Adventures in Paris

2 Capítulo 2 - Paon Fille


— Mas o que...?

A criatura piscou.

Um grito quis cortar sua garganta. Sua respiração começou a ficar acelerada, o peito subia e descia de forma desregulada.

— O que é isso? Você é um tipo de brinquedo novo?- estendeu a mão, pronta para encostar no objeto que podia ser facilmente confundido com um brinquedo moderno de bateria. Poderia muito bem ser algo eletrônico vindo do Japão.

Era em um tom profundo de azul, sua cabeça era grande com um pequeno círculo vermelho alaranjado no centro. Tinha uma espécie de cauda com cinco longas penas, parecendo um pavão, com desenhos de olhos laranjas e pretos. Três antenas azuis saíam do topo de sua cabeça redonda, e sua boca era fina e larga. Mas então a pequena criatura se mexeu sozinha.

— AHHHHHH!!!- a primeira reação da garota foi gritar, se jogando para trás. Encostou o corpo na parede de cerâmica reluzente.

— Não, não se assuste. Calma! Victorie, eu sou seu amigo!

A voz era aguda e quase que irritante, mas o mais assustador era que soava muito real.

— Você.. Você fala. Como sabe meu nome? E o que é você?- deu alguns passos para a frente, tomando coragem de se aproximar da criatura.

— Eu sou um Kwami. E agora você me encontrou! Meu nome é Flayy, prazer em conhece-la.- o projeto de mini pavão voou na direção da morena, que arregalou os olhos, quase que se paralisando. Tomou fôlego.

— Kwami? O que é isso?- suas mãos se fecharam, cada palavra saia arranhando sua garganta.

— Vou explicar tudo para você…- a pequena criatura, Kwami como se apresentará, continuava pairando no ar. Um tipo de brilho prateado o rodeava, quase que hipnotizando a morena.- A muito tempo existia um grupo de heróis. Porém coisas ruins aconteceram com eles. Mas agora precisamos de novos heróis. E você foi escolhida para isso, Victorie!

Jogou as informações quase como se vomitasse as mesmas, parecendo uma criança pedindo algo para os pais. Victorie não conseguia processar tudo que ouvira. Suas pernas começaram a tremer, e então se sentou no chão gelado, as pernas expostas se arrepiando, mas de certa forma aquilo era mais confortável do que continuar em pé.

— Tudo que você precisa dizer é “Me transforme”. E eu te dou poderes. Seu poder é de encantar. Seu objetivo é vencer os vilões, destruindo o objeto onde o monstro está escondido. Eles são chamados de “Akumas” e você tem que ajudar os outros heróis a capturá-lo.- o Kwami voou mais baixo, na direção da garota para que pudesse a olhar nos olhos.

— Outros heróis? Quem são?- Victorie começava a ouvir com mais atenção, logo percebendo que aquilo de fato não era um sonho muito menos uma alucinação.

— Logo você irá descobrir. O hypnotiser é o seu poder secreto. Com ele você pode hipnotizar as pessoas, mas só por pouco tempo.

O pavãozinho continuava a falar ao ver que a morena ouvia, mesmo que não respondesse nada. Estava acostumado com esse tipo de reação, deixando as pessoas atônitas. Algumas pessoas conseguiam ser muito escandalosas, berrando e desmaiando, enquanto outras lidavam com animação e curiosidade. Victorie Hope se mantinha em um meio termo, passando dos gritos para um tipo de animação revigorante, que dava à Flayy ainda mais vontade de falar.

— Eu sei que isso pode parecer um pouco estranho para você, mas… o mundo precisa de você, Victorie.

— Eu… não entendo. Ainda não entendi nada.- a morena se ergueu, andando em passos fortes até a pia, e encarando a cara no espelho. Seu rosto, mesmo que maquiado, estava muito pálido e assustado. Respirou lentamente, vendo o vidro à sua frente embaçar.

— Confie em mim, estou aqui para te ajudar.

