Afrodite

1 Capítulo único


Notas iniciais
Divirta-se

Afrodite

Rabisco papéis e nada consigo dizer. O que não faz sentido, certo? Todo mundo tem algo para dizer, seja esse algo uma formiga ou uma garota como eu. Certo? Humm... Não. Completamente errado. Não sei o que dizer, então rabisco.

As palavras, às vezes, parecem encontrar uma forma misteriosa de sair, mesmo que para isso você tenha que ficar cerca de três horas rabiscando frases sem sentido, como essa que estou escrevendo agora. Ok. Lembro-me daquele velho mantra: respire. Então, respiro. Isso deveria ajudar, não acha? Quem nunca leu, na sala de espera do dentista, revistas que lhe dizem: Se tem um problema, respire! Nesse exato momento, isso me parece a maior idiotice que se poderia dizer a alguém.

É meio óbvio não? Se você não respirar, como vai viver? Quem escreve esses conselhos deveria seriamente usar o cérebro ao invés de falar baboseiras. Na verdade, pensando melhor, se não tivesse alguém para ler, eles não escreveriam. Logo... Eu sou a idiota para quem eles escrevem. Eu e tantos outros que esperam, com a boca aberta, a anestesia passar....
Foco Emma!

Tudo começou há exatos seis meses. Eu estava, como sempre, atrasada para a primeira aula. Não queria entrar... Ou melhor, a professora não me deixaria entrar, já que ela era a minha mãe. A grande Margareth, a melhor professora de todos os meses, de todos os anos. E que tem uma filha que não conseguia chegar no horário... E, por isso, era um péssimo exemplo a ser seguido....

O que eu estava dizendo? Ah sim! Então, eu estava lá, com meu corpo escorregando pela parede, no corredor vazio. Como um sanduíche de pasta de amendoim, que você joga e que gruda o bastante para que você respire, aliviada, mas logo em seguida desliza majestosamente pela parede. Deixando um rastro amarronzado no papel de parede branco.

Essa sou eu, a filha da professora! E foi exatamente por aproveitar essa fantástica e maravilhosa sensação de não ter aula que eu me ferrei! Se o pneu da minha bicicleta não tivesse estourado no meio do caminho, eu estaria naquela sala. Mas ei?! Sou uma Swan e estou destinada a me ferrar.

Emma! Venha já aqui. A diretora gritou logo em seguida, com seu costumeiro dedo erguido. Ela era a personificação daqueles filmes de colegiais. Acima do peso, baixinha, com o cabelo completamente bagunçado e uma saia cor de caqui, mas que, se você não obedecesse, acabaria limpando privadas por uma semana.

Como uma boa aluna, eu me levantei e fui até onde ela estava. Foi nessa hora que eu terminei de morrer. Ao seu lado, estava a personificação de Afrodite, aquela que todo mundo quer pegar, mas ninguém consegue. Sabe? Uma que vivia no Olimpo... Ou em algum lugar, em algum livro de mitologia. Esses detalhes não importam nesse momento.

Basta você saber que aquela garota era a Afrodite em pessoa. Como sempre, a minha diretora continuou falando e falando e falando, mas eu não tinha a menor ideia do que ela dizia naquele momento. Muito menos depois que Afrodite, sua encarnação nessa geração, sorriu para mim. Ah, se o maldito cupido existisse, ele teria disparado umas quinhentas flechas no meu peito, ou quase isso, mas eu juro que senti algo me tirando o ar e eu só queria abrir os braços e pedir por mais. Mais!!

Em algum momento, que agora me parece ter sido quando a diretora me encarou, eu percebi que ela não estava mais falando. Mais uma vez, a personificação de Afrodite sorriu e mexeu em seu maldito cabelo preto, capturando minha atenção no calabouço mais esquecido de todas as trevas. Os fios pareceram ser tão macios... Que eu, com certeza, dormiria com o rosto no meio deles. Os levaria para passear, para assistir um filme na sexta à noite.

Idiota não? Também acho, principalmente quando você diz isso à pessoa que está na sua frente. Em caixa alta e gemidos garrafais. Eu juro que quis ser o Papa-Léguas apenas para ser atingida por uma bigorna do Coiote e bum! Bum!Bum!! Desaparecer em um buraco no chão. Mas, infelizmente, não foi possível.

Como se os Deuses, em algum canto, de algum lugar, me ouvissem, o sinal tocou e lá se foi Afrodite, sendo guiada pela diretora que mais parecia a Mafalda. Sem a parte divertida e fofa, é claro. O que veio depois não importa. E sabe por quê? Porque aparentemente eu não aprendi com os meus erros. Tenho que escrever um maldito poema. Por que eu tenho que escrever, você deve estar se perguntando? Esse é outro detalhe em ser uma Swan: a sua mão ganha vida e você a vê indo em direção a uma catástrofe, internamente você grita: não faça isso!! E ainda assim você faz.

