After November
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Beijosss!
Anna -
Não é como se eu nunca tivesse sentido isso antes. Minhas mãos estão suando muito, e cada vez que acontece parece a primeira vez. Deito a cabeça no caderno e tento controlar meus batimentos cardíacos pela respiração. Começo a contar.
1, 2, 3, 4...
Talvez se eu tentar mais uma vez.
1,2, 3...
— Srt. Anna. – Escutei a voz ao longe. Não tinha forças pra levantar o rosto. Meu corpo todo era tremor. – Srt. Anna.
Droga, droga, droga e droga. A pior coisa de passar mal na escola é que as pessoas te acham louca. Acham que você é anti-social. Os professores acham que você é relapso. Mas eu não sou relapsa, eu sento na primeira carteira desde a primeira série. Como posso ser relapsa? Em St. Patrick é diferente, não consigo chegar nem perto da primeira carteira. TODOS aqui querem esses lugares. Derek conseguiu um.
— O-oi. – Disse depois de um tempo.
— Está se sentindo bem? – A professora Ellen estava parecendo um monstro. Com aqueles óculos enormes que ela comprou no século passado. Virei a cabeça para a esquerda, tentando me concentrar nela e não no barulho da chuva, que caia na janela do lado direito e me dava calafrios.
— Eu... – Começo. Não é fácil controlar os batimentos cardíacos com alguém tão perto de você. Penso como Derek está se sentindo do outro lado da sala. Como ele pode ser tão livre? Tão.. Tão... Derek?
Alguma coisa faz um barulho muito alto. Dou um grito ao mesmo tempo que pulo e bato o joelho na mesa. A sala toda rí de mim. Parecem milhares de rostos virando na minha direção, com os dedos apontados e dentes de vampiro brilhando. Meu joelho pulsa de dor, meu rosto é puro rubor. Uma mecha de cabelo gruda na minha testa suada. Tento respirar, o ar falta.
— Anna?- O olhar por trás dos óculos enormes da professora me apavora. Esfrego o joelho com a mão direita sem parar, não melhora a dor, muito pelo contrário. Só dói mais. – Vai continuar me ignorando? – Abro a boca, mas não consigo falar. Corro os olhos até encontrar com Derek, imploro por ajuda e ele da um meio sorriso de desprezo. – Para a diretoria! Agora!
Junto todas as forças que tenho para sair andando. Os olhos me acompanham até passar pela porta. Nunca fui para a diretoria. Nem sei o que estar lá. Desço os três andares olhando pro chão, muito concentrada nos ladrilhos preto e branco. De certa forma, consigo me acalmar. Depois que volto a respirar normalmente, percebo o quanto estou mancando. Segunda parada: Enfermaria. Onde é a enfermaria?
A sala da secretaria é toda rosada. Quente e úmida. Tem poltronas que parecem estar ali a séculos e uma secretaria que deve ter chegado com elas. Seus cabelos brancos são tão enrolados que me deixam com náuseas.
— Uma novata para ser devorada. – Escuto uma voz grossa pigarrear atrás de mim. Não tenho forças para olhar. Sinto o vento passar pelo rosto. O vento cheira a amêndoas. Ainda encaro o carpete manchado de verde com veemência.
— Noah! Modos! – A senhora –que posso constatar, FALA, então não pode ser uma múmia- o repreende. – Em que posso ajuda-la, querida? – Ela coloca uma das mãos sobre o balcão de madeira escura e sorri. Sua dentadura é amarelada. As unhas estão pintadas em vermelho vivo. Uma porta bate e eu estremeço.
— A Sr. Howard me mandou para cá. Eu... – Ela piscou. – Eu... – Mais uma vez. – Dormi na aula. – Um sorriso solidário.
— Meu nome é Julie. Pode aguardar ali. O diretor logo vai te atender.
Me arrasto com dor até a poltrona mais perto da saída. Preciso de ar novamente. Sento e sinto a poeira subir. Parece que não se recebem muitos alunos aqui, nessa escola. Mas eu não saberia a média de alunos que vão a diretoria por mês, de toda forma.
O relógio preso a parede faz barulhos estranhos. Parece jurássico.
— INADMISSIVEL NOAH! – Escuto alguém gritar do outro lado da sala. A porta abre. Passos firmes. Vejo coturnos pretos perto dos meus pés.
— Seu joelho está sangrando. – Faço que sim sem olhar para cima. O garoto, aparentemente Noah, espera por alguns segundos. Estou congelada. Então ele vai embora. Olho meu joelho e vejo a calça rasgada. Tem um pouco de sangue, nada demais.
— Srt. Anna, é sua vez. – A múmia anuncia solene. Flutuo até a porta com a placa: Diretor Jerkins. Bato.
***
- Não acredito que peguei detenção. – Digo para mim mesma. Agora as imagens parecem sólidas a minha volta, finalmente. Estou parada em frente a sala de detenção. A porta é amarela e sinto como se o corredor branco fosse me engolir.
— Nem eu. Pode sair da frente, assim acabamos com isso logo? – Consigo sentir o hálito de menta falando ao meu ouvido. Me assusto e dou um passo para o lado. – Obrigado. – A porta amarela se abre. Consigo ver uma mão comprida e branca abrindo a porta com força. Estico os olhos para ver o resto do corpo. Ele deve ter por volta de um metro e oitenta. O cabelo é acastanhado, com algumas mechas loiras. O uniforme está todo sujo de poeira e carrega uma mochila jeans que parece vazia. Seus passos são realmente firmes, parece ter tanta certeza do que está fazendo quanto temos certeza de que a gravidade existe. Os ombros estão arqueados, enquanto os meus estão encolhidos. Seguro a porta antes que bata e entro.
A sala está vazia, o que é muito estranho. Sempre imaginei que na detenção haveria um professor cuspindo fogo, com verrugas no corpo todo e olhos vermelhos nos esperando. O garoto está sentado na última carteira. Não consigo ver seu rosto, os cabelos bagunçados o tampam todo. Me sento na primeira carteira e fito o quadro.
— Você é muda? – Ele fala depois de longos dez minutos em silêncio. Penso em responder, mas não sai nada dos meus lábios. A sala é branca, como o resto das salas. Tem carteiras azuis e nada de especial, o quadro de vidro se estende por três paredes, na quarta há uma janela grande que tem vista para o campo de futebol.
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