Flayy pousou sobre a torneira, sua longas penas se abriram como uma cauda de um pavão real, balançando como um pequeno leque. Apoiou as pequenas mãozinhas na estrutura de metal, assistindo enquanto Victorie molhava algumas folhas de papel na água gelada e as levava até à testa.

— Então vamos se eu entendi… Você, criaturinha voadora, é um kwami. Se chama Flayy. Parece um pavão versão Littlest Pet Shop. Você pode me transformar em uma, hã, super-heroína. Que hipnotiza as pessoas?- falava tudo com confiança, vacilando apenas na última frase. Flayy concordava com tudo de forma feliz, satisfeita pela morena ter entendido e não tentado bater nela com um mata-moscas, como já tinha acontecido.

— Você nunca deve dizer ao seus pais que eu existo, nem para ninguém. Entendeu?

— Eles não acreditariam mesmo.- Victorie endireitou as costas, erguendo o olhar. Se fitou, depois encarou o, ou a, ainda não sabia o gênero, kwami e tomou toda a coragem que tinha em seu corpo. Andou até a porta e trancou a mesma, torcendo para que ninguém tivesse um piriri naquele momento.

— Então vamos ver como isso funciona... Flayy, me transforme.- tentou manter a voz firme, mas mesmo assim tremia um pouco.

Outro choque passou por seu corpo, parecendo vir do acessório em seu cabelo e descendo até as pontas dos pés. Um flash de luz tomou conta do banheiro e com um grito animado o pequeno corpo de Flayy foi puxando em uma faixa azulada até o pente, parecendo entrar no mesmo que então adquiriu um brilho mais reluzente.

Sentiu algo grudento em seu rosto, vindo da lateral de seus olhos até o centro do rosto, cobrindo grande parte de seu nariz. A mesma sensação de pegajosidade grudou em seu pescoço, descendo por todos o corpo até os dedos das mãos e dos pés. Aquilo era gelado e úmido, mas ao mesmo tempo abafado. Sua cabeça estava à mil, fazendo todo o seu corpo tremer. Parecia não sentir o chão sob os pés, na verdade não sentia nada além daquela sensação de formigamento frio.

Quando acabou, a luz se dissipando, se apoiou na pia para não cair de joelhos. Nunca iria se acostumar com aquilo. Virou na direção de uma das largas paredes, onde havia um espelho oval tão grande que conseguia se ver de corpo inteiro.

— Uau. Isso é… Muito estranho. Então sou um tipo de pavão?

A surpresa ao se ver não podia ser maior. Toda a roupa meiga que usava antes, a saia e o suéter macio, deram lugar a um macacão extremamente justo de forma que parecia ter sido pintado em seu corpo. Era azul escuro na região do pescoço e descia tomando um tom mais esverdeado, acabando em um par de botas verde claras de salto baixo e grosso. O material parecia látex, como ela imaginava que as roupas de super-herói deveriam ser, com uma textura elástica. Em seu rosto estava uma máscara cuja possuía três tiras longas e delicadas, tais quais fitas. Trios de penas estavam presas em quatro pequenos broches em forma de olho, típico das penas de pavões, localizados em seus ombros e quadril. Da parte de trás de sua roupa saia um tipo de cauda tão longa que batia nas costas de seus joelhos, e quando Victorie as tocou notou que eram na verdade dois leques de penas gigantes e duras. Aquilo ficava cada vez mais estranho.

— E como eu iria tirar essa roupa? Não tem zíper!- tateou o próprio corpo em busca de algum fecho, e o desespero começou a lhe consumir ao não encontrar nenhum. — Flayy? Você consegue me ouvir?- não ouviu nada em resposta, agora tendo certeza de que a criaturinha tinha sido mesmo puxada para dentro do acessório.- Ótimo, e como eu tiro isso? Hum, des transformar?

A luz voltou, mas dessa vez tudo foi mais rápido. O material começou a descolar de sua pele e sumir no ar, assim como os flashes e todos os efeitos especiais, dando lugar para a figurinha sorridente de Flayy.