Eu acabei escrevendo o meu nome em uma lista, porque Afrodite fez o mesmo, alguns dias depois, quando eu cheguei mais uma vez atrasada. Sem querer e, definitivamente querendo, eu acabei entrando para o clube de leitura. Eu me senti como, naqueles filmes de ação, que o policial corre, pula, faz piruetas no ar e, no último momento, se ferra com uma bala no traseiro.

Graciosamente eu consegui ignorar essa bala vindo em minha direção por uma semana, maaaaaaas, ela se aproxima da minha nádega, eu posso sentir que, até amanhã, quando todos entregarem o poema para a professora e, claro, eu não, essa maldita bala vai macular o meu tecido adiposo.

Eu poderia tentar escrever? Poderia... mas eu não sou boa em leitura. Algo me distrai entre uma página e outra, às vezes, entre um parágrafo e outro, quando vejo, puft! Sendo honesta, eu mal consigo ler o cardápio para ligar para a pizzaria! Sempre escolho o mesmo sabor: quatro queijos, com queijo extra.

Preciso dormir. Preciso ter o meu melhor sorriso, quando entrar naquela sala. Vou ignorar o olhar daquela deusa, sim, o de Afrodite, que se chama Regina, a minha Afrodite... Enfim, eu vou ignorá-la! Ela e o seu cabelo sedoso, como a melhor meia que eu possa desejar no inverno.

Sentarei longe dela! Não posso sentir o seu cheiro. Aquele aroma que vai entrando pelo meu nariz e me guia ao paraíso... Não! Ninguém normal se senta atrás de outra pessoa para ficar sentindo o seu cheiro! O que eu sou? A psicopata do condicionador? Uma cheiradora em série?

Ela deve achar que sou louca! Com toda certeza! E eu não tiraria a razão dela se pensasse isso. Motivos definitivamente não faltaram. De qualquer forma, é hora de dar tchau, morfar ou apenas tentar dormir. Qualquer uma das três opções serve nesse momento.


[***]

E... Aqui estou eu! É! Bem... Eu definitivamente sou como uma chocólatra, só que, no meu caso, uma cheirólatra? Será que existe algum grupo de apoio para isso? Quer dizer, eu não devo ser a única a sofrer disso. Eu tive que expulsar o Wilson dá cadeira, praticamente ameaçando a sua condição física, apenas para sentar atrás dela, antes que ela chegasse.

Atenção, atenção: a filha da professora é oficialmente, a insana do ano! Daria uma boa nota de rodapé no anuário da escola. Ou, quem sabe: Garoto é encontrado com as pernas quebradas, motivo:Emma Swan, a maluca dos corredores do Colégio Storybrookl! É. Qualquer uma delas se encaixaria. Como um animal selvagem à espreita, meus olhos só buscam a maldita porta e.... Rufem os tambores... Lá vem ela. Com o seu caderno na cintura, um par de óculos que, em qualquer um poderia ser feio, mas que nela é a coroa de Cristo, adornando seu rosto sedoso.

Eu acho que a minha boca está aberta nesse exato momento. Merda!Olhe para a janela, sua idiota! Minha mente diz e eu imediatamente obedeço. Droga!Eu posso ver o seu reflexo. Mas... Mas ela não pode ver que você a vê! Meu inconsciente é um gênio! Por que eu não pensei nisso antes? Bato na testa, porque eu mereço.

— Emma – escuto alguém me chamar, mas me recuso a olhar. Não quero perder de vista o seu perfil pela janela da sala – Emma! – novamente a voz tenta me testar, só que eu me mantenho firme. Não olharei – Emma Swan! – droga!. Eu acho que chegou a minha vez. É! Lá vem a bala no meu traseiro. Uhu!!

— Sim professora – respondo com um sorriso. Todos na sala estão me olhando. – Você fez o que eu pedi? – lá vem à pergunta, sem qualquer introdução. Aquela para a qual você ensaia várias respostas, mas, no exato momento em que ela acontece, você escolhe a pior de todas as alternativas. Sua boca apenas se move mais rápido que o seu cérebro.

— Sim – Pronto! Estou, oficialmente, decretando o fim dos meus fundilhos! Palmas para a mim. Enquanto caminho até a frente da sala, que nesse momento poderia ser considerada a minha sepultura, posso facilmente ver as pessoas me aplaudindo. Até o Wilson, que deve me achar uma psicopata, está sorrindo. Ah, Wilson! Você merece mais que uma bola furada...

— Quando quiser – incentivou a professora, enquanto eu me sinto a tragédia grega em pessoa, prestes a viver uma epopeia.
Olho para o papel a minha frente, que óbvio, não tem nada escrito e me pergunto: quando foi que peguei esse papel? Ah sim! Eu simplesmente não sei! Porque o meu cérebro deu defeito e eu respondi sim, quando claramente a resposta deveria ser não! Uhuuuuu!! Lá vem a pólvora!!

