Adultério
8 Epílogo
Notas iniciais
Seis anos... longos e maravilhosos seis anos...
—O estudo de viabilidade da abertura da nova loja em Okinawa teve resultado positivo e lucratividade próxima a 68% nos seis primeiros meses de simulação de cenário – Akira relatou firmemente enquanto mostrava os gráficos na tela atrás de si — ... com a aprovação de todos começaremos a construção no mês que vem.
Aquele momento prático onde todos nós nos entreolhamos e eu sabia pelo assentir de Kouyou que eu teria que ser o porta-voz.
—Pois que comecemos a nova loja no mês que vem, vou deixar você e Takanori a cargo disso, alguma objeção? – questionei vendo Akira abrir um sorriso amplo enquanto os demais gerentes assentiam em aprovação.
—É claro – O Suzuki confirmou, não escondendo nem um pouco seu olhar em direção ao baixinho à minha esquerda.... como se eu não soubesse que ele estava praticamente implorando para cuidar da nova loja de Okinawa e ter uma “segunda lua-de-mel” com o Matsumoto.
—A pauta seguinte é em relação à distribuição de franquias... – o gerente financeiro levantou para dar continuidade à reunião e desta vez Kouyou foi aquele a se posicionar.
Devo confessar que a imponência que aquele belo homem em um terno escuro e estiloso com cabelos mais curtos, porém bem arrumados transmitia era totalmente natural e elegante... como ele sempre foi.
—Permitimos esse assunto na pauta de discussão por consideração, mas tanto eu quanto Shiroyama-san já descartamos tal possibilidade, não é interessante para a rede Wakaremichi* entrar nesse tipo de mercado por agora, o controle e monitoria seria trabalhoso e de alto custo, não podemos arriscar vender franquias que não consigam se adequar ao nosso padrão de qualidade original e manche o nome da rede – ditou de modo firme e ainda assim com a educação de sempre... devo admitir que ainda hoje fico bobamente orgulhoso e encantado quando o vejo nessa postura tão sua – com certeza será algo para um futuro breve, mas não agora, espero que possam entender.
—É claro Takashima-san – o gerente financeiro assentiu – apenas me pareceu haver indicadores suficientes para viabilizar o negócio, mas se a decisão da diretoria é aguardar...
—Por enquanto, é melhor ter cautela, Wakaremichi é diferenciado especialmente pelo nome, fama e imagem quase impecáveis, no mundo informatizado e conectado que vivemos, onde uma simples insatisfação pode tomar proporções globais em redes sociais, não concorda que cada passo de ampliação deve ser minunciosamente analisado? Do que adiantaria aumentar nossa receita e nos expandir se isso custasse nossa imagem?
—Tem razão Takashima-san, peço desculpa pela insistência – nosso gerente financeiro assentiu, mas eu identifiquei algo de insatisfação nele... tínhamos a política de repartição dos lucros entre todos os colaboradores, e irremediavelmente os de cargos mais altos recebiam parcela maior, por isso aumentar a lucratividade seria igual aumentar suas remuneração... incentivava e engajava a maioria, mas por vezes focar tanto o lucro poderia ser arriscado demais... talvez fosse melhor eu conversar com ele mais tarde e explicar melhor a situação.
—Nosso gerente financeiro não está contente, talvez seja melhor eu explicar melhor a ele seu ponto de vista – comentei para Kouyou uma vez que ele já se encontrava em sua sala e eu naturalmente o segui até ali. Normalmente passava mais tempo na sala dele do que na minha, já me perguntei seriamente o porquê de ter escritórios separados no prédio sede de nossa rede de restaurantes, mas de acordo com Kouyou se passássemos tanto tempo no mesmo cômodo em nossas vidas profissionais e pessoais acabaríamos brigando excessivamente. Eu discordei, aleguei que o risco era acabarmos nos agarrando demais e dar um mal exemplo para os funcionários, entretanto meu querido e adorado Takashima tinha se tornado perigosamente talentoso em me vencer em argumentos... e sinceramente... ao menos nesse quesito eu agora acredito que ele tenha razão. Pois, só eu sei bem, que por mais que eu o ame... às vezes agradeço o tempo que tenho para mim.
—Eu entendo que homens voltados para os números queiram sempre focar a quantidade e os saldos como indicadores absolutos, mas nossa gerente de Marketing e Imagem deixou bem claro o valor do nome Wakaremichi no mercado, eu concordo com a opinião dela em completa sintonia, por isso defendo essa posição ao menos até termos condições de diminuirmos os riscos que isso poderia trazer – argumentou ao se encostar contra o tampo de sua mesa mogno de escritório, respirando fundo ao olhar o relógio – Mika-chan ainda não chegou?
