Se passaram dias desde que as experimentações na garota Merrick começaram. Primeiro, precisavam remover o soro que aguçava a sua memória completamente do seu cérebro. Vasculharam cada canto até que ela tivesse um cérebro com capacidade de memória normal como antes; Mas ela não poderia ficar assim, não com tantas informações negativas sobre a Agência. Eles tinham que voltar aos testes de seu material que ajudava a limpar mentes traumatizadas de agentes.

Era sempre a mesma coisa para Amaya: acordar de um sono induzido, receber perguntas sobre pessoas em fotos que ela não conhecia,nomes estranhos eram mencionados, ver o garoto de olhos escuros e cabelos até o pescoço e reconhecê-lo, ser induzida a outro sono. Era um círculo vicioso que ela raramente se lembrava que existia.

Foram vários testes até que...

–-Senhorita,reconhece esse homem?—uma mulher apontou para a foto de um homem. Seu rosto parecia melancólico, ele tinha olhos escuros como a noite e cabelo que alcançava seu pescoço, mas ela não reconhecia de nenhum lugar, mais um estranho entre outras fotos de estranhos.

–-Não,senhora.—Amaya respondeu e todos pareceram respirar aliviados.

–-Ótimo,os testes finalmente alcançaram resultado positivo. Avisem aos superiores que nossa garota está pronta para dar o próximo passo.—Um homem disse enquanto liderava um grupo de 5 ou 6 pessoas.

–-Me desculpem,mas...Quem são vocês?—Amaya perguntou. Ela queria perguntar seu nome para eles,mas seria idiotice. Era melhor esperarem falar por vontade própria, seria menos vergonhoso.

–-Eu sou Thomas e essa é a Doutora Allegra,somos responsáveis por você.—o homem disse e o rosto da mulher pareceu desabar, ela deveria reconhecer eles?

–-Amaya,você precisa nos acompanhar até seu quarto provisório.—A doutora disse,tentando esconder sua tristeza com seriedade. A garota se sentiu confortável em saber seu próprio nome. Amaya... Soava como algo pacifico.

Ela foi colocada em uma maca pelos médicos e levada até seu “quarto provisório”. Era tudo em tons de cinza,e aquilo de algum jeito a irritava; uma cama de solteiro ficava em um canto, uma mesa e cadeira feitos de algum material plástico e cinza, um armário feito das mesmas cores e uma janela que ocupava metade de uma das paredes. Amaya seguiu em direção a ela em esperança de encontrar algo com um pouco mais de cor, mas o cenário era de uma cidade antiga, sem cores. O prédio onde ela se encontrava parecia ser o monumento mais alto que eles conseguiriam naquele lugar. Até o céu estava nublado, como em uma ironia do destino.

–-Amaya.—Uma mulher de terno e cabelos pretos e curtos surgiu em sua porta.

–-E você é...?—Amaya tentou dar mais passos para trás, mas ela já estava encostada na janela.

–-Não importa, mas você pode me chamar de Diretora...Ou superiora se preferir—A mulher deu um meio sorriso assustador.—Vim avisar que temos sua nova identificação,não podemos deixar que saía por aí sendo chamada de Amaya.

–-Porque não?—Amaya se atreveu a dar alguns passos em direção a mulher. Ela usava óculos de lentes e batom vermelho, sua roupa era completamente preta, a não ser um pequeno broche dourado em forma de revólver preso ao seu terno.

–-Porque são nossas regras. Sabe,Amaya, você estava prestes a morrer quando a encontramos. Te demos força para se manter e agora queremos oferecer um meio de nós recompensar. Você é muito importante aqui.—ela disse com sinceridade falsa nos olhos. Amaya só conseguia ver a sinceridade.

–-Claro, se eu devo minha vida a vocês, nada mais justo.—Amaya respondeu.

–-Você só vai ter que trabalhar conosco,nada muito difícil. Vamos oferecer treinamento e você vai poder fazer o que quiser assim que finalizar as missões.—A Diretora disse. Amaya não via nada de negativo naquilo, se ela trabalhasse bem, assim que as missões acabassem ela estaria livre do lugar e poderia fazer o que quiser.

