Adão e Eva, numa galáxia distante
4 Cap. 4. O desafio
Notas iniciais
O desafio
D
epois de cinco anos na Escola de Esportes, Evita já não era mais uma criança. Seu corpo era de uma mulher esbelta, cheia de curvas, enquanto Adão era um monstrengo cheio de músculos. O namoro deles ficara a cada dia mais quente, e Evita só era virgem por causa do controle de seus pais, de suas irmãs, que a vigiavam de perto e de longe.
Durante as noites Adão tinha pesadelos com Evita, pois ela lhe aparecia na sua frente, e acordava no meio da noite suando e gemendo. Enquanto Nestor dormia com uma boneca de borracha cuja pele quente e gostosa o fazia dormir feliz, ele se mantinha casto esperando perder sua virgindade junto com Evita, no dia em que isso fosse possível.
E quem marcou esse dia foi o querido Nestor, que não suportou mais ver a tortura de seu irmão. Ele reuniu a “Gangue” na praia, e convidou todo mundo a fazer um acampamento bem longe no mato, com cinco robôs abridores de trilhas. Todos teriam que ser firmes, e teria que rolar muita lágrima, principalmente da Ana para convencer o João e a Dina. Eles até ensaiaram cenas dramáticas ali mesmo, e se dispersaram rindo dos negros pensamentos. Na “Turma de Nestor”, a maioria dos guris estava de olho nas gatas da Gangue fazia tempo, e alguns já namoravam de beijos.
E o acampamento foi mesmo uma revolução em Atalanta.
Todos os adultos se falavam através do “Espelho falante”, perguntando-se reciprocamente o que fazer. Os homens diziam que os meninos não estavam mais indo para o mato a pular de coqueiros, senão que a saltar por cima das meninas, todas elas recém-saídas da infância. E nenhum adulto dessa cidade queria ver uma filha entrando no templo carregando um bebê no colo. E numa decisão em conjunto, decidiram esterilizar telepaticamente todos os machos da “Gangue”, e deixar que “00”, o espírito do amor, cuidasse deles lá do alto no meio da floresta. Depois lhes providenciaram cinto antigravitacional, capacete de proteção, carros aéreos com robô, e comidas engarrafadas.
Evita terminou indo sozinha nessa viagem de acampamento, pois Ana ainda era imune a homens e nesse camping só ia dar namoro. Evita levou suas duas panteras sentadas ao seu lado, e Adão colocou Belzier num vagão especial, puxado por um carro voador. Trinta veículos voadores se alinharam esperando espaço aéreo, e a um sinal de luz, eles subiram para voar na altitude de 80m de altura.
Depois cruzaram esse mundo. Saíram da cidade, entraram na mata fechada, sobrevoaram montanhas, e finalmente escolheram o lugar do camping e desceram na beira de um pequeno lago.
Nestor organizou as barracas, acendeu a fogueira no centro do acampamento, e, de repente, percebeu que estava completamente sozinho acompanhado de duas panteras negras. Adão subiu Evita em cima de seu cavalo e marchou para dentro do mato fechado, assim que desceram dos carros. O resto de seus amigos raptou as mulheres de formas diversas, com destino desconhecido. Não havia sobrado nenhuma mulher para ele conquistar. Sentou na beira do fogo, repartiu sua comida com os bichos ao seu lado, e perguntou para si mesmo o que é que estava errado, pois nenhuma mulher gamava nele. Nadou no lago ao anoitecer, embaixo da luz das Luas, e tarde a noite entrou na sua barraca a dormir.
Perdida no meio da selva, sentada sobre uma manta macia por cima do cavalo, Evita sentiu as mãos de Adão pela cintura. Ela sentia seu amor desejando tê-la, e ela se entregou a paixão juvenil, mais apaixonada do que nunca.
Desceram do cavalo para deitar no chão. Evita caiu de costas, sobre a manta macia, enquanto Adão encobria seu corpo, afoito, tampando ambos os corpos com a manta. Evita abriu a boca para um beijo eterno, e fizeram amor até desmaiar, agarrados, e embrulhados como num casulo, com Adão por cima, suando extenuado.