Passei meu olhar rapidamente pelos números digitais do objeto felpudo e colorido que discordava completamente com a elegância da decoração com um sorriso no rosto. Como empresários e até mesmo como companheiros eu e Kouyou poderíamos argumentar seriamente um contra o outro às vezes, mas quando se tratava dessa linda e encantadora garotinha... nenhuma palavra era necessária e ela já tinha o que queria, como esse relógio esquisito e colorido na mesa tão bem planejada dele, ou o coelho rosa gigante que ela insistiu em colocar sentado na poltrona da minha sala.
“Ai de mim se tirar Boto-chan de lá”
O engraçado é ver a expressão de todo fornecedor, gerente, cliente ou afins que entram lá assim que avistam a coisa rosamente gay sentada.
Sorri.
Provavelmente estivéssemos mimando-a demais? Talvez.
Não que eu e Kouyou escondêssemos o que tínhamos, pelo contrário, de inicio isso nos serviu até mesmo como Marketing, mas sabíamos respeitar o ambiente de trabalho e éramos considerados discretos, para simplesmente ter um coelho pink ostentando minha homossexualidade em meu escritório.
—Você simpatiza tanto com nossas gerentes mulheres que se não te conhecesse e não fosse seu marido ficaria com ciúmes – sorri de lado ao me aproximar e me encaixar singelamente entre suas pernas, afastando-as um pouco — ... provavelmente alguns estejam insatisfeitos com o seu favoritismo feminino também.
Kouyou sorriu em humor, exagerando na gargalhada ao inclinar a cabeça para trás, movimento que aproveitei rapidamente para lhe morder de modo fraco o pescoço, causando um gemido leve em sua garganta.
—Yuu... estamos no trabalho – ele reclamou manhoso ao sentir meus dentes descendo mais para o lado de sua pele, ainda que a inclinação de seu rosto para o outro lado me dissesse algo completamente ao contrário.
—Está no final do dia, não temos mais agenda para hoje, somos os donos disso aqui e não é como se não tivéssemos feito isso antes... – argumentei, uma vez ou outra eu ainda vencia ali.
—Mika já deve estar chegando... – tentou novamente mesmo que seus dedos já se embrenhassem em meu cabelo médio e organizadamente desgrenhado num pedido de aprofundamento das caricias em sua pele.
—Ainda vai demorar uns minutinhos... – finalizei ao abrir o primeiro botão da camisa social com uma mão e o ferrolho do cinto com a outra.
Esbarrei meu caminho pelos botões do peito ao alcançar o tecido do colete decorativo, resmunguei num murmuro e ele sorriu, me ajudando a abrir a peça superior.
—Quanto fogo para um senhor que irá fazer quarenta anos mês que vem... – ele brincou eroticamente com o meu complexo de velhice e eu sorri.
—Aproveite enquanto eu ainda dou conta Takashima, aproveite – joguei de volta, apertando o membro semi desperto por cima do tecido fino da calça.
—Humm... – ele gemeu contido por entre os lábios, levando sua mão à minha no meio de suas pernas, apertando-as juntas contra si — ... vamos pro meu closet de arquivo... rápido...
Sorri vitorioso e o puxei de cima da mesa em direção a porta singela no canto lateral de sua sala quando a batida a forma brusca com a qual a porta da sala foi aberta no fez impulsivamente nos afastar e ajeitar nossas roupas. Kouyou indo para detrás da mesa, subindo o zíper, abotoando a calça e a camisa enquanto se sentava em sua confortável poltrona para esconder a ereção e abria o sorriso de sempre para a única pessoa que adentrava nossas salas sem ser anunciada.
— Yuu To-chan, Kou To-chan... – a pequenina garota de cabelinhos pretos cortados curtos com uma perfeita franja e em um uniforme fofo de alguma escola gritou animada ao correr até o “to-chan” mais próximo e se jogar nos braços do moreno que a pegou animado, girando a pequena antes de abraçá-la apertado e salpicar beijos pelas bochechas macias e rosadas da menor.
—Saiu mais cedo do colégio minha princesa? – Yuu perguntou ao mirar o motorista que sempre buscava a pequena na escola antes de levá-la até a empresa em interrogação.
— Preparativos para o festival da semana que vem – o motorista respondeu a pergunta do Shiroyama, e este sorriu em compreensão.
—E a nossa princesinha não ficou para ajudar os amiguinhos e as professoras a preparar? – Kouyou indagou humorado ao se levantar e vir pegá-la dos meus braços, enlaçando suas perninhas em sua cintura e também salpicando as bochechas fofas de nossa Mika com beijos.
—Mika-chan não vai participar, então as tias deixaram Mika-chan livre – a nossa pequenina respondeu em sua voz melodiosamente fina e num sorriso meigo e doce.
Kouyou olhou o motorista que adentrava a sala respeitosamente em explicação e este reverenciou rapidamente antes de responder.
—Aparentemente a data do festival coincide com o dia que Mika-san sempre falta à escola esse ano.
Meu sorriso morreu um pouco e eu sabia que algo semelhante teria acontecido com o do meu amado Takashima. O dia em que Mika sempre faltava a escola... o dia em que íamos ao túmulo de Mayumi-san ritualmente visitá-la há cinco anos.