— Ah, bem na hora. Eu tenho… tenho que voltar. O almoço! Isso! Estou no meio de um almoço!- tocou o rosto, desesperada, querendo ter certeza de que a máscara tinha sumido com o resto.

— Mas ainda tenho muito para te dizer…- Flayy voou em sua direção, querendo chamar a atenção da morena.

— Agora não tenho tempo. Preciso resolver outra coisa agora. Entre aqui Flayy, e fique quietinho! Ou quietinha. Ah, discutimos isso depois.- abriu a bolsinha e agitou a mesma no ar com nervosismo até que o kwami entrasse.

Saiu do banheiro às pressas, correndo pelo chão liso quase que caindo. Olhou em volta ao chegar na mesa, reparando que as coisas estavam na mesma. Gabriel e um casal conversavam perto da porta, parecendo discutir sobre a nova coleção do Agreste. Sentados em um sofá largo, Cassidy e uma mulher de aparência sueca apontavam coisas em catálogos, momento ou outro se entre-olhando e trocando poucas palavras, e não muito longe delas Adrien e Nathalie tentavam organizar a agenda do garoto.

Victorie estava atônita, as mãos tremiam e uma parte de si queria abrir a bolsa ali mesmo e ver se tudo não tinha mesmo sido um sonho, afinal a probabilidade de ter caído no banheiro e batido a cabeça não era tão impossível. Enrolou alguns fios do cabelo no dedo indicador, e puxou os mesmos com força suficiente apenas para se certificar de que não era um sonho. Ou um pesadelo.

Se sentou na frente de um prato já servido com algumas fatias de carne, um punhado de legumes na manteiga e um linha de molho cítrico por cima de toda a comida. Olhou o próprio rosto nos talheres, vendo a face de ponta cabeça com as bochechas esticadas e a testa longa distorcida.

Não demorou muito para que os outros convidados se juntassem à ela, todos de aparência refinada e um tanto quanto esnobe, de forma que os assuntos só eram de tecidos até revistas de moda. Adrien sentou ao seu lado, logo devorando um grande pedaço de carne. A morena sorriu, sabia que o garoto deixava para agir desse jeito quando haviam convidados de forma que o pai não iria brigar com ele no momento. Deu uma garfada em seu brócolis macio, levando o mesmo aos lábios. Era engraçado como antes estava com tanta fome, mas depois de tudo que acontecera naquele banheiro sentia que não aguentava nem um grão de arroz. A bolsinha se moveu em seu colo e seu sangue gelou, engolindo a comida de forma seca, a mesma parecendo rasgar sua garganta.

Notou o olhar de Gabriel em si, mais precisamente em seu cabelo onde o pente ainda estava preso. Se perguntou se ele sabia os segredos, as bizarrices, que aquela pequena peça escondia, e se deveria ir conversar sobre isso. Lembrou da voz aguda de Flayy lhe dizendo para não contar para ninguém.

— Ei, tá tudo bem?- Adrien segurou em seu braço, a trazendo de volta para a realidade.- Você tá meio pálida. Aconteceu alguma coisa?

— Não, eu… eu estou bem. Só estou um pouco cansada. Acho que ainda é por causa da viagem. Quando chegar em casa acho que vou dormir um pouco.- deu outra mordida na carne, mas sem saborear. As coisas ao seu redor começaram a embaçar.

— Bom, como quiser. Mas lembra que vamos sair hoje à tarde, consegui arranjar um horário com Nathalie, e ela já falou com meu pai.- Adrien estava feliz demais, e Victorie não queria estragar isso.

— Com certeza! Mas acho que estou um pouco…- uma dor mais forte atingiu sua cabeça, fazendo com que fechasse os olhos por longos segundos.- eu estou meio tonta.

Apoiou as mãos na mesa. As pernas tremiam. Respirou fundo. Viu Adrien se levantar, a segurando pelos cotovelos, e deixou que seu peso caísse sobre o do garoto. A boca dele se mexia, mas Victorie não ouvia nada, apenas algumas palavras vagas. O loiro a guiou para fora da sala e antes que conseguisse chegar ao lado de fora, seus olhos se fecharam, e tudo ficou escuro.

