Adão e Eva no berço dos anjos. Primeira parte.
3 A civilização (continuação)
Notas iniciais
Nos últimos anos, começaram a estudar as matérias ligadas ao espaço.
Vestiam uniforme preto, e dentro de uma nave se estudava o planeta desde longe. Tudo através de lentes. Devia-se relatar profundidade de rios, densidade das águas, medirem as tormentas, analisarem o calor, calculando tudo de cabeça. Também lhes mediram a resistência no interior de cápsulas espaciais pequenas, onde o casal devia sobreviver. Apenas sobreviver. Dentro das cápsulas havia comidas enlatadas, banheiro, ducha, e uma cama. Só. E as cápsulas giravam em redor ao planeta até que eles apertavam um botão de desespero, ocasionados pela solidão. Enquanto isso, os mestres os examinavam, centímetro a centímetro, e lhes calculavam o tempo que aguentariam numa missão. Até onde chegariam. Até que lugar do Universo poderiam os enviar.
E Adão e Eva fizeram de tudo.
Correram nas areias do lago com os amigos, dançaram em redor de uma fogueira como faziam em casa, e deitavam na areia com umas toalhas por cima, pois desta vez podiam fazer amor olhando as estrelas. Dentro de casa subiam nos assentos, pois era parecido a fazer amor sobre um cavalo. Trotavam com as costas sobre respaldos brandos, e uma cabeceira ainda mais macia. O assento também possuía lugar para deitar os braços, outros para esticar as pernas, ou seja, era um namoro para preguiçoso, pois o assento fazia o trabalho de proporcionar-lhes a felicidade extrema. Toda aquela que o corpo conseguisse suportar. E Eva desmaiava entre suspiros, cada vez que subiam nesse assento. Adão a carregava nos braços e entrava com ela na piscina. Dava-lhe sucos de frutas com nutrientes, pois ela sempre se recompunha faminta. Pouco a pouco as forças voltavam. Os sucos devolviam a energia perdida, saiam pingando dessa água direto para a cama, onde deitavam para dormir, e em cujo lugar se encaixavam milimetricamente. As bocas ficavam tão perto que um respirava o ar do outro. Assim que acordavam se beijavam, sorriam e se perguntavam a si mesmos se saiam a passeara ou ficavam nessa cama até enjoarem. E tinha os dias que não faziam nada, e ficavam na cama como duas lagartas.Mas, porém, as férias mais esperadas aconteceram quando o planeta completou um ano girando em redor do Sol, e chegou o dia mais longo, que eles chamavam de o iluminado do verão. Todos desceram ao planeta para ver a família, conhecer novos irmãozinhos, ou primos nascidos durante o tempo que ficaram longe, e principalmente para serem mimados pelos pais e toda a família.Adão encontrou um irmão, Oscar, loiro, olhos azuis como seu pai Sergei, que assim que Adão chegou levantou os braços para cima, sorrindo com carinha de anjinho. Adão o levou a correr a cavalo, enquanto Eva deambulava pelo mato catando milho, abraçada com Ludmila. Mais ou menos 12 panteras negras como a noite chegaram a lhes fazer companhia, depois de cruzar o mato em desbandada. Eva ajoelhou-se, abraçando a mais velha, rosto úmido. De longe sentia Belzier grunhindo, com uns seis potros em redor, em busca de Adão. Ludmila viu as lágrimas de sua nora enternecida, e falou-lhe:– No mundo dos anjos, serão seus pela eternidade...– Que nada, Belzier vai nascer homem. Foi o professor que falou.– Nem sempre. Tem bichos que se negam, pois tem pavor de serem homens.– Eu os amo tanto! E eles nos seguem vida após vida. – Porque vocês sempre escolhem nascer em mundos selvagens, por causa deles. Poderíamos ter nascido em “B de ALPHA”. Lá só há civilização, e nada de bichanos nas cidades. Depois começaram a rir. Eva adorava esse mato. Essa selva. Essa vida de índia. Era apaixonada pela vida simples desde sempre. A civilização tinha seus encantos com suas mordomias. Fazer amor por sobre um assento almofadado era delicioso. Mas, correr pela mata nua, por cima de Adão, não se comparava a nada. Era pura magia. Encantamento. Nossa! Como desejava terem sido reprovados.E ficaram nesse lugar até o dia em que João lhes deu bronca com telepatia.Sergei falou para Adão resignado:– Vai filho, ou ele chega por aqui! Esse velho é um ciumento. Vida após vida ele carrega com a prole toda. Aprendi com ele! É a terceira vez que somos da mesma família! E vamos ser pela eternidade! Gostou, filho?