Adventures in Paris

1 Capítulo 1 - Uma Nova Cidade


Notas iniciais
Então gente, espero que gostem! ♥ Comentários são sempre bem-vindos ♥

Acordou com o som alto de seu despertador.

Se sentou na cama, passeando as mãos no cabelo escorrido pela face ainda amassada de sono. Jogou os cachos castanhos para trás, tentando prender os mesmo em um coque frouxo, antes de se levantar afundando os pés frios no carpete rosa claro felpudo.

— Tudo bem Paris, vamos ver o que tem para mim.- marchou até a janela circular do quarto, pressionando o rosto levemente contra o vidro, sentindo o mesmo embaçar com sua respiração acelerada de ansiedade.

A vista era perfeita, isso não podia negar. Da pequenina janela era possível ver uma ruela pouco movimentada, as calçadas cinzentas estavam perfeitamente limpas, com alguns arbustos bem aparados e algumas poucas pessoas passeando com seus cachorros ou fazendo uma corrida matinal. Uma série de prédios ao estilo vitoriano preenchiam os quarteirões, telhados altos e retos, enfeitados com sacadas de grades moldadas. Uma pomba gorducha voou suavemente, ou ao menos tentou, até pousar no apartamento de frente ao da garota, e soltou um som agudo trazendo a morena de volta para a realidade.

Olhou para o pequeno relógio colocado estrategicamente em cima de um criado mudo de madeira clara, o mesmo marcava que mal tinham se passado das sete da manhã. Sorriu, gostava da sensação de não estar atrasada e poder se preparar com calma e dedicação. Afinal, como sua mãe sempre dizia, a pressa é inimiga da perfeição.

Se virou, girando o corpo nos calcanhares, e fitou o restante do quarto espaçoso. As paredes possuíam um tom de verde claro, um tanto quanto azulado, e os rodapés brancos em perfeito estado, alguns quadros de pinturas representando flores tropicais estavam dispostos formando um tipo de mini galeria particular. A cama de casal, coberta por lençóis brancos de seda, tinha uma cabeceira larga rosa com botões prateados costurados à mão, e ficava ao lado do criado-mudo com apenas uma relógio, uma abajur de porcelana em forma de passarinho e uma caixa quase vazia, apenas com alguns acessórios que ainda não tinham lugar sobre sua superfície lisa. Caixas maiores estavam largadas no chão, algumas abertas com algumas peças de roupa ou sapatos escapulindo, e outras ainda fechadas com fita adesiva grossa, mas todas perfeitamente identificadas em letras caprichosas pretas.

Encarou a própria figura no espelho mal posicionado na única parede desocupada, o corpo em forma de ampulheta coberto por uma camiseta de um time de hóquei qualquer do Canadá.

Sua pele era bronzeada, talvez até demais para alguém que viveu toda a sua vida em Quebec, em contraste com os grandes olhos verdes terrosos, o rosto arredondado com sardas castanhas claras salpicadas. O cabelo, agora solto, formava uma moldura de cachos longos e pesados em um tom de marrom que a fazia sempre se lembrar de barras de chocolate ao leite.

— Vamos lá, o que vestir em meu primeiro dia?- se pegou mais uma vez falando sozinha, um hábito que adquirirá depois de anos morando apenas com a mãe ausente.- Tenho que escolher algo discreto, não quero ficar parecendo um tipo de pavão...

Vasculhou a caixa mais próxima, com uma etiqueta com “nova coleção de inverno” escrito em preto, em busca de algo confortável mas ao mesmo tempo estiloso. Escolheu um suéter de lã fina em um rosa tão escuro que seria facilmente confundido com vermelho, com detalhes discretos em forma de linhas grossas na horizontal por toda a região das mangas longas, e ao vestir o mesmo sentiu uma ótima sensação, a fazendo se lembrar do dia que o ganhou enquanto ainda morava com ambos pais em uma cidade pequena do Canadá.

— E agora… calças jeans são muito simples, mas shorts podem ser muito ousados, principalmente para o primeiro dia…- comprimiu os lábios, franzindo o cenho enquanto fitava o interior da caixa em busca de algo que se encaixasse em seu padrão.

Só então reparou em um pacote reluzente colocado sob uma das caixas maiores, amarrado por uma fita azul vibrante. Foi até o mesmo com curiosidade, e ao abrir deu de cara com uma peça de roupa embrulhada sob um cartão. Ergueu o mesmo para lê-lo, não conseguindo deixar de sorrir com as palavras escritas no mesmo.

