Adão e Eva, numa galáxia distante
12 Cap.12. A guerra nuclear
Notas iniciais
Quando os Espiões entraram na enorme nave em forma de aranha, encontraram um festão de confraternização onde 100.000 homens e mulheres de quatro Mundos Superiores falavam como papagaios, todos ao mesmo tempo, em línguas diferentes. Entre eles, perambulavam robôs educados, carregando pratos com petiscos e havia os que serviam cerveja em copos de cristais.
Nestor recebeu os Espiões rindo sem parar, pois eram homens baixinhos que nem ele. Depois, convidou Caim e os Comandantes de todos os combatentes para uma reunião de cúpula na Base Lunar, do “Mundo de V”. Viajaram na nave preta dos Espiões.
Em poucos minutos alcançaram a Lua, onde a atmosfera não existia, e onde os pés dos homens ficavam marcados no chão para sempre. Uma plataforma subterrânea subiu até a superfície e abriu uma entrada dourada. A nave pousou e desceu por um túnel colorido. Finalmente, caminharam por um corredor que os condicionava à vida lunar e adentraram num edifício verde. Todos os Espiões os receberam com solenidade, e os acompanharam para uma sala grande, com mesa para reuniões, para escutar o último relatório vindo daquele mundo em guerra.
E a descrição dessa guerra, através de vários documentários realizados nos anos em que estiveram em “V”, foi terrível. Os Espiões incluíram as fitas gravadas por Carlão e Joana, que percorreram o mundo de ponta a ponta registrando detalhes importantes. E para finalizar, mostraram o dia em que Carlão foi massacrado em meio do turbilhão.
Ana presenciou a morte de sua irmã, com toda sua crueldade, e Nestor viu Carlão chorando como um guri e tremendo como cão com frio. Em seguida, viu-se a morte e perseguição dos Ecologistas, que morreram fuzilados um a um até não sobrar nenhum. Logo, a morte e fuzilamento das mulheres que reclamavam pelos seus direitos de igualdade, o assassinato de revolucionários que tentaram derrubar os governos mais fascistas de “V”, e finalmente as bombas e seus efeitos. O Comandante de “I”, com sua esposa sentada no colo, ficaram pasmos quando viram os mais belos castelos, mansões, edifícios arranha-céus altíssimos, magníficos, verdadeiras obras artísticas da arquitetura universal, todas intactas, em cidades onde não havia um ser humano vivo, pois nem as baratas haviam sobrevivido às bombas bacteriológicas.
Longe das urbes infectadas de venenos, os sobreviventes encontravam-se acampados em barracas de plástico, na beira de rios, comiam o que os Espiões deixavam cair do céu, e havia os mais corajosos que voltavam às cidades para buscar enlatados de supermercados vazios. Infelizmente, com a contaminação ambiental estavam todos na beira da morte, com a pele cheia de feridas purulentas e fedorentas. Metade do mundo ainda possuía ar limpo e puro, pois a guerra entre eles era através de mísseis, granadas de mão, fuzil, metralhadoras, bombas de pequeno alcance, faca, punhal etc.
A vida humana havia perdido todo seu valor.
Os soldados estupravam e chacinavam mulheres, crianças, anciãos, sem respeito por ninguém. Na verdade, se fizesse a pergunta aos homens desse planeta porque estavam se aniquilando uns aos outros, ninguém mais saberia responder.
Nestor, ainda em estado de choque, com a Ana chorando baixinho no seu ombro, falou com dificuldades, pois um nó invisível apertava na sua garganta:
— Os Demolidores podem fazer descontaminação nas cidades infeccionadas?
— Podemos! Trouxemos sementes de plantas trepadeiras que se nutrem de veneno e exalam oxigênio puro. Infelizmente, as cidades ficariam perdidas embaixo da mata fechada, soterradas pelo verde.
Nestor continuou a interrogar:
— Acho que os edifícios não têm salvação, mas poderiam levitar as mansões mais belas, e fazê-las descer no meio de uma floresta natural?
— Com certeza! Também sugiro iniciar a construção de uma cidade com todas as características arquitetônicas deste mundo. Podemos modificar os pré-fabricados, pintá-los com as cores afins, e construir uma creche gigante, pois os órfãos de guerra vão ser milhares, Comandante.