***

Abriu os olhos.

Encarou o teto branco por um minuto ou dois, tentando se lembrar da onde estava. Sentia que a última semana tinha sido apenas sua imaginação quando as lembranças começaram a chegar de uma só vez. Estava em seu quarto novo. Em Paris. Ergueu o corpo, se sentando na cama macia. Olhou em volta, caixas ainda espalhadas porém agora estavam empilhadas e organizadas, prova de que sua mãe provavelmente tinha passado lá.

Afundou o rosto nas mãos, mas sua cabeça ainda doía.

— Ah, Victorie! Finalmente acordou!

Por um momento pensou que poderia ser Cassidy, ou até mesmo Adrien, e se surpreendeu ao ver Flayy sentada sob a cabeceira de sua cama. Então aquilo também era real. Real até demais.

— Fiquei muito preocupado! Está certo que é até comum ocorrerem desmaios, mas no começo você estava indo tão bem! E ah, foi terrível ficar naquela bolsinha sem saber o que acontecia!- o kwami voou até Victorie, pousando em seu joelhos flexionados sob as cobertas.

— Se você não sabe o que aconteceu, imagine eu.- a morena jogou os cabelos para trás, tirando os mesmo da frente de seus olhos.- A última coisa que me lembro foi de estar almoçando, e então tudo ficou confuso…

— Um garoto muito bonito tirou você de lá, e a trouxe de carro até aqui.- Flayy jogou as três antenas para trás, imitando o movimento da garota.

— Adrien. Ah, só espero não ter estragado o almoço do senhor Agreste.- bufou, se deitando mais uma vez.

— Acredito que não. Vocês saíram muito discretos, acham que muitos pensaram que foram dar uma volta, afinal, eram as únicas crianças lá.

— Tem razão Flayy, acho que estou me preocupando demais. Só espero não ter dormido muito.- buscou pelo celular ainda dentro da bolsa, que por sua vez estava pendurada na maçaneta da porta.

— Eu pego, pode deixar!- Flayy saiu voando da cama e entrou mais uma vez na bolsa, mas dessa vez de boa vontade.

Quando viu a pequena criatura voando baixo com o celular que era quase de seu tamanho percebeu que o kwami estava fazendo isso apenas para agradá-la e tentar conseguir sua confiança. Claro que confiar em uma criatura mágica que surgira do nada era difícil, mas algo em Victorie a dizia para acreditar. Tinha algo de certo naquela história, algo que a garota ainda não conseguia entender.

Pegou o aparelho das patinhas de Flayy, que sentiu um grande alívio logo se jogando na cama ao lado de Victorie, e abriu as conversas. Haviam duas mensagens de Adrien, a perguntando se estava se sentindo melhor e se toparia sair mesmo assim. Respondeu que estava melhor, mas que precisava de um tempo para si. E isso não era mentira, a cabeça ainda doía muito, mas pelo menos as coisas não estavam mais girando.

— Quer ter aquela conversa agora?- Flayy tornou a senta nos joelhos da garota, passeando suas patinhas no local tentando reconforta-la.

— Acho que pode ser. Tenho muitas perguntas... — tombou a cabeça no travesseiro, se ajeitando ainda mais na cama.- Vamos começar pelos kwamis. Quantos de vocês existem? Ah, e quem são aqueles outros heróis que vocês disse?

O kwami riu baixo, se erguendo no ar mais uma vez. Sua cauda balançava com suavidade, fazendo um pouco de vento ir na direção de Victorie. Ele pareceu tomar fôlego antes de começar a falar, a voz não soando tão aguda quanto antes.

— Tudo começou muito, mas muito, tempo atrás…

***

Apoiou o rosto nas mãos doloridas, encarando um caderno com capa de unicórnio sorridente, e fechou os olhos por alguns segundos. Todo aquele silêncio só lhe dava mais sono.

— E então, alguma ideia?