– Gostei! Nunca mais abro mão de ser o filhinho da minha mãe!Adão abraçou-o, pois adorava seu velho, deu um beijo na mãe, enquanto Oscar caia no maior berreiro. Mas, subiram em Belzier e cruzaram o mato ao galope, seguidos pelos bichanos em bando.Eva encontrou mais duas irmãzinhas, gêmeas, que Dina afirmava que eram os últimos da prole. João jurava que não faltavam mais filhos de vidas passadas. Estavam todos os irmãos que Eva tivera em encarnações anteriores. Dina mexia a cabeça, pois João em matemática era péssimo. Sequer sabia dos filhos que tinha. E Adão lhe diz às gargalhadas: – Faltam duas, sogro, mas não se assuste, pois elas com certeza já devem ser anjos!E abraçaram a todos em meio de uma algazarra barulhenta. Entre cunhados, amigos de infância, sobrinhos de Eva, davam umas 50 pessoas eufóricas em redor.Mas o melhor de tudo para Eva foi entrar na casa da árvore. Tudo estava ali. O colchão, uma manta lavada e dobrada por cima, e cortinas limpas. Folhas secas que entravam pela porta se esfumaçaram como por encanto, com seu olhar. Poupou as trepadeiras que enroscavam em todo lugar, tanto nas paredes quanto no telhado, pois estavam floridas, exalando um aroma embriagante. Como trouxera alguns tapetes da Lua, cobriu o chão com eles desta vez. Depois ficou deitada neles, com seu cabelo emoldurando seu corpo, e olhou para Adão rindo, pois ele estava com calça apertada, tirando-a com afobação. Regressar para a Lua foi entre lágrimas. Metade dos amigos de infância ficou no planeta, pelas péssimas provas, rindo felizes, acenando, gritando aos berros para eles: — Estudem menos, caras! Venham logo para cá! Pois nem Eva nem Adão entendiam do porque não haviam sido reprovados. E nessa escola encontraram matérias novas, sempre em grupos separados de fêmeas e homens. Estudaram novos idiomas, anatomia de seres primitivos de outros mundos, aprenderam lutas como Box, Karaté, e matérias estranhas. A pior de todas se chamava espionagem mental. Para não dar brigas, os mestres os aconselhavam iniciar o aprendizado lendo a cabeça dos pessoais de infância, pois geralmente não havia segredos entre amigos. E se houvesse algo sinistro, surrar um colega por motivos pessoais, era melhor do que desafiar um universitário cheio de musculatura, que os massacraria sem dó. Teriam que espreitar tudo sobre as pessoas escolhidas, desde quando eles estavam no interior do útero até os dias atuais. E ninguém podia saber quem é que os estava espionando.
Adão escolheu amigos de infância de Eva, e Eva amigos de infância de Adão. E foi assim que Adão descobriu dois homens apaixonados por Eva, e Eva achou uma mulher que o adorava desde o dia em que ele nasceu.Alain, um loiro lindíssimo, alto, caminhar elegante, fora como um irmão para Eva, desde sempre. Cresceram juntos, caminhavam abraçados, eram sempre os mais rápidos nas corridas, ou nadando no rio, na verdade Eva também o adorava, tanto quanto amava todos seus irmãozinhos. Mas quando ambos chegaram à adolescência, Alain quis beijá-la na boca. Foi quando Eva contou-lhe de seu amado que lhe aparecia em sonhos, e que tinha certeza que não era ele, não. Tentou o consolar, mas Alain estava obcecado. Chorou, tentou esquecê-la, e o que foi pior, tentou tê-la à força. Infelizmente as panteras de Eva entraram em ação, e ele perdeu um testículo. Foi levado até a Lua para cirurgia, mas ficou com um testículo a menos, pois a pantera o comera todinho. Quando regressou da cirurgia, Alain