Advertência

2 Capítulo 2 — Jefferson


Notas iniciais
Afinal, como é o lugar onde fica o Hospital que Matori morava? E como são as pessoas que moram lá? Tudo está apenas começando.

As grandes janelas da biblioteca pública de Pyr ofereciam uma visão bastante impressionante sobre o mar de folhas que era a grande floresta que cercava toda a Pirâmide.

Pela milésima vez, Jefferson estava na biblioteca olhando por uma das janelas. A visão da floresta inabitada seguia até o horizonte e ajudava o menino a se acalmar, depois de mais uma pesquisa infrutífera. Dali também dava para ver um pouco da área desértica, caso Jefferson olhasse bem para baixo.

Essa tal área desértica era uma espécie de mini-deserto que cercava a grande pirâmide de vidro e ferro na qual Jefferson se encontrava. Toda a visão das janelas da biblioteca era atrapalhada apenas pelas vigas de ferro, pelo brilho do vidro e por alguns dos grandes ventiladores que ficavam do lado de fora, nos últimos metros da Pirâmide, girando como que cansados, gerando parte da energia consumida ali.

Jefferson andara pesquisando sobre o passado do mundo, principalmente sobre como eram as coisas antes da construção de Pyr, porque na escola muito pouco era falado sobre o lado de fora. A maior parte das aulas de história era sobre as redescobertas e os problemas superados pela população da Pirâmide e os estudantes achavam que esses assuntos tratavam de situações totalmente entediantes.

Ia sempre à biblioteca e já era próximo de Adelaide, a bibliotecária, que nunca deixava de lhe oferecer biscoitos e refrescos.

Começou a frequentar o local com a intenção de achar livros que falassem sobre ursos. Então, como encontrou bastante material sobre o assunto, passou a ir ao prédio quase que diariamente.

Um dia, Adelaide perguntara o porquê de ele gostar tanto de ursos e Jefferson respondeu que houve uma época — próxima da que começou a ir à biblioteca — em que estava tendo muita insônia e pesadelos. Sua mãe conversou com ele para tentar descobrir a fonte do problema, e Jefferson revelou que tinha muito medo do escuro, que via monstros toda noite em seu quarto. Então, no dia seguinte, ela lhe dera um ursinho de pelúcia marrom, contando que ele o protegeria dos monstros e dos pesadelos. Jefferson perguntou à mãe como o ursinho poderia protegê-lo, então seu pai colocara uma pequena espada de madeira na mão do animalzinho de pelúcia. Daí em diante, Jefferson voltou a dormir tranquilamente, sempre abraçado com seu pequeno urso, a quem chamou Tací. Desde então, tornara-se aficionado por ursos, colocando pôsteres na parede de seu quarto com fotos dos animais pescando em rios e caminhando nas florestas, sujos de lama.

Mas a última pesquisa de Jefferson não fora sobre ursos. Procurara informações sobre a origem da espada que possuía.

Recebera a arma em seu aniversário de treze anos. Seu pai disse que já estava na hora da espada de madeira de Tací ser substituída por uma que Jefferson pudesse usar para se defender sozinho dos monstros. Os apelos do menino sobre o fato de não acreditar mais em monstros de nada adiantaram. Então levara o filho até o apartamento de seus próprios pais (no caso, os avós de Jefferson) e tentara convencer seu próprio pai a dá-la ao neto. O avô de Jefferson negou intensamente. Uma arma daquelas era muito perigosa para uma criança. Seu pai argumentou que tomaria extremo cuidado, mas o avô continuou negando. O pai de Jefferson então cochichou com o filho que tentariam novamente no dia seguinte e no seguinte ao seguinte, até que conseguissem.

Depois de dias de insistência, coincidindo com o aniversário de Jefferson, o avô cedera a arma, mas não antes de contar a história sobre como a conseguira.

Ele, seu avô, fora de uma das primeiras formações da polícia de Pyr. Tinha participado de uma missão de exploração das caldeiras, que ficam a quilômetros no subsolo da Pirâmide e servem para consumir todo o lixo gerado pelos habitantes dela. Contou que achara uma sala repleta de armas antigas, dentre elas a espada, que guardou para si como símbolo da importante descoberta (“e como lembrança de uma policial por quem era apaixonado e havia ido na missão comigo, mas sua avó não pode saber disso, menino”).

Rindo, Jefferson concordou com o trato e aceitou a arma de bom grado. Mas, antes de entregá-la, seu avô contou mais algumas coisas.

