Adversões A Felicidade
1 A mudança
Estávamos todos tristes, mas ao mesmo tempo felizes com a mudança da vovó. Tristes porque ela ia se mudar, não seria a mesma coisa chegar na casa da vovó e encontrar tudo vazio, sem a nossa amada mentora. Felizes porque ela ia ser feliz já que tinha o sonho de plantar arroz nas margens de algum vulcão da China e, desde que o vovô morreu ela nunca mais dera um sorriso como o de semanas atrás, ao saber que bancaríamos sua estadia lá até ela conseguir se manter. Ficamos muito felizes ao ver aquele lindo sorriso que há tempos não víamos.
A última mala foi levada até o taxi e papai falou que eu deveria ficar pois já era muito tarde e seria perigoso ir ao aeroporto àquela hora da madrugada. Dei milhões de beijos na vovó e disse que a visitaria o quanto antes, ela disse que esperaria ansiosa. Ela entrou no carro com papai, mamãe e uma tia minha que morava com ela desde que vovô morreu, acenei até eles desaparecerem na escuridão. Voltei para casa, que era ao lado, e fiquei cuidando da minha irmã menor. Assistimos um filme e minha irmã dormiu, eu ainda estava sem o mínimo sono e resolvi ligar para o Gui, meu melhor amigo.
- Alô? — Disse ele com uma voz de muita preguiça.
- Oi Gui, aqui é a Ana, tou sozinha em casa e sem a mínima vontade de dormir, topa vir aqui e assisti um filme comigo?
- Ah Ana, eu já estava dormindo...
- Acha que não percebi? Mas agora eu já te acordei, você deve ter perdido o sono, então vem pra cá, a gente faz brigadeiro, pipoca e assiste algum daqueles filmes de tragédias ou alguma comédia romântica.
- Ta muito tarde, deixa pra amanhã.
- Não, não, dorme aqui em casa, deixa um bilhetinho para os seus pais, eles sempre deixam você dormir aqui, não vão reclamar.
- Ta tarde Ana, vai dormir.
- Vem logo Gui.
- Amanhã eu vou ai bem cedinho.
- Amanhã não, venha hoje.
- Ta Ana, ta bom, cinco minutos eu chego ai, me deixa só colocar uma roupa.
- Deixe de besteira, vem assim mesmo, não tem ninguém na rua e você vem dormir né? Então...
- Posso pelo menos colocar uma escova na minha bolsa?
- Ta, ta. Não demora!
- Já tou chegando.
- Claro que não, liguei pra sua casa.
- Para de encher Ana, logo logo tou ai.
- Ok.
O Guilherme era daquele tipo de garoto que toda garota gostaria de ter como namorado, porém éramos só amigos, nunca tive qualquer atração por ele, somos amigos desde a infância, quando ele veio morar aqui no bairro. Quando era pequeno, era o magrinho, de cabelo liso e olhos claros, não azuis nem verdes, mas um misto dos dois. Cresceu e se tornou o estereótipo de garoto-novela. Tem um pouco do que chamam de corpo musculoso, não exageradamente, os olhos continuam os mesmos e o cabelo mudou também, agora é um pouco cacheado. No começo mamãe não gostava quando eu chamava ele para dormir aqui em casa, achava que eu e ele teríamos algo, mas ao passar do tempo ela viu que era só amizade e hoje dormimos no mesmo quarto.
Dez minutos depois ele chegou, com o cabelo mega bagunçado e de samba-canção.
- E os cinco minutos mocinho?
- Que besteira Ana, tem o que ai pra gente?
- Vamos primeiro fazer a comida. Tem um restinho de pizza na geladeira.
- Eu faço a pipoca, você sempre deixa queimar.
- Ta certo, o meu brigadeiro é mesmo melhor que o seu.
Fomos pra cozinha, como foi dito, eu fiz o brigadeiro e ele a pipoca. Requentei a pizza e fomos para a sala com a pipoca e a pizza enquanto o brigadeiro esfriava. Assistimos "Como se fosse a primeira vez". E depois "Sorte no amor", comendo brigadeiro. Eu já estava ficando com sono, Gui quase dormiu no meio do filme. Nos dirigimos, quase caindo, ao quarto. A cama estava uma bagunça e nos deitamos assim mesmo.
- Gui?
- Que é Ana? Falou ele, com a mesma voz que atendeu o telefone.
- Ta com sono?
- Muito.
Depois de um ou dois minutos, quebrei o silêncio.
- Será que a vovó vai voltar a morar aqui?
Não obtive resposta, Gui já estava dormindo. Dei leves sacudidas nele, mas o seu sono era tanto que o que ele disse foi: — Mãe, só mais cinco minutinhos. Ri e chamei-o de sonâmbulo, mesmo sabendo que não ouviria. Virei para o outro lado, fiquei mais uns dois ou três minutos pensando na vovó e dormi.
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