converteu-se em mulherengo. Como era belíssimo, se estendia na beira do rio, e assim que alguém o aceitava, namoravam dias e noites, de forma tão possessiva e ciumenta, que as mulheres terminavam o abandonado. Ou lhe davam um soco, depois que ele fazia cenas de ciúmes com algum visitante desconhecido.Agora, dentro dessa escola, era o aluno Nº 1. O mais brilhante, sabia todos os idiomas de cor, e possuía um séquito de mulheres que suspiravam por ele.O outro homem que amava Eva era Ênio. Moreno, olhos verdes, corpo de atleta, lindíssimo. Rosto perfeito. Sorriso que derretia todas as mulheres em redor. Era só entrar nos refeitórios, que era chamado aos berros por dúzia de gurias para sentar junto.Só que Ênio fora um desgraçado no amor, desde sempre, pois Eva sequer falava mais com ele. Virava-lhe o rosto. Não o suportava por perto.E foi por esse motivo que um dia a pegou na corrida. Subiu-a no seu cavalo e correu para longe, raptando-a como um selvagem. E Eva ficou bem quietinha. Quando Ênio virou-a para dar-lhe um beijo, ela deu-lhe um soco ao lado da orelha tão forte, que ele desmaiou. Caiu do cavalo, e Eva regressou para sua aldeia ao galope, deixando-o em coma, estendido no chão.Pior foi regressar à aldeia e aguentar a risada dos irmãos de Eva. Ele nunca foi tão humilhado na presente vida. E Ênio viu chegada à oportunidade de sua vida, no dia que descobriu Eva dormindo cabeça baixa na beira do rio, sem ninguém de perto. Caiu por cima, abraçou-a tocando os seios. Mas a boca de uma pantera mordeu suas nádegas sem pena. Eva só gritou: — Solta ele, já! E Ênio livrou-se de ser comido vivo. Para cúmulo foi nos dias seguintes que Adão apareceu, e ele perdeu-a para sempre.Eva pela sua vez fazia contas mentais das mulheres que achavam Adão um gato. Desta vez, eram de todas as aldeias, e todas elas desconhecidas. Eram ao todo umas 20. Depois as que suspiravam cada vez que cruzavam o caminho de Adão, e contou mais 15. Mas quando viu Mirim, a deusa dessa escola, sua vista ficou enevoada de ciúmes. Olhos azuis, cara de boneca, corpinho escultural, cabelos penteados com arte, e apaixonada por Adão desde a infância. Respirou fundo. Afinal, a luta de boxe era entre mulheres. E estavam para começar daqui a pouco. Somente os últimos vencedores se enfrentavam entre sexos diferentes. Mulheres contra homens.E correu para colocar as luvas de Box, capacete na cabeça, cotoveleiras, joelheiras, tênis macios, e entrou na arena. Furiosa. 300 mulheres estavam formando um bloco compacto onde todas lutariam contra todas. Assim que alguém tocasse o chão um raio branco levitaria o perdedor para fora do tatame. Na quadra adjacente, 300 homens fariam a mesma coisa.Como Ênio e Alain eram os melhores, entre os melhores ginastas dessa turma, Adão os deixou para o final. Foi apagando amigos, um a um, e lhes falava: — Desculpa cara, mas não estou no meu melhor dia! A seguir foram outros desconhecidos, que caiam que nem passarinhos ao primeiro soco no queijo. E finalmente ficou frente a frente ao Alain, o homem mais belo, mais inteligente, machão de muitas mulheres, e deu-lhe um soco no peito, que lhe arrebentou três costelas, um soco no nariz, e finalmente um soco no queijo que o fez voar e cair por cima dos juízes. Mal conseguiram segurá-lo no ar. Imediatamente um raio branco desceu e levitou Alain para o hospital. Ao Ênio, que já havia sofrido com as dentadas das panteras, só lhe deu um soco de leve. Suficiente para voar até encostar-se ao teto e cair de bunda ao chão, ante as gargalhadas gerais. Só então Adão percebeu que estava sozinho.Na arena feminina, a cada mulher que suspirava por Adão, Eva arrebentou-lhe a boca, os dentes, e desmaiou-as com soco na orelha. Aquelas que o achavam um gato, deu-lhes um soco embaixo dos olhos. Suficiente para ficarem com a cara inchada e cegas uns 10 dias. E a Mirim, a mulher mais