Disse que se tratava de uma espada abençoada e que era muito forte, mas que Jefferson deveria tomar cuidado se viesse a usá-la, porque não era a única do tipo. Era uma espada bonita, do mesmo estilo das que os cavaleiros usavam antigamente, montados em grandes cavalos e com pesadas armaduras, concluiu o velhinho.

Sobre esse assunto, Jefferson chegou a encontrar algo num dos livros que pesquisou. Vislumbrou imagens de cavaleiros com pesadas vestimentas prateadas manejando espadas parecidas com a sua, mas não havia nenhum relato que descrevesse alguma arma em específico. Histórias sobre espadas lendárias existiam ali aos montes, mas Jefferson não achava que a sua fosse uma delas.

Nunca havia perguntado a seu avô sobre como ele sabia sobre a tal bênção e a força que a arma tinha, e nem pensava em perguntar. Seu pai dissera para guardá-la em segredo de sua mãe, pois ela não gostaria de vê-lo com uma arma desse tamanho.

O segredo também era partilhado com mais uma pessoa: o melhor amigo de Jefferson, Ricardo, que coincidentemente também possuía uma espada, mas de lâmina fina e comprida, em estilo oriental — segundo o que leram num livro antigo. Tinha o cabo vermelho, com uma fina corda de mesma cor presa em sua ponta e, por sua vez, na ponta da corda, havia um pequeno objeto negro e bulboso, com a extremidade em forma de lâmina, parecido com a ponta do rabo de um escorpião.

A espada de Ricardo também fora dada a ele por um ancestral, sua avó materna. Ela disse ao seu neto quase as mesmas palavras que o avô de Jefferson, mas ainda contou algumas coisas mais. Disse a ele que a arma se tratava de um objeto sagrado, mas que tinha sido conseguido através de meios ilícitos, por isso Ricardo deveria ter cuidado se fosse usá-la, pois ela poderia não responder às suas vontades.

Jefferson passara aquela tarde examinando os livros da Biblioteca Central de Pyr na intenção de achar algum fato nos livros de história que o levasse até a origem de sua espada, ou pelo menos da de Ricardo, mas tudo o que encontrou foi informações sobre as grandes descobertas da antiguidade e As Duas Grandes Guerras — que eram algumas das poucas coisas que eles sabiam ter acontecido no mundo antes da existência de Pyr. Antes do planeta reduzir sua população apenas a quem estava na Pirâmide.

Também não achara nenhuma citação sobre as caldeiras que ficavam abaixo da Pirâmide, embora sua existência fosse de conhecimento comum, nem sobre a missão da qual seu avô dissera ter participado, o que Jefferson já esperava, pois também havia sido informado de que essas coisas só ficavam registradas na própria polícia, o que dava abertura para muitas lendas urbanas envolvendo os corredores secretos da base da pirâmide.

Pensou em se encontrar com Ricardo para discutirem a possibilidade da espada deste ter sido encontrada junto com a de Jefferson, embora a avó do amigo não tenha feito parte da polícia, o que tornava essa possibilidade praticamente nula.

Depois que passaram a compartilhar o segredo das espadas, Ricardo e Jefferson se tornaram mais amigos do que já eram, tentando descobrir mais sobre as armas, mas nunca conseguindo achar grandes coisas além do que seus avós já haviam contado.

Então estava ali, parado em frente à janela, pensando. Repentinamente sentiu vontade de ir para casa.

Enquanto se dirigia à porta, pensou em pesquisar um pouco mais antes de ir embora. Talvez ligasse para a casa de Ricardo, informando mais um dia de fracasso na obsessão da dupla. Depois passaria na casa de mais algum amigo, para só depois, talvez, ir para casa dormir.

* * *

Fez tudo o que havia planejado, e, à noite, quando voltou para casa, descobriu que seus pais ainda não haviam chegado. Talvez estivessem fazendo plantão na polícia, como ficavam às vezes e, na maioria dos casos, sem avisar com antecedência, pois eram agentes especiais e sempre tinham missões que apareciam do nada. Só não sabia de onde vinha tanto trabalho para a polícia, já que o índice de violência em Pyr era insignificante.

Quando foi até a geladeira, após escovar os dentes e antes de ir para a cama, Jefferson encontrou um bilhete de sua mãe colocado em cima da mesa, junto a um pacote de pão e um pote de geleia, que informava a ele que ela e seu pai, que eram chefes de seu departamento, estavam no H.R.S. (Hospital Raphael Schlecht). O bilhete de sua mãe também dizia que estava tudo bem com eles, que talvez passassem a noite lá, investigando uma ocorrência.

Notas finais
Estão mais perdidos? Estão começando a entender alguma coisa? Querem mais respostas? O próximo capítulo já está postado!