Ao amanhecer, Adão procurou por frutas frescas, água de cocos enormes, e depois acordou seu amor com beijos e carícias. Comeram, tomaram banho no rio, se amaram dentro e fora da água, e chamaram por Belzier, perdido entre o mato. Quando subiram no cavalo, o fizeram caminhar, enquanto Evita novamente se curvava para trás, beijando seu amor, para terem momentos deliciosos de suor e de prazer.
Quando a fome e o cansaço os derrotaram, caíram no chão, para dormir um por cima do outro, agarrados, embrulhados no cobertor, a espera que o sono lhes devolvesse o brio. Depois de 15 dias, o camping estava completo mais uma vez. Os apaixonados retornaram pouco a pouco, ocupando as barracas, rindo de Nestor, que não conseguia explicar para os amigos o porquê de que estava sozinho. E um dia regressaram para casa.
Dias depois desse acampamento, Adão descobriu 10 lugares na Escola de Esportes, onde um casal apaixonado podia sumir por algumas horas. Eram becos escuros, escadas-caracol altíssimas que ninguém subia, e armários gigantes onde se guardavam as roupas esportivas. E em meio daqueles encontros, Adão perguntou:
—Querida, está pronta para fazer o “Desafio”?
—Estou!
No dia seguinte, a cidade de Atalanta foi acordada por um barulho extraordinário, cujo som provia de um sino que era tocado cada vez que um casal de noivos decidia realizar o desafio. Pouco a pouco chegaram a TV Interespacial, amigos e familiares de Evita e Adão, e até pessoas desconhecidas de outras cidades. Adão e Evita subiram num palanque de mãos dadas, e quem falou primeiro foi ele:
—Eu, Adão, filho de Atalanta, apresento Evita, minha noiva e futura mãe de meus filhos. Se em algum lugar deste mundo, ou em outro planeta houver outro homem apaixonado por ela, eu o desafio e me vencer no esporte. Se ele ganhar de mim, ele terá o direito de tentar conquistá-la pelo período de um ano, e, se ele perder, terá que receber de mim um pontapé no traseiro.
Nestor e sua turma começaram a gritar e aplaudir, pois em Atalanta ninguém era tão estúpido em desafiar um campeão como Adão, cheio de músculos. Mas, em onda telepática 50 todos escutaram uma voz que falava -“Eu a quero”-, e depois mais outra voz que dizia -“Eu também”-.
Logo em seguida, uma nave voadora pousou na rua, e um homem saiu de dentro dela. Ele era tão lindo, mas tão lindo, que todas as mulheres dessa cidade abriram a boca ao mesmo tempo. Ele se apresentou ao Adão como Adônis da cidade de Esparta.
Mal o povo havia se recuperado da surpresa, quando uma nave preta parou junto da outra, e saiu de dentro um homem alto, magro, todo vestido de negro, com uma capa arrastando pelo chão, igual morcego. Ele se apresentou a todos como Carlão do “Mundo de E”.
Depois, Evita subiu no palanque e falou:
—Eu, Evita, filha desta terra, ofereço meu noivo em desafio a todas as mulheres apaixonadas por ele.
Imediatamente cinquenta mulheres gritaram em coro:
—Ele é MEU!
Os mestres da Escola Esportiva chegaram ao consenso de que Adão e Adônis se mediriam em luta livre, Adão e Carlão na esgrima, e Evita se mediria com todas suas rivais num campeonato de pingue-pongue. Marcaram as datas, e se retiraram do tumulto que começava a agitar essa cidade.
Enquanto as irmãs de Evita grudavam ao redor de Adônis, se oferecendo de anfitriãs para mostrar a cidade, Nestor correu ao lado de Carlão, pois esse cara era estranho demais e estava ali por outros motivos. Convidou-o a conhecer a Escola, os ginásios, e fez-lhe algumas perguntas. Afinal, ele não podia ser apaixonado por uma mulher que nunca vira e cujo planeta ficava bastante longe. Mas Carlão, que era tão telepático quanto Nestor, respondeu-lhe:
—Sou gamado em Evita, sim. Ela é famosa em meu mundo. Conhecemos seus tecidos, suas cerâmicas, pois a TV interespacial de vez em quando mostra suas obras de arte. Mas agora que a vejo de perto, eu gostei mais da irmã dela, Joana. Ela tem namorado?