— Concordo plenamente, e junto dela construa a Escola Esportiva. Também gostaria de cuidados especiais à saúde mental e física dos sobreviventes. Quantos médicos e enfermeiras têm nossa frota?
— 4.000, Comandante e também temos 300 robôs assistentes de cirurgias e especialistas em primeiros-socorros, que poderíamos descer nesses acampamentos contaminados. Temos que fazer análise do que há nesses corpos doentes, antes da evacuação...
Um Espião falou:
— Câncer!
Nestor perguntou:
— O que é isso, afinal?
— Células enlouquecidas, que tomam conta das células normais e vão comendo os órgãos internos, um a um, até o ser humano ter câncer generalizado e falecer em meio de dores terríveis. É como uma bomba atômica dentro do corpo. Fatal!
— Meu irmão Adão sabe tudo de medicina. Caim, está na hora de você conhecer seu pai, vá ao templo, fale com ele e vamos ter a cura, podem acreditar... Alguma dica para começar?
— Os Demolidores poderíamos dividir nossa frota, em duas frentes. Metade nas cidades contaminadas para desinfecção, metade nos frentes de guerra para desintegrar armas, quartéis, fábricas de armamentos etc...
Nestor acrescentou:
— Acho que deveríamos procurar coisas que ainda não foram percebidas... Nas frentes de guerra vão os 30.000 soldados de “L”, pois preferiria que os Demolidores inspecionassem o que há embaixo da terra. Nos subterrâneos. Eu não vi os sobreviventes ricos. Cadê eles? Os ricaços desapareceram? Deve haver muita coisa enterrada embaixo deste mundo. Revistem túneis de esgoto, de trens ocultos, e possíveis subterrâneos nucleares. Eu mesmo vou a dar uma espionada... Alguma roupa especial para descer?
— Roupa antirradiação, Comandante...
— Ótimo! E vamos matar algumas pessoas. Os pilotos desses aviões bombardeiros, têm que desaparecer no ar! Desintegrem-nos! Avião e gente! É uma ordem! Os Arquitetos podem construir essa nova cidade imediatamente. Procurem por uma mata fechada, uma selva virgem, abram uma clareira, e iniciem tudo com uma Escola com dormitórios e conjugados para gente jovem. Essa cidade terá que ser para uma nova sociedade. Só que ainda não faço ideia quem é que vão ser essas pessoas. Os Demolidores percorram os desertos olhando embaixo deles. Se houver soterrados vivos, quero-os ao ar livre imediatamente, espalhados em Ilhas por enquanto. Mas, desintegrem barcos de pesca, iates de passeios, carros, helicópteros, jatinhos, tudo! Eles devem ficar isolados, protegidos, mas desarmados. Coloquem robôs agricultores para que não faltem suprimentos agrícolas para esse povo evacuado.
— Mas, esses homens vão transar, se multiplicar, formar uma nova sociedade, e um dia fazer a guerra novamente...
— Errado! Eu me esqueci de falar que todos os homens deste planeta estão estéreis, incluindo bebê de berço. Quem vai ter filho neste mundo daqui para frente, vai ter que desfilar em frente de meus olhos... Vamos ter que garimpar, uma a uma, pessoas boas para uma nova geração de gente. Eu não vou arredar o pé, até o dia que esses novos homens povoem este mundo. Alguma pergunta?
Como todos estavam acometidos de mudez, impressionados com o poder mental de Nestor, ele se levantou e arrastou Ana para sua nave. Dentro dela, chorou no seu colo como um bebê, até ficar adormecido. Como estava de novo impotente, quando acordou, beijou sua mulher docemente, comeu sua torta de legumes deliciosa e vestiu as roupas especiais.
—Cuide de tudo na minha ausência, querida... Agora você é a patroa...
—Mas, o que é que eu vou fazer?
—O que seu coração falar mais alto. Só se deixe guiar pela intuição! Fique com os médicos de “C” na nave deles, que vou enviar gente para ressurreição... Não sei por onde começar, mas vou saber assim que estiver lá embaixo...
—Não vai me deixar viúva, vai?
—Impossível!...Esqueceu que “00” me enviou a trabalho? Acha que aquele sujeito esperto não vai cuidar de mim?
Em seguida, subiu numa pequena nave, para um homem só, e voou rumo a esse mundo que ele amara tanto desde longe. Admirava o rock desde sempre, a arte, e tudo estava morrendo.
