minha amiga tomou segundos atrás, repassou por minha mente sem que eu desejasse.
Lembrança amarga. Doída e infeliz, como seriam daqui para frente cada recordação que eu tivesse dele a partir de agora.
E pensar que tudo poderia ter sido evitado, se eu tivesse resistido e não cedido aos encantos daquele cretino. Mas, paciência, eu cedi e cá estou, me lamuriando por ter levado um baita pé na bunda dele.
"Sabe, ás vezes eu fico pensando se não vou quebrar a cara feio com você."[...]
"[...]Se depender de mim, você não vai quebrar a cara comigo. Prometo!"
Quanta hipocrisia dele!
Eu devia ter me afastado dele enquanto ainda dava tempo. Enquanto ainda não havia me deixado envolver demais por seus galanteios e charme.
Às vezes fico imaginando que seria tudo tão mais fácil, se pudéssemos prever o futuro. Isso nos livraria e pouparia de vários sofrimentos. Mas aí, em compensação, como íamos aprender sem errar ou quebrar a cara? Isso faz parte. É com os erros que mais aprendemos. E eu estava aprendendo com o meu, porque se eu tivesse seguido minha intuição e não me envolvido com Gil, não estaria nessa fossa.
Mas também não teria desfrutado de bons momentos com aquele cretino. Momentos estes que ficaram manchados pela raiva, que agora eu nutria por aquele cretino de uma figa.
Depois do que houve só me restava reunir os cacos do meu coração e tentar refazer-me do estrago interno.
A vida têm que continuar!
Esta frase de cinco palavras seriam meu mantra outra vez. Foram na época do término com Elliot e seriam, agora, depois do fim de relacionamento com Grissom.
Finais e começos!
Curioso como os relacionamentos são como a vida, com seus ciclos de altos e baixos, alegrias e tristezas. Uma verdadeira montanha-russa de emoções. E depois de subir e subir com alegria a minha própria montanha-russa, agora, eu estava só descendo com tristeza ladeira abaixo nela.
"[...]Quero passar cada segundo do resto da minha vida ao seu lado."
Até ontem, eu também queria isto que ele me disse. Agora, acho que não quero mais. A decepção que sofri pela decisão tomada por Grissom, tinha sido grande demais e, ainda por cima, estava doendo consideravelmente, que tudo o que mais desejava era distância do sujeito, que outrora me proporcionou momentos maravilhosos.
Por mais um considerável período, eu ainda permaneci na minha cama até que, por fim, resolvi dar um basta naquele masoquismo todo de ficar relembrando do quê e de quem não devia, e me levantei dali.
Decidi-me por tomar um bom banho frio para resfriar a mente e quem sabe até congelar as lembranças. Como se este último fosse possível!, uma voz reverberou com certo sarcasmo em minha mente enquanto que aquela altura, eu já estava me despindo das poucas peças de roupas.
Entretanto, a ideia do banho em questão de instantes acabou por ser a pior escolha que fiz, pois bastaram coisas de quinze segundos sob os jatos de água, para eu ter a mente bombardeada outra vez de novas/velhas recordações com Gil. E estas de agora, eram de banhos quentes compartilhados com aquele cretino. Banhos regados a muitos beijos e carícias.
Inferno!
Um simples banho não é mais o mesmo depois que aquele cretino passou pela minha vida. Que praga! Desliguei a droga do chuveiro frações de segundos depois e puxei a toalha do gancho metálico fora do box.
Parece que quantos mais você não quer pensar ou lembrar de determinada pessoa, mais sua mente te traí e faz com que você não só pense em quem não deve, como também, recorde dos bons momentos partilhados com esta mesma pessoa.
Por que somos masoquistas assim?
Por que nossa mente nos tortura em momentos assim?
Já não bastava o sofrimento que estava sendo ter que lidar com o recente término, eu ainda tinha que ser importunada por lembranças que só agravavam mais a minha dor e sofrimento.