Nino rabiscava coisas sem sentido em seu caderno enquanto encarava os amigos à sua frente. A cada meio minuto olhava para o celular ao seu lado, seu rosto se distorcia com um tipo de raiva e tristeza, fazendo Victorie querer saber com quem ele conversava. Uma pilha de livros foi depositada sobre a mesa de madeira larga revelando uma sorridente Marinette, que parecia animada demais em ter que fazer um trabalho escolar. Todo o grupo já estava na biblioteca, tentando ter alguma ideia para o trabalho de literatura que a senhorita Bustier tinha passado naquela manhã, com o intuito de que isso atraísse mais os alunos para o lado das artes.

Victorie afundou o rosto no livro sobre modernismo, seu cabelo se espalhando sobre a mesa. Ainda estava muito cansada do dia anterior, e muito confusa. Todo aquele papo sobre os heróis e kwamis tinha deixado ela de alguma forma com ainda mais dúvidas. Imagens vagas de Flayy passavam por sua mente, juntamente com sua bizarra transformação e os leques estranhos. Riu baixo lembrando de que quase quebrara o abajur da sala enquanto tentava fazer pose com aquelas estranhas armas. Tinha provado o uniforme pelo menos umas três vezes, tentando descobrir cada detalhe daquela roupa estranha.

— Acho que poderíamos fazer um tipo de exposição de arte, o que acham?- Adrien foi o primeiro a se pronunciar, batendo com a caneta na mesa.- Quero dizer, Marinette desenha muito bem! E poderíamos colocar algumas fotos também, sei que Nino adora usar uma câmera.

— Ótima ideia. Podemos nos reunir na quinta, lá em casa. — todos se levantaram, cada um guardando seu material e se preparando para ir para casa.

— Aí sim! Na cada da Mari o lanche é sempre garantido!- Adrien bateu palmas animada, fazendo o resto rir, menos Nino. O garoto já marchava irritado, para fora da biblioteca sem dizer uma palavra aos amigos. Victorie quis segui-lo, mas o loiro segurou em seu braço, chamando sua atenção.- Quer uma carona? Acho que sua mãe está lá em casa mesmo. Ou podemos ir andando, sei que você gosta da arquitetura da cidade.

— Pode ser, é, parece uma boa ideia.- a morena concordou com a cabeça, pendurando a bolsa nos ombros. Os três saíram pelas escadas, passos levemente apressados para saírem logo da área escolar. Marinette se despediu, meio cabisbaixa mas sorria para que ninguém percebesse isso, e foi em direção à própria casa, que não ficava muito longe. Adrien e Victorie tomaram a direção contrária, os passos calmos para que conseguissem prestar a atenção em casa um dos detalhes da cidade.

Pararam em uma esquina um tanto quando cheia, onde havia uma pequena sorveteria de aparência simples. Suas paredes eram de um rosa vivo e convidativo, as portas verdes claras tinham desenhos de doces mas de uma forma um tanto quanto sofisticada, e nada brega. Entraram no estabelecimento, que estava cheio de crianças com seus pais, de forma que Victorie e Adrien pareciam ser os únicos adolescentes. Isso fez a garota se sentir alta, coisa que não vivenciava com frequência.

Foram até o balcão, de metal tão bem limpo que a morena conseguia ver seu reflexo perfeito, e o garoto pediu dois milk-shakes, ambos de chocolate. Ao retirarem o pedido se sentaram em uma das mesas mais afastadas, ao lado de uma grande janela que dava para a movimentada rua do centro comercial.

— E então, está gostando da França?- Adrien sorriu, aquele mesmo sorriso perfeitamente branco de modelo que fazia quase todas as garotas se apaixonarem, e focou o olhar para na morena de forma tão fixa que ela sentiu que precisava desviar.

Victorie tomou um longo gole da bebida gelada, não sabendo como deveria responder à pergunta. Lógico que estava gostando da França, do país em si, mas desde que chegou as coisas ficaram bem confusas. Voltou a pensar em Flayy, não tinha pensado no mesmo por incríveis longas horas, e se perguntou se o mesmo estava bem em casa. Tinha deixado a pequena criaturinha descansando em seu quarto, entre uma pilha de casacos de lã, e ficou feliz por sua mãe não estar em casa, afinal Cassidy costumava ser bem invasiva.