Dentro de um salão com “Espelho falante”, Caim frente à figura de seu pai chorou que nem bebezinho. Depois, ele viu que Adão também estava com o rosto úmido. Passada a primeira emoção sorriram, e ambos começaram a falar como homens importantes que eram. Caim pediu um tratamento para o câncer, dando todas as dicas sobre a doença. Adão deu-lhe uma dieta de frutas e verduras, alguns chãs, e massagem na testa. Depois lhe pediu dados sobre eles mesmos:
— Você acha que há algum irmão seu, nesses Mundos Inferiores, filho?
— Infelizmente sim, pai... Acabo de ver a morte dos gêmeos num filme, brigando frente à polícia no Movimento Ecologista... E Areti e Diana foram fuziladas como líderes do Movimento feminino...
Caim começou a chorar novamente, com dor no coração. Adão esperou com paciência que ele se acalmasse e continuasse a conversa.
— Eu vi no Espelho falante três irmãos por aqui perto. Eles estão bebezinhos, vai ser difícil achá-los.
— Mas, falta mais da metade...
— Quem sabe vão nascer de outras pessoas, bem pertinho de vocês?
— Mas, é claro, eu e sua mãe vamos trabalhar que nem escravos... E me diga, não vai casar e me dar um neto?
— Só vou me apaixonar quando voltar para “L”, pai... Eu broxei... Já imaginou? Estou impotente...
— Seu tio também está assim, e em pouco tempo todos os solteiros de sua frota não vão querer saber de sexo por muito tempo...
— Algum medicamento contra a brochura, pai?
— Cerveja, filho... Fique bêbado e procure por uma guerreira caindo aos trancos...
— Já imaginou essa viagem de regresso? Vai parecer bordel deste mundo...
Em seguida, olharam-se tristes por longo tempo, e falaram um adeus prometendo outros encontros no espelho, para matar a saudade.
Nestor desceu numa cidade semidestruída, onde havia combatentes correndo, gritando, e de vez em quando uma explosão acontecia e matava mais alguém. Concentrou a mente, e ele desintegrou aviões, bombas, tanques, comboios, e soldados num raio de 5.000 km ao redor. Respirou fundo e começou a marchar pelas ruas. Havia gente chorando, ferida, estendida no chão. Hipnotizou-os a todos e uma fileira de pessoas começou a caminhar, farroupilhas, sujas, longe desse lugar, em busca dos robôs enfermeiros. Estranho! Todos adultos, na maioria homens.
Em seguida, colocou o ouvido no chão, para escutar vida embaixo da terra.
Caminhou mais um pouco e repetiu a operação. Assim que estava para levantar a cabeça, avistou alguém correndo, atravessando na sua frente. Observou a figura de um garoto que fugia com um pão embaixo do braço, cuja silhueta perdia-se entre os prédios. Correu atrás dele, e viu-o entrar na estação de um metrô. Aguçou os olhos e notou túneis no meio da escuridão ao lado dos trilhos. Puxou a máscara, andou, adentrou num túnel escuro, em seguida ingressou num esgoto subterrâneo, e, finalmente, descobriu o esconderijo com 600 rapazes e meninas soterrados vivos, escondidos dos adultos, com o medo da morte estampada no rosto. Nestor hipnotizou-os imediatamente, deixando-os como estátuas, parados, para exame mental. Eram pequenos ladrões de comidas, vítimas de estupro doméstico, de surras, de fome, de doenças, graças às próprias famílias. Só as meninas com menos de sete anos não haviam sido estupradas pelos próprios pais dentro de casa. Os meninos, alguns já eram homossexuais de tanto serem seviciados. Também havia 20 meninas casadas com homens velhos, que fugiram dos maridos cruéis. Todas as casadas eram recém-saídas da infância, pois elas foram vendidas aos 9 anos.
Imediatamente, os fez caminhar que nem robô, rumo a uma nave que os sugou para as alturas, rumo às naves de “C”.
Depois, ele pediu ajuda aos Demolidores para encontrar crianças como essas e resgatá-las dos esconderijos embaixo de subterrâneos.