— “Um presentinho de boas vindas, agradeço pela compreensão com sua mãe. Com carinho, Gabriel Agreste”.- leu o mesmo pelo menos mais três vezes, não conseguindo acreditar que as palavras tinham vindo realmente de Gabriel Agreste, o dono da grande empresa Agreste de moda cuja a qual sua mãe trabalhava fazia pouca mais de catorze anos.

Apesar de já ter presenciados nem meia dúzia de momentos em que o mesmo fora extremamente legal, gostava do homem. Era sério e não tolerava brincadeiras, muito menos atrasos, mas tinha algo nele que deixava a garota confortável, só não sabia bem o que. Também o fato de ser pai de seu melhor amigo de infância, Adrien Agreste, ajudava para que a garota se sentisse bem na presença do senhor Agreste.

Desdobrou a peça de roupa, que se mostrou ser uma saia godê preta de couro molinho, a barra arredondada com pequenos furinhos formando flores vazadas era de um couro mais duro, pesando a mesma para que não saísse do formato. Era linda, maravilhosa, e mal podia esperar para experimentar.

Vestiu a mesma com rapidez, correndo novamente para a frente do espelho e dando algumas voltinhas. Estava se sentindo linda, e para ela era isso que importava. Calçou um par de botas marrons claras de cano curto, com um salto alto apenas suficiente para deixá-la na altura média das garotas da sua idade.

Deu mais uma verificada no horário. Ainda estava cedo mais tinha perdido tempo demais com a roupa, então apenas correu para a cozinha quase tropeçando nos próprios pés. Quando chegou no cômodo, encontrou a mãe sentada em um dos bancos da bancada de mármore lendo uma revista de fofoca que contava as novidades de Paris.

— Bom dia senhora Hope.- abraçou a mãe por trás, surpreendendo a mesma que apesar do som dos saltos pareceu não a ouvir chegar.

— Senhora não!- a mulher sorriu, se virando no banco na direção da filha.- Mas vejo que você está bem animada, hein Charlotte?

Revirou os olhos, pegando uma maçã perfeitamente vermelha na fruteira posta sobre o mármore ao lado de um vaso cheio de rosas. Odiava quando sua mãe a chamava de Charlotte. Tudo bem que era de fato seu nome, mas era apenas o segundo nome. Victorie Charlotte Hope às vezes soava muito pomposo para seu gosto, por isso optava por ser chamada de apenas Vic ou no máximo seu primeiro nome.

— Claro que estou animada. Sei que não queria ter me mudado de Quebec, mas já que estamos aqui temos que aproveitar.- deu uma mordida grande na fruta, sorrindo para a mãe.- E além do mais, quero muito ver o Adrien mais uma vez.

— Ah, verdade! Ele vai estar na sua turma, espero. Conversei no colégio e com o próprio senhor Agreste para que todos os detalhes estivessem certos sobre vocês dois, a mesma turma, os mesmos horários, o mesmo-

— Ei mãe, tá tudo bem.- interrompeu a mulher, que às vezes passava do nível comum de ansiedade.- Já vou indo, quero chegar cedo para conhecer os meus novos colegas. Você me busca ou vai querer que eu volte à pé?

— Na verdade, você vai precisar voltar com o motorista dos Agreste. Vamos almoçar na casa deles hoje, vai ser um almoço de negócios. E o jantar também, vão ser convidados grandes personalidades de toda a França. Mas esse vai ser mais formal, então trate de usar algo muito apresentável.- a mulher deu um grande gole em seu suco de morango antes de beijar a bochecha da filha, que logo se lançou para fora do pequeno apartamento, saindo do prédio o mais rápido possível.

Corria pelas ruas, os saltos fazendo sons graves quando chocados contra o cimento. Carregava a mochila em apenas um dos ombros, quase derrubando a mesma a cada passo. Tentava gravar cada detalhe das ruas em sua mente, não apenas para saber o caminho para os próximos dias mas também para apreciar a vista. Era uma pena que sua primeira caminhada por Paris era de seu novo apartamento até sua escola, sem tempo para apreciar o caminho, mas aquilo era melhor que nada. Ficou feliz por ter pego um táxi no dia anterior quando tinha chegado na cidade, de forma que conseguiu decorar ao menos o caminho que passaria a fazer todos os dias.