— Sim, estou gostando bastante. É um tanto quanto diferente do Canadá, mas é bom. Pelo menos meu francês não é tão ruim.- a morena sorriu, tentando mais uma vez sustentar o olhar profundo de Adrien.

— Isso é bom, aqui é bem-

Gritos altos fizeram os dois pararem e se virarem na direção da rua, onde pessoas corriam desesperadas, gritando por ajuda, enquanto um tipo de raio laser vermelho vivo destruía coisas à sua volta. Victorie engoliu em seco. Aquilo era novidade.

— Eu, hum, precisamos ir. Vá para casa. E fique lá!- o loiro se ergueu em um salto, assustando a garota com seu jeito confiante diante da situação estranha, e a segurou pelos ombros, a empurrando na direção da porta. Victorie quis dizer algo, mas antes de poder fazer qualquer coisa viu Adrien correr por entre a multidão, as mãos em punho.

Começou a correr até a própria casa, os passos desesperados vacilavam um pouco. Via coisas voarem ao seu redor, e estava quase sendo atropelada pelas pessoas apressadas indo em sua direção contrária. Tinha que chegar em casa logo, tinha que ligar para a mãe e ver se a mesma estava bem.

Olhou para cima, sem parar de andar, e viu mais um dos raios, destruindo o carro ao seu lado. Tentou ser ainda mais rápida, chegando na porta de seu prédio em poucos minutos. Optou pelas escadas, e pulava de degrau em degrau com uma velocidade supreendente. Ao entrar no quarto, jogou a mochila no chão e voou até a pilha de roupas macias que tinham ficado em sua cama.

— O que está acontecendo lá fora?- gritou, apontando desesperada para a janela.

Flayy se ergueu no ar com calma, deixando a morena ainda mais nervosa, e voou até pousar na cabeceira grossa. Passou as patinhas no rosto e bocejou, antes de começar a falar.

— Lembra aquelas histórias sobre heróis e vilões? E as akumas…- Flayy apontou com a cabeça para a janela, de onde era possível ver uma fumaça rosada saindo do centro de Paris.- Esse é o vilão que você vai precisar derrotar.

— Que eu o que?- a morena se virou lentamente, o coração quase saindo pela boca enquanto fitava o kwami em desespero.

— Vamos lá Victorie, a Ladybug e o Chat Noir não vão conseguir sozinhos!- outro estouro foi ouvido, deixando a garota ainda mais nervosa. Flayy pairou sobre seu cabelo castanho, apontando para o objeto que ainda estava preso segurando um coque pequeno.

— Tudo bem, acho que podemos lidar com isso.- levou os dedos trêmulos até o enfeite, sentindo quase como se o mesmo pulsasse. — Flayy, me transforme!

Como da primeira vez, e de todas as outras que a seguiram, uma luz forte puxou o kwami, que parecia se divertir muito com isso, e no momento seguinte Victorie se viu em uma roupa justa e estranhamente desconfortável. É, aquilo estava realmente acontecendo.

Abriu a janela, subindo até o parapeito e ficando em pé no mesmo. Sentia o vento bater em seu rosto, expulsando alguns dos fios que tampavam sua visão. Estava mesmo fazendo aquilo, e por algum motivo não sentia medo. Abriu os lequês e se jogou do prédio, usando os mesmos para descer suavemente até chegar no centro da cidade, onde via várias pessoas correndo. Parou alguns metros antes do tumulto, caindo no chão de joelhos. Aquilo iria dar trabalho

Não muito longe, parados sob um toldo queimado, Ladybug e Chat Noir tentavam recuperar o fôlego e criar um plano, o desespero tomando conta de ambos.

— Não acredito que meu lucky charm não funcionou.- Ladybug apoiou as mãos nos joelhos, respirando com dificuldade.