E como um Comandante de “A” é o próprio Deus entre os homens, o resgate de milhares de meninos começou, enquanto Nestor voltava para o espaço a visualizar e coordenar o trabalho de guerra num telescópio na Base Lunar. Com lentes de alta potência, misturado a telepatia universal, Nestor começou a examinar esconderijos nesse planeta imundo, descobrindo “soterrados vivos” de todo canto. Cada vez que um soldado escutava um grito seu, corria em busca de esgotos, pois era ali que a maioria dos sobreviventes estava. Ou seja, em meio do fedor, das ratazanas e da imundície.
Imediatamente, os libertados passavam por exame psicológico. Jovens sadios, bons, vítimas dessa guerra insana, desapareciam imediatamente sugados pelos raios da nave médica do espaço.
Os Demolidores acharam também redutos subterrâneos com pessoas escondidas dessa guerra, a maioria homens ricos com suas esposas, com comidas para viver longos anos. Foram evacuados imediatamente para as Ilhas virgens no meio do oceano, com seus suprimentos e um robô agricultor para ajudá-los nos cultivos e na construção de vivendas.
Enquanto isso, os soldados de “L” se misturavam aos combatentes primitivos das zonas de guerra, onde a milícia se matava com mísseis de longo alcance. Já antes de entrar nas periferias desses lugares, os cadáveres em estado de putrefação começaram a aparecer por todo lado. Muitos em trincheiras abandonadas. Eram tantos, mas tantos, que não teve nenhum guerreiro que não vomitasse de nojo com o espetáculo. Nada que estudassem na “Escola de Guerra” tinha comparação com aquilo. Eram homens sem cabeças, sem pernas, sem braços, ou com o estômago aberto mostrando as vísceras, era o inferno ao vivo, nunca antes imaginado numa sociedade superior.
Nestor deu-lhes um berro telepático imediatamente.
O chão estava cheio de minas subterrâneas embaixo da terra, pequenas, mas suficientes para fazer desaparecer três guerreiros ao mesmo tempo. Pediu para ninguém se mexer, enquanto os Demolidores não limpassem o caminho para eles. Do ar, os Demolidores colocaram lentes especiais, e foram desintegrando para os guerreiros os milhares de minas escondidas, e prontas para matar. Só então, os guerreiros começaram seu serviço. Transformar os soldados mortos em pó. Os que ainda respiravam, os encaminhavam para uma ilha, para que robôs os reconstituíssem, com pernas, mãos, com um material cirúrgico traído por Caim.
Longe das zonas de guerra, outros guerreiros entraram nas ruas de 8 cidades com guerrilha entre os prédios. Uma nuvem de pó os recebeu. Era gente correndo, pois as sirenes tocavam alto assinalando que havia bombardeiros no ar. Eles olharam para os aviões no meio das nuvens, e de um piscar de olhos desintegraram tudo. Depois, examinaram ao redor. Aos soldados armados entre os edifícios em ruínas, deixaram-nos nus com num piscar de olhos e aos civis foram enfileirando-os a caminho de uma nave pronta para evacuá-los às Ilhas virgens. Telepaticamente perguntavam para Nestor:
— Milico vai para onde?
— Para o deserto! Há 100 robôs cuidando deles num hospital de campanha!
Em meio do espaço, Ana, que jamais fizera coisa útil na sua vida, estava encrencada.
Todas as pessoas aos cuidados das crianças recém-chegadas nessa nave perguntavam para ela o que deveria ser feito em primeiro lugar. Afinal, ela era a esposa do Comandante e tinha que encarar. Improvisar. Droga! O que é que sua mãe faria? E deu um grito telepático para todo mundo ficar calmo. Olhou para um garotinho de 4 aninhos na sua frente, leu na mente dele, que afinal isso ela sabia fazer muito bem, e sentiu vontade de chorar. Ele estava tão assustado e apavorado, tão triste, que só precisava de um colo de mãe. Ana tomou-o nos braços, beijou-o com doçura, e todas as mulheres ao redor, e até os homens, começaram a carregar crianças que começavam a chorar todas as lágrimas presas na garganta por causa do medo da morte. Depois de acalmar a choradeira dos menores, todos os jovens foram levados para as cozinhas a receber leite com maisena, pois essa merenda era a única coisa que um estômago faminto podia suportar. Dieta das nutricionistas. Sentados nos joelhos desses estranhos, os meninos menores abriam a boca, engoliam com dificuldades, e tinha os pequeninos que vomitavam, pois o esôfago estava doendo, de tanto tempo sem comer. Em seguida, levaram-nos para a horta, para recolher bananas maduras e olhar para uns passarinhos pequenininhos que faziam barulho no meio das matas.