Me vesti com qualquer roupa e momentos depois estava sentada à janela da sala, com uma caneca de café entre as mãos observando o bairro, quando escuto o telefone tocar. Não fiz qualquer menção de sair de onde estava para ir atender a chamada. Na minha mente só consegui pensar que aquela ligação era da Maryane, que conseguiu o número daqui e estava ligando para jogar na minha cara o que ela disse lá atrás, na frente do prédio de Grissom. E eu não estava nenhum pouco a fim de ouvir suas piadas e menos ainda, sua voz alegre e feliz tripudiando por ser ela a que se casaria com Grissom.
É, ela ganhou o noivo que por várias vezes me disse que ia ser dela. Pois então, que eles dois fossem felizes no raio que os partisse! E bem longe de mim.
A gravação da secretária eletrônica entrou assim que o último toque da chamada terminou. E depois dela a voz que veio, não era a de Maryane. Eu a reconheci de cara, tratava-se de Lewis.
"Sara soube ainda pouco pelo Gil sobre vocês. Como você está?... "
— Na merda, Lewis. Seu irmão me atirou numa fossa horrível. — respondi ciente de que ele não me ouviria.
"...Sinto muito. Não imagina a vontade que estou de socar a cara do meu irmão..."
— Você não é o único a ter essa vontade. — retruquei antes de dar um gole no meu café e fazer uma careta logo em seguida, ao sentir que a bebida já estava fria.
"... E se fosse possível também, diria umas boas verdades ao meu pai por ter feito o Gil sucumbir a sua vontade. Meu irmão está péssimo..."
— Foda-se o seu falecido pai e o cretino do seu irmão, Lewis. — de olhos fechados, sussurrei mais para mim mesma do que propriamente para a chamada de Lewis.
"... E imagino que você não esteja nada diferente dele. É uma puta sacanagem duas pessoas que se amam, ficarem separadas. Mas tenho certeza de que se não foi hoje que vocês ficaram juntos, um dia não muito distante será, porque algumas coisas, por mais impossíveis que parecem, a gente sabe que foram feitas para dar certo. E eu soube assim que me revelaram sobre a relação que mantinham, que vocês dois foram feitos para dar certo juntos. Só acredito que este não seja o momento apropriado para isso. Provavelmente, seja num futuro não tão distante..."
— Ou talvez não seja nunca, Lewis. — sussurrei.
"... Quero que saiba que qualquer coisa pode contar comigo, tá bem? Tenho muito empatia por você. E se quiser conversar ou desabafar, me liga. Sei que você tem a Dayse pra isso, mas outro ombro amigo nunca é demais. E... Bom já me alonguei o bastante. Beijos e... Me liga quando ouvir esse recado."
O click no final indicou o término da ligação.
Eu podia tê-lo interrompido em qualquer momento do recado deixado e assim falar com Lewis, mas eu não tive coragem e tampouco, vontade para isso. Não agora!
Acho que por hora, eu ia querer distância das pessoas que eram próximas de Gil e isso incluía o Lewis, infelizmente. Mas eu precisava desse afastamento. Achava necessário e oportuno.
Fiquei remoendo e rememorando cada palavra do recado de Lewis. Não tardou para as lágrimas se acumularem em meus olhos e escorrerem pelo rosto, em virtude, principalmente, na parte em que meu ex-cunhado disse: "...se não foi hoje que vocês ficaram juntos, um dia não muito distante será, porque algumas coisas, por mais impossíveis que parecem, a gente sabe que foram feitas para dar certo."
Eu, sinceramente, não achava que ele estivesse certo naquilo. Depois de todos os 'contratempos e principalmente, pelo modo errado como a minha história com o irmão dele começou, eu só conseguia pensar que meu relacionamento com Grissom não era certo e não tinha futuro, por se uma relação já começa errada, a probabilidade dela vir a dar certo não é muito favorável. Sem contar os inimigos que se aliaram para nos separar, foram cirúrgicos neste quesito. E, deste modo, não houve qualquer chance para gente. Eles venceram!
Quem dera as coisas fossem como gostaríamos. Mas sabemos que nem tudo segue o curso que desejamos ou esperamos. Acho que o curso da minha vida não era ao lado do Grissom. Assim como o dele não era ao meu. Vai ver que ele era mesmo para a Maryane.
E se for assim, eu não posso fazer nada para mudar e sinceramente, nem quero.
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