— Até eu já usei o meu cataclysm, mas não foi útil! E logo iremos des transformar.- Chat fitou o anel sobre suas luvas grossas, desespero tomando conta de sua face.- Acho que agora precisamos de um milagre.

O som de uma explosão ecoou pela rua semi fazia, e viram um corpo ser jogado no chão com força, sendo empurrado durante metros no cimento úmido até bater com a cabeça em um pneu largado.

— Hum, oi!- a voz da morena saiu fraca, demonstrando o seu cansaço. Ela se ergueu em um pulo, cruzando os braços sobre o peito. — Ótimo, ainda bem que estão aqui! Preciso de ajuda.

O loiro encarou a companheira, que também fitava a nova garota com surpresa. Era uma morena baixa, de cabelos metade presos em um coque e metade soltos em cachos descendo pelos ombros. Tinha um olhar profundo em um tom que vagava do marrom até o verde, quase que hipnotizante.

— Beleza então, vamos lá!- Chat sorriu, preparando o bastão em uma pose de ataque.Não estavam com tempo para questionamentos. — Qual é o plano?

— Eu chamo a atenção dele, e quando estiver hipnotizado você pegam a akuma!- a garota estava muito animada, coisa que deixou Ladybug feliz. Não parecia ser como Lila, capaz de trazer problemas para a dupla.

— Pode deixar com a gente.- Ladybug rodopiou o iô-iô, pronta para a ação.- Chat, vai pela esquerda e eu pela direita.

A dupla se separou, cada um pulando para um lado e subindo por entre os prédios na direção do vilão, que não passava de um garoto magro em uma roupa vermelha escura, seu olhar de puro ódio fitando os heróis enquanto jogava raios quentes nos mesmos.

Chat deu uma pirueta alta, batendo com o bastão em um dos telhados de forma que o vilão virasse em sua direção. De forma estratégica, Victorie se lançou ao lado do gato, as mãos na cintura em uma pose confiante.

— Chat, sugiro que feche os olhos.- o loiro não questionou, colocando as mãos na frente do rosto.- Hypnotiser...

Era a primeira vez que fazia aquilo, mas tentou parecer o mais natural possível. Sentiu uma dormência em toda a face, principalmente nos olhos, que começaram a arder. Queria poder ver o que acontecia, mas tudo que enxergava era um borrão arco-íris. E então o vilão parou no exato lugar em que estava, se pendurando em um dos prédios, como uma estátua.

Em uma velocidade surpreendente, Ladybug apareceu por trás e arrancou um tipo de celular negro que estava nas mãos do vilão, jogando o mesmo no chão. A cabeça de Victorie parou de doer, a fazendo cair de joelhos no telhado frio. Chat a segurou pelos ombros, tentando fazer com que ela se mante-se firme.

— Tchau tchau borboletinha…- Ladybug abriu o pequeno iô-iô, libertando uma borboleta branca.- Uau, isso finalmente acabou.

— E bem na hora!- Chat encarou o anel, que piscava de forma aguda. Viu Ladybug tocar os brincos com delicadeza e preocupação. A única sem preocupações era a morena vestida de azul, que apenas recuperava a força.

A garota se despediu, enquanto a dupla se encarava, fazendo um tipo de reverência chique. Estava pronta para ir embora, quando sentiu um toque firme.

— E quem é você?- em um ato rápido, Chat Noir segurou em seu braço. A morena respirou fundo, lembrando de tudo que Flayy lhe dizia.

— Paon… Paon Fille.- a garota sorriu, se afastando.- É, Paon Fille.- tentou ao máximo esconder o sotaque, e sorriu.- Vejo vocês em breve, queridinhos.

Correu o mais rápido que conseguiu, pegando impulso e se jogando para cima, sentindo o corpo ser puxado para cima com leveza. Olhou para trás, onde as figuras de Chat Noir e Ladybug ainda lhe encaravam, e deixou um sorriso verdadeiro tomar conta de sua face. Podia muito bem se acostumar com aquela vida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.