Quando Nestor chegou, e viu sua mulher rodeada de filhos alheios, sentiu uma compaixão tão grande, que quase chorou na frente de todos.
Mexeu a cabeça para espantar emoções e se perguntou o que é que Adão faria numa situação como essa. Depois perguntou para Ana se não estavam na hora de tomar um banho quente, colocar-lhes roupas lindas, coisas mais práticas. Ela sorriu. Não havia roupas desse tamanho em lugar nenhum. E os meninos tinham vergonha de ficar nus. Nestor sorriu para ela docemente. Hipnotizou a criançada toda de uma vez, eles ficaram pelados, e foram caminhando como robôs para um corredor com uma chuva de água que caía do teto. Aninha, as médicas, as professoras e as enfermeiras pegaram sabão, lavaram cabelos, esfregaram pescoços, enquanto as roupinhas deles eram lavadas e secadas às pressas na lavanderia dessa nave. Depois de vestidos e limpos, Nestor os chamou para voltar à realidade mais uma vez. Quando saíram do transe hipnótico, e se olharam a si mesmos lindos, cheirosos e bem penteados, acharam que havia sido um “truque de mágica” e sorriram em coro.
Dormiram em acampamento, sobre colchões infláveis, num salão grande.
No dia seguinte, Ana revistou seu guarda-roupa, a maioria vestimenta acima dos joelhos, e foi experimentando nas adolescentes maiores. Depois, foi recebendo vestidos de guerreiras com 2m de altura, cujas roupas arrastavam pelo chão, fazendo a garotada rir às gargalhadas. Ana gritou para o marido aos berros que trouxesse para ela máquinas de costura, tecidos, tesouras, agulhas, para vestir esses meninos. Depois, valente, cortou bainhas, mangas, e com um robô costureiro começou a fazer roupinhas até para garotinho de dois anos. No dia em que chegou um bebê de seis meses, nos braços de uma adolescente de l2 anos, berrando de fome e de frio, ela deu-lhe seus seios cheios de leite, que até aquele momento só haviam servido de brinquedo para Nestor, quando ele a seduzia entre quatro paredes.
E as naves superlotaram de meninos a cada dia.
Os que chegaram primeiro já conseguiam digerir dietas mais pesadas, tomar banhos de piscina, ir ao cinema ver desenhos animados, e experimentavam as primeiras frases. Geralmente, garotinhos menores de sete anos, pois os maiores não conseguiam sentir ainda nenhuma emoção. Eram múmias caladas, que percorriam os corredores olhando os desenhos das paredes, as janelas cheias de estrelas, como quem olha para o “nada”. Os médicos examinaram seus olhos, seus cérebros, e não encontraram doença nenhuma. Era apenas tristeza. Nestor chamou para o mundo de “B de BETA”, e perguntou-lhes se poderiam ser congelados e enviados para um hospital num Mundo Superior. De “B” responderam que no único lugar onde eles reencontrariam a felicidade era ali mesmo, com muito amor, paciência, e uma receita de comida à base de doçuras, leite e chocolate. Muitos chocolates. Para que não engordassem deveriam fazer esporte, ou, trabalhos como jardinagem, carpintaria, artesanato etc.
Imediatamente, Nestor reuniu os adolescentes para contar-lhes sobre a construção de uma nova cidade, no meio da mata, longe da guerra, e pediu que levantasse a mão quem quisesse trabalhar na construção dela. Como até os guris de dois anos queriam ir, Nestor fez a seleção, com adolescentes maiores de 12 anos e enviou-os numa nave, aos cuidados de 50 robôs, que cuidariam de sua alimentação.
Depois desse dia, Ana teve seu marido de volta, pois ele passou a raptá-la para encontros relâmpagos em “algum lugar” onde um casal podia se esconder para trocar beijos e afagos num reencontro muito louco. Geralmente banheiros, ou guarda-roupas, ou hangares onde Nestor aportava sempre afoito. Nestor inclusive havia guardado seu cinto da cabeça como uma lembrança dessa lua de mel, quando passaram meses abraçados dentro de uma suíte. Falava-lhe que, algum dia, faria uma viagem ao redor do “Mundo de V” repetindo os momentos vividos. Ana, cuja língua na boca afogava-a, usava a telepatia para consolá-lo. Ele, sorrindo com os olhos brilhantes, retornava ao seu batente, pois mal dava tempo para dormir.