Eu tento não me apavorar com os olhos a minha frente, especialmente os do Wilson, que parece se divertir sadicamente com a minha derrocada. Posso vê-lo tirando daquela mochila ensebada um pacote de confetes para jogar quando eu me estrepar. Ah... Wilson, Wilson, Papai Noel não irá te visitar no Natal. Bad Boy!

— Emma... – lá vem a voz da professora me incomodar. Será que ela não poderia me deixar em paz? Respiro fundo e olho para a folha de papel em branco.

Minha mente está como ela. Limpa, completamente limpa, como bunda de neném quando a mãe termina de limpar. Uma belezura!! Se passar um paninho, até brilha no escuro. Ergo a cabeça e busco algum ponto de apoio no fundo da sala. Não! Ela está na minha frente! Janela, janela, janela! Minha mente grita. E, dessa vez, eu a atendo. Ok. Um poema, qualquer coisa, mesmo que seja uma idiotice completa, é o bastante. Fecho os olhos e torço para algo acontecer. E, sabe o que é estranho? Acontece!

“Para viver em estado de poesia, me entranharia nestes sertões de você. Para me esquecer da vida que eu vivia, de cigana antes de te conhecer, de enganos livres que eu tinha porque queria, por não saber que mais dia menos dia, eu todo me encantaria pelo todo do seu ser. Para misturar meia noite meio dia e enfim saber que cantaria a cantoria, que há tanto tempo queria, a canção do bem querer. É belo vês o amor sem anestesia. Dói de bom. Arde de doce. Queima e acalma. Mata e cria. Chega tem vez que a pessoa que enamora se pega e chora, do que ontem mesmo ria. Chega tem hora que ri de dentro para fora. Não fica nem vai embora. É o estado de poesia.”

Quando volto a abrir os olhos, está todo mundo me olhando assustado. Não posso culpá-los. Eu mesma estou profundamente assustada. De onde tirei isso?! Sério! Existe algum espírito dentro de mim e eu acabei de descobri-lo? Desperto dessa recém crise e vejo Wilson aplaudir. Nada de confetes Wilson!Toma essa!! Você pode guardar o seu sorriso idiota, porque eu consegui. Ainda não sei como, mas consegui.

— Muito bem – a professora me dá um tapinha no ombro e posso ver em seus olhos. Ela também não esperava por isso. O que, cá para nós, não discordo. Sento-me em minha cadeira e não tenho coragem de olhar para Afrodite. Apenas escondo meu rosto nos braços e me protejo de tudo ao redor. Quase tudo, devo ressaltar.

— Regina Mills – a professora chama. A mesa de repente parece ter recebido alguma descarga elétrica. Ergo a cabeça e estou prontamente em sentido, como um soldado pronto para a guerra. Lá vai ela. Essa garota não anda, ela flutua pela sala. Como se disse a todos ao seu redor: Se afaste! Não me toque! Não olhe! Ela sussurrou algo para a professora. Deus! Como eu queria ser aquele ouvido! Nunca imaginei sentir inveja de um tímpano! O que ela está dizendo? Será que, junto com o poder de falar coisas profundas, não poderia adquirir o de ouvido biônico? Poderia ter vindo o combo.

— Tudo bem – diz a professora e eu me pergunto: Tudo bem por quê? Ela não responde. Acho que as pessoas não deveriam falar coisas pela metade.

Regina volta a sentar se a minha frente e um novo idiota assume a ponta da sala e eu volto para o meu universo. Deito minha cabeça entre os braços e suspiro. Por que mesmo estou aqui? Jesus! Como pessoas idiotas se apaixonam? Ou seria o contrário? Você fica idiota ao se apaixonar? Algo interrompe a minha epifania. Um pedaço de papel foi, praticamente, jogado na minha cabeça.

Ergo a cabeça já pronta para aniquilar quem ousou me incomodar. Percorro com os olhos cada rosto duvidoso na sala, mas acabo desistindo. Acho que foi ela quem me mandou. Abro o papel como uma jogadora de pôquer premiada. Um pedacinho de cada vez, que é para não revelar nada para os outros.

Foi bonito o que escreveu” é o que está escrito no bilhete.

O chão se mexe embaixo dos meus pés. Eu tenho certeza de que um terremoto está acontecendo. Sinto algo percorrendo pelo meu sangue, que ganhava vida ao atingir a ponta dos meus dedos. Preciso de uma caneta. Reviro minha mochila e descubro que não tenho nenhuma.