—Nenhum, cara. E olha que todo mundo gosta dela. Eu acho que é alérgica a homem, só pode ser.
—Sabia que você também é famoso em toda esta Galáxia?
—Por quê? Eu sou um acúmulo de doçura, cara...
—Você é um dos candidatos para Comandante da Missão “V de BETA”. Sabe o que é isso?
—Lógico! Faz 10 anos que se está formando em “L de BETA” uma legião de lutadores para esse mundo, cuja missão é para daqui a 6 anos, que eu saiba.
—Ou seja, estão esperando que você pare de ser um pirralho, e se converta em homem, para dirigir os combatentes...
— Nossa! Nem eu acredito nisso, cara...
E riram juntos, até engasgar.
A notícia de que Nestor era candidato ao cargo de Comandante de uma missão estelar se espalhou por Atalanta como uma bomba. A Gangue em peso chegou à casa de João, onde estavam Adão, Carlão, Adônis e Nestor a fazer perguntas em cima de perguntas, pois em Atalanta todo mundo sabia que Nestor nunca havia estudado nada, nem era campeão de coisa alguma. Afinal, ou “00” estava caducando, ou a vista dele não estava muito boa, não. Adão ria às gargalhadas ao lado dele e o abraçava com orgulho. Afinal, Nestor era o que em outros mundos se chamava de autodidata. Ele estudava em casa todos os livros que Adão trazia da Biblioteca. Idioma primitivo Nestor sabia uns 200 deles, e havia inventado 60 escrituras para dialetos estranhos. E quanto ao esporte, era a única pessoa que Adão perdia em todas as lutas.
Como a reunião se converteu em festa, com Dina e João na cozinha, enquanto as irmãs de Evita conversavam num canto com o lindíssimo Adônis, pouco a pouco a bagunça tomou conta. Adão sentou Evita no colo, e ficaram num canto se beijando, enquanto a Gangue colocava músicas para dançar com as namoradas.
Adão olhou para o mulherio, se perguntando se havia alguém que gostasse de Nestor e não achou ninguém. Coitadinho! Ele tinha 6 anos para encontrar esposa ou perdia a candidatura para Comandante. Olhou para ele, espionou sua cabeça, e sorriu. Ele era gamado em segredo e até a alma pela Ana! NOSSA! E teve uma ideia bárbara. Falou para Evita no ouvido:
—Amor, fale para sua irmã Ana que dance aquela música primitiva de “V de BETA”.
—ROCK? Será que ela topa, meu amor?
—Topa. Pode apostar.
A um sinal telepático de Adão, o show da Gangue começou.
Foram provas de magia, cantos improvisados, e finalmente uma música de rock dançada pela Ana em homenagem ao Nestor. Ela colocou um vestido curto mostrando as pernas, e cantou e dançou no estilo primitivo daquele planeta desconhecido.
Enquanto Ana rebolava, Adão e Evita inspecionavam Nestor telepaticamente rindo baixinho entre eles. O coração de Nestor batia forte, os olhos estavam dilatados como nunca, e ele só pensava em “sexo selvagem”.
No dia seguinte, as lutas do desafio começaram.
Evita entrou numa sala com 25 mesas de pingue-pongue, onde todas as esportistas seriam desqualificadas aos 20 pontos negativos. Depois de duelos empolgantes, restaram 12 mesas jogando, em seguida 6 e finalmente as três últimas cujas jogadoras arremessaram todas contra todas.
Quando Evita ganhou da última concorrente, Adão se levantou gritando, enquanto Nestor puxava um ramo de flores do bolso. Deu para Adão e este o lançou pelo ar para sua amada.
Imediatamente, as pessoas correram a se acomodar na sala de luta livre, onde Adônis e Adão se enfrentariam em 5 combates.