Parou na frente do edifício de paredes claras, repleto de janelas altas cada qual de vidros quadriculados, a porta de madeira avermelhada no topo de uma escadaria de verticais decrescentes parecia convidativa, coisa que não combinava com um colégio. Subiu os degraus com umas mistura de animação com ansiedade, e uma leve pitada de desespero. Sempre lidou consideravelmente bem com mudanças e novidades, depois do divórcio dos pais nada mais a pegava desprevenida, mas tinha que admitir que aquela súbita mudança para Paris conseguirá a atingir em um novo ponto emocional. Em cada passo uma perguntava nova surgia em sua mente. Será que iriam gostar dela? E se não encontrasse com Adrien? E se ele não fosse mais o mesmo? E se as aulas fossem mais difíceis que no Canadá?

Estava quase dando meio volta quando se encontrou no pátio, uma grande quadra multi-esportiva com alguns bancos de madeira em suas laterais onde a provável maioria de alunos devia passar seu intervalo, localizados ao lado das portas das salas. Quatro escadas de metal verde, cada uma posta em uma ponta do retângulo que era o primeiro andar, subiam para um novo andar de salas no mesmo formato que o primeiro. Bateu com os saltos um contra o outro três vezes como em uma singela referência ao filme Mágico de Oz, ajudando a se acalmar.

Olhou para o pequeno tumulto de estudantes que estava se formando na sua frente, pessoas se encontrando e se abraçando, batendo papo e até mesmo apenas lendo um livro em um dos bancos, e por um momento se perguntou se iria se encaixar. Nessa mesma hora reconheceu um rosto que não via a muito tempo.

— Hey Vic!- o garoto acenou para ela, a reconhecendo para a surpresa da mesma, e a chamou com a mão para se aproximar.

Adrien continuava o mesmo de cinco anos atrás, o que a garota agradecia muito, só mudando o fato de que tinha crescido bastante e ficado ainda mais bonito, se é que era possível. Seu cabelo loiro dourado estava mais comprido, formando uma franja de lado extremamente charmosa, os olhos tinham um tom de verde esmeralda, passando tranquilidade e calma para quem quer que os olhasse com atenção.

— Nem acredito que você realmente está aqui!- a morena foi surpreendida por uma abraço apertado de Adrien, que parecia muito mais feliz com a sua presença do que ela jamais imaginara.- Quando meu pai me disse que você se mudaria para Paris fiquei tão animado. Faz anos que a gente não conversa direito!

— É mesmo, tenho que admitir que o fato de você estar aqui ajudou à essa mudança parecer melhor. Quero dizer, uma coisa é a gente conversar por emails, outra é se ver pessoalmente todos os dias.- se soltou dos braços do garoto, que ainda a olhava com atenção, quase como se quisesse comparar todos os seus traços atuais com as lembranças que tinha da morena.

— Ah, quase me esqueci. Esse daqui são Nino, Alya e Rose. Meus amigos.- Adrien parecia ter um certo tipo de orgulho ao dizer a última frase, fazendo a garota sorrir.- Essa daqui é a Victorie. A mãe dela trabalha com meu pai em algumas coleções e campanhas, somos amigos desde que éramos muito pequenos. Talvez eu já tenha mencionado ela para vocês alguma vez.

— Talvez? Ele fala tanto de você que já sinto como te conhecesse a anos!- um garoto de olhos amendoados que usava um boné vermelho cobrindo seu cabelo castanho deu um passo à frente na direção de Victorie, uma tentativa de fazer a garota se sentir parte do grupo.

— É verdade garota. Já podemos nos considerar melhores amigas!- Nino passou o braços por sobre os ombros de outra garota que se juntou à eles, seu cabelo era de um castanho avermelhado que ia ficando com cores mais vivas nas pontas e usava óculos de armação simples preta na frente de seus olhos mel.- Vamos Rose, não seja tímida.

Alya estendeu a mão para a única pessoa do círculo que tinha ficado mais para trás, a convidado para se juntar aos outros. Uma garota baixa, mais ou menos da altura de Victorie, de cabelos loiros muito curtos se aproximou deles em passos curtos e discretos, suas sapatilhas rosas batendo no chão da forma mais suave possível. Ela tinha olhos azuis grandes e gentis, a fazendo parecer uma boneca de porcelana. Acenou timidamente para Victorie, que retribui o gesto feliz ao notar como os amigos de Adrien pareciam legais.