–-Não vejo nada de ruim nisso.—Amaya sorriu.

–-Então, pode assumir o nome de Agente 522, Amaya. Amanhã terá um dos nossos melhores pronto para te ensinar sobre armas e assim que estiver em melhores condições, começa com os treinos.—A mulher disse e foi em direção a porta.—Será um prazer tê-la do nosso lado,522.

–-É um prazer servir a um bem maior, Diretora.

Levaram algumas horas de repetição para que Amaya identificasse números como seu novo nome.Tudo aquilo a lembrava de algo, mas sua mente estava confusa, e se ela forçasse mais um pouco talvez uma veia explodiria na sua cabeça.

Amaya se apoiou na janela e soltou um suspiro, talvez ela sempre tenha sido uma agente, mas sua mente está confusa. Fazia sentido. Talvez tenha crescido para servir a sua Superiora, como em qualquer outro trabalho: cumpra aquilo que é imposto,ganhe uma recompensa e siga nisso até resolver mudar.

A ideia de ter uma arma em suas mãos a deixava animada, talvez suas missões a levassem para bem longe...Mas o que aquelas missões envolviam? Ela torcia que o treino fosse apenas por prevenção, que atirar em alguém não fosse algo comum.

–-Amaya?—Uma voz masculina soou do corredor. Um garoto mais alto apareceu, seu cabelo castanho bem arrumado em um topete é um rosto reconhecível para Amaya.

Até porque se parecia muito com o dela.

–-Sim? Quem é você?—Amaya disse se sentando na cama e esticando suas pernas.As roupas brancas indicavam para o garoto que não havia muito tempo que ela tinha saído da ala médica.

–-Vim dar boas-vindas. Sou o agente 514.

–-Podemos usar nomes reais?—Amaya sorriu e ele retribuiu o sorriso.

–-Dorian. E nós precisamos conversar.

Poucas horas depois,o garoto havia enchido a cabeça da garota com memórias falsas.

–-Fui sequestrada?—Ela estava ainda assustada com todas as informações.

–-Sim, mas durante o acidente o cara morreu. A Agência conseguiu te tirar as pressas do lugar.

–-E você é meu...?

–-Irmão. Nossos pais morreram durante seu sequestro, aquele homem atirou em todos nós, me salvei por pouco.—Dorian odiava mentir para sua irmãzinha.

–-Você é o que me sobrou de família então?

–-E prometo ser a melhor família que você poderia sonhar.—Ele deu um sorriso fraco—Por falar nisso, você deveria dormir. Os treinos daqui são bem puxados e eu não vou poder te defender.

Amaya seguiu ele até a porta e se trancou, correndo para a cama e caindo em um sono profundo causado por cansaço físico e emocional.

Do outro lado da porta,Dorian passava a mão pelos seus cabelos escuros,seus olhos fechados e seus lábios pedindo para gritar a verdade.

–-Você fez o que era correto,514. Sua irmã não aguentaria toda a verdade, é um milagre ela não ter colapsado apenas com a informação de que você era o irmão dela.—A Diretora disse,atrás dela médicos suspiraram aliviados e voltaram para seus laboratórios. Seguranças abaixaram suas armas que estavam apontadas para o quarto da garota Merrick.

–-Tudo para mantê-la segura.

–-Tudo pela agência,514.—A Diretora corrigiu e saiu com seus seguranças atrás.

Dorian foi deixado no corredor com seus próprios pensamentos. Talvez a tortura não fosse tão ruim, pelo menos com ela não corria riscos de machucar aqueles que ele mais amava. Dorian achou que tinha se livrado daquelas distrações, sentimentos, mas nem com todos os tratamentos a Agência seria capaz de diminuir seu coração.

Ou talvez ele precisasse de mais tempo concentrado em uma missão que faria suas mãos pingarem mais sangue, que faria com que o som de balas perfurando pele substituíssem a voz interior que pedia para que ele fosse bom.

Ceder a agência parecia a opção mais rápida e menos dolorosa para ele.

Notas finais
Eu to de volta AMOREEEEES