bela e maravilhosa que havia nesse lugar, deu-lhe um soco no peito, para matá-la, mesmo. Depois foi desmaiando mulher atrás de mulher, pois sobre luta, ninguém sabia coisa alguma.Os mestres viam mulher voando para o hospital, uma atrás outra, seriíssimos, pois numa civilização superior se apaixonar por homem casado é crime. Dos mais hediondos. E apanhar por isso era merecido. Mas quando ficaram apenas dois campeões, os juízes foram enérgicos. Chamaram Eva para derrubar Adão. E ficaram a olhar com curiosidade.Mas Adão abraçou-a antes dela sequer levantar a mão, e deu-lhe um beijo de língua. Enquanto isso, Eva começava a chorar que dava dor. Jurava que jamais amara ninguém e que Mirim era feia, burra, e Adão repetia: — Sim, amor, esperando com paciência que passasse a histeria. Depois a carregou para casa nos braços, enquanto os amigos gargalhavam, zombavam, aplaudiam-nos como campeões, pois nunca se haviam divertido tanto numa briga dessas.Enquanto isso, no hospital, os médicos e os robôs enlouqueciam, pois havia dois mortos. Alain e Mirim. Alain parara o coração, e tiveram que abri-lo para dar massagens para que continuasse batendo. Ressuscitado, soldaram suas costelas, reconstituíram seu rosto com uma cirurgia de muitas horas, e foi banido de todas as lutas e da carreira de Espião. Poderia estudar medicina, engenharia, ou algo que fosse mais suave. Ênio foi submetido à cirurgia nas nádegas pela segunda vez, reconstituindo os músculos, ligamentos, nervos, e ficou estendido de barriga para baixo por uns 40 dias. Mas suas feridas foram consideradas leves. Podia seguir suas aulas de luta, pois doía mais seu orgulho do que a derrota. Mirim teve que ser ressuscitada, depois de ser-lhe colocado um coração artificial. E foi banida de todas as lutas, e da carreira de Espiã.Dentro do apartamento, levou tempo para Eva se acalmar. Perder Adão para outra mulher, jamais ocorrera nem em noites de pesadelos. E uma dor instalou-se no peito, que ela mal conseguia respirar. Adão, que em vidas anteriores fosse médico, deitou-a para baixo, e deu-lhe massagens nos pés, na coluna, no pescoço, na testa até fazê-la dormir. Carregou-a para cama e deitou-a de lado. Abraçou-a por atrás, e esperou o sonho chegar. Acordou e viu seu amor abrindo os olhos e sorrindo. Imediatamente entrou sua língua, pois ela não resistia seu beijo lascivo, e foi muito bruto no amor desta, por duvidar de seu amor.Telepaticamente os mestres lhes deram 20 dias lunares de licença escolar.Nos anos seguintes, estudaram de tudo. Medicina básica, engenharia geral, contato telepático com outras dimensões universais, astronomia, geologia, história universal, química, física, pois embora as notas de Eva e Adão fossem baixas, não era o suficiente para serem devolvidos ao planeta. Adão viu seus melhores amigos regressar às aldeias, e Eva viu as melhores amigas partirem. Aproveitavam para escrever cartas à família, enviar presentes, e ficavam chorando cada vez que uma nave partia levando os seres amados, e regressava com outras turmas desconhecidas. Nos últimos anos, começaram a estudar as matérias ligadas ao espaço. Vestiam uniforme preto, e dentro de uma nave se estudava o planeta desde longe. Tudo através de lentes. Devia-se relatar profundidade de rios, densidade das águas, medirem as tormentas, analisarem o calor, calculando tudo de cabeça. Também lhes mediram a resistência no interior de cápsulas espaciais pequenas, onde o casal devia sobreviver. Apenas sobreviver. Dentro das cápsulas havia comidas enlatadas, banheiro, ducha, e uma cama. Só. E as cápsulas giravam em redor ao planeta até que eles apertavam um botão de desespero, ocasionados pela solidão. Enquanto isso, os mestres os examinavam, centímetro a centímetro, e lhes calculavam o tempo que aguentariam numa missão. Até onde chegariam. Até que lugar do Universo poderiam os enviar.