Ouviu um pigarreio atrás de si, se virando para encontrar uma garota de cabelos negros azulados presos em marias-chiquinhas baixas. Esboçou um sorriso e estava pronta para a cumprimentar quando Adrien passou na sua frente abraçando a mesma e depositando um beijo em sua bochecha com carinho. Aquilo era algo normal entre amigos, mas Victorie sentia que tinha algo à mais.

— Ah! Porque não me contou que você estava namorando?- a morena sorriu com o olhar, vendo a outra garota corar.- Prazer, meu nome é Victorie, sou amiga de infância do Adrien. E você é…?

— Hum, ah, Marinette. Marinette Dupain-Cheng. Sou da class- ahh, colega, hum, amiga! Amiga do Adrien.- ela sorriu de forma envergonhada, os olhos azuis vibrantes quase se fechando enquanto a face ficava ainda mais avermelhada.

— Então essa é a famosa Mari?- cruzou os braços, vendo Alya e Nino rirem ao fundo à medida que Marinette ficava mais nervosa.- Adrien já me falou de você algumas vezes. Citou também seu talento para estilista.

— É mesmo?- a garota pareceu surpresa, não sabendo escolher qual faceta assumiria no momento: assustada ou envergonhada.

— Claro que sim. Me mandou uma foto daquele chapéu que você fez para um concurso.- Victorie bateu de leve no ombro de Adrien, que corou.- Achei sensacional. Algum dia você podia me mostrar seus esboços.

— Ah, claro. Não é sempre que as pessoas parecem interessadas pelos meus designs.- Marinette sorriu, ficando cada vez mais à vontade com a presença da novata.

— Sou filha de estilista, devo dizer que está no sangue.- Victorie deu de ombros, na mesma hora em que um alarme agudo ecoou, e a massa de estudantes começou à se dispersar.

— Vamos subindo, a primeira aula é de literatura.- Nino apontou para o segundo andar, mostrando para Victorie onde seria sua nova sala de aula.

O grupo começou a subir as escadas, Nino e Alya abraçados logo na frente de Marinette e Rose, que conversavam animadoramente. Victorie respirou fundo, seguindo os outros. Seus passos estavam cada vez mais pesados, como se cada vez que chegasse mais perto da sala mais lento tudo ficava à sua volta.

— Ei, gostei de ver. Sabe, o jeito que você interagiu com todo mundo.- Adrien diminuiu o ritmo, tentando andar na mesma velocidade que a amiga.- Vai se dar muito bem aqui.

— Isso que eu espero.- suspirou, as mãos segurando as alças da mochila em busca de conforto.

Adrien sorriu com carinho, o olhar sempre focado no rosto da garota. De fato ela não tinha mudado muito, continuava com o mesmo rosto redondo e os olhos em um castanho claro quase que âmbar. Seu cabelo tinha crescido e os cachos se tornaram fios lisos, naquele dia com a franja presa para trás, descendo pelos ombros magros. Ela era linda, sempre fora. E Adrien tinha sentido mais falta dela do que podia jamais desejar. Seu olhar subiu para Marinette, que da forma mais discreta que conseguia o olhava a cada dez segundos. Não conseguiu deixar de sorrir para ela, era provavelmente a garota mais adorável que já conhecera.

— Bom dia classe!- cada aluno foi para seu lugar na hora em que a professora chegou, seu rosto delicado trazendo um ar gentil para a sala.- Todos sentados, hoje temos uma nova colega.

Caline Bustier era uma mulher alta e magra, sempre elegante usando conjuntos em tons pastéis, como um perfeito esteriótipo de uma francesa. Seu cabelo era ruivo alaranjado, preso em um coque firma para trás deixando apenas alguns fios soltos caindo por sobre seus olhos verdes água.

— Venha aqui se apresentar, minha querida.- Caline apontou para a frente da lousa, indicando onde a garota poderia ir para fazer uma típica apresentação de novata.

— Bom, meu nome é Victorie Hope. Sou nascida e criada no Canadá, em Quebec. Me mudei para cá já que minha mãe foi transferida, e bom, gosto bastante de hóquei e teatro.- Victorie forçou um sorriso, se sentido levemente intimidado por todos os rostos lhe encarando.