Enquanto isso, os Chefes de Estado desse mundo louco, Governadores, Senadores, Deputados, e que administravam toda essa insanidade, prosseguiram os desafios e enviaram homens para a morte até os últimos dias. Pilotos de guerra ascendiam em aviões e lançavam novas bombas sobre a população indefesa. Soldados subiam em carros blindados, tanques e caminhões e partiam rumo às frentes de combate, todos os dias.
No dia em que quatro bombas atômicas desmantelaram definitivamente a vida humana, Nestor levitou todos os Espiões, Demolidores, Arquitetos e guerreiros, segundos antes da terra ficar branca de veneno. Do ar, eles ficaram olhando a desolação, pasmos, enquanto os Demolidores vestiam roupas especiais para descer novamente a deter a radiação que se espalhava em direção às Ilhas, ao acampamento médico do deserto, e em direção da selva em cujo lugar se erguia a nova cidade. Com aspiradores condicionados na parte baixa de suas naves, desceram, entraram nos coração dos cogumelos atômicos, e aspiraram às toxinas. Em seguida, enfileiravam para o espaço infinito, e enviaram o veneno em correntes diretas ao Sol.
Depois do Holocausto final, todos os guerreiros de “L de BETA” baixaram a andar pelas cidades atingidas em busca de sobreviventes, com traje protetor da radioatividade.
Acharam alguns redutos subterrâneos com gente ferida nas periferias da cidade e, para cúmulo do incrível, cinco frentes de combate. Eram militares machos e fêmeas, que não sabiam que o mundo deles havia desaparecido e que lutavam até o fim. Como Nestor pediu telepaticamente para ignorá-los, eles continuaram a se matar a bala, por último com baionetas, facas, e até com socos.
Caim e Nestor também desceram no meio de cidades com milhares de mortos estendidos pelo chão, tentando descobrir sobreviventes. Assim que encontravam alguém respirando, gritavam para o alto e enviavam-no às alturas para cura.
Os médicos banhavam-nos com luz amarela que matava a radiação, depois focavam uma luz azul que cicatrizava as feridas, e por último uma luz branca que os fazia dormir. Uma vez sarados, eram carregados para uma nave que os levava para as Ilhas. Em terra firme, centos de robôs, que sabiam tudo sobre doenças, os recebiam em acampamentos com barracas de lona, alimentação sadia, em grupos humanos que não ultrapassavam 3.000 pessoas. Tinham cuidado de deixar em cada ilha comunidades afins, da mesma etnia, que falavam a mesma língua, pois os homens de “V” se odiavam por causa de diferenças raciais.
Enquanto médicos cuidavam dos ressuscitados, os Demolidores olhavam os escombros das cidades e desintegravam, com o olhar, tudo que existia. Primeiro os cadáveres, depois os veículos, estádios de esporte, campos de futebol, teatros, tudo que a humanidade inteligente inventara num passado distante. Sobrava apenas um grande deserto. Até o chão era removido, um metro abaixo da superfície para que a terra respirasse ar puro. Depois olhavam para o céu, puxavam nuvens, e provocavam uma chuva para umedecer as camadas da terra árida. Do ar os robôs agricultores deixavam cair sementes de capim selvagem, o único que era capaz de nascer e crescer numa terra infértil.
Em outras cidades menos atingidas pelas bombas, totalmente desabitadas, os Arquitetos selecionavam camas, mesas, tecidos, brinquedos, tudo o que podiam carregar. Nas Ilhas, onde uma milionésima parte da sociedade sobrevivera, as pessoas olhavam para o céu, que fazia chover camas, guarda-roupas, mesas, lavadoras, refrigeradores, e casas completas, para viver com conforto.
Enquanto isso, Nestor percorreu todas as Ilhas, uma a uma, inspecionando cabeças em busca de “gente boa”. Como não encontrou ninguém, esses grupos humanos ficaram isolados, para sempre. Afinal, eles estavam convencidos que eram os únicos sobreviventes do planeta, graças a uma ajuda que chegara de outro mundo.
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