Como Adão e Eva encaixaram nas partes inferiores, como acontecia nos dias da preguiça do não fazerem nada, o tempo parou de existir para eles. Comiam, dormiam, beijavam-se, limpavam os intestinos com toque demolidor de fezes no ânus, e dispensar o banheiro. Separavam-se para lavar o corpo e se refrescarem. A seguir se entrelaçavam eternamente, pois o espaço sempre os deixava mais excitados. Como nunca apertaram o botão para regressar, depois de baterem o recorde de todos os alunos, em todos os tempos, os mestres os trouxeram um dia, examinaram, e viram que haviam rejuvenescido. Pareciam adolescentes de 13 anos cada um. Apenas estavam brancos. Muito brancos. E os enviaram a tomar Sol, numa Lua especial. Uma Lua que possuía oxigênio natural, e uma selva fantástica, sem nada de civilização. Apenas media dúzia de tendas, com mestres que gostavam de se isolar nos dias de descansos. Ficaram nus, correram entre o mato como faziam quando se conheceram, até ficarem bronzeados. Dormiram entre a mata com um cobertor de lã, olhando o planeta de longe, grande, gigante, e as outras Luas que se entrecruzavam, pois cada uma possuía uma órbita diferente. Nos anos seguintes estudaram menos e se divertiram mais. Tinha vezes que iam dançar com amigos, beber cervejas geladas, jogavam uma bola no parque da cidade, ou tomavam Sol de biquíni na beira das lagoas artificiais. A única coisa que nunca souberam era o que deveriam fazer para ser desqualificado, e assim voltar para casa. Mas, um dia, eles finalmente ficaram sabendo. Os mestres chamaram todos os alunos das últimas turmas ao cinema, para ver um filme que se chamava Os farsantes. Era obrigatório. E o cinema lotou de alunos dos últimos anos. Uma das primeiras estrelas da telona era Eva, em frente aos robôs, dando exame de idiomas. Ela mal sabia falar três. Coitada. A seguir Eva entrava no supermercado e começava a escolher coisas, escritas em 100 idiomas diferentes. Ela lia, colocava no carrinho, e a câmera mostrava as embalagens. A plateia ria em coro, até engasgar. Outro farsante era Adão. Não levantava pesos, além de 80 quilos, e nunca ganhara medalha alguma, em esporte algum. Coitadinho. A seguir se via Adão na rua ajudando um engenheiro a trocar rodas. Estavam num declive perigoso, então Adão levantava o carro, todinho ele no ar, como um campeão, enquanto o engenheiro trocava uma roda central. Davam-se um abraço, o amigo agradecia e em seguida o carro ia embora. A câmera mostrava a seguir o que havia dentro do carro: 600 quilos de pedras. Finalmente apareciam todos os campeões de todos esses anos. Subia no pódio a ganhar suas medalhas, e a continuação intercalavam a briga com Adão, quando os desmaiou de um leve soco no queixo.A seguir outros enganadores ficaram à mostra. Pessoas que sonhavam regressar a casa, para levar uma vida mansa entre a natureza. Farsantes que faziam de tudo para enganar os robôs examinadores.Dali em diante Adão e Eva nunca mais tentaram driblar ninguém. Adão era a maior cabeça do planeta, e sua capacidade mental era de um iluminado. Eva era uma guerreira imbatível. Teve participação em campeonatos contra homens, onde ninguém a venceu. Ambos eram prodígios da natureza. Eram duas bombas humanas, e desta vez com um corpo que jamais envelheceria, para desta maneira poder percorrer o universo de ponta a ponta, namorando ou dormindo, como quisessem. E pouco a pouco, de tanto escutar sobre os problemas que havia além desse mundo, Adão e Eva foram se envolvendo na ideia de assumir como Espião. Algo que não era obrigação. Era opção. Um Espião era voluntário, pois nunca um ser humano era obrigado a nada numa civilização superior como aquela.E numa decisão valente, entraram na Unidade de Espionagem, após se formarem com distinção de honra na Universidade. Adão se graduou como Geólogo, e Eva como Agricultora.E desta vez, nessa carreira de espionagem, eles estudaram juntos. Eva sentava no colinho do marido para ver as imagens do Universo no interior do planetário lunar. Os mestres lhes mostravam todas as dimensões, começando pela primeira, onde era a morada dos anjos.Não dava para ver muita coisa, pois no centro do Universo existia uma fornalha gigantesca de energia luminosa, que apagava as estrelas em redor e os inúmeros planetas. Era o lugar onde metade dos indivíduos vivia uma vida encarnada, mas a maioria preferia a vida espiritual. Os mestres falavam que nesse estágio evolutivo o ser