— Ah, teatro! Isso é maravilhoso. Pode se sentar ali, atrás da Alya.- Victorie seguiu até o lugar indicado, uma mesa de madeira larga com duas cadeiras, porém ambas vazias.- Falando em teatro, hoje vamos começar falando sobre Shakespeare.

A aula seguiu sem contratempos, apenas a professora lendo textos do livro de literatura de forma animadora enquanto os alunos mal prestavam a atenção, alguns desenhando em seus cadernos e outros apenas apoiando a cabeça nas mãos, o olhar vagando longe. O tempo mal parecia passar, e apesar de seu francês não ser dos melhores, agradeceu por ter sido criada em Quebec em não em outra parte do Canadá, de forma que se virou consideravelmente bem durante as aulas de gramática e até mesmo de química.

O fim das aulas não tardou a chegar, de forma que logo que o sinal soou cada um dos alunos guardou seu material e saiu da sala quase que voando, com exceção de Adrien, Nino, Marinette e Alya. O grupo conversava sobre algum assunto banal quando Victorie se aproximou timidamente, a mochila em ombros.

— Estamos pensando em ir ao parque hoje de tarde, fazer um piquenique ou algo do tipo. Você topa?- Alya fez o convite, terminando de colocar os livros dentro de sua bolsa.

— Acho que sim, tenho que ver com minha mãe. Mas acho que vai ser bom passear por essa cidade.

— Você vai amar tudo! Podemos te levar à melhor sorveteria da cidade mais tarde, eles têm um sabor incrível de chocolate com nozes.- Nino guiou o grupo para fora da sala, descendo as escadas em pulos.

— Ótima ideia! Sou apaixonada por aquele de amêndoas.- pararam quando chegaram nos portões principais, Marinette ficava cada vez mais animada, se demonstrando a pessoa meiga e simpática que Adrien havia descrito.

— Trocamos mensagens combinando a hora, mas agora temos um longo e tedioso almoço de negócios.- Adrien se despediu dos amigos ao ver a limusine que parou rente à calçada, o motorista o encarando com um tipo de nervosismo. Ele era um cara lega, o “Gorila”, apesar de um tanto quanto rabugento.

Puxou Victorie pelo braço, ambos marchando apressadamente até o carro. Sentaram no banco de trás, recebendo um seco “bom dia” da assistente pessoal de Gabriel Agreste.

— Nathalie, será que tenho um horário livre depois do almoço?- o garoto se inclinou para a frente, os braços cruzados sobre o peito.

Nathalie Sancoeur tinha os olhos focados em uma prancheta que estava em suas mãos, com uma grande planilha indicando toda a agenda pessoal de Adrien para o dia. Depois de alguns segundos avaliando os números se virou para o loiro que mantinha um tom esperançoso na face.

— Você sabe que seu pai não gosta que saia de tarde para frivolidades. É alguma aula extra em sua escola?- sua voz era fria, mesmo que ela não soasse mal educada, apenas distante e cordial.

— Estava pensando em levar a Victorie para conhecer a cidade. Sei que o senhor Agreste vai concordar.- Adrien olhou animado para a morena ao seu lado, que se mantinha quieta e com os olhos focados nos sapatos.

— Podemos ver. Você tem um horário livre das quatro às seis, falarei com seu pai quando chegarmos para ver se ele concorda.- a mulher se virou suavemente para trás, só então permitindo que Victorie a visse direito, revelando seu olhos azuis escondidos por trás das grossas lentes dos óculos.

O resto da viagem seguiu calma, cada um preso dentro do próprio mundo. Victorie olhava pela janela, tentando guardar o máximo de detalhes possível. Passaram por uma avenida movimentada, logo ao lado de um centro comercial. Viu vários tipos de lojas, desde boutiques até pequenas confeitarias, com vitrines grandes e pomposas. Passaram por uma praça com um grande outdoor da revista La Mode que estampava uma foto de Adrien Agreste usando a última roupa da moda. Olhou para o garoto ao seu lado, e percebeu o quanto eram diferentes. Um, na imagem, parecia querer passar uma imagem de liberdade e rebeldia, enquanto o sentado no banco de couro apoiava a cabeça nas mãos em uma típica versão de tédio.