Droga. Quem não usa uma caneta? Eu. É claro! Olho novamente para o lado, mas todos estão atentos ao que o seboso de Jack recita, com sua voz de ganso fanho. Ele deveria chupar uma pastilha de gengibre todos os dias pela manhã, atrapalhar não vai. Foco, Emma! Minha Deusa estica os braços e me entrega uma caneta. Pego a caneta, acanhada, e amaldiçoo o fato de não ter uma. Olho para o papel e penso: O que escrever? Um obrigado seria idiota demais. Já sei.! Escrevo mais rápido que meus olhos conseguem captar e lhe entrego o papel.

Vejo, pelo reflexo na janela, que ela está lendo e... seu semblante se fecha. Droga! Por que eu fui perguntar aquilo? Por que não escreveu um poema? Sério, Emma? Isso é o melhor que você pode fazer? Escuto uma vozinha zombeteira me dizer: por quê? Por quê? Como se eu precisasse de uma segunda versão da minha voz, ressaltando as burrices que a primeira diz. Ela rasga uma folha de caderno e, de repente, joga o papel na minha mesa.

Se eu estava em dúvidas antes, agora tenho certeza de que fiz merda! Ninguém precisa de uma folha inteira de papel para dizer algo bom, certo? A raiva geralmente exige mais do que a alegria... Bem, ela me mandou, não é mesmo? Então, tenho que ler... Será que ela quer que eu leia mesmo? Ou quer esfregar na minha cara que ela não é uma péssima aluna, apenas escolheu não ler?

Ainda em dúvida, pego o papel e arrisco.

"Um pequenino grão de areia era um eterno sonhador. Olhando o céu viu uma estrela. Imaginou coisas de amor. Passaram anos, muitos anos. Ela no céu e ele no mar. Dizem que nunca o pobrezinho pôde com ela encontrar. Se houve ou se não houve alguma coisa entre eles dois, ninguém pôde até hoje afirmar. O fato é que depois, muitos depois, apareceu, a estrela do mar!"

De onde saiu essa garota? Diga? Até a folha do seu caderno parece cheirar a canela. Lá vem o terremoto no meu estômago, que parece gostar particularmente de colocar em xeque meu equilíbrio interior. E, dessa vez, ele trouxe companhia. Por que meu coração está batendo assim? Se eu fechar os olhos e tampar os ouvidos juro que posso ouvir a música de fundo de algum filme. Aqueles que ficam TAM, TAM, TAM,tammmm tammm!O de terror! Não de Star Wars, que fique claro.

O sinal toca e eu saio correndo da sala. Minhas pernas parecem travar uma briga entre quem corre mais. A direita ou a esquerda. Mais uma vez, minha segunda voz grita: Run Emma! Run!


[***]

Aqui estou eu, novamente sentada atrás dela. Há dois dias ela nem me olha. Só puxa a sua cadeira e se senta. O sinal toca, ela se levanta e desaparece na sua nuvem lilás com anjos que tocam atrás. Mentira! Ela apenas sai pelo corredor. Mas eu juro, de juramento de dedinho, que é assim que eu a vejo passando pela porta.

Não importa. Vim preparada. Você ficaria surpreso ao saber o quão útil uma biblioteca pode ser. Sem pensar muito, eu escorrego pela cadeira e jogo um envelope na sua mochila. Sinto-me a 007 na operação: não seja idiota. É claro que ele geralmente pega um ladrão ou mafioso, mas bem... Eu me contento se ela parar de me odiar. Isso vale mais do que qualquer diamante e, afinal, no final do filme, ele sempre salva a mocinha, certo? Não estamos assim tão longe um do outro.


[***]

Não sei dizer se ela leu o meu bilhete. Faz uma semana que ela continua fingindo que não existo. Se houvesse um prêmio de idiota do mês eu deveria recebê-lo pelo resto da minha vida. Com direito a minha foto no quadro. Como sempre, não tenho a menor ideia do que a professora está falando. Com certeza deve ser interessante, pois todos prestam atenção. É óbvio que prestam! Eles se inscreveram porque gostam de literatura! A vozinha zombeteira diz. Balanço a cabeça em sinal de concordância. Não dá para discutir com um argumento desses.

Pego a minha mochila e saio da sala com desânimo. Hoje não quero ver anjos e fumaça. Contento-me em apenas apreciar o meu fracasso interior, comendo uma torta de maça. Entrego o dinheiro para a Ruby e escolho a mesa mais afastada de todas. Porque se é para sofrer, sofreremos com dignidade. Ninguém precisa ver três mini tortas de maça sendo devoradas, não é mesmo?

Deslizo a mão pela mochila à procura do melhor remédio: música. Sinto algo cortar o meu dedo e puxo com força a folha de papel, que provavelmente é algum dever de casa. Eu me enganei. É dela. Ou melhor... É DELA! Ok. Respire. Apenas respire Emma. 1,2,3... 1,2,3. Chega de respirar! Rasgo o envelope e devoro o que está escrito.