Na primeira luta, Adão conseguiu levantar Adônis com os 2 braços e o lançou pelo ar contra a parede onde bateu forte. Na segunda disputa, agarrou-o de uma perna, girou com ele, e lançou mais uma vez contra a parede, onde desmaiou. Os mestres imediatamente suspenderam a luta, e levantaram a mão do campeão, pois em todos os campeonatos de Atalanta Adão fazia sempre a mesma coisa.
Em seguida, Adão mudou de roupa, vestiu-se todo de branco, máscara de proteção no rosto e pegou a esgrima na mão.
Desta vez a luta foi suada, pois Carlão era muito bom. Na verdade, ele deixou Adão ganhar só porque não estava mais interessado na Evita. Lançou a espada no chão e se rendeu no décimo encontro. Adão deu seu pontapé no traseiro, como havia prometido, e Carlão “desmaiou”.
O corre-corre dos médicos foi imediato, pois ele não havia desfalecido por causa do pontapé. Carregaram-no para a sala de emergência, tiraram toda a roupa e ficaram horrorizados com o inchaço do pênis. Examinaram e ficaram intrigados, pois toda a pele estava grudada como uma capa. Puxaram sem pena a pele desse pênis como quem descasca uma banana. Depois acordaram Carlão para enchê-lo de piadas. Essa doença era completamente primitiva, e em Atalanta não existia, pois os meninos eram circuncidados ao nascerem. Depois o enviaram para o hospital para descanso e repouso, com curativos de meia em meia hora.
Enquanto isso, João havia organizado uma farra para todos os amigos de Adão e Evita para festejar o desafio daquele dia.
Para fazer as delicias gastronômicas dessa festa, Evita e Ana foram procurar batatas na horta, caminhando e tagarelando e pouco a pouco foram se separando, ajoelhadas no chão desenterrando batatas. Ana levantou a vista e viu um loiro de olhos azuis, olhando-a para baixo com cara de cínico. E antes de poder sequer se defender, ele caiu por cima, com ela crucificada de costas no chão. Depois Nestor beijou-a na boca e iniciou com telepatia uma longa conversa. Falou-lhe o quanto a amava e que ela tinha as pernas mais lindas do Universo. Acrescentou que fazia meses que não conseguia dormir com sua boneca de borracha porque só pensava nela. Jurou-lhe que jamais havia beijado outra mulher e finalmente foi claro. Ele só ia soltá-la depois que ela jurasse que o amava e que se casaria com ele.
Ana, que nada sabia do amor, pois Eva se negava a compartilhar suas intimidades com ela, sentia uma tontura gostosa. Essa língua tinha o poder de acordar seus desejos mais íntimos, e abraçou ao pescoço, muda, pois não sabia se isso era amor. Pouco a pouco, uma vontade acordou nela, e abraçou-o até o raiar do Sol do dia seguinte. Ao amanhecer, enquanto os festeiros iam para casa, eles se separaram com dificuldades, pois Nestor não conseguia parar de beijar essa boca. Defronte a janela do dormitório de Ana, decidiram outro encontro ali mesmo, ao anoitecer, quando João e Dina se isolavam do mundo, dentro da suíte.
Ana entendeu que nunca mais ia dormir no resto da vida, pelo menos durante a noite. Se isso era o amor, ela estava encantada. Correria ao encontro desse loiro como uma gatuna, até o fim de sua vida e de todas as vidas que teriam pela frente, onde quer que “00” os enviasse.
Nestor, que lia sua cabeça desde sempre, sorriu.
Ela nem imaginava que um dia poderia partir para uma viagem sem fim, fechada numa suíte de uma nave interespacial, num coito de vários anos. Coitadinha! Quanto a ele, começaria a estudar imediatamente o que fosse necessário, para ganhar esse cargo de Comandante e fazer essa viagem. Ficar com a Ana a sós, numa lua de mel no espaço, era tudo o que ele queria nesta vida. Olhou para o alto, em busca de “00”, o espírito do amor, e lhe enviou um beijo de gratidão. Ana era a melhor coisa que “00” podia ter enviado para ele. Quando chegou a casa, desintegrou sua boneca de borracha assim que a viu. Depois, dormiu como fazem os anjos, com um leve sorriso na boca.
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