Aeon
1 Prólogo: Nébula
Eu recomecei minha vida por linhas turvas, tortas, exasperadas em meio à lama, ao pântano sem fim.
Califórnia.
Meu cabelo era a única coisa que parecia ter absorvido um pouco de luz, mas não totalmente, castanho acaju, em contraste com a minha pele, branca e amarga, incapaz de absorver qualquer onda de calor.
A dor.
O sol, como pode ser tão vívido em sua perfeição nefasta, totalmente cálida e intrigante.
Minha alma vazia absorta em dor, vivendo de culpa, alimentando-se dos medos mais profundos. Carrego um grande peso em minhas costas. Autossuficiente, eu? Pensamentos benignos. Vivendo às estradas, de Los Angeles à Vegas, amante dos jogos, errante no amor. Vermelho berrante aos lábios. Embriago-me ao pôr-do-sol, em sua perfeição formal, cheia de vida.
Acendo um cigarro à sombra de um canapé, a noite chega enfim.
– Não estás sendo modesta? – Diz o sádico;
– Este é o meu preço se quer pague.
O charuto mentolado cai-lhe ao chão, pisa-o com repugna;
– Não irá mesmo denunciar-me?!
– Acredita que o faria?
– És mesmo esperta.
O papel de parede descascado, os abajures destacando o carpete desgastado. Ato consumado cheio de dor, mágoas.
A pequena ovelha, a matilha de lobos.
O pequeno peixe, os tubarões.
Um ciclo vicioso, corrupção e amores perdidos. Olho para o teto, puro linho vermelho real, coberto por traças.
– Grita! – Ordena o sádico; – Apenas o faça.
As sombras visitam-me. É chegada a hora? Simplesmente leve-me Ela me cobre como um recém-nascido aninhado.
Vestida púrpura me carrega, a paz. Lavanda, ciano e todos os nuances. As cortinas reverenciam, abrem-lhe passagem.
Recorda-me ao vinho seco da noite passada.
Desperto à cama, plumas ao ar estáticas na gravidade surreal.
– Ainda aqui pequena?
Perguntam-me isso quase que frequentemente, todos os dias quando acordo aos braços de um estranho sádico, preenchendo-se da pior dor.
– Sim Marta, é assim que é.
Escassas roupas ao chão, apanha-as.
– Quer que te pague um café?
– És sempre tão doce, Marta.
Cor de ébano da cabeça aos pés, a camareira do Blue Skyes, o ser humano mais repleto de doçura e compreensão, prometo um dia fazer-te jus.
– Contudo nunca aceita meus pedidos.
Fazia-os sempre as sextas.
Andava despreocupada pelos subúrbios, a vista parece inigualável. Um policial deflagra dois larápios às cotoveladas.
Sento-me ao degrau.
Solitário pássaro de asas abertas, mal pode voar.
Vejo-me sombreada por uma espécie de monumento humano estagnado com aparente euforia. Logo após noto tratar-se de uma anciã. Mãos cravadas ao cenho.
– O que fazes aqui jovem moça?
– Ao que se deve o interesse?
– Estou aqui para leva-la. – O sol encandeava a face turva de uma múmia, sessenta e poucos anos na bagagem;
– Serei obrigada a não assentir.
– És tão indolente.
– És tão passiva. – Balbucio em deboche;
Não olhe pra trás, não tens vinte e poucos afinal.
– Não passa de uma órfã estupidamente mal educada. Levem-na! – Retruca;
Dois homens compridos vacilam em levantar-me aos braços, com muita dificuldade resisto e então me esmagam as costelas com estupenda força.
Amaldiçoei o sol, a lua, as estrelas, a criação estúpida e sem sentido.
A secura cortando-me a garganta espalha-se como um narcótico por toda a extensão sanguínea.
– Aonde me levas? – murmuro baixinho em um cicio cortante;
– Foste delatada.
– Tenho documentos, dezoito anos ao certo.
– Faz-me rir, ao menos tem dezessete completos.
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