“Nesse universo todo de brilho e bolhas, muitos beijinhos, muitas rolhas. Disparadas nos pescoços das Chandon. Não cabe um terço de meu berço de menino. Você se chama grã-fino e eu afino. Tanto quanto desafino do seu tom. Pois francamente amor, meu ambiente é o que se instaura de repente. Onde quer que chegue, só por eu chegar. Como pessoa soberana nesse mundo, eu vou fundo na existência. E para nossa convivência você também tem que saber se inventar. Pois todo toque do que você faz e diz. Só faz fazer de Nova Iorque algo assim como Paris. Enquanto eu invento e desinvento moda, minha roupa, minha roda. Brinco entre o que deve e o que não deve ser. E pulo sobre as bolhas do champanhe que você bebe. E bailo pelo alto de sua montanha de neve. Eu sou primeiro, eu sou mais leve, eu sou mais eu! Do mesmo modo como é verdadeiro o diamante que você me deu.”

P.s : Não é porque você escreve que tudo deve ser lido. Algumas coisas apenas devem ser guardadas.

Chamem a ambulância! Chamem porque aqui jaz um corpo. Apenas uma casca que bate, respira, tem cara de gente, mas, nesse exato momento, está ausente. Leio e releio apenas para ter certeza do que li na primeira vez. Afrodite tem um jeito de Ares, mas é tão bela quanto à flor mais cheia de espinhos que eu possa imaginar. O que nesse exato momento se resume em uma rosa. Clichê, eu sei! Ainda estou trabalhando na parte romântica.

O que importa disso tudo é que finalmente ela falou comigo. Está certo que eu senti algo por trás das linhas, como se me dissesse: Cale a boca garota! Mas eu não me importo. Eu passaria o resto dos meus dias calada, se pudesse ouvir a sua voz.


[***]

Passei horas na biblioteca revirando grande quantidade de livros. Desconfio que Ruby vai me detestar por longos meses, já que ela está de castigo e ficou destinada a guardar os livros usados pelos alunos. Mas ei? Amigos são para isso! Compartilhar a loucura alheia.
Assim que ela se senta eu deslizo o papel e sinto a puxá-lo. Deus! Ela Quase tocou o meu dedo. Rufem os tambores porque hoje Emma Swan está arrasando! Chupa essa Wilson!

Como em câmera lenta, eu escuto a folha sendo desdobrada e o som do ar entrando por seus lindos, perfeitos e magníficos lábios. Qual será o gosto? Eu aposto que é melhor do que uma torta de maça. O que para mim é o melhor sabor de todo o universo, ou, mais além, universo e seus buracos negros.

Inclino o corpo e a escuto ler cada linha como se sussurrasse.


“De que serve viver tantos anos sem amor. Se viver é juntar desenganos de amor? Se eu morresse amanhã de manhã, não faria falta a ninguém. Eu seria um enterro qualquer. Sem saudade, sem luto também. Ninguém telefona, ninguém. Ninguém me procura, ninguém. Eu grito e um eco responde: “ninguém!” Se eu morresse amanhã de manhã, minha falta ninguém sentiria. Do que eu fui, do que eu fiz ninguém se lembraria. “

P.s: Não é injusto guardar a melhor parte de si?

Ela sorriu. Fogos! Fogos de artifícios estouram dentro de mim. Milhões, zilhões, trilhões de fogos estourando com o som de seu sorriso. Como o ar consegue passar por aqueles lábios e sair de forma tão suave?


[***]

Eu não estou me aguentando. Faltam exatos cinco minutos para a aula acabar e ainda não recebi nenhuma resposta. O que será que fiz dessa vez? Ela riu, eu sei que riu quando leu a minha resposta. Só rimos daquilo que gostamos. O que me diz que ela gosta de mim... Ou... Bem... No momento não consigo pensar na outra possibilidade.

A aula termina e me arrasto como um zumbi para o meu armário. Deixo meu ombro bater no dos outros sem me importar com as consequências. Eles que se danem! Coração partido tem prioridade em cima de qualquer outro problema. Olho para o lado e me preparo para colocar o último prego em meu caixão. Os seus olhos. Seu armário fica a 10 armários a minha direita, ou sete passos... Ou três se eu sair pulando como um canguru. Como eu sei? Preciso mesmo dizer?

05 – 07 – 21 – 38 giro o maldito cadeado que parece zombar de mim. E bum! Eu volto a olhar para o lado, mas ela não está mais ali. Olho para o armário e suspiro. Ah o amor! Esse pestinha que gosta de nos enganar. Esfregar nossa cara em um muro de concreto para depois assoprar.

Ela comprou uma torta! Como? É o que penso logo após sentir meu estômago roncar. Como ela conseguiu colocar essa torta aqui? Se ela abriu o meu armário... O merda! Vasculho por entre a minha bagunça e vejo os livros que peguei emprestado na biblioteca.

O que ela vai pensar agora? Provavelmente que sou uma garota comum. O que na realidade eu sou, mas, às vezes, é bom manter a fantasia. Ok, Emma. É hora de ser madura e fazer o que os adultos fazem. Que seria? Procurar o seu ponto de consolo quando a vida é uma droga! Sento-me no chão, abro o potinho da torta de maça e começo a ler o que ela me escreveu.


“Quando ele chegou, o estranho rapaz, seu olhar estrangeiro olhou para mim. Em nunca tinha ouvido a fala do amor, o frio e o calor. Eu logo entendi que quando o rapaz, seu olho estrangeiro olhou para mim, seu olhar estrangeiro falava uma língua que eu logo entendi. Senti no meu corpo uma coisa tão louca, que eu nunca senti. Ele olha minha boca, ele olha meu corpo, ele olhava em meu seio, olhava no meio, bem dentro de mim. No princípio o perigo, depois eu olhava eu olhava, não tinha receio. Desejava queria no precipício, abrir minhas asas, desvendar o segredo. Seu olhar penetrante invadia ofegante dentro de mim. Rasgava o meu ventre o meu corpo inteiro, me vendo por fora, me vendo por dentro, do princípio ao fim. Depois me olhou, me olhou, me olhou de baixo para cima, em cima, embaixo, dentro de mim. Me queimando, queimando. O céu, o inferno, o paraíso e assim. Onde passou tão pouco deixo, só um rastro de fogo queimando em silêncio. O incêndio do amor.”

P.s : Sempre te vejo comendo uma =)

Corpo, pare de ter vida própria. Aqui não é o melhor lugar para você se remexer, ok? Tem gente passando pelo corredor. Pernas, relaxem e parem de se apertarem. Eu só preciso respirar. E encontrar uma forma da minha respiração regularizar. Não... Não está funcionando. Droga! Partiu casa! Agora!

[***]

Eu estou usando perfume! Até penteei o cabelo. Estou usando a minha melhor calça jeans. O que o amor não faz, não é mesmo? Eu, alguém que já levanta pronta para ir à escola, acordei antes do sol nascer! É capaz de a minha mãe me ver no corredor e achar que sou outra pessoa.

Se bem que eu esbarrei com ela e ela não me deu nem oi. Terei que ter uma seria conversa com a senhorita Margareth e a sua incapacidade de me reconhecer. Som. Escuto vozes. Preciso chegar ao corredor 4 C.

Ela sempre fica ali por horas. Ruby me garantiu que ela chegaria daqui a pouco e iria para essa mesa. Então, o meu plano é simples: sentar e esperar por ela. Estamos na biblioteca e esse é o melhor ambiente que posso imaginar. Completamente neutro. Não dá nem para conversar!

Eu apenas quero vê-la, ver como irá reagir quando receber o meu presente. É justo. Eu sonho com a sua voz. Acordo e escuto ela dizer: Regina... Regina. Com a voz tão sexy! Oh céus, estou babando como um cão! Boca fechada e tudo dará certo.

Passo a mão sobre a mesa para garantir que ela esteja limpa. Não quero que suje seu agasalho com algum farelo, que um idiota sempre deixa. Está limpa. Próximo passo. Retiro a carta e confiro se a rosa está intacta. Por sorte, está. Não foi uma ideia tão ruim guardá-la na mochila.

Coloco a rosa em cima do envelope e fico olhando. Olhando... Olhando... O que estou pensando? Não posso falar com ela! Eu, com certeza, direi algo idiota! Preciso sair daqui antes que ela chegue. Saio o mais rápido e começo a correr pelo corredor. Merda! Ela já está aqui. Não tem como sair sem passar por ela. Pense. Pense Emma! Já sei!

Deito-me no chão e empurro todos os livros da primeira fileira. Agradeço o fato de ser magra. Passo com facilidade para a fileira ao lado. Quando vejo seus pés virando a curva, eu coloco o último livro. Essa foi por pouco. Muito, muito pouco.

Ela se sentou! E agora? Levanto ou tento sair? Mas e se ela me ver? É melhor ficar. Ninguém vem à biblioteca por causa de um horário vago mesmo! Estou segura. Sua voz... Ah sua voz... Queima! Arde! Inflama em mim.


“Se a gente não sabe se ama. Se a gente não sabe se quer. Não vai saciar essa chama, se não decifrar o que é. Se algo entre nós se insinua e doce tontura nos traz, o que delícia tortura e não dá descanso nem paz. É que o amor não se dissolve assim. Sem dor, se não for até o fim. Se a gente não sabe se ama, e não se decide que quer, a dúvida não desinflama, enquanto a gente não se der. Se algo entre nós se insinua e não se disfarça sequer. Não dá pra deixar pra outro dia, de outra semana qualquer. É que o amor não se dissolve assim. Sem dor, se não até o fim”.

— Emma! – Oh não. Não! Nãooo! Viro a cabeça e olho meu pior pesadelo.

— Ei – digo com cada parte do meu corpo morrendo de vergonha. Ela não me reconhece no corredor, mas me reconhece na biblioteca? Sério, mãe! Qual é a sua lógica? No único lugar que em quinze anos eu não pisei, a minha amada mãe não apenas me reconhece, como grita o meu nome.

— O que está fazendo aqui? – Se eu pudesse, jogava o manual de mecânica que está ao meu lado na sua cabeça.

— Eu acho que você está me confundindo – sussurro bem baixinho, tentando diminuir a vergonha que estou sentindo nesse exato momento.

— Emma! – diz com a sua voz estridente. Eu já sei o meu nome! Precisa ficar gritando-o? Sério!

— Precisamos conversar – Eu passo por ela com a cabeça baixa, procurando a minha dignidade, que se perdeu em algum ponto daquele chão – Você está usando o perfume do seu pai?

Se existe algum meteoro que esteja a fim de cair, venha! Venha e se esbanje.

[***]

Não quero viver! Não quero ir à aula. Não quero respirar! Não há motivos para isso. Por que a vida é tão injusta dessa forma? Por que uma garota de quinze anos não pode escolher seu próprio caminho? Não quero ver a minha Afrodite e saber que jamais a verei novamente.

Soco o travesseiro querendo socar a vida. Quem é o retardado que escreve o destino das pessoas? Aposto que é alguém mal amado, que detesta finais felizes.

[***]

Esse é meu último dia na escola. Agora entendo o que as pessoas dizem: só reconhecemos algo bom quando perdemos. Justo quando estudar se tornou interessante, isso foi roubado de mim? Minha mãe deveria ficar feliz. Não falto mais as aulas. Até a biblioteca eu frequento. O que mais ela quer?

Não quero ver ninguém! Se eu vê-la, vou cair no chão e nunca mais me levantar. Minhas pernas tremem. Ela está tão linda. Está sentada em baixo da árvore e, para variar, cercada de livros. Eu amo quando está com o seu cabelo assim. O vento bate e mexe os fios para lá e para cá, graciosamente. Queria poder tocá-la. Abraça-la. Sentir a sua respiração. Pego a minha mochila e dou meia volta. Shakespeare estava certo: o amor é uma droga! Mas é a droga mais linda que já vi.

Corro para a sala e coloco o último envelope em sua mesa. Dessa vez, não me sentarei mais atrás dela. Não verei seus dedos deslizarem pela nuca, quando o vento a fizer arrepiar. Sem adeus! Não posso dizer adeus para alguém que nunca
vai partir.

[***]

É engraçado como o tempo leva algumas coisas, mas deixa sempre as melhores. Estou parada na porta da minha antiga escola. Morei em tantas outras cidades desde os meus quinze anos. Conheci Londres, Paris, Holanda. Tantas paisagens diferentes, tantas pessoas e acabo logo aqui. No lugar de onde saí. Onde deixei um coração sobre a mesa da sala 107. A carteira mais ao fundo, onde o professor não me veria dormir.

Caminho em estado nostálgico. Minhas pernas reconhecem o lugar. Os corredores. O que leva até a lanchonete e sempre estava cheio na hora do intervalo. O corredor dos nerds, onde tudo estava sempre limpo. Acho que era a única lixeira do prédio que vivia cheia. Aperto com mais força o copo de café que trago nas mãos e me deixo guiar. Ainda tenho tempo até me apresentar para o diretor. Outra grande piada daquele que escreve o destino. Eu. A garota que detestava estudar, é a nova professora de literatura do Colégio de Storybrook.

Se alguém me visse, provavelmente não acreditaria. Sento-me na primeira mesa que encontro e começo a analisar os documentos. Retiro minhas anotações e o esboço que fiz para apresentar à diretora, que não é mais a Mafalda. O cargo, hoje, é ocupado por uma mulher bonita. Uma velha amiga da minha mãe.

A sensação permanece. Sabe aquela coisa familiar? Seus olhos parecem encontrar velhos caminhos, que até mesmo você não recordava mais. Alguns alunos transitam pelo pátio e tento me concentrar no meu próximo encontro. Então... Emma, foque!

— Emma? – escuto alguém me chamar. Ergo o olhar e bum! Paraliso – Ei – ela diz com a cabeça inclinada. Não consigo acreditar no que meus olhos veem. Ela. Afrodite. A deusa do meu Olimpo – Se lembra de mim? – pergunta e, então, percebo que estou a olhando em silêncio.

— Ei – digo, com muita dificuldade. Ela sorri. Droga! Ela não devia sorrir, se espera que eu seja coerente. Ela me olha... Olha... Olha e eu finalmente entendo – Sente – ofereço, totalmente fora dos eixos.