Quando adentraram a mansão dos Agreste Victorie foi surpreendida por uma visão de sua mãe mais animada do que nunca, se é que isso era possível. Cassidy Hope estava vestindo uma blusa regata azul clara de seda fina, um modelo fresco chegando à parecer uma bata, em combinação com uma calça jeans branca de caimento perfeito. Seu cabelo era mais curto do que o da filha, em um corte moderno e levemente ondulado, em um degrade do castanho escuro ao loiro dourado, e os olhos azuis chamativos que faziam Victorie se arrepender de não ter herdado.

— Charlie, meu amor!- a mulher andou em passos rápidos na direção da filha, seus sapatos de saltos com tiras de couro batiam no chão liso com força fazendo um som agudo.- Se divertiu hoje?

A garota concordou com a cabeça, franzindo a testa para o apelido que a mãe insistia em lhe chamar. Cassidy abraçou a filha antes de guiá-la pelo enorme casarão, apontando para peças de arte caras, e alguma até únicas, e soltando nomes de artistas que Victorie nunca iria se lembrar. Pararam perto da mesa longa de madeira escura onde o almoço estava sendo servido, uma mulher colocava pratos e talheres suficientes para dez pessoas com direito até à guardanapos dobrados em formato de cisnes. Um homem alto usando uma roupa típica de chefe de cozinha trouxe pratos largos com as mais diversas comidas, desde uma comum salada de ovos até um perfil inteiro sob molho de laranjas.

Antes de se sentarem sentiu o toque do senhor Agreste em seu ombro, a fazendo se virar. Ele segurava uma caixa nas mãos pálidas, e mesmo com a boca fechada seu olhos sorriam. Algo em seu jeito dizia que ele simpatizava com a morena.

— Uma pequena lembrança, para uma garota muito especial. Espero que goste. É uma, bom, relíquia. De certa forma. Já passou por muitas pessoas, todas foram merecedoras. Você se acha digna?- o olhar um tanto quanto paternal, algo que Adrien discordaria com certeza, de Gabriel deu lugar para um tom precavido, como se aquela pequena caixinha guardasse as histórias de toda uma vida. Ele lhe encarava de um jeito nunca visto, como se seus olhos quisessem contar um longo segredo guardado a muito tempo.

— Hum, acho que sim. Muito obrigada senhor Agreste. Imagino que é algo muito especial.- passeou os dedos cobertos por anéis de pedras brilhantes pela caixinha coberta por cetim rosa, os mesmos formigando para poder abrir o pacotinho.

— É, de fato. Muito especial.- o homem desviou o olhar para longe, um de seus convidados acabara de chegar usando um vestido amarelo berrante muito desconfortável para os olhos, e franziu o cenho, saindo apressado e deixando Victorie mais uma vez sozinha.

Guardou a caixinha com toda a delicadeza que tinha em sua bolsinha de mão, algo muito parecido com uma pequena trouxinha com uma alça de corda trançada em dourado, e pendurou a mesma em seu ombro.

Se dirigiu ao banheiro, com o intuito de verificar sua maquiagem, até chegar em algo que mais parecia uma suíte de tão grande. Aplicou mais uma camada de máscara nos cílios e retocou o pó no nariz, colocando todo o conteúdo de sua bolsa sobre a bancada. Fitou a caixinha que tinha acabado de ganhar, e não resistiu em abrir a mesma. Parecia a embalagem de uma jóia, e imaginou que agradaria bastante se almoçasse usando a mesma. Abriu a caixa com dedos ansiosos, revelando um tipo de broche que parecia um pavão, o corpo pequena na parte central e a grande cauda ver-mar com pérolas azuladas. Pegou o mesmo nas mãos finas, avaliando melhor a peça e notando que não era um broche e sim um tipo de acessório para o cabelo, como um pente espanhol, com os dentes presos na parte de trás. Prendeu metade do cabelo em um coque e colocou o presente na frente, e de repente um choque atingiu seus dedos.

Uma luz forte cobriu sua visão, a fazendo gritar abafado, e foi diminuindo o brilho até que algo surgiu na sua frente. Primeiro achou que era um inseto, mas teria que ser um inseto muito grande. Grande e que pairava no ar.

E então a coisa abriu os olhos, revelando um par de íris verdes vibrantes quase que humanas.

— Mas o que…?

Notas finais
Espero que tenham gostado!