humano podia escolher ser imortal na vida, ou ser imortal na morte, ou ter uma vida dupla. Ou seja, eles tinham a possibilidade de entrar num congelador, e sair dele voando como um fantasma. Pelo tempo que se quisesse. Um milhão, dois, três milhões de anos, e um dia regressar ao planeta, entrar na geladeira, pegar o corpo de volta e continuar a vida. E existiam famílias que faziam isso em bando. Saiam todos em viagens pelos mais remotos lugares do Universo e regressavam juntos a continuarem a existência.Depois eles estudaram as dimensões vizinhas, onde os homens viviam dedicados ao trabalho e a pesquisa científica. Os campeões no quesito trabalho estavam no planeta “B de ALPHA”, onde as cabeças eram tão inteligentes que havia gênios trabalhando desde os seis anos. Era o mundo que trabalhava em conexão direta com os anjos. Se havia um problema por demais cabeludo, os anjos imediatamente assumiam a missão, pois eles iam até o fim do Universo conhecido, como fantasmas voadores. Mas se um homem podia solucioná-lo, imediatamente os gênios de “B” procuravam os viajantes estelares, Espiões, guerreiros, e mandavam a frota estelar a trabalhar. Ou seja, um Espião não passava de um sujeito a serviço de “B”, num trabalho contínuo, às vezes em missões de milhares de anos. E foi assim que os anos se passaram.Além de conhecer o Universo de cor, Adão e Eva sabiam das rotas, pois não se podia sair para o espaço sem decorar as rotas. Uma colisão espacial entre naves, por causa da velocidade, seria como uma explosão comparável àquela que dera a origem a todo o Universo. Existiam atalhos em forma de tuneis, existiam linhas retas entre galáxias, mas havia que saber onde mudar os ângulos, e fazer o ziguezague. Também aprenderam pilotagem com modelos de naves diferentes, desintegração de asteroides, desintegração de estrelas em fase terminal, ou de planetas definhando, e o que foi mais difícil de tudo, como evitar os buracos negros. Eles possuíam uma atração tão forte que nada lhes escapava. Somente as almas dos anjos os atravessavam. Mas a matéria se desintegrava no seu interior. Mas, a mente do homem podia os combater. Mas para isso, o cérebro tinha que ter força. E a preparação para desenvolver o poder da mente foi desta vez muito rigorosa. Os alunos viajavam para o planeta, ficavam parados em lugares arriscados, nas beiradas de uma montanha, enquanto os mestres ocasionavam as piores avalanches de neve e pedregulhos por cima deles. E os alunos tinham que deter essa avalanche, e o que era pior, colocá-la de volta, endurecer as neves, e escalar por sobre ela só com as mãos, enterrando as unhas nas paredes escorregadias. Eva, que era acostumada a fazer pó tudo que se passava frente seus olhos, desta vez tinha que evitar que uma montanha inteira caísse por sobre ela. Mas, com Adão ao lado ela podia tudo. Eva desintegrava e Adão levitava. Depois subiam paredes íngremes como panteras. Em cada escorregadia, um levitava o outro. Quando o cansaço os pegava, Eva fazia um buraco na montanha. Adentravam, dormiam, pois a escalada lhes exigia toda a energia corporal.Quando terminaram a carreira de Espião, estavam convertidos em super-homens.Adão ganhou o grau de Espião 001, o melhor, e Eva Espiã 002, com distinção. Ambos com cinco estrelas no uniforme. O maior galardão que se lhes podia dar.Depois, ganharam férias definitivas, até o dia em que fossem chamados para alguma missão estelar. Para Adão a fertilidade ficou para um futuro distante, pois não se podia ser pai e Espião ao mesmo tempo.
Notas finais
Os alunos viajavam para o planeta, ficavam parados em lugares arriscados, nas beiradas de uma montanha, enquanto os mestres ocasionavam as piores avalanches de neve e pedregulhos por cima deles. E os alunos tinham que deter essa avalanche, e o que era pior, colocá-la de volta, endurecer as neves, e escalar por sobre ela só com as mãos, enterrando as unhas nas paredes escorregadias. Eva, que era acostumada a fazer pó tudo que se passava frente seus olhos, desta vez tinha que evitar que uma montanha inteira caísse por sobre ela. Mas, com Adão ao lado ela podia tudo. Eva desintegrava e Adão levitava. Depois subiam paredes íngremes como panteras. Em cada escorregadia, um levitava o outro. Quando o cansaço os pegava, Eva fazia um buraco na montanha. Adentravam, dormiam, pois a escalada lhes exigia toda a energia corporal.
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