Não sei o que dizer. Ela está tão diferente, tão perfeitamente diferente do que eu me lembrava. Coloca sua bolsa na cadeira ao lado e não acredito no que vejo. Ela percebe o meu olhar e sorri acanhada.

— Sempre gostei dele – justifica, olhando para um anel vermelho. O anel que eu deixei com a minha última carta. Aquela que não pude ficar para ouvir.

— As pessoas devem pensar que você é louca – comento. O anel é de plástico, daqueles que você encontra como surpresa em um pacote de doritos. Ela volta a olhá-lo, preso em seu chaveiro e sorri.

— Eu já peguei uma juíza me encarando – comenta com as sobrancelhas contraídas.

Como consegue ser assim? Penso embasbacada. Não sei o que dizer. Meus neurônios se chocam como um grupo de bêbados, em busca de um poste para encostar. Ela olha para o celular e eu percebo que algo lhe chama.

— Foi um prazer revê-la – ela está levantando e não quero que ela se vá.

Como a idiota que sou, eu apenas aceno com um sorriso de lado. Droga. Nunca aprendo?! Ela está indo e a nuvem lilás a guia. Os anjos... Aqueles que me abandonaram quando parti. Com seus sininhos idiotas, balançando de um lado para o outro, brincando com as batidas do meu coração.

— Regina! – grito, sem querer. Ela para assustada, e vira o corpo para o meu lado. Olha... Olha... Olha para mim e eu tento não entrar em pânico. Aponto para o chaveiro em sua mão direita e ela olha para o anel. Droga. Onde estão as palavras?

— Por que eu guardei? — pergunta e eu confirmo com a cabeça. Minha voz está em algum lugar brincando de esconde esconde. Ela volta para perto da mesa e sorri – Achei que deveria. – A olho sem entender. Ela, então, declama o que escrevi a ela, quando parti:

“Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com uma carta na mão, ante surpresa tão rude nem sei como pude chegar ao portão. Lendo o envelope bonito, o seu sobrescrito reconheci. A mesma caligrafia que me disse um dia “Estou farto de ti”. Porém não tive coragem de abrir a mensagem, porque na incerteza, eu meditava e dizia: “será de alegria, será de tristeza?” Quanta verdade tristonha ou mentira risonha uma carta nos traz. E assim pensando, rasguei sua carta e queimei para não sofrer mais".

Ela lembra!

— Todas as cartas de amor são ridículas – digo. Minha memória me guia por escritos gravados em mim:

“Não seriam cartas de amor, se não fossem ridículas. Também escrevi, no meu tempo, cartas de amor como as outras, ridículas! As cartas de amor, se há amor, tem de ser ridículas. Quem me dera o tempo em que eu escrevia, sem dar por isso,
cartas de amor ridículas. Afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas...”

Meu corpo estremece e me perco na curva de seus lábios arqueados. Ela continua de onde parei:


“Quando a mim, o amor passou. Eu só lhe peço que não faça como gente vulgar e não me volte à cara quando passa por si. Nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor, fiquemos um perante o outro. Como dois conhecidos desde a infância. Que se amaram um pouco, quando meninos. Embora na vida adulta sigam outras afeições, conservamos, escaninho da alma, a memória de amor antigo. E inútil".

— Gosto do tom de sua voz. — confidencia. — Achei que deveria seguir o seu pedido. Manter uma recordação sem rancor, à espera de você retornar – balança os braços de forma envergonhada e eu não consigo deixar de sorrir – Afinal, todos que amaram algum dia escreveram cartas idiotas.

Sorrimos. Mesmo sabendo que a diretora me espera, não consigo me mover. De repente as pernas que tanto me levaram para longe dela, aquietam-se e encontram refúgio ali. Apenas pardas, imóveis, mortas, e completamente vivas. Eu não me importo com tudo que vivi, pois pouco importa com ela ali, na minha frente, com seu cabelo sedoso e seus lábios infinitos. Aqueles mesmos que me peguei sonhando um dia beijar.

Talvez essa seja a beleza de não ter controle sobre o seu destino. Porque ele lhe joga de um lado para o outro, sacode, manipula você como a um fantoche. Ora lágrimas, ora sorrisos. Ora amor, ora ódio. Porém, quando ele, enfim se cansa, te põe para dançar a última valsa, a mais esperada de todo o teatro, você entende seus planos. Sabe o que é estranho? Depois de tantas mexidas, de reviravoltas, apenas essa última dança parece importar.

— Você quer tomar um café? – pergunto para Afrodite. Ela olha para o celular e pensa. Como uma dama, que recua frente ao convite incerto. Examina meus olhos à procura de algo e sorri.

— Você não tem para onde ir?

— Não. Estou exatamente onde devo estar. Bem aqui!

Notas finais
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