—Ah... que pena neh meu amor! – Kouyou sorriu amarelo para a nossa pequena e ela parecia tão madura para uma criança ao assentir num sorriso confortante e acariciar as madeixas curtas dele daquele jeito.
—Mamãe Mayu ficaria triste se não fossemos visitar ela no cemitério Kou To-chan, festivais tem todos os anos – Mika respondeu tão lindamente que foi impossível permanecer algum clima pesado dentro daquela sala. Como a pequena mulher que conhecia anos atrás no apartamento de Uruha, nossa pequena tinha puxado a maturidade, vivacidade e positividade da mãe.
“Mayumi-san teria orgulho... Mika!”.
—Cadê tio Akira e tio Taka? Eles prometeram chocolate para Mika-chan hoje – a pequenina protestou ao se movimentar para ser posta no chão, e assim que Kouyou o fez, saiu apressada em direção à porta – Tio Aki.... – o grito fino se distanciando foi ouvido com humor por mim e por Kouyou. Ele trocou um olhar totalmente legível comigo e nós nos aproximamos para um beijo leve enquanto Yune saia da sala com uma reverência rápida.
—Aparentemente Mika herdou a luz da mãe, e a capacidade de superar dificuldades também – sorri ao abraçar a cintura magra contra mim confortavelmente.
—Aparentemente ela é melhor nisso do que eu... as vezes sinto tanta falta dela Yuu... – suspirou e eu o apertei mais, sabia o quão importante Mayumi era na vida dele... se eu sentia saudades, imagine ele que a tinha como uma irmã... como alguém que esteve consigo nos piores e melhores momentos de sua vida — ... foi tudo tão de repente. Estávamos tão felizes, eu, você, ela e nossa Mika e...
—Ninguém sabe o que pode acontecer no dia de amanhã Kou... aquele terremoto não foi culpa sua, o fato de ela estar no trabalho e não ter tido tempo de se esconder também não foi culpa sua, amor... – tentei consolá-lo – pense apenas que ela era feliz... que ela era muito feliz...
—Ela mereceu cada segundo de felicidade que teve, ela merecia mais... – um soluço baixo e eu afaguei meus dedos em seus cabelos.
—Shiu, shiu.. amor, você não pode ficar assim, o que Mayumi-san diria se te visse chorando? Com certeza me bateria, falando que eu não deveria estar deixando você chorar e que deveria te fazer sorrir.
Uma risada baixa e rápida. Kouyou ergueu o tronco e limpou os requícios de lágrimas dos olhos, abrindo sue sorriso lindo para mim.
—Tem certeza, não quero que ela brigue com você quando nos encontrarmos no mundo dos mortos – sorriu – ouviu Mayumi, não precisa brigar com ele, esse bobo só têm me dado motivos para sorrir desde que entrou na minha vida – afirmou ao olhar para cima e eu acompanhei seu humor, beijando seus lábios macios mais uma vez.
—Você que me trouxe a felicidade amor, você quem me trouxe a felicidade...
—Kou To-chan, tio Aki.... – a voz alta e melodiosa de nossa pequena voltou a soar a porta da sala e nós sorrimos para a pequenina estabanada — ... ei, a hora de brincar é de noite, agora é hora de levar Mika-chan pra passear, tio AKi e tio Taka vão com a gente – censurou em um bico fofo e num cruzar de braços.
—Yuu Ta-chan não pode brincar só um pouquinho com o Kou Ta-chan? – pedi numa imitação muito ruim de uma voz infantil, mas que arrancou uma gargalhada gostosa de nossa anjinha.
—Tá, só um pouquinho, bem rapidinho – ela assentiu ao puxar a porta com brusquidão e batê-la – não, tio Aki, não pode entrar agora, To-chan estão brincando – a voz fina veio através da madeira da entrada e tanto eu quanto Kouyou sorrimos em divertimento.
—Mika-chan com certeza é a menina mais esperta do mundo – sorri.
—Sim, com certeza é... – ele assentiu.
Eu nunca soube o que era verdadeira felicidade antes deste homem entrar em minha vida, agora tenho certeza disso.
Porque a felicidade de verdade é... inexplicável... apenas... perfeita.
Agradeço o dia em que aquele “jovem” de bom coração freou seu carro antes de atropelar um bêbado suicida. Agradeço pelo dia em que entrei naquele clube e reconheci o sorriso gentil de dentes pequenos que agora tinha o prazer de ver todos os dias.
Agradeço ao mundo, a Kami, ao universo por me dar a chance de encontrar a minha felicidade, e a capacidade de fazer as pessoas que amo feliz.
Agradeço até mesmo o dia em que Akiyou decidiu que me trairia com cada pessoa com um pinto que encontrasse pela frente.
E eu posso dize, gritar e gritar para todos os que quiserem ouvir.
Eu sou a pessoa mais feliz do mundo. E ainda o serei... até os últimos momentos em que tiver essa linda família